Disse-lhe Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, não morrerá eternamente. Você crê nisso?” (João 11:25-26)

A morte inspira terror em muitas pessoas. O intenso conflito interno de Woody Allen com a morte é bem conhecido. Ele a vê como uma aniquilação do ser e a considera “absolutamente espantadora em seu terror”. “Não que eu tenha medo de morrer”, graceja ele, “apenas não quero estar lá quando acontecer”.1

Outro exemplo é dado pelo americano Ronald Dworkin, o filósofo de direito que tem ocupado cadeiras nas universidades de Londres, Oxford e Nova York. Ele escreveu:

O mais horrível na morte é o esquecimento — a terrível e absoluta morte da luz […]. A morte domina porque não é apenas o começo do nada, mas o fim de tudo.2

Porém, para os cristãos, a morte não é horrível. É verdade que o processo da morte pode ser confuso e humilhante, e a decadência procedente não é agradável. Na verdade, a própria Bíblia reconhece isso ao chamar a morte de “o último inimigo a ser destruído” (1Co 15.26). Ao mesmo tempo, afirmamos que “Cristo Jesus […] destruiu a morte” (2Tm 1.10). Ele a conquistou pessoalmente por sua ressurreição, de tal forma que ela não tem mais autoridade sobre nós. Consequentemente, podemos gritar, em desafio: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Co 15.55).

A derrota da morte é uma coisa; o dom da vida é outra. Contudo, por causa da dificuldade em se definir a vida eterna, os escritores do Novo Testamento tendem a utilizar o recurso da figura de linguagem. O apóstolo João, por exemplo, descreve o povo de Deus tendo seus nomes inscritos no livro da vida (Ap 3.5; 21.27), gozando de acesso contínuo à árvore da vida (Ap 2.7; 22.2), e bebendo livremente da água da vida (Ap 7.17; 21.6; 22.1, 17).

“Mas alguém dirá: Como ressuscitam os mortos? E em que corpo vêm?” (1Co 15.35). A mesma pergunta (uma pergunta tola, de acordo com Paulo) é frequentemente feita hoje. Nós a respondemos prestando atenção no relacionamento entre uma semente e sua flor. Há uma ligação básica entre as duas (por exemplo, as sementes da mostarda produzem apenas uma planta de mostarda). Mas a descontinuidade é muito mais impressionante. A semente é simples e feia, mas sua flor é colorida e bela. Assim será com nosso corpo ressurreto. Ele preservará certa semelhança com nosso corpo atual, mas terá poderes novos e nunca sonhados (1Co 15.35-44).

Além do mais, de certa forma, o que é verdadeiro a respeito do corpo ressurreto se aplica ao novo céu e à nova terra. Jesus chamou isso de “regeneração” (palingenesia, Mt 19.28). Pois se o corpo deve ser ressuscitado, o mundo deve ser regenerado. E como deve haver uma mistura de ligação e descontinuidade entre os dois corpos, também haverá entre os dois mundos. Toda a criação será liberta da escravidão da decadência (Rm 8.18-25). Essas expectativas são parte da vida eterna que a morte nos trará. E isso é proclamado em muitos cemitérios e lápides: Mors janua vitae — a morte é o portão para a vida.

Ao refletir sobre a morte e buscar me preparar para ela, tenho retornado constantemente ao que pode-se chamar filosofia de Paulo sobre vida e morte:

Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro. Entretanto, se o viver na carne traz fruto para o meu trabalho, já não sei o que hei de escolher. Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. (Filipenses 1.21-23)

Numa só palavra, vida, para Paulo, significava Cristo. Era impossível imaginar a vida sem ele. Assim, era realmente lógico que ele quisesse morrer, porque a morte traria lucro, ou seja, mais de Cristo. No entanto, ele sabia que permaneceria um pouco mais, pois havia mais trabalho para ele fazer na terra.

Geralmente é perigoso levantar argumentos a partir de uma analogia. Porém, Paulo parece nos dar permissão para fazer isso. O princípio é claro. Se para nós a vida significa Cristo, então a morte trará ganho. De fato, a vida futura será muito melhor do que a vida na terra.

Assim:

– Se adorar com o povo de Deus na terra já é profundamente satisfatório (o que é verdade), então a adoração com todos no céu será ainda mais emocionante.

– Se nosso coração já queima sempre que as Escrituras são reveladas a nós, a revelação de toda a verdade será ainda mais comovente.

– Se a glória de um pôr-do-sol já nos impressiona, como será quando estivermos diante da beleza do novo céu e nova terra?

– Se a comunhão transcultural já nos toca, ficaremos jubilosos quando finalmente nos juntarmos às multidões de todas as nações, tribos e línguas.

– Se algumas vezes já experimentamos o que é “nos alegrar com um gozo indizível, e cheio de glória”, podemos ter a certeza de que isso acontecerá com mais frequência, no lugar onde não haverá tristeza nem lágrimas.

Esses são apenas exemplos da experiência humana. Em cada caso é adequado usar um comparativo, ou seja, “muito melhor”. Na verdade, quando refletimos sobre a vida futura, o comparativo é realmente inadequado; o mais apropriado é usarmos o superlativo. É por isso que, sempre que refletimos sobre o futuro que nos aguarda, podemos dizer: “O melhor ainda está por vir”.

(…)

A morte é contrária às leis da natureza e é desagradável. De certa forma, ela nos apresenta uma finalidade terrível. Morte é o fim. Mesmo assim, em todas as situações, a morte é o caminho para a vida. Assim, se queremos viver, devemos morrer. E estaremos dispostos a morrer somente quando virmos as glórias da vida à qual a morte leva. Essa é a perspectiva cristã radical e paradoxal. Pessoas verdadeiramente cristãs são descritas com exatidão como “aqueles que estão vivos de entre os mortos”.

Texto originalmente publicado no livro O Discípulo Radical.
Notas
  1. De um artigo em Esquire, 1977. E em MCCANN, Graham. Woody Allen, new yorker. Polity Press, 1990. p. 43 e 83.
  2. DWORKIN, Ronald. Life’s dominion. HarperCollins, 1993. p. 199.

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