Tem coisa boa chegando por aí, um documentário sobre o poeta, ambientalista e pensador Wendell Berry. O filme intitula-se Look and See: a Portrait of Wendell Berry. Vamos aguardar.

“O objetivo”
by Wendell Berry

Mesmo em sonhos eu orava para que minha visão fosse apenas medo e não profecia,
pois eu via a última paisagem conhecida ser destruída por causa
do objetivo — o solo sendo arrasado, as rochas explodidas.
Aqueles que queriam ir para casa jamais chegariam lá.
Visitei escritórios onde por causa do objetivo,
os planejadores à mesa vazia sentavam-se em fila.
Visitei as fábricas barulhentas onde as máquinas eram feitas
que avançariam sempre avante para o objetivo.
Vi a floresta ser reduzida a tocos e ravinas.
vi o rio envenenado — a montanha derramada dentro do vale;
vim à cidade que ninguém reconhecia porque se parecia com qualquer outra cidade.
Vi os caminhos gastos pelos inúmeros passos daqueles
cujos olhos estavam fixos no objetivo.
Sua passagem obliterava os túmulos e monumentos
dos que haviam morrido em busca do objetivo
e que já estavam esquecidos para sempre há muito tempo atrás,
segundo a inevitável regra de que aqueles que haviam esquecido
esqueciam-se de que haviam esquecido.

Homens e mulheres e crianças agora perseguiam o objetivo como se ninguém jamais o tivesse perseguido antes.
As raças e os sexos agora misturavam-se perfeitamente na busca do objetivo.
Os que antes eram escravos, os que então eram oprimidos,
eram agora livres para venderem-se à maior oferta
e entrar nas prisões melhor remuneradas na busca do objetivo,
que era a destruição de todos os inimigos,
que era a destruição de todos os obstáculos,
que era abrir caminho para a vitória,
que era abrir caminho para a promoção,
para a salvação,
para o progresso,
para a efetivação completa da venda,
para a assinatura do contrato,
que era abrir o caminho para a auto-realização, para a auto-criação,
do qual ninguém que um dia quisesse voltar para casa jamais o conseguiria agora,
pois todo lugar lembrado havia sido deslocado;
todo amor desamado,
todo voto desfeito,
toda palavra desmentida
para abrir caminho à passagem da multidão dos individualizados,
os autônomos, os auto-educados, os sem teto com seus muitos olhos
abertos para o objetivo que ainda não haviam percebido na longa distância,
não tendo jamais conhecido para onde estavam indo,
não tendo jamais conhecido de onde vinham.

[do livro ‘A Timbered Choir: The Sabbath Poems’ 1979-1997, by Wendell Berry, Counterpoint, 1998]

https://www.youtube.com/watch?v=cQSJfgn5Yyk

A poética de Lutero

Nem os estrondos dos tímpanos, nem o som estridente das trombetas, nem a harmonia arrastada dos órgãos, Martinho Lutero gostava mesmo era do som harpejado e aveludado do alaúde, um instrumento ancestral do violão, com o qual escreveu 36 hinos celebrando a beleza do evangelho de Jesus e os princípios da Reforma. Com essa disposição e inspiração Lutero inaugura o hino protestante ao publicar em 1529 o primeiro hinário em Wittenberg, uma coletânea para a congregação.

Lutero não entendia a arte em sua autonomia, mas sempre a serviço da fé, do ensino e da adoração. Seus hinos foram criados a partir desse compromisso primeiro com as Escrituras e com o movimento da Reforma. Sua produção musical é variada: ele versificou alguns salmos, traduziu hinos latinos, escreveu hinos originais e reciclou muitas canções e melodias do folclore alemão.

Uma das características dos hinos de Lutero é a utilização da língua alemã, em lugar do tradicional latim. Lutero queria ouvir a voz do povo e trouxe de volta ao povo o direito de participar da liturgia cantando. Lutero preocupou-se inclusive com a criança, escrevendo canções de Natal pensando em ensiná-las à luz do evangelho. Nos hinos de Natal de Lutero aparece o sentimento, a dimensão humana e redentora do evangelho, a ternura de Jesus. “Ah pequeno Jesus, querido do meu coração, vem dormir e te abrigar no santuário do meu coração, para que eu jamais venha a te esquecer”.

É preciso lembrar que, no período anterior à Reforma, o povo era proibido de cantar na Igreja em sua própria língua. De acordo com o Concílio de Basileia (1431-45), o povo só podia cantar no vernáculo ao ar livre, nas peregrinações ou nos sepultamentos. Nas capelas e catedrais, usava-se apenas o latim, que só o clero dominava.

Outra característica dos hinos de Lutero é a sua ênfase comunal. Seus hinos foram escritos de modo simples, para que fossem cantados em uníssono pela igreja. Muitos deles foram escritos na perspectiva do povo, da comunidade, como o hino baseado no Credo Niceno: “Nós cremos todos num só Deus, Criador de céu e terra. Nós todos somos filhos seus…”.

Outro aspecto importantíssimo na obra musical de Lutero é que seus hinos dialogam com as Escrituras. O próprio hino “Castelo Forte” é uma releitura do Salmo 46. E há um hino de Natal escrito por Lutero a partir do relato de Lucas 2. Nesse hino em particular, há uma sofisticação poética, o ponto de vista da canção é do anjo mensageiro que anuncia aos pastores o nascimento do menino Jesus. “Eu venho a vós dos altos céus, trazendo anúncio bom de Deus…”. Mas Lutero também escreveu em diálogo com João 1.29; Isaías 6, Salmo 130; 12; 124, Filipenses 4.7.

Lutero amava a Palavra e amava a música. Não por acaso, ele escreveu certa vez: “Depois da Palavra de Deus, a nobre arte da música é o maior tesouro do mundo”.

Gladir Cabral

“A mão”
(Gladir Cabral)

A mão que assina um documento em Brasília
Desmata mais que uma floresta em Manaus
E deixa a fome devorar as cidades
E suas bordas derramadas em pleno caos

A mão que assina um documento em Brasília
Decide a sorte dos que nunca lerão
Uma palavra escrita sobre um papel qualquer
Sequer a letra rabiscada ao pé do chão

A mão…
Que assassina uma criança nas ruas
E deixa à míngua o velho trabalhador
Que já não tem onde pousar a cabeça
E nem remédio para as dores do coração

A mão que assina um documento em Brasília
Não vê a outra que trabalha demais
E que nem sempre garante o seu ganha pão
E não terá os privilégios oficiais

E o que dizer das águas
Que passam pela ponte?
O que dizer das fontes que secarão?

O que será das aves
Que já não têm mais ninho?
O céu sem passarinho não tem canção

A mão que assina…

E prosseguem os trabalhos de captação de recurso e produção do novo CD Gentes. A ideia é de falar de pessoas que nos desafiam a ser gente. Entre os personagens lembrados, estão: Dietrich Bonhoeffer, Corrie ten Boom, Adélia Prado, Martin Luther King Jr., José Manoel da Conceição, Albert Schweitzer, John Woolman, Sadhu Sundar Singh, René Padilla, C.S. Lewis…

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https://www.catarse.me/gladircabral

Nestes tempos de polarização e de grande alvoroço político e social, lembro do teólogo protestante Dietrich Bonhoeffer, executado antes do final da II Guerra Mundial por ordem expressa de Adolf Hitler.
 
Vivendo os dilemas daquele tempo, Bonhoeffer viu a sociedade alemã se encaminhar para o fascismo, contra o qual resistiu ousadamente.
 
Suas cartas para os familiares foram publicadas no livro Resistência e Submissão, uma obra de valor incalculável do ponto de vista histórico, teológico e humano.
 
Numa das cartas ao seu irmão, Bonhoeffer escreve: “Como seria bom para nós dois se pudéssemos experimentar lado a lado estes dias para nos ajudarmos um ao outro. Mas por alguma razão deve ser ‘melhor’ que assim não seja, mas que cada um tenha de passá-lo sozinho. Sofro muito com o fato de não poder ajudar-te em nada — apenas pensando em ti, realmente, cada manhã e cada noite, quando leio a Bíblia, e ainda me lembro de ti durante o dia. Não precisas ter cuidados por mim, vou relativamente bem e tu até te admirarias se viesses visitar-me. Os companheiros aqui sempre afirmam — o que aliás muito me lisonjeia, como vês — que de mim ‘irradia tamanha tanquilidade’ e que sempre me mostro ‘tão alegre’ que tenho de me convencer de que as minhas experiências pessoais tão contrastantes devem resultar de alguma ilusão(o que de fato não consigo acreditar)” (Bonhoeffer, 30 abril 1944).
.

Segue uma singela tradução do poema de Archbald MacLeash (1892-1982). Este poema, intitulado “Arte Poética” foi primeiramente publicado em 1926.

 

Um poema deve ser palpável e mudo
Como uma fruta redonda,
Mudo
Como velhos medalhões no polegar,
Silencioso como pedra gasta e sem reboco
Dos batentes das janelas onde o musgo cresceu—
Um poema deve ser sem palavras
Como o voo dos pássaros.
                         *
Um poema deve ser imóvel no tempo
Como a lua sobe,
Abandonando, como a lua liberta
Galho por galho as árvores emaranhadas da noite,
Abandonando, enquanto a lua por trás do inverno sai,
Memória por memória, a mente—
Um poema deve ser imóvel no tempo
Como sobe a lua.
                         *
Um poema deve ser igual a:
Não verdadeiro.
Pois toda história do luto,
Uma soleira vazia e uma folha de plátano.
Por amor,
As relvas que se curvam e duas luzes sobre o mar—
Um poema não deve significar
Mas ser.

Um poema de Robert Frost (1875-1963) vai ganhando novos momentos de notoriedade e sentido: “Mending Wall”. Segue aqui uma singela tentativa de tradução.

 

 

“Consertando Muro”

(Robert Frost)

 

Tem alguma coisa que não gosta de muro,

Que faz o solo congelado se dilatar sob ele,

E derruba ao sol as pedras de cima,

E faz brechas que até duas pessoas podem passar lado a lado.

Rastros de caçadores é outra coisa:

Eu os tenho seguido de perto e feito reparos

Onde eles não deixam pedra sobre pedra,

Mas eles tiram o coelho da toca,

Para alegria dos cachorros.

As fendas a que me refiro,

Ninguém as viu ou ouviu sendo feitas,

Mas na primavera, tempo de consertar os muros, nós as encontramos ali.

Aviso meu vizinho além da colina;

E num dia nos encontramos para seguir a linha

E arrumar o muro entre nós de novo.

Mantemos o muro entre nós enquanto vamos.

A cada um, as pedras que caíram do seu lado.

E algumas são como fatias e outras são como bolas

Temos de usar encantamentos para mantê-las em equilíbrio:

“Fiquem onde estão até que viremos as costas!”

Arranhamos nossos dedos de tanto manuseá-las.

Oh, é só mais um tipo de jogo ao ar livre,

Cada um do seu lado.

É um pouco mais do que isso:

Naquele lugar, não precisamos de muro:

A propriedade dele é de pinheiros e a minha é de pomar de maçã

Minhas macieiras nunca irão invadir o terreno

E comer as pinhas sob os pinheiros dele, eu digo a ele.

Ele apenas diz: “Boas cercas fazem bons vizinhos”.

A primavera faz travessura em mim, e fico imaginando

Se consigo colocar alguma noção na cabeça dele:

“Por que elas fazem bons vizinhos? Não é

Onde há vacas? Mas aqui não tem vacas.

Antes de construir um muro, eu gostaria de saber

O que estou murando dentro ou fora,

E a quem estou querendo ofender.

Tem alguma coisa que não gosta de muros,

Que os quer derrubados”. Eu poderia dizer que são ”elfos” para ele,

Mas não são elfos exatamente, e eu preferiria

Que ele dissesse por si mesmo. Eu o vejo lá

Carregando uma pedra firmemente agarrada pelo topo

Em cada mão, como um selvagem armado da idade da pedra.

Ele se move nas trevas, ao que me parece,

Não de florestas apenas e de sombra de árvores.

Ele não ultrapassará os ditados do seu pai,

E se orgulha de ter tudo muito bem pensado,

E diz de novo: “Boas cercas fazem bons vizinhos”.