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Mary e Gary Vanderkooi

O mundo luta contra a terrível e contínua força da epidemia atual de Ebola1, e o Brasil se preocupa com o risco do vírus chegar ao país. O que a igreja brasileira – e em especial, os missionários brasileiros que trabalham na África ou países vizinhos – tem a ver com isso?

A jornalista Elsie Gilbert conversou com Mary Vanderkooi, uma experiente médica missionária que atualmente trabalha em Soddo na Etiópia. O país não um dos focos do vírus, mas tem uma das mais importantes plataformas aeroportuárias da África e está em alerta também. Mary fala sobre a epidemia de Ebola e o que os missionários precisam saber para protegerem a si mesmos e suas famílias dos riscos do vírus. A Dra. Mary Vanderkooi é de DeKalb, Illinois, e tem trabalhado em Soddo com seu marido Gary desde 1994. Gary tem um PhD em Bioquímica e é um dos diretores de um hospital na região. Mary é especialista em Medicina Tropical e é autora do “Manual de Medicina para as Aldeias”, que está na sexta edição. O casal tem dois filhos.

***

Dra. Mary, você vive a, pelo menos, 8 mil quilômetros de distância da epidemia atual. Por que preparar-se para a epidemia?

– Estes 8 mil quilômetros de distância são percorridos em apenas 12 horas em uma viagem de avião. O Ebola viaja de avião; foi assim que aconteceu em todos os casos de ultrapassagem das fronteiras, exceto no Senegal.
– Os que pagam viagens aéreas normalmente conseguem pagar pelo cuidado médico. Não ficam inclinados a ficar presos nos armazéns do governo, com a população. O hospital onde trabalho tem uma boa reputação. O primeiro caso no país pode ser de algum diplomata que ouviu a nosso respeito e apareceu na porta de entrada.
– Todos os primeiros casos de Ebola levaram a casos secundários e terciários. Demora algum tempo para qualquer hospital conseguir se organizar. Se algumas enfermeiras morrem, o resto dos funcionários vai se recusar a trabalhar, o que resulta no fechamento do hospital. Não queremos que isso venha acontecer.

A notícia que chamou a atenção de todos nos Estados Unidos foi a história de um médico missionário, que voltou para morrer em seu próprio país, vitimado pela doença. Isso mostra que missionários estão vivos e ativos no mundo. Também nos mostra que os trabalhadores da linha de frente podem correr um risco maior e que nós, a igreja, precisamos nos preparar para apoiá-los em suas necessidades mais urgentes. Assim, que conselhos você gostaria de dar aos missionários que estão em países com maior risco da doença? Eles deveriam sair de lá o mais rápido possível?

Pensando em tratar de risco:

– Quando entramos na família de Deus, nos candidatamos ao sofrimento. É difícil para os que são ricos entrar no reino de Deus, porque as riquezas conquistam a expectativa que a vida deve ser confortável.

– Se parentes não cristãos insistem que o missionário deve ser retirado, aí o missionário deve decidir se Deus ou sua família merecem seu primeiro amor. Se for uma comunidade cristã que quer que seu missionário saia, a escolha moral é semelhante.

– Apesar disso, é razoável querer diminuir o risco de morte. Em nossa situação, dois pais médicos decidiram permanecer, mas retirar suas famílias. Não faz sentido que crianças e esposas não médicas desnecessariamente se exponham à enfermidade. Aqueles de nós que somos mais velhos (com menos anos para viver), ou solteiros, serão os voluntários para as tarefas mais perigosas.

– Crentes mais idosos que amam o reino de Deus deviam se oferecer como voluntários de curto prazo para o contexto da epidemia da Ebola. As equipes médicas precisam de alimentos limpos e palatáveis, quando não têm tempo para cozinhar. No contexto do meu hospital, quando ou se estamos sobrecarregados, gostaríamos ter alguém que nos preparasse uma boa refeição por dia. Outros lugares terão outras necessidades. Viagens missionárias de curto prazo podem contribuir.

OMS / N. Alexander

OMS / N. Alexander

Como deveríamos nos proteger de uma possível epidemia?

O cuidado ideal para a Ebola é a admissão imediata à Unidade de Tratamento da Ebola, seja numa área em desenvolvimento ou sendo retirados para um país distante. Os que oferecem cuidados devem vestir roupas protetoras que cobrem cada centímetro quadrado do corpo.

– A realidade é que isso vai envolver atrasos, durante os quais o paciente estará necessitado de um banho, sedento ou faminto. Os pais ou cônjuges não preparados têm duas escolhas: ou deixam o paciente ou tentam cuidar eles mesmos do doente. Esta segunda opção é suicida, mas é a mais escolhida.

– Sabendo disso, faz sentido se preparar. O suprimento de roupas protetoras disponíveis à venda pode se esgotar e ainda existe o problema do que fazer com o lixo contaminado. Não é difícil juntar roupas protetoras e outros equipamentos laváveis e reutilizáveis. Proteção imperfeita é melhor que nenhuma proteção. Eu estou preparando recomendações a esse respeito, com a ajuda de minha agência missionária Equip INC.

E quanto às crianças? Elas são mais vulneráveis? Ou têm mais resistência para lidar com a enfermidade?

Na maioria das enfermidades infecciosas são os mais novos e os mais idosos que sucumbem. Do que pude ver, os sobreviventes são adolescentes e jovens adultos previamente saudáveis.

– Há um problema grande com crianças pequenas e a Unidade de Tratamento de Ebola. É um suicídio a mãe ou o pai acompanharem seu filho (e não é permitido), mas é desesperador para a criança sentir-se abandonada aos cuidados de estrangeiros com roupas e máscaras que parecem robôs, enquando já sofrem com os sintomas da doença. Não há boa solução para esse dilema.

Como a igreja no Brasil pode orar enquanto vemos o desenvolvimento da epidemia da Ebola? Pode nos dar alguns pedidos de oração mais específicos?

Não tenho a menor ideia sobre como as pessoas deveriam orar2. É óbvio que a vontade (pelo menos permissiva) de Deus vai acontecer. Ele tem suas razões. O mais importante é que sejamos encontrados fiéis.

>> Entrevista traduzida voluntariamente por Antonia Leonora van der Meer.

Notas:
1. A África Ocidental enfrenta o maior surto do vírus ebola já registrado desde a descoberta da doença, em 1976. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), trata-se da maior epidemia de febre hemorrágica em termos de pessoas afetadas, número de mortos e extensão geográfica. A epidemia deixou 2.811 mortos na África Ocidental, de 5.864 casos, indica o último registro da Organização Mundial de Saúde (OMS), apresentado nesta segunda-feira (22).

2. Aproveitamos a pergunta e sugerimos os seguintes motivos de oração:
– Orar para que haja menos conversa e mais ação prática e urgente entre os que podem desenvolver tratamentos e remédios adequados.
– Orar por obreiros dispostos a ir e servir, sejam protestantes, católicos, ou movidos por sentimentos humanitários, como os Médicos sem Fronteiras.
– Orar para que pela misericórdia de Deus essa doença terrível deixe de continuar a se expandir e causar tanto terror e morte.
– Orar por todos os enlutados e pelas pessoas daqueles países que vivem com o medo e sem saber o que podem fazer.

  1. Parabéns, Elsie!

    Esta pergunta, porém, é, “O que a igreja brasileira – e em especial, os missionários brasileiros que trabalham na África ou países vizinhos – tem a ver com isso?”.

    Irrelevante, entre outras razões, porque o projeto deste casal é coisa de décadas de serviço. Evangélico brasileiro, salvo honrosas exceções, com o seu tradicional espírito missionário conhecido como ‘pinto de granja’, ou ‘vapt-vupt’ não tem a resiliência nem o ‘expertise’ do tipo holandês como neste casal aí. Relevante é o trabalho deste casal aí retratado.

    Só nesta semana Cuba, dos ditadores irmãos Castro, enviou mais 85 médicos, e o Brasil, zero. Zero em grana também. Então, perguntar o que o Brasil faz ou deixa de fazer é simplesmente cravar mais um prego no caixão da nossa irrelevância internacional e uma pergunta totalmente retórica.

    De novo, parabéns para estes missionários e o link que oferecem aqui, http://www.soddo.org/our-mission/ é muito bom (informativo).

    O site indicado, porém, não indica a filiação denominacional deste casal. Mas isso pouco importa. Certamente trabalham uma área (Etiópia) que registra um dos melhores cafés do mundo, que Maetê Proença usa como título em seu livro, “É duro ser cabra na Etiópia”.

    • Este “pinto de granja” ou vapt-vupt existe, mas não é a norma nem foi o caso dos meus pais que deram a vida por uma causa. Meu pai até sua morte precoce em 1996. Minha mãe até a sua “aposentou” no ano passado com 50 anos ininterruptos de trabalho missionário. A maioria dos missionários que eu conheceço são tenazmente dedicados ao chamado que receberam, ainda que a igreja brasileira nem sempre os tratem como heróis e cuidem bem de suas feridas de guerra quando voltam para casa.

      Elsie

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