Peregrinos

José e Maria, grávida do menino Jesus, eles eram refugiados, exilados, peregrinos. Eles conheceram a dor do desamparo e de recomeçar a vida a partir de ruínas, mas carregando sempre dentro de si a esperança: um Deus escondido.

“A La Huella”
(Ariel Ramirez e Felix Luna)

Ao caminho, ao caminho,
José e Maria.
Pelos pampas gelados,
Cardos e urtigas.

Ao caminho, ao caminho,
Cortando o campo,
Sem abrigo nem manto,
Sigam andando.

Ai florzinha do campo
Dançando ao vento
Se ninguém te protege
Do sofrimento

Onde nasces, florzinha
Que estás crescendo?
Passarinho assustado,
Grilo sem sonho.

Ao caminho, ao caminho,
José e Maria,
Com um Deus escondido,
Ninguém sabia.

Ao caminho, ao caminho,
Os peregrinos.
Quem empresta um ranchinho
Pro meu menino?

Ao caminho, ao caminho,
Ao sol e à lua.
Meus olhinhos de amêndoa
Que noite escura!

Ai, burrinho do campo,
Burrinho pardo.
Vai nascer o meu filho,
Quanto trabalho!

Só um ranchinho de palha


É que me ampara.
Dois alentos amigos
E a lua clara.Ao caminho, ao caminho,
José e Maria,
Com um Deus escondido,
Ninguém sabia.

 

Holy Sonnets: Death, be not proud

death

..

 

Morte, não te orgulhes, embora alguns te chamem de

Poderosa e terrível, pois não és nada disso;

Pois aqueles que pensas derrubar

Não morrem, pobre Morte, nem podes matar-me.

.

Do descanso e do sono, que são apenas tua representação,

Mais prazer, do que de ti, muito mais deve fluir,

E logo nossos melhores homens irão contigo,

Para descanso de seus ossos e libertação de suas almas.

.

Tu és serva do destino, do acaso, de reis e de homens desesperados,

E moras com o veneno, a guerra e a doença,

E o ópio ou encantamentos podem nos fazer dormir tanto quanto tu

.

Ou melhor do que teu golpe; por que te vanglorias, então?

Passado breve sono, acordamos eternamente

E a morte não mais haverá; Morte, tu morrerás.

Usamos a Máscara

paul-dunbar2Paul Laurence Dunbar (1872-1906) foi o primeiro grande escritor negro a ser reconhecido nos Estados Unidos e na Inglaterra. Na aula de Literatura Norte-Americana de hoje na Unesc, lemos juntos e comentamos este poema: “We Wear the Mask” (Nós usamos a máscara). Este é um poema que fala de preconceito e exclusão. Fala da estratégia do poeta de esconder sua verdadeira identidade a fim de proteger sua vida. Em tempos de racismo solto, de preconceitos vários, o poema continua fazendo sentido.

 

Eis aqui uma tentativa de tradução:

 

“Usamos a Máscara”

 

 .
Usamos a máscara que sorri e mente,
Ela esconde nosso rosto e sombreia nossos olhos,—
Pagamos esse preço da malícia humana;
Com coração quebrantado e sangrando, sorrimos,
E a boca cheia de miríades de sutilezas.
.
Por que deveria o mundo saber de tudo,
Ao saber de todas as nossas lágrimas e suspiros?
Não, que eles apenas nos vejam enquanto
       Usamos a máscara.
.
Sorrimos, mas, ó grande Cristo, nossos clamores
A ti brotam de almas torturadas.
Cantamos, mas a lama é vil
Sob nossos pés, e longa é a milha;
Mas que o mundo sonhe outra coisa,
       Nós usamos a máscara!

 

 

Quintana e Botticelli

botticelli_annunciazione_di_cestello_02O poeta Mário Quintana era apreciador de toda sorte de arte: cinema, música, teatro, pintura. Em seu breve poema intitulado “If…”, faz uma homenagem a um belíssimo quadro de Sandro Botticelli: “Anunciação de Cestello”. Pode-se dizer que é uma breve análise do quadro em forma de poesia.

 

If…

 

E até hoje não me esqueci

Do Anjo da Anunciação no quadro de Botticelli:

Como pode alguém

Apresentar-se ao mesmo tempo tão humilde e cheio de tamanha dignidade?

Oh! tão soberanamente inclinado…

Se pudéssemos ser como ele!

Os Anjos dão tudo de si

Sem jamais se despirem de nada.

 

— Mário Quintana

Eu sou aquele

EU SOU AQUELE
(Mário Quintana)

Eu sou aquele que, estando sentado a uma janela,
a ouvir o Apóstolo das Gentes,
adormeci e caí do alto dela.
Nem sei mais se morri ou fui miraculado:

Consultai os Textos, no lugar competente
o que importa é que o Deus que eu tanto ansiava
como uma luz que se acendesse de repente,
era-me vestido com palavras e mais palavras

e cada palavra tinha o seu sentido…
Como as entenderia eu tão pobre de espírito
como era simples de coração?

E pouco a pouco se fecharam os meus olhos…
e eu cada vez mais longe… no acalanto
de uma quase esquecida canção…

[gravura de Alison Lambert, 2011]

lambert_eutychus_2011