Resenha do livro Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente*, de Edward Said

 

 

“Ela nunca falou de si mesma, ela nunca representou suas emoções, sua presença, ou a sua história. Ele falou por e representou ela. Ele era estrangeiro, comparativamente rico, do sexo masculino, e estes foram os fatos históricos de dominação que permitiram a ele não só possuir fisicamente Kuchuk Haman, mas de falar por ela e dizer aos seus leitores de que formas ela era “tipicamente Oriental”.

– Edward Said

 

Pintura orientalista, anonima, Venesiana: A recepção dos embaixadores em Damasco, de 1511, no Museu do Louvre. (Detalhe da imagem: Os cervos com chifres no fundo da pintura nunca existiram na Fauna silvestre da Síria.)

 

Como entendemos e nos relacionamos com o Oriente, em particular aqueles que vivem e são provenientes das “Terras da Bíblia”? Quem decide quais são os ‘valores’ do Leste, no que ele acredita, o que ele deseja? Por que “eles” são considerados tão diferentes de “nós”?

Em “Orientalismo”, um texto fundamental para os estudos pós-coloniais, Edward Said argumenta que a hegemonia histórica e cultural do Ocidente sobre o Oriente, como um colonizador, um ocupante, e um opressor ao longo dos últimos três séculos, resultou na “criação” do ‘Oriente’ ou, como denomina o autor, na “orientalização”, pelo Ocidente. Ou seja, o Ocidente, em primeiro lugar a Europa e, em seguida, a América (após a Segunda Guerra Mundial), foi capaz de decidir – e continua decidindo – o que é o Oriente, uma vez que “a relação entre o Ocidente e o Oriente é uma relação de poder, de dominação, de vários graus de uma hegemonia complexa”. O que é preeminente sobre o Oriente não é a sua existência, mas o que é dito sobre ele.

Uma forma de entender o “Orientalismo” é vê-lo como um “estilo de pensamento” que insiste afirmar que há um “nós” e um “eles”, e que “eles” são muito diferentes, ontológica e epistemologicamente, de “nós”. Esta “distinção básica” foi aceita por todos, desde poetas e romancistas ate cientistas políticos e economistas. Ela tem sido usado como uma plataforma para lançamento de “teorias elaboradas, épicos, novelas, descrições sociais e narrativas políticas a respeito do Oriente, o seu povo, sua conduta, sua “mente”, seu destino, e assim por diante. “Eles” têm sido inferior ao “nós” europeu e americano. “Eles” são atrasados, “eles” não compartilham “nossos” valores. “Eles” são … diferentes, inferiores.

Outro significado de “Orientalismo” é o de uma “instituição corporativa para lidar com o Oriente – lidar com ele pela via de fazer declarações sobre ele, autorizandovisões sobre ele, descrevendo-o, ensinando-o, ocupando-o, governando-o: em suma, Orientalismo como um estilo ocidental para dominar, reestruturar e ter autoridade sobre o Oriente”. Longe de ser uma “fantasia Europeia frívola”, que pode ser facilmente descartada, o orientalismo é um “órgão criado entre teoria e prática”, em que foi investido fortemente e ao que se foi adicionando elementos ao longo de muitas gerações. Said argumenta que o “Orientalismo” deve ser estudado como um discurso a fim de compreender a dimensão dessa disciplina sistemática, através do qual o Ocidente gerenciou e produziu o Oriente em todas as formas possíveis – politicamente, sociologicamente, militarmente, ideologicamente, cientificamente, e imaginativamente .

O discurso do Orientalismo é tão autoritário que “ninguém que escrevesse, pensasse ou agisse sobre o Oriente poderia [ou pode] fazê-lo sem ter em conta as limitações em pensamento e ação imposta pelo orientalismo…Em suma, por causa do Orientalismo o Oriente não foi (e não é) um sujeito livre para pensar ou agir”.

Enquanto oramos pela paz no Oriente Médio e no Norte da África, enquanto lamentamos a morte de seres humanos, devemos ter cuidado com quais conclusões fazemos sobre o Oriente. Devemos questionar a lente através da qual vemos aqueles que são supostamente tão diferentes de nós. Devemos ser pró-ativos na busca de ouvir as vozes daqueles que são oriundos e/ou vivem dentro das ‘terras da Bíblia’. E devemos questionar o uso dessa proclamada diferença para justificar a guerra, a islamofobia, a ocupação e a violência.

 

Sharone Birapaka**

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**Formada em Relações Humanas e Religião (Concordia University, Canadá), e mestranda em Estudos Interdisciplinares (Athabasca University, Canadá)

* Said, Edward W. Orientalism. New York: Vintage, 1979. Print.