Gentes

E prosseguem os trabalhos de captação de recurso e produção do novo CD Gentes. A ideia é de falar de pessoas que nos desafiam a ser gente. Entre os personagens lembrados, estão: Dietrich Bonhoeffer, Corrie ten Boom, Adélia Prado, Martin Luther King Jr., José Manoel da Conceição, Albert Schweitzer, John Woolman, Sadhu Sundar Singh, René Padilla, C.S. Lewis…

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Raio de Sol

Nestes tempos de polarização e de grande alvoroço político e social, lembro do teólogo protestante Dietrich Bonhoeffer, executado antes do final da II Guerra Mundial por ordem expressa de Adolf Hitler.
 
Vivendo os dilemas daquele tempo, Bonhoeffer viu a sociedade alemã se encaminhar para o fascismo, contra o qual resistiu ousadamente.
 
Suas cartas para os familiares foram publicadas no livro Resistência e Submissão, uma obra de valor incalculável do ponto de vista histórico, teológico e humano.
 
Numa das cartas ao seu irmão, Bonhoeffer escreve: “Como seria bom para nós dois se pudéssemos experimentar lado a lado estes dias para nos ajudarmos um ao outro. Mas por alguma razão deve ser ‘melhor’ que assim não seja, mas que cada um tenha de passá-lo sozinho. Sofro muito com o fato de não poder ajudar-te em nada — apenas pensando em ti, realmente, cada manhã e cada noite, quando leio a Bíblia, e ainda me lembro de ti durante o dia. Não precisas ter cuidados por mim, vou relativamente bem e tu até te admirarias se viesses visitar-me. Os companheiros aqui sempre afirmam — o que aliás muito me lisonjeia, como vês — que de mim ‘irradia tamanha tanquilidade’ e que sempre me mostro ‘tão alegre’ que tenho de me convencer de que as minhas experiências pessoais tão contrastantes devem resultar de alguma ilusão(o que de fato não consigo acreditar)” (Bonhoeffer, 30 abril 1944).
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Arts Poetica

Segue uma singela tradução do poema de Archbald MacLeash (1892-1982). Este poema, intitulado “Arte Poética” foi primeiramente publicado em 1926.

 

Um poema deve ser palpável e mudo
Como uma fruta redonda,
Mudo
Como velhos medalhões no polegar,
Silencioso como pedra gasta e sem reboco
Dos batentes das janelas onde o musgo cresceu—
Um poema deve ser sem palavras
Como o voo dos pássaros.
                         *
Um poema deve ser imóvel no tempo
Como a lua sobe,
Abandonando, como a lua liberta
Galho por galho as árvores emaranhadas da noite,
Abandonando, enquanto a lua por trás do inverno sai,
Memória por memória, a mente—
Um poema deve ser imóvel no tempo
Como sobe a lua.
                         *
Um poema deve ser igual a:
Não verdadeiro.
Pois toda história do luto,
Uma soleira vazia e uma folha de plátano.
Por amor,
As relvas que se curvam e duas luzes sobre o mar—
Um poema não deve significar
Mas ser.

Mending Wall

Um poema de Robert Frost (1875-1963) vai ganhando novos momentos de notoriedade e sentido: “Mending Wall”. Segue aqui uma singela tentativa de tradução.

 

 

“Consertando Muro”

(Robert Frost)

 

Tem alguma coisa que não gosta de muro,

Que faz o solo congelado se dilatar sob ele,

E derruba ao sol as pedras de cima,

E faz brechas que até duas pessoas podem passar lado a lado.

Rastros de caçadores é outra coisa:

Eu os tenho seguido de perto e feito reparos

Onde eles não deixam pedra sobre pedra,

Mas eles tiram o coelho da toca,

Para alegria dos cachorros.

As fendas a que me refiro,

Ninguém as viu ou ouviu sendo feitas,

Mas na primavera, tempo de consertar os muros, nós as encontramos ali.

Aviso meu vizinho além da colina;

E num dia nos encontramos para seguir a linha

E arrumar o muro entre nós de novo.

Mantemos o muro entre nós enquanto vamos.

A cada um, as pedras que caíram do seu lado.

E algumas são como fatias e outras são como bolas

Temos de usar encantamentos para mantê-las em equilíbrio:

“Fiquem onde estão até que viremos as costas!”

Arranhamos nossos dedos de tanto manuseá-las.

Oh, é só mais um tipo de jogo ao ar livre,

Cada um do seu lado.

É um pouco mais do que isso:

Naquele lugar, não precisamos de muro:

A propriedade dele é de pinheiros e a minha é de pomar de maçã

Minhas macieiras nunca irão invadir o terreno

E comer as pinhas sob os pinheiros dele, eu digo a ele.

Ele apenas diz: “Boas cercas fazem bons vizinhos”.

A primavera faz travessura em mim, e fico imaginando

Se consigo colocar alguma noção na cabeça dele:

“Por que elas fazem bons vizinhos? Não é

Onde há vacas? Mas aqui não tem vacas.

Antes de construir um muro, eu gostaria de saber

O que estou murando dentro ou fora,

E a quem estou querendo ofender.

Tem alguma coisa que não gosta de muros,

Que os quer derrubados”. Eu poderia dizer que são ”elfos” para ele,

Mas não são elfos exatamente, e eu preferiria

Que ele dissesse por si mesmo. Eu o vejo lá

Carregando uma pedra firmemente agarrada pelo topo

Em cada mão, como um selvagem armado da idade da pedra.

Ele se move nas trevas, ao que me parece,

Não de florestas apenas e de sombra de árvores.

Ele não ultrapassará os ditados do seu pai,

E se orgulha de ter tudo muito bem pensado,

E diz de novo: “Boas cercas fazem bons vizinhos”.

 

 

 

Peregrinos

José e Maria, grávida do menino Jesus, eles eram refugiados, exilados, peregrinos. Eles conheceram a dor do desamparo e de recomeçar a vida a partir de ruínas, mas carregando sempre dentro de si a esperança: um Deus escondido.

“A La Huella”
(Ariel Ramirez e Felix Luna)

Ao caminho, ao caminho,
José e Maria.
Pelos pampas gelados,
Cardos e urtigas.

Ao caminho, ao caminho,
Cortando o campo,
Sem abrigo nem manto,
Sigam andando.

Ai florzinha do campo
Dançando ao vento
Se ninguém te protege
Do sofrimento

Onde nasces, florzinha
Que estás crescendo?
Passarinho assustado,
Grilo sem sonho.

Ao caminho, ao caminho,
José e Maria,
Com um Deus escondido,
Ninguém sabia.

Ao caminho, ao caminho,
Os peregrinos.
Quem empresta um ranchinho
Pro meu menino?

Ao caminho, ao caminho,
Ao sol e à lua.
Meus olhinhos de amêndoa
Que noite escura!

Ai, burrinho do campo,
Burrinho pardo.
Vai nascer o meu filho,
Quanto trabalho!

Só um ranchinho de palha


É que me ampara.
Dois alentos amigos
E a lua clara.Ao caminho, ao caminho,
José e Maria,
Com um Deus escondido,
Ninguém sabia.

 

Holy Sonnets: Death, be not proud

death

..

 

Morte, não te orgulhes, embora alguns te chamem de

Poderosa e terrível, pois não és nada disso;

Pois aqueles que pensas derrubar

Não morrem, pobre Morte, nem podes matar-me.

.

Do descanso e do sono, que são apenas tua representação,

Mais prazer, do que de ti, muito mais deve fluir,

E logo nossos melhores homens irão contigo,

Para descanso de seus ossos e libertação de suas almas.

.

Tu és serva do destino, do acaso, de reis e de homens desesperados,

E moras com o veneno, a guerra e a doença,

E o ópio ou encantamentos podem nos fazer dormir tanto quanto tu

.

Ou melhor do que teu golpe; por que te vanglorias, então?

Passado breve sono, acordamos eternamente

E a morte não mais haverá; Morte, tu morrerás.

Usamos a Máscara

paul-dunbar2Paul Laurence Dunbar (1872-1906) foi o primeiro grande escritor negro a ser reconhecido nos Estados Unidos e na Inglaterra. Na aula de Literatura Norte-Americana de hoje na Unesc, lemos juntos e comentamos este poema: “We Wear the Mask” (Nós usamos a máscara). Este é um poema que fala de preconceito e exclusão. Fala da estratégia do poeta de esconder sua verdadeira identidade a fim de proteger sua vida. Em tempos de racismo solto, de preconceitos vários, o poema continua fazendo sentido.

 

Eis aqui uma tentativa de tradução:

 

“Usamos a Máscara”

 

 .
Usamos a máscara que sorri e mente,
Ela esconde nosso rosto e sombreia nossos olhos,—
Pagamos esse preço da malícia humana;
Com coração quebrantado e sangrando, sorrimos,
E a boca cheia de miríades de sutilezas.
.
Por que deveria o mundo saber de tudo,
Ao saber de todas as nossas lágrimas e suspiros?
Não, que eles apenas nos vejam enquanto
       Usamos a máscara.
.
Sorrimos, mas, ó grande Cristo, nossos clamores
A ti brotam de almas torturadas.
Cantamos, mas a lama é vil
Sob nossos pés, e longa é a milha;
Mas que o mundo sonhe outra coisa,
       Nós usamos a máscara!