Outro dia apreciava um filme intitulado “O Monstro”, protagonizado por Roberto Begnini (o mesmo ator de “A vida é bela”), cujo roteiro descrevia as trapalhadas criadas quando o protagonista principal é confundido com um maníaco sexual que abusava sexualmente e depois matava suas vítimas. O filme trata de um tema delicado – abuso sexual e violência – de forma cômica e um tanto irreverente, mas nos trás à mente esta figura temível, em todo seu estereotipo – o abusador sexual! Exatamente sobre esta figura “temível”  ‘que eu gostaria de refletir nas linhas abaixo.

O primeiro dado a ser apontado é que os estudos (não quero citá-los aqui, mas aos que desejarem posso enviar as referências por e-mail) nos revelam que a maioria das pessoas que cometem abuso sexual foram vítimas do mesmo na sua infância/adolescência. Este é um dado significativo, pois mostra em primeiro lugar que há uma correlação muito forte entre vítima/algoz. Não cito o dado estatístico no intuito de justificar o abusador, desresponsabilizando-o de suas ações e colocando-o no papel de “vítima inocente” reprodutora de um trauma da infância – longe de mim tal intento e, mesmo porque, o contrário não é verdadeiro, ou seja, nem todas as pessoas que sofreram abuso sexual em sua infância tornam-se abusadores. Todavia extraiamos algumas lições que a estatística nos ensina.

Em primeiro lugar, essa pessoa que parece a nós um monstro, algum dia esteve nas garras de um monstro similar. E que relevância tem este fato? Muita! Uma criança que é abusada sexualmente tem sua sexualidade despertada muito precocemente, fazendo com que sua perspectiva da sexualidade seja muito imatura, mesclando o prazer biológico com a culpa e a violência (emocional e mesmo física) com que foi iniciada sexualmente.

Desta forma, essa pessoa crescerá com uma visão negativa da sexualidade, desvinculando a mesma de todo o aspecto afetivo e relacional. Para ela, a prática sexual passa a ser vista como algo violento, impositivo e que, embora tenha um potencial muito alto de gerar prazer físico, está desvinculada do afetivo e do relacional. Quando tal pessoa torna-se adulta, ela vai reproduzir nos seus relacionamentos este modelo introjetado da vivência da sexualidade, ou seja, uma vivência violenta, desprovida de afeto e sem necessariamente ser resultado de um relacionamento significativo.

Em segundo lugar, alguns estudiosos do assunto afirmam também que uma criança abusada interrompe o curso natural de seu desenvolvimento psicossexual, ocorrendo uma espécie de “paralisação” deste desenvolvimento na idade em que sofreu o abuso. Assim sendo, os abusadores seriam pessoas imaturas sexualmente e que, portanto, estariam ainda buscando “parceiros sexuais” a quem pudessem dominar plenamente na relação, a fim de não lhes causar a ansiedade de serem dominados, rememorando os momentos de dor vividos em sua própria história.

Sabe-se que nem todas as crianças que foram abusadas sexualmente tornam-se, na idade adulta, abusadores de outras crianças, mas o fato certo é que grande parte das pessoas abusadas sexualmente em sua infância terão problemas no exercício de uma sexualidade saudável na idade adulta. Problemas como frigidez, sado-masoquismo e até algumas perversões sexuais têm em sua base o abuso sexual sofrido na infância. Também problemas que tecnicamente (CID) são denominados de “Transtorno de Maturação Sexual” e também “Orientação Sexual Egodistônica”.

Em base destas constatações clínicas pode-se perguntar: o que fazer quando se depara com uma pessoa com problemas nesta área? Será que o isolamento social, a punição legal, a rejeição, ajudariam a uma pessoa assim a solucionar seus problemas? Outra pergunta mais incisiva: Esta pessoa também é fruto do amor incondicional de Deus? A graça de Deus também alcança pessoas assim perversas que abusam de crianças indefesas?

Creio que primeiramente devemos afirmar nossa convicção que a graça de Deus atinge todas as pessoas em sua condição de pecadoras (Romanos 5:8). Desta forma temos que entender que Deus quer a reabilitação destas pessoas porque Ele as ama. Também entendemos que Deus quer que os cristãos, sejam seus instrumentos de restauração de vidas e de reconciliação das pessoas com Ele mesmo (II Coríntios 5:19-19). Portanto devemos superar nossos preconceitos pessoais e o errôneo entendimento de que há diferenciação de pecados diante de Deus, e nos dispormos a sermos instrumentos de reconciliação para aqueles que praticaram o abuso sexual.

Finalmente é importante afirmarmos que um problema tão sério como a questão de um abuso sexual não deve ser tratada com leviandade. É imperioso o entendimento que o abusador necessita de um tratamento profundo de sua alma! Uma pessoa experiente que possa estar acompanhando este abusador na “transformação de sua mente” (Romanos 12:2) – preferencialmente um profissional na área de psicologia e que já tenha algum manejo nestas questões de abuso sexual. Falo isto especialmente porque muitos cristãos hoje em dia têm se arvorado no direito de serem “experts” na área emocional e aplicam técnicas da chamada “cura interior” de forma acriteriosa em sem as habilidades necessárias para atingir o foco das questões, acabando por causar mais mal que bem.

Que Deus nos dê compaixão e sabedoria para acompanharmos tais pessoas e sermos instrumentos de restauração nestas vidas!