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Peregrinos

José e Maria, grávida do menino Jesus, eles eram refugiados, exilados, peregrinos. Eles conheceram a dor do desamparo e de recomeçar a vida a partir de ruínas, mas carregando sempre dentro de si a esperança: um Deus escondido.

“A La Huella”
(Ariel Ramirez e Felix Luna)

Ao caminho, ao caminho,
José e Maria.
Pelos pampas gelados,
Cardos e urtigas.

Ao caminho, ao caminho,
Cortando o campo,
Sem abrigo nem manto,
Sigam andando.

Ai florzinha do campo
Dançando ao vento
Se ninguém te protege
Do sofrimento

Onde nasces, florzinha
Que estás crescendo?
Passarinho assustado,
Grilo sem sonho.

Ao caminho, ao caminho,
José e Maria,
Com um Deus escondido,
Ninguém sabia.

Ao caminho, ao caminho,
Os peregrinos.
Quem empresta um ranchinho
Pro meu menino?

Ao caminho, ao caminho,
Ao sol e à lua.
Meus olhinhos de amêndoa
Que noite escura!

Ai, burrinho do campo,
Burrinho pardo.
Vai nascer o meu filho,
Quanto trabalho!

Só um ranchinho de palha


É que me ampara.
Dois alentos amigos
E a lua clara.Ao caminho, ao caminho,
José e Maria,
Com um Deus escondido,
Ninguém sabia.

 

13/31 | Presentes à(s) criança(s)

Leia: Mateus 2.1-12

Ouço o som de buzinas e de autofalantes. Em seguida, vejo o caminhão com várias pessoas sobre a carroceria e com um grande número de pacotes coloridos passar chamando a criançada. Após o caminhão seguem vários carros de apoio.
A carreata do bem acontece todo final do ano. Ela percorre a rua de minha casa e segue até o final do bairro onde moram pessoas de condições humildes.
Lá chegando, é feita a distribuição de presentes às crianças. Terminada a entrega, algumas passam em frente de casa. Da janela de meu quarto consigo ver as carinhas de alegria. Não importa se a boneca é uma imitação de grifes famosas, ou se a bola de plástico dali a alguns dias estará furada, ou mesmo se o carrinho logo perderá as rodas.
Não importa. O fato é que essas crianças, tomadas de alegria, foram lembradas. Pessoas vieram até elas e trouxeram presentes. Que alegria! Em um mundo desumano e de apagamentos sociais, lembrar de uma criança pobre significa muito.
Os pais ficam gratos. Afinal, por mais baratos que sejam os presentes, liberam o pouco de dinheiro que possuem para comprar talvez um panetone, ou, quem sabe, com um pouco mais de esforço, uma carne que poderá até ser a surpresa da ceia humilde de natal.
O texto bíblico indicado acima testemunha a sensibilidade de pessoas importantes que se lembraram de uma humilde criança na Palestina.
Embora o relato se revista de tensões, afinal, o falso rei Herodes deseja utilizar os magos para seus intentos assassinos, há nele também um elemento de delicadeza e de alegria. Protegidos por Deus, os magos conseguem se desvencilhar das garras de Herodes e, dirigidos pela estrela, chegam à humilde Belém e visitam a criança.
Imagine a surpresa da família de Jesus ao ver aqueles homens, certamente muito bem vestidos, com ares aristocráticos, entrarem na pequena casa e, após saudarem seus moradores, depositarem presentes diante daquela pequena e pobre criança!
O recém-nascido era considerado por eles o rei dos judeus. Claro que a sequência do evangelho de Mateus corrigirá essa visão demonstrando que Jesus é o rei do universo, senhor de tudo e de todos. Mas, naquele momento, reconhecer aquela criança como rei dos judeus era muita coisa.
O texto revela que eles estavam cheios de alegria e de júbilo. Sim, pois eles faziam parte do restrito círculo de pessoas que conseguiram ver e reconhecer o menino Jesus. E mais, tiveram o privilégio de presenteá-lo. O texto silencia a respeito da reação da criança. Certamente não entendeu o que ocorria ao seu redor. Também não relata a reação de Maria. O mais importante é realçar a alegria de quem presenteia.
Sim, é verdade. As pessoas que passam diante de casa são as mais felizes, mais até do que as crianças que recebem os presentes. E têm razão para isso. Afinal, elas são privilegiadas por poderem dar presentes. E para crianças que precisam deles.
Que tal, neste Natal, levar presentes para crianças carentes? Para um orfanato, para uma entidade de assistência social. Existem tantas! Ao dar presentes, pense no menino Jesus, pense que poderá alegrar, em nome de Jesus Cristo, crianças que talvez, sem você, permanecerão esquecidas neste natal.
Ouça a canção na voz de Ivan Lins. Medite. Ore. Compartilhe. http://www.youtube.com/watch?v=upsyx4X5bH8
João Leonel

Janelas

Enquanto preparava as aulas de Literatura Inglesa deste semestre, li este poema e fiz uma tentativa de tradução. Compartilho com os amigos:

vitral

“The Windows”
(George Herbert, 1593-1633)

 

Senhor, como pode o homem pregar a palavra eterna?

Ele é um vidro frágil e louco;

Mesmo assim, em teu templo tu lhe concedes

Este lugar glorioso e transcendente,

Para ser uma janela, através de tua graça.

 

Mas quando tu temperas no vidro tua história,

Fazendo tua vida brilhar dentro

Dos santos pregadores, então a luz e a glória

Cresce mais reverentemente, e mais alcança;

O que de outro modo é aguado, desolado e fino.

 

Doutrina e vida, cores e luz, em um só

Quando se combinam e misturam, causam

Grande respeito e temor; mas a fala sozinha

Desaparece como algo que se queima,

E ao ouvido, não à consciência, ressoa.

Querido diário!

diario 2-001Uma das resoluções que tomei para 2015 foi retomar o hábito de escrever um diário. Como não pude me conter, e até para impedir que tudo não passasse de um entusiasmo de janeiro, comecei meus registros em 1° de dezembro de 2014. Em meus tempos de juventude, cultivei o hábito de escrever diários. Hoje eles são tesouros preciosos para mim. O diário fazia parte de minha vida espiritual, uma disciplina devocional muito valorizada naqueles tempos.

Li recentemente o diário de David Brainerd (1718-1847), li também há alguns anos o diário de Ashbel G. Simonton (1833-1867) e o de John Woolman (1720-1772). Mas muitos outros grandes escritores mantiveram seus diários: Flannery O’Connor, Maya Angelou, Franz Kafka, C.S. Lewis e Virginia Woolf.

Philippe Lejeune é um estudioso dos escritos autobiográficos e em 2009 publicou um livro interessantíssimo intitulado On Diary (Sobre o Diário). De acordo com Lejeune, os diários nasceram na história a partir de necessidades comerciais e administrativas. Fazer registros e colocar data ajudava os negociantes a controlarem suas atividades. Segundo Lejeune, os diários pessoais existiam na era clássica, mas só com os cristãos é que ele ganhou características intimistas, pessoais e espirituais.

A escrita de si tem chamado a atenção de intelectuais, pesquisadores e acadêmicos em geral. Um dos focos de interesse está na relação entre a escrita de si e a construção da identidade e da formação da subjetividade. Muito antes desse renovado interesse, no entanto, os cristãos encaravam a escrita do diário como parte do exercício espiritual.

Nesse sentido, a escrita do diário nos permite meditar sobre a vida e sobre as Escrituras. Ao escrever um diário, nos posicionamos em relação à vida, e reorientamos nossa oração e nossa ação. Modificando um pouco aquele ditado que dizia: “Quem canta ora duas vezes”, podemos dizer que quem escreve um diário pensa duas vezes, e com muito mais clareza. É uma ótima forma de reconsiderar o passado ou planejar o futuro, enfrentar os temores interiores, examinar o próprio funcionamento de nossa mente e os movimentos de nossa alma, bem ao estilo do salmista quando dizia: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro em mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei” (Salmo 42.11).

No diário cabem reflexões, orações, citações de poemas, canções, passagens das Escrituras, rabiscos, desenhos, mapas, caricaturas, lembretes, tudo o que ocupa sua mente e coração. O diário fortalece também outras disciplinas espirituais, pode auxiliar na vida de oração, na prática da Lectio Divina, é uma oportunidade para ver a luz de Deus iluminando nossas trevas e confusões. Por meio dessa prática, vamos conhecendo melhor o caráter de Deus e, por consequência, nosso próprio caráter. Há inclusive uma força terapêutica no exercício do diário, pois vamos aprendendo a lidar com nossos traumas e amarguras tanto quando com nossos temores e ansiedades.

Assim que decidi retomar minha prática da escrita de diário, tive de optar por uma forma de escrita: computador ou caderno? Se fosse computador, teria de ser uma máquina pequena, transportável, um notebook. Há ótimos softwares específicos para escrever diário, a maioria disponíveis gratuitamente: o RedNotebook, o OneNote, o próprio WordPress… Mas também o próprio Word ou LibreOffice serviriam. No entanto, preferi o silêncio, a intimidade, a portabilidade e o calor de um caderno com capa dura. Ele está sempre comigo. Não precisa recarregar bateria e a variação das linhas e do formato das letras vão registrando a emoção do momento. Além do mais, li em algum lugar que quando escrevemos à mão ativamos áreas do cérebro diferentes das que utilizamos ao digitar um teclado.

Quando escrever? Quando quiser. Aproveito as primeiras horas do dia, mas também ao final do dia, antes de repousar, a escrita do diário cai muito bem. Sobretudo, tenho notado que escrever logo depois de minha hora devocional e do período de oração contemplativa tem sido muito significativo e prazeroso.

Alguns princípios têm sido norteadores para mim: autenticidade acima de tudo, deixar vibrar no papel minha própria voz e alma, honestidade em relação aos temas que forem aparecendo. Quando apenas os eventos do dia a dia aparecem na mente, apenas registro os eventos. Não me preocupo em ser profundo, complexo ou mesmo poético. Esqueço meu corretor gramatical interno e, principalmente, tento não bancar o policial de mim mesmo. Simplesmente contemplo a beleza cristalina de uma folha de papel em branco e começo a conversar com Deus ou comigo mesmo: “Puxa uma cadeira, minha alma. Eu quero te perguntar: ‘Por que me roubas a calma, me mostras tristeza no olhar? Vamos entrar num acordo, vida tranquila viver. Lembra daquilo que o Mestre falou: A minha graça te basta’” (Stênio Marcius).

Meditações de Natal

Faltam apenas dez dias para o Natal. Faça o download deste e-book gratuitamente: uma meditação para cada dia do mês de dezembro.

 

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A voz da tela: a arte de Anderson Monteiro

anderson monteiro 1As Escrituras falam da voz que clama no deserto, que um dia florescerá e será transformado em jardim. Falam do pássaro que encontra abrigo nos altares do santuário do Senhor. Falam do pastor cuidando do seu rebanho, do povo de Israel atravessando pelo meio do mar Vermelho como se fosse em terra seca. Falam da sequidão de estio e do povo clamando por água. Falam de rios que alegram a cidade de Deus. Falam de pescadores, tempestades, redes cheias de peixes, povo sendo curado, gente partilhando pão e peixe. Enfim, todas essas passagens mexem com nossa imaginação, pois são elas mesmas ricas imagens da realidade humana.

A obra de Anderson Monteiro, artista plástico paulista, é construída basicamente de imagens do cotidiano. São quadros e fotos retratando pessoas, lugares, momentos cheios de alegria, beleza e dor. Algumas obras desenvolvem a temática cristã, como os quadros da série “O Messias” ou também da série “Montaria”, centrados na figura de Jesus. Seu rosto sereno e ao mesmo tempo expressivo, a barba cobrindo-lhe a face, o manto sobre o corpo.

Outras obras falam da importância da arte na vida cotidiana, incluindo quadros como o “Um poeta e um violão”, dedicado a Stênio Marcius, ou como o quadro de perfil de Jorge Camargo cantando de olhos fechados. Em tudo se vê o respeito pelo trabalho do músico. E por falar em música, há também quadros dedicados aos músicos de jazz, da série “Jazz for You”. Saxofonistas, trompetistas, bateristas, pianistas e contrabaixistas interagindo em jam sessions que parecem vibrar na tela. Eles celebram a importância da arte e da beleza na vida.

Nota-se, nos quadros de Anderson, a presença das pessoas, seja individualmente, em suas atividades diárias, seja em duplas, caminhando juntas, trabalhando no campo, interagindo, cooperando, ou seja simplesmente andando em meio à multidão. É o caso da séria intitulada “Pessoas”, que mostra uma multidão caminhando junta. Os rostos mais variados, mulheres, homens, jovens, idosos, bebês levados ao colo, gente de toda cor. Percebe-se, no entanto, uma incompletude nos rostos, que aparecem de modo difuso, às vezes apenas o nariz, às vezes apenas os olhos, às vezes apenas um vulto indefinido. Parecem sugerir que todos estamos na mesma condição, carentes de completude, ou escondidos no anonimato da vida urbana.

Por fim, Anderson dá importância à ternura que aparece no rosto das crianças, como nos quadros “Minhas filhas” e “A Família”. Neles se vê o abraço, o apoio mútuo. Há também o belo quadro “Vilarejo”, inspirado na canção de Marisa Monte e que mostra a beleza e a leveza de um lugar simples e abençoado. Para Makoto Fujimura, outro grande artista cristão, carecemos cada vez mais de “arte, amor e beleza” (2013).

Em tudo se vê, na obra de Anderson Monteiro, uma obra de arte que traz cuidado para com a cultura, uma arte que transpira amor e beleza, que são duas grandes contribuições do artista cristão à sociedade contemporânea. Quando trata de temas do cotidiano, percebem-se nos quadros os sinais de esperança, fé e amor, que segundo Calvin Seerveld são as marcas essenciais da arte feita por cristãos. Do ponto de vista do fazer artístico, “[d]as três coisas que as Escrituras dizem que são permanentes – fé, esperança e amor – a mais humana é a esperança” (Seerveld, 2014, p. 24). E ela é a que mais se mostra nos quadros de Anderson Monteiro.

Gladir Cabral

 

 

FUJIMURA, Makoto. “Art, Love and Beauty: Introduction”. 2013. Disponível em: http://www.makotofujimura.com/writings/art-love-and-beauty-introduction/

MONTEIRO, Anderson. A Voz da Tela. Os quadros estão disponíveis em: http://avozdatela.blogspot.com.br/2008/10/blog-post.html?view=sidebar

SEERVELD, Calvin. Redemptive Art in Society. Sioux Center: Dordt Press, 2014.