Numa época em que os centros urbanos estão em evidência, o pastor e missiólogo Sérgio Lyra propõe um novo desafio para as igrejas cristãs: as cidades do interior do Brasil. Não que não haja necessidade de ações nas metrópoles, mas o fato, segundo ele, é que falta uma proposta missionária para as pequenas cidades.

Na entrevista a seguir concedida ao Portal Ultimato, Lyra “nada contra a maré”, fala sobre o conteúdo do livro Cidades do Interior (recém-lançado por Ultimato e Betel Brasileiro) e desafia todos os cristãos a anunciarem Cristo e seu reino, de forma integral, em todo lugar, “perto, longe e muito longe”. Confira.

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Por que você resolveu escrever um livro sobre o contexto das cidades do interior?

Após ter pesquisado sobre o contexto urbano das grandes cidades, foco do primeiro livro, um presbítero da minha igreja começou a me mostrar a realidade das cidades do interior por onde ele passava. Procurei livros que abordassem a questão brasileira das pequenas cidades do interior de forma sistêmica e com ligações missionárias, mas não encontrei. Então, propus ao Dr. Elias Medeiros, meu orientador do doutorado, que a minha tese se voltasse para estudar, diagnosticar e propor alternativas para a evangelização das cidades do interior. O trabalho de pesquisa foi empolgante e cansativo, mas recompensador. Tendo os dados e conclusões da tese como base, surgiu, por sugestão do Dr. Elias, a ideia para elaboração do livro.

Uma das perguntas que você faz no livro é por que os seminários não preparam pastores e líderes para trabalhar no interior do Brasil. Já encontrou a resposta?

Sem mudança curricular é impossível achar uma resposta. Na maioria dos seminários denominacionais há forte resistência em repensar os seus currículos e estágios. Como constatei na pesquisa, eles quase sempre ainda refletem o modelo de capacitação teológica norte-americana. Isto cria um grande hiato. Os que se adequaram para o foco do interior são seminários independentes (não ligados a uma denominação), como é o caso da Missão JUVEP na Paraíba. A alegação de que “seminários preparam pastores para qualquer cidade brasileira” precisa ser verdade na questão doutrinária-teológica, mas se consideramos a adequação contextual missionária e pastoral nas cidades do interior, as diferenças podem ser imensas.

Livro - Cidades do Interior.cdrCom a expansão da TV e até da internet, ainda há realmente um abismo geográfico e cultural tão grande entre cidades grandes e cidades pequenas?

É preciso diferenciar conhecer uma realidade e viver essa realidade. Afirmei que moradores do interior conhecem a moda, o shopping center, o rush de veículos e pessoas, os engarrafamentos, os problemas das áreas metropolitanas, os surgimentos de condomínios, crimes etc. Daí dizer que eles vivenciam tal contexto urbano é um erro crasso. A cultura que permeia a vida numa pequena cidade do interior pode contar com tecnologia moderna como Internet, celular, GPS, etc, mas o modo de vida é bem diferente dos costumes, estrutura geográfica e ações da vida imposta pelas grandes cidades onde conviver com grande contingente humano faz da privacidade, segurança e mobilidade quase fatores de sobrevivência.

O livro também resgata um pouco da história missionária no interior de Pernambuco, contando os obstáculos que os primeiros missionários encontraram para anunciar o Evangelho. Os obstáculos continuam os mesmos? Quais os maiores obstáculos hoje?

Não vivemos o tempo do catolicismo como religião oficial. Além disto, o nosso regime de direito democrático não permite mais os abusos e perseguições que os crentes evangélicos sofreram no passado. Entretanto, identificamos que a figura e a autoridade popular concedida ao pároco católico em uma cidade do interior do nordeste ainda é determinante e pode se apresentar como grande obstáculo a chegada ou progresso do evangelho. Entretanto, acredito que o maior obstáculo atual é produzido por nós mesmos, ou seja, é fruto da alienação por parte das grandes igrejas urbanas que investem em si mesmas e dos atuais e futuros pastores procuram enfaticamente ficar nas grandes cidades. No grande Recife, mesmo considerando as igrejas com menos de 100 membros, a pesquisa apresentou a média de 1,7 pastor por igreja presbiteriana.

Você também trabalha o conceito de missão que valoriza não somente a proclamação, mas também a manifestação em atos do Evangelho. Para você, o que é Missão Cristã?

O Congresso Internacional de Evangelização realizado em Lausanne no ano de 1974 foi um divisor de águas. Afirmo que a missão da igreja não precisa de adjetivos, pois, geralmente, quando tentamos qualificá-la corremos o sério risco de descaracterizá-la ou restringi-la. Entretanto, a definição do que é missão precisa ser claramente explicitada. O missiólogo Newbegin alertou que “se tudo é missão, então, nada também é missão.” É neste propósito que Lausanne foi um marco ao estabelecer que a missão da igreja consiste em evangelização e ação social. Eu advogo que estas duas ações missionárias são irmãs siamesas com um só coração. Ressalto ainda o importantíssimo conceito de “Missio Dei” (missão de Deus), pois Deus é o Senhor soberano de missões, e à igreja de Cristo foi dado o privilégio de participar da implementação do plano eterno de Deus. As ações do povo de Deus decorrentes dessa participação, orientadas e reguladas pelas Sagradas Escrituras, devem ser entendidas como a missão cristã.

O seu recorte de estudo são as igrejas reformadas em Pernambuco. É cabível fazer uma comparação destas igrejas com as pentecostais no que diz respeito à obediência missionária?

No livro eu abordo a questão da ação dos missionários pentecostais no tópico “A Ação Evangelizadora dos Bandeirantes Pentecostais”. É inegável que eles, em particular os membros da Assembleia de Deus, praticam a evangelização como estilo de vida, entretanto, na maioria das vezes, verificou-se uma forte dosagem de exclusivismo denominacional. No que tange a obediência missionária, os pentecostais fizeram “o dever de casa”, pregaram e ensinaram, não raro, em algumas cidades, continuaram a ação missionária inicialmente feita pelas igrejas históricas. Em particular, constatei que a grande maioria das igrejas reformadas, com o passar do tempo, seus membros deixaram de se ver como missionários. Isto limitou suas ações missionárias a campanhas evangelísticas anuais, participação de alguns em eventos missionários sazonais, e não raro, simplesmente ofertar para missões.

Que virtudes um cristão precisa ter para cumprir a missão num contexto interiorano?

A resposta a esta pergunta não consiste em nada especial, mas simplesmente em obediência missionária. Abordo no livro que no interior há oportunidades missionárias para crentes com diversas qualificações, tanto de forma duradoura, como em ações de curta duração. A ordem de Jesus quanto a participação na missão foi para todos os cristãos e deve ser executada de forma geográfica concomitante em “Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1.8). Isto significa que a obra missionária não está restrita a determinados crentes que possuam determinadas virtudes ou dons. Se alguém é de fato um filho de Deus, é também um missionário, testemunhando de Jesus perto, longe ou muito longe. Não deve haver, também, priorização missionária especial para as boas e ricas cidades, nem muito menos alienação das que são pequenas e pobres. Insisto que a necessidade de marcar as cidades pequenas do interior com o evangelho de Cristo e com os valores do Reino dos céus é uma dívida missionária que os líderes e membros das igrejas metropolitanas precisam urgentemente procurar saldar.

 

                                   Sobre o autor

sergio_lyraSérgio Lyra é pastor presbiteriano desde 1980 e pastor titular da 1ª Igreja Presbiteriana de Casa Caiada, Olinda (PE), desde 1994. É doutor em Ministérios pelo Reformed Theological Seminary; mestre em Missiologia pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper; bacharel em Teologia pelo Seminário Batista do Norte e bacharel em Ciência da Computação pela UFPE. É coordenador do Departamento de Missiologia do Seminário Presbiteriano do Norte; professor da pós-graduação do Betel Brasileiro.

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