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http://www.forumrio.org/noticias/artigo-um-dia-internacional-e-as-mortes-que-nao-queremos-rememorar/

 

Poucos se lembram que, em uma semana, completa um ano que uma favelada foi brutalmente assassinada durante (mais) uma operação da Polícia Militar em favelas cariocas. Daquela vez, no Morro da Congonha, em Madureira. Daquela vez, era Cláudia dos Santos Ferreira. Foi arrastada no asfalto por cerca de 300 metros por um carro da PM, depois de ter levado um tiro quando saiu de sua casa para comprar pão. Ela daria café aos filhos naquela tarde.

Hoje, Dia Internacional da Mulher, lembremos de Cláudia. Mas também das mortes que não queremos, futuramente, rememorar. Pensemos nas faveladas que, ao contrário dela, seguem sobrevivendo em meio à luta e ao sonho, tentando construir um espaço habitável para si, para seus filhos ou seus pares. As mulheres cujas dificuldades banalizamos por serem tão “comuns”, tão recorrentes, tão obviamente absurdas.

Gizele Martins, 29 anos, é moradora do conjunto de favelas da Maré desde que nasceu. Foi criada por sua avó na Baixa do Sapateiro, em uma rua-fronteira entre duas facções rivais de traficantes: “Acontecia e ainda acontece tiroteio todos os dias. Vi inúmeros mortos, casas invadidas, polícia atirando, caveirão. Vi muita gente morrendo ali”.

Gizele sobreviveu. Formada em jornalismo, construiu por 10 anos um dos maiores jornais comunitários da cidade, o jornal O Cidadão. Hoje, é diretora do Sindicato dos Jornalistas e militante pela democratização da comunicação, entre outras tantas atividades.

Ela ainda vive na Maré com sua avó, em outra casa, que comprou na esperança de ter dias mais tranquilos. Infelizmente, não é o que vem acontecendo. Gizele testemunha atualmente um dos períodos mais caóticos já vividos ali. Há quase um ano, tropas das Forças Armadas invadiram o conjunto de favelas, ocupando as ruas com seus tanques de guerra, vestindo fardas camufladas, armados até os dentes. É com estas figuras que Gizele se depara todos os dias na porta de sua casa: “Moro numa favela em que quase não é mais possível militar, lutar. Cada tanque daquele tira as nossas forças. Eles parecem ser bem maiores que nós”.

 

Gizele Martins: a luta das mulheres do Complexo da Maré

(Imagem: Gizele Martins: a luta das mulheres do Complexo da Maré)

A homenagem que queremos

Lilian Barbosa, nascida e criada em Japeri, Baixada Fluminense, deu à luz Lívia há sete anos. O parto quase levou as duas à morte. Com complicações físicas e psicológicas, a mãe teve de interromper o curso de matemática na Universidade Federal Fluminense (UFF). Foram dois meses até voltar a andar, além da depressão. “A saúde da mulher, e da mulher negra, ainda é uma grande questão”, diz.

Hoje, mãe e filha vivem no morro Chapéu Mangueira, que Lilian considera uma “favela militarizada pela UPP”. A menina já teve um arma apontada em sua direção por um policial. Com a bolsa que recebe da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde cursa atualmente Serviço Social, Lilian tenta se manter, criar sua filha e pagar o aluguel. Quando a menina pede alguma coisa que não é possível comprar, a mãe brinca que “não é mulher do Eike”.

Lilian se aproximou da militância política na Igreja Católica, quando adolescente, e foi ameaçada de morte inúmeras vezes pelos “grupos de extermínio da Baixada”. Jovem, negra, comunista, mãe solteira, favelada (ou “periferada”), ela se diz “militante contra o machismo, o racismo, a homofobia e todas as formas de opressão das quais o capitalismo se apropriou”. Soma a estes sonhos a vontade de dar à filha mais espaço para a infância: “Colocá-la no balé”.

Viver num mundo menos opressor é o sonho dessas mulheres. Um sonho que elas constroem todos os dias. Este é um texto sobre a homenagem que queremos hoje. Eu te proponho que dispense as flores e se junte à luta dessas mulheres. Que se lembre de Cláudia e da necessidade tão urgente de garantir às mulheres negras, faveladas, pobres, o direito mais básico: o direito à vida. Homenageie uma mulher hoje: faça algo para que, um dia, possamos comemorar de fato o Dia Internacional da Mulher, quando nossas vidas não estiverem tão fragilmente equilibradas sobre a linha que nos separa da morte.

 

 

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Marília Gonçalves é jornalista com especialização em Sociologia Urbana, mestranda em Ciências Sociais na UERJ e feminista em formação. Atua no campo da Comunicação Comunitária, fazendo pesquisa, extensão e militância.