Por Sérgio Lyra

Imagine a seguinte situação. Em uma reunião de membros de uma de sua igreja, o dirigente pede para quem for missionário que se coloque de pé. Quantos membros da sua comunidade se levantariam? Não é difícil prever a sua resposta. Atualmente, ser missionário passou a significar apenas aqueles homens e mulheres que deixam suas casas e se dedicam à pregação do evangelho em lugares distantes. Esta definição errada de missões que atrela a ação missionária apenas ao contexto transcultural produziu uma verdadeira crise na tarefa da evangelização urbana e, consequentemente, nas ações missionárias da igreja moderna.

Vamos avaliar um caso real. Alguns anos atrás fui procurado por uma jovem de uma igreja evangélica histórica, dizendo que desejava ser missionária na África. Durante a conversa ela disse não contar com o apoio da sua igreja local, o que me levou a lhe perguntar: “Por que você não procurou o seu pastor?” Ela respondeu: “Eu procurei, mas ele me disse que quem faz missões nas cidades do interior e em outros países na nossa denominação é a própria denominação, a igreja local apenas ajuda financeiramente o órgão executor nacional”. É certo que nem todas as igrejas pensam desta forma, e algumas já possuem um conselho missionário que realmente se envolve com a tarefa de incentivar a tarefa de viver e anunciar o evangelho. Contudo, se fomos honestos na avaliação, chegaremos a uma dura verdade: a igreja da cidade gasta mais de 85% dos seus esforços e recursos em atividades internas à própria igreja local.

O que é “missão”?
Mas espere um pouco. Missões é apenas a tarefa de anunciar o evangelho em outros países ou nas cidades do interior? A igreja local quando evangeliza, ensina, doutrina, pastoreia ou age com boas obras em favor dos necessitados, não está fazendo missões? Afinal, o que é missões? O que é realmente ser um missionário? Esta preocupação em entender a tarefa missionária como responsabilidade da toda a igreja começou com o teólogo alemão Gustav Werneck. Ele defendeu que o termo correto deveria ser “Missiolere”, ou seja, missiologia, um estudo da missão de Deus incluso na revelação especial da salvação em Cristo. As ideias do “duplo fundamento de missões” de Werneck e Martinho Kähler ganharam grande divulgação no meado do século 19. Eles apresentaram: (1) A igreja como o povo de Deus ativo no mundo e; (2) Missão como a cristianização dos povos. Posteriormente, Kähler adicionou um terceiro conceito: 3) A necessidade do testemunho nas missões. O fator testemunhal foi tão forte para Kähler que ele chegou a afirmar que o testemunho cristão no mundo ou sua missão, é gerador da necessidade de teologia (nas palavras de Kähler “a missiologia é a mãe da teologia”)* .

Com o propósito de estabelecer a missiologia como ciência teológica, vários estudiosos começaram a produzir reflexões. Na década de 1860, o teólogo e estadista holandês Abraham Kuyper advogou a missiologia como a ciência que deveria estudar os melhores métodos para produzir a conversão dos não cristãos. Kuyper disse que a tarefa missiológica era prosthética, ou seja, a tarefa dada por Deus ao seu povo, visando produzir a adição de novos membros da igreja de Cristo.

Em 1910 ocorreu um evento missionário que se tornou um marco histórico, produtor de um grande impulso na missiologia. Este foi o ano da primeira conferência missionária internacional, realizada em Edimburgo na Escócia. O seu presidente foi John Mott, o grande coordenador do Movimento de Estudantes Voluntários que enviou milhares de universitários norte-americanos para os campos missionários. O século 19 foi “o grande século das missões” e o evangelho se espalhou com ardor e profunda dedicação por quase todo o mundo. A Inglaterra e os Estados Unidos foram os grandes celeiros de missionários, enviando cerca de 80% de toda força tarefa missionária. Em Edimburgo, o congresso teve como tema “A evangelização do mundo nesta geração”. O desenrolar dos fatos, contudo, não concretizou os planos daquela conferência. Mesmo assim, teólogos como Johannes Verkuyl e outros, continuaram a solidificar a missiologia como disciplina independente, essencial e com fundamentação nas Escrituras. Missiologia não poderia ser considerada apenas um sub-item da eclesiologia na teologia sistemática.

Nas últimas décadas, vários teólogos têm produzido abundante literatura acerca da missiologia, tanto a definindo como submissa à teologia, como a interligando com diversas outras disciplinas, principalmente com as ciências sociais. Charles van Engen enfoca muito apropriadamente a necessidade de uma compreensão sadia da teologia que fundamenta as missões e a necessidade imperiosa de se ter como ponto de partida a missão de Deus. Esta não é uma ideia nova. O puritano John Eliot, missionário entre os índios americanos do século 17, e o teólogo Richard Baxter, afirmaram nos seus escritos que há três elementos de missões: (1) Deus e ninguém mais é o soberano Senhor das missões; (2) Deus se utiliza de meios para atingir a redenção do homem e; (3) O homem é responsável por aceitar ou rejeitar o evangelho**. Mas é Van Engen que apresenta a missiologia como uma disciplina que tem o seu foco em Cristo e na sua missão, e ambos frutos da soberania de Deus e afetos à teologia***.

Missiologia e teologia
Entendendo que não é a teologia que gera o desejo missionário no coração dos cristãos, descobrimos a verdade de que é o próprio Deus, o Senhor da Igreja e autor das missões, o qual concede a ela dons, vocações, visão da obra, perseverança e destemor para cumprir a missão que é primeiramente divina****. Reforço que para se fazer missões não podemos dispensar a teologia. Alguns têm se aventurado a evangelizar ou implantar projetos sociais afirmando que não importa a doutrina. Puro equívoco! Não existe nenhuma prática missionária que não tenha uma teologia, boa ou ruim, que a fundamente. Assim, o ardor missionário jamais pode servir de degrau para apoiar aqueles que defendem a dispensa da reflexão teológica para se planejar a estratégia de missões na igreja urbana.

Cremos que teologia não são apenas credos e tratados doutrinários, mas também diz respeito, principalmente, a conhecer, sob a orientação do Espírito Santo, a vontade e o agir de Deus (Rm 8.14; 1 Co 2.13-16). Este fundamento nos permite lançar mão de pressupostos teológicos básicos e princípios bíblicos orientadores, os quais dão direção às atividades missionárias pelas Sagradas Escrituras. A teologia sempre estará presente na elaboração de qualquer estratégia de evangelização, seja ela transcultural, rural ou urbana. Esta é a razão pela qual David Bosch afirmou que “nenhuma missiologia é possível sem teologia”.*****

“Missio Dei”
Cabe agora fazermos uma abordagem sobre a “Missio Dei”. Esta é uma expressão latina que significa “Missão de Deus”. Por meio da Bíblia, Deus é conhecido como o Deus cujos planos jamais podem ser frustrados. Deus é sempre autor de obras acabadas, tudo o que Ele determinou, aconteceu ou acontecerá, e isto é uma verdade que está em toda a Bíblia. Quando percebemos que a missão tem sua origem em Deus, descobrimos que o chamado, a capacitação e a motivação missionários têm suas fontes no próprio Deus (Jo 17.18).

Assim, biblicamente, podemos tirar cinco conclusões basilares acerca da Missão de Deus:

1. A missão tem sua origem no coração de Deus – Trata-se de identificar a fonte da autoridade suprema de tudo que foi divinamente planejado. Isto implica em reconhecer que desde os tempos eternos a tarefa da igreja já estava para ela reservada e definida.
2. Deus Pai enviou Jesus, o seu Filho missionário – Os evangelhos evidenciam com muita abundância que Jesus veio para fazer a vontade do Pai, para cumprir a missão que o Pai lhe confiara, restaurando consigo mesmo todas as coisas.
3. O Filho rogou ao Pai que enviasse o Espírito Santo – A missão é tarefa da Trindade. A ação do Espírito de Deus na tarefa missionária tanto age no cristão capacitando-o para testemunhar, quanto no não cristão, convencendo-o do pecado e regenerando aqueles a quem chamar. O Espírito Santo chama, regenera, santifica e capacita a igreja para enviá-la ao mundo com uma missão******.
4. A igreja é a agência missionária de Deus – Jesus afirmou que nos mesmos termos que o Pai lhe confiou a missão, Ele comissionou a igreja (Jo 20.21). Inquestionavelmente, a igreja é o povo escolhido para missão, e mais, Deus não tem, nem nunca teve, um plano B.
5. O mundo ouve, recebe ou rejeita – O alvo missionário de Deus é anunciar o evangelho da salvação em Cristo a toda a criatura através da igreja, pelo poder do Espírito, e isto não tira do ser humano a sua responsabilidade por suas escolhas.

Que imenso privilégio foi dado à Igreja de Cristo! O povo missionário de Deus tem, nas palavras de John Piper, “a mensagem mais importante de todo universo”. Acredito que uma das melhores explicitações que fundamentam a nossa tarefa missionária foi dada por David Bosch: “Missões é o povo de Deus intencionalmente cruzando barreiras da igreja para a não-igreja, da fé para a não-fé, proclamando pela palavra e com atos a vinda do Reino de Cristo. Essa tarefa é atingida através da participação da igreja na missão de Deus de reconciliar as pessoas com Ele, consigo mesmas, umas com as outras e com o mundo.”

Onde o povo comissionado por Deus pregar as boas novas do evangelho, viver e implantar os valores do reino divino, fazer discípulos, ensinando-os a guardar o que Jesus ensinou, a missão que Deus ordenou estará sendo obedecida. Se você é povo de Deus, então você é missionário na cidade, no interior ou em outros países, pois o que somos e fazemos é que caracteriza a nossa vocação, onde quer que estejamos.

Toda a glória seja dada somente a Deus.

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Sérgio Paulo Ribeiro Lyra é pastor e coordenador do Consórcio Presbiteriano para Ações Missionárias no Interior. Autor do livro “Cidades para a Glória de Deus” (Visão Mundial). É missiólogo e professor do Seminário Presbiteriano em Recife (PE).

 

Notas
* John H. Leith, From Generation to Generation – The Renewal of the Church According to Its own Theology and Practice, Louisville: Westminster/John Knox Press, 1989, pg 168.
** David Bosch, Witness to the World, Atlanta: John Knox Press, 1980, pg 89ss.
*** Ibid.
**** Ibid., 22.
***** Ibid.
****** Esta seqüência é proposta por Gailyn Van Rheenen no seu livro “Mission: Biblical Foundations and Contemporary Strategies” (Grand Rapids: Zondervan, 1996).
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  1. [1]. A construção do primeiro parágrafo introduz uma ideia missiológica (coisa de 25 anos) e de quebra faz uma leitura infeliz da história. O autor do artigo faz o que e mora onde? Resposta: Recife. De ponta a ponta uma cidade (do ponto de vista histórico para o presbiterianismo) um produto missionário ‘à moda antiga’, mas que o articulista aqui crava a crítica de que produziu ‘uma verdadeira crise’. E não cita exemplos! É aquele tipo de raciocínio informativo que atira para todos os lados. Claro, ele quer desmontar o tradicional para o novel.
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    [2]. O segundo parágrafo mistura conceitos e atribui um denominador comum a dinheiro. Mereceria um outro artigo. Deixo para lá, por hora.
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    [3]. O que é “missão”? Se você observar pela leitura dos 4 parágrafos seguintes sob o título aí, qualquer presbiteriano sabe a fonte que o articulista bebeu e sabe exatamente o ‘leitmotif’ do arrazoado dele. Atenção! O articulista é Presbiteriano e o segmento de que fala e trata representa, no universo estatístico ( e Reformado) algo em torno de não mais do que 1,5%-3% da chamada força missionária no mundo, e olha lá. O ‘relato’ dele aqui é, ainda que um veio de ouro, um filão minguado. Presbiteriano tem essa mania de falar para e pelos outros. E sei do que falo!
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    [4]. O último parágrafo do artigo é a tentativa de desfazer a ideia de missionário em lugares distantes que começou lá em cima para agregar o urbano que é a área de atuação do articulista. Acho que foi Timóteo Carriker que mencionou certa feita o http://www.gordonconwell.edu/resources/Center-for-the-Study-of-Global-Christianity.cfm/resources.htm como fonte de pesquisa. O artigo aqui não dá a menor bola para o que está em centros de pesquisa hoje para a área, começando e terminando centrado numa definição muito limitada de missão (que ele habilmente esconde a herança ‘presbiteriana’ e ‘reformada’ porque não colaria!). A IPB está anos luz de missões. A começar pelo seu orçamento (2010—2011).

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