Foto: Suki Ozaki, 2006

Por Phelipe Reis

Lucas 10.25-37

Para testar Jesus, um líder religioso lhe perguntou: “Mestre, o que preciso fazer para ter a vida eterna?”.

Ele respondeu: “O que está escrito na Lei de Deus? Como a interpreta?”.

Ele disse: “Ame o Senhor seu Deus com toda a paixão, toda a fé, toda inteligência e todas as forças; e ame seu próximo como a você mesmo”.

“Boa resposta!”, disse Jesus. “Faça isso e viverá.”

Querendo fugir da resposta, ele perguntou: “Como saber quem é o ‘próximo’?”.

Jesus respondeu contando uma história:

Na companhia de amigos, um jovem Tukano navegava o rio Negro em direção a São Gabriel da Cachoeira. O município, que fica no noroeste do estado do Amazonas e possui um território maior que Portugal, reuniria num torneio de futebol representantes de algumas das 23 etnias indígenas que vivem na região.

Debaixo do forte Sol e o vento quente do calor amazônico, o time dos Tukanos venceu a final com uma goleada de 4 a 0 em cima dos Húpd’äh*. O jovem Tukano comemorou a vitória com os amigos bebendo um porção de caxiri. Em meio à muvuca do torneio e entre tanto indígenas, o jovem Tukano acabou se perdendo dos amigos.

No caminho de volta para embarcação, quando a luz do Sol quase já não iluminava a cidade, o jovem foi surpreendido por três assaltantes. Não bastou tomarem o pouco dinheiro que ele tinha, os assaltantes o espancaram e o feriram no rosto com uma faca. Deixaram o jovem sagrando, caído sobre uma grande pedra, que fica à beira do rio.

O sino começou a soar, anunciando o início da novena. Atrasado, o padre da paróquia caminhava em direção à igreja. Ao avistar o corpo do jovem franzino à beira do rio, o sacerdote apressou o passo para não se atrasar ainda mais para a celebração. Na volta, quem sabe, poderia dar alguma atenção. 

Com a Bíblia debaixo do braço e o violão à mão, um pastor passou pelo mesmo caminho, se dirigindo à sua congregação. Viu o rapaz caído, mas não se preocupou. “É só mais um índio bêbado”, pensou. Deu de ombros e seguiu seu caminho. 

Então vinha um indígena da etnia Húpd’äh, descendo o caminho em direção ao rio. Ao ver o rapaz, teve compaixão dele. Aproximou-se, limpou o ferimento e passou um pouco de óleo de andiroba. Depois, colocou o jovem em sua canoa, o levou para a casa e cuidou dele.

“Quem você acha que é o próximo do jovem atacado pelos ladrões?”.

“Aquele que cuidou dele. O indígena Húpd’äh”, respondeu o líder religioso.

Jesus concluiu: “Faça a mesma coisa”.

Notas:

*Os Húpd’äh são classificados na etnografia e na etnologia como sendo da família etnolinguística Maku, embora os Húpd’äh não gostem deste nome, pois significa “não-gente”, animal, sem fala, bicho do mato. Indígenas de outras etnias usam Maku quando querem menosprezar os Húpd’äh. [Fonte: Inverso, Marcelo Carvalho, 2014]
** Caxiri é um bebida fermentada feita com beiju de mandioca e manicuera fervida

• Phelipe Reis é amazonense, jornalista e missionário. Marido de Luíze e pai da Elis.

  1. Rubem Alves também já interpretou esta parábola com uma hermenêutica um pouco mais contemporânea. Diferentemente da Amazonense, ela reside no fato de que o cenário em que ele a criou era um tanto quanto mais urbano, embora os personagens que não socorreram o que estava ferido à beira do caminho fossem os mesmos. Outra diferença marcante foi que, quem socorreu o ferido não era nem um samaritano e nem um índio, mas sim um travesti que o colocara em sua lambreta a fim de o levar para o hospital. De modo semelhante, ele também finaliza a parábola, “Terminada a estória, Jesus se voltou para seus ouvintes. Eles o olhavam com ódio. Jesus os olhou com amor e lhes perguntou: “Quem foi o próximo do homem ferido?”

  2. Fabiano, que bacana saber da releitura feita por Rubem Alves. Na verdade, quando entendemos que é preciso encarnar e contextualizar o evangelho, há inúmeras possibilidades de releituras das parábolas. O importante é que a verdade do evangelho seja relevante e faça sentido em nossas vidas, seja na cidade, no campo ou na floresta, não é verdade?!
    Nesta releitura indígena, coloquei o indígena Hupd’ah no lugar do Bom Samaritano porque ele é de uma etnia um pouco desprezada pelas demais, como se fosse inferior aos Tucanos, por exemplo. Semelhante como os israelitas desprezavam os samaritanos.
    Você teria o link onde eu possa ler a ‘interpretação de Rubem Alves’?

  3. Gutemberg Vilela.

    BOM DIA!
    FRAQUÍSSIMA A ISTÓRIA. A AUSÊNCIA DE HERMENÉUTICA, DE EXEGESE, FALTA DE ASSUNTO, FRIEZA NO RELATO. FICOU DIFÍCIL PARCEIRO.

  4. Oi, Gutemberg. Tudo bom?
    Não entendi muito bem suas críticas quanto à ‘istória’. Você poderia especificar melhor onde estão os erros de hermenêutica e exegese? O que quis dizer com falta de assunto? Quanto à ‘frieza no relato’, é uma questão muito subjetiva. A própria parábola contada por Jesus tem bem menos detalhes. Você a chamaria de um relato frio, também?
    Um abraço.

  5. CHARLES OLIVEIRA DA SILVA

    Gostei muito dessa releitura, ficou muito bom mesmo!! Guntemberg, por favor, pode ser um pouco mais claro?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may use these HTML tags and attributes:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>