História
Eu nunca tinha parado para pensar na minha história com a finalidade de escrever sobre ela. Vai ser a minha primeira experiência. Vou contar um pouco sobre essa trajetória. Vamos nessa?
MEUS PAIS
Meu pai é Feitoza, de uma cidade histórica do ciclo do ouro em Goiás chamada Crixás. Cresceu entre as árvores do cerrado, dançando catira, tocando caixa em folia de reis. Na adolescência, mudou-se para a cidade de Goiás, para fazer o segundo grau. Minha mãe, de família tradicional goiana, é a filha mais velha dos Veiga Jardim com os Alencastro Veiga. Seus pais eram primos de primeiro grau. Fiquei sabendo que Ozair e Célia, meus pais, conheceram-se num 7 de setembro, quando assistiam à Parada Cívica na Avenida Goiás, em Goiânia. Olho no olho, paixão à primeira vista. Um tempo depois se casavam.
Eu sou o primeiro filho de quatro irmãos. Nasci em Goiânia, em fevereiro de 1963. Cresci num ambiente bastante favorável à música. Não havia reunião da família, por lado de pai ou de mãe, que não houvesse violão e cantoria. Tios, primos, avós, todos cantavam. Família festeira, amante das serenatas.
FORMAÇÃO MUSICAL
Aos oito anos comecei a dar os primeiros sinais de que teria o violão por companheiro. Aos doze, com a contrariedade típica de adolescente, tocava mal-humorado nas festas da família, com o meu “Rei dos violões”, presenteado pelo meu pai. Com treze anos, participei do meu primeiro programa de TV cantando uma canção no O Mundo é das Crianças, da Magda Santos, na TV Anhanguera. É brega, mas tá registrado… não posso negar.
Um dia, chegando à casa da minha vó Elza, vi no quarto do meu tio um instrumento diferente. Tinha 10 cordas e era muito parecido com o violão. Foi quando fiquei sabendo que era uma viola caipira. Fiquei apaixonado pelo som. Estava com 13 para 14 anos. Era o meu primeiro contato com a viola, embora sua sonoridade me fosse muito familiar.
Aos 17 anos, meu tio Gustavo Veiga, músico tarimbado na noite goianiense, me introduziu no palco de um boteco. Até então não tinha encarado um público com tamanha responsabilidade. Quando percebi, estava eu lá, sozinho, cara a cara com aquele povo me assistindo. Foi muito legal. Mas o meu pai cortou logo o barato. Ele não queria que eu vivesse aquele estilo de vida noturna, principalmente pela idade que tinha.
No final de 1980, aos 17, quase 18, estava me preparando para o vestibular e me aproximei de um primo da mesma idade, o Israel Pessoa. Ele era cristão e eu não sabia… Naquela fase, ele praticamente se mudou para minha casa, e nós nos preparamos juntos para o vestibular. Só que a gente era “viciadérrimo” em música e começou a cantar e a tocar violão o tempo todo. A gente fazia de MPB a sertanejo. Nessa época, não foi nem uma nem duas vezes que tivemos que acordar tarde da noite, às vezes alta madrugada, para cantar pro pessoal que chegava lá por casa. Eles iam para nos ouvir. Na época até convite para fazer shows recebemos. Mas não levamos a sério. Sertanejo não era nossa praia. Na verdade a gente fazia aquilo de onda. A gente curtia mesmo era Chico Buarque, Milton Nascimento, Boca Livre, esses lances bem MPB. Num sábado à tarde, fomos chamados pra cantar para um pessoal que apareceu lá em casa. Estavam na sala um menino franzino, mais ou menos da nossa idade, e um sanfoneiro de mais idade. Anos depois fiquei sabendo que era o Zezé Di Camargo…
ENCONTRO COM JESUS
Em janeiro de 1981, visitei pela primeira vez a igreja do meu primo Israel. Fui muito bem recebido, e o pessoal me convidou para participar de um acampamento. Fiz minha inscrição, atraído pela novidade. Não podia imaginar o que me aguardava. Eu e a Rosana, minha irmã, pouco mais nova que eu, tivemos um ma-ra-vi-lho-so encontro com Jesus. Conversão pra valer. Era o dia 21 de janeiro de 1981, uma semana após o vestibular.
Um mês depois eu estava com 18 anos, fazendo Física na faculdade e convertido. Mudança radical. Confesso que no início foi muito difícil. A minha família pegou muito no meu pé por causa da fé que eu havia abraçado. Meus tios, aos poucos, foram se afastando de mim. Fiquei meio solitário na escola. Mas Deus me deu tranquilidade, e eu comecei a entender que a fé implica rejeições, não porque a gente queira ou comece a agir diferente, como “fanáticos”, creio que isso não aconteceu comigo. Mas o simples fato de dizer que agora Jesus é seu Senhor afasta as pessoas.
Fui crescendo na fé enquanto via Deus realizando uma obra fantástica em toda a minha família: a Rosana, que havia conhecido Jesus no mesmo acampamento em que eu, estava crescendo bastante na fé; depois foi a vez de o caçula, o Fernando, aceitar a Jesus na porta de casa, enquanto eu explicava para ele o filme Refúgio Secreto. Um tempo depois, foi a vez do Ricardo, após um culto na igreja.
Nessa época eu já estava bem ligado nas coisas de Deus. Eu e a Rosana participávamos do conjunto da mocidade: eu, no vocal e na guitarra, ela, no vocal. Com esse grupo eu vi pela primeira vez uma música minha vencer um festival, com uma canção feita em parceria com o amigo Lívio Luciano.
CONJUNTO DA MPC GOIÂNIA
Lembro-me, como se fosse hoje, da manhã de domingo em que conheci o Conjunto da MPC Goiânia. Eles foram à minha igreja cantar. O Israel, nessa época, cantava no grupo. Eu, que amava a música brasileira, fui deixando aos poucos o gosto de lado porque não conhecia esse tipo de som na igreja. Quando pintava alguma coisa, era uma bossa com suingue de japonês, duro, duro… Pra ficar ruim, tinha que melhorar muito… Mas, quando vi aquele conjunto cantando, percebi que era possível conciliar a brasilidade com a fé. Foi maravilhoso. Pouco tempo depois, eu estava cantando e tocando com o grupo, a convite da líder, Cláudia Barbosa. Quem diria… Três anos depois ela viria a ser minha mulher.
Com a MPC a música deslanchou. Nós éramos convidados a cantar em vários lugares: escolas, teatros, praças, jantares etc. Nessa época viajamos para Belo Horizonte para cuidar da música no acampamento da MPC. No grupo estávamos eu, Reny, Israel, Stives, Juninho Pimenta, Cláudia, Valéria, Zu, Gleide e Mônica. Não é por nada não, mas arrebentávamos no vocal…
EXPRESSO LUZ
Em 85, decidimos colocar nome no grupo. Passou a se chamar Expresso Luz. Introduzimos instrumentos como o baixo elétrico, a bateria e a percussão.
Em dezembro de 86, eu me casei com a Cláudia. Nessa época eu já era o secretário executivo da MPC Goiânia. Numa dessas viagens com o Expresso, para um acampamento em Ribeirão Preto, convidaram a gente pra gravar um disco. Ficamos malucos, sem acreditar. Gravação em 1987 era coisa de outro mundo…
Embarcamos para o Rio de Janeiro na camionete Veraneio do Tico (baterista do grupo). Ficamos na casa do Emanoel, da MPC do Rio, na Ilha do Governador. O estúdio era em Ricardo de Albuquerque, na Baixada Fluminense. Todo dia a gente encarava a Avenida Brasil na hora do rush. Teria sido uma experiência maravilhosa, se não fosse a crise por que passou o grupo logo depois da gravação. Por uma série de razões, metade dos integrantes saiu do Expresso, antes de a prensagem do disco ser concluída. Foram dias de muito sofrimento pra turma que ficou.
Mas eu, Cláudia, Zu, Gleide e Mônica arregaçamos as magas e fomos à luta. Começamos a orar e a correr atrás de gente pra levantar o grupo. Conheci o Olemir, grande guitarrista. Começamos a nos encontrar para tocar juntos. Senti firmeza no rapaz. Convidamos também o David Izacc pra cantar com a gente. Ele havia feito a capa do LP e namorava a Mônica. Ele era também o compositor de uma das canções do grupo. Faltava um batera. Fiquei sabendo de um baterista que se havia convertido e que andava pelos cantos, só dando aula. Liguei pra ele e marquei um encontro em frente ao Teatro Goiânia. A gente não se conhecia e se identificou pela roupa. Desafiei o cara a entrar com a gente no barco, e ele topou, apesar de meio indeciso. Era o Décio.
Pronto… O time estava completo: Cláudia, na flauta transversal e nos teclados; eu, no baixo e no vocal; Olemir, na guitarra e no violão; David, no vocal e na percussão; Décio, na bateria; Mônica, Gleide e Zu, no vocal.
Nessa época a gente estava praticamente sem compositores. Tinha saído todo mundo. O David compunha, mas era muito trabalho para um cara só. Foi quando comecei a escrever minhas primeiras músicas pro Expresso: Esperança, Salmo do Passarim…
Nós viajamos muito nessa época. Estivemos no Nordeste; fizemos uma viagem de 15 dias pelo Sudeste (Uberlândia, Uberaba, Belo Horizonte, Manhuaçu, Vitória, Vila Velha, Cachoeiro do Itapemirim, Juiz de Fora), sempre com a força do Deoclides Júnior na mesa de som e nos quebra-galhos. Esse cara era demais… Uma bênção. Deus decidiu levá-lo ainda muito novo, num acidente na estrada Goiânia – Caldas Novas.
Lá pelo final de 1990, depois do Congresso Geração 90, o grupo passou a viver suas crises. Davi e Mônica decidiram sair do grupo. Zu e Gleide já não estavam mais com a gente. Olemir foi convidado, de maneira pouco ética, a tocar com o Milad. Foi o fim de outra fase. Eu, Cláudia e Décio até que tentamos levar com o Paulinho, um guitarrista de Brasília, mas estava difícil. Incrivelmente essa é a única fase do Expresso da qual não temos nada registrado… Nenhuma fita cassete sequer.
VIÇOSA – MG
Em junho de 1991, eu e Cláudia decidimos nos mudar para Viçosa – MG. Na época a gente só tinha o Pedro, nosso filho de 3 anos. Eu fui estudar no Centro Evangélico de Missões. O meu trabalho com a MPC estava exigindo uma melhor capacitação bíblico-teológica. Como o trabalho com o Expresso tinha praticamente terminado, optamos pela mudança. Nesse ano, antes de nos mudarmos, eu e Cláudia cantamos no Som do Céu, acompanhados pelo Marlos Soro, na guitarra, e pelo Robson Café, na bateria. O pessoal apelidou o grupo carinhosamente como Expressinho. Fizemos o quarteto, e a coisa pegou. Recebemos elogios e alguns convites.
Apesar da mudança, nós quatro assumimos o compromisso de cumprir com os convites recebidos. Só que o Robson e o Soró deixaram a gente na mão. Eles estavam em Goiânia, e nós, em Viçosa, a 1.200km de distância, o que era um enorme empecilho, principalmente para uma turma dura de grana que nem a gente. Assim, eu e Cláudia tivemos que “honrar as calças” sozinhos.
Decidimos convidar alguns amigos de Viçosa para nos ajudar. Confesso que, nessa época, só de pensar em grupo sentia náuseas. As últimas experiências não tinham sido nada legais. Convidamos o Maurício Chima para tocar batera e o Zilbinho pra tocar violão e guitarra. Chamamos a Marô, esposa do Zilbinho, para viajar com a gente também e dar uma força nas vendas do disco, na organização das transparências etc. No ensaio, percebemos que faltava alguém para fazer a voz do Robson; a Marô topou numa boa. O trem ficou “bão bissurdo”. O vocal se harmonizou legal, e, quando menos a gente esperava, já estava rodando Brasis novamente e levando a mensagem de fé em Jesus.
Certamente essa foi uma das fases mais ricas do Expresso Luz. Eu estava por conta dos estudos e da música; a Cláudia, idem. Zilbinho e Marô tinham altos chamados missionários e faziam aquilo tudo com paixão; o Chima era muito gente boa e um grande companheiro. A gente contava também com a força do amigo Élben, no som.
Nessa época a gente gravou o segundo “bolachão”, Brasis do Brasil, no mesmo estúdio em que o primeiro, o 464, no Rio de Janeiro. O estúdio era do Hermínio, que agora estava casado com a Valéria do primeiro Expresso. A Valéria decidiu dar à Cláudia umas horas de estúdio para ela gravar um disco solo. A Cláudia acabou passando-as para o grupo. Nessa época a vertente brasileira ficou ainda mais caracterizada. Uns dois anos antes, eu havia comprado a minha primeira viola caipira, presente do tio Alair, e ela começou a aparecer na jogada. Todo o repertório curtido dos últimos anos estava ali, pronto para ser registrado. Era julho de 1992.
O disco foi gravado na raça, vendendo iogurtes no Som do Céu, brigadeiro no bandejão da Universidade Federal de Viçosa e pamonha nos finais de semana. É claro que, se não fosse a responsável gerência financeira do Zilbinho, a gente não teria conseguido nada. Nesse disco contamos com a participação do Robertinho Silva, do Didito, do Wayne Madalena, da Cristina Braga, entre outros “feras”. Tudo por meio dos contatos do Pancada, que, anos depois, daria outros rumos para a sua vida.
Nesse ínterim a Marô acabou engravidando. Como a gente já tinha algumas viagens agendadas com o Expresso, convidamos o Rogério Pinheiro, de Vitória, para fazer as vezes do casal nos meses próximos ao parto. Ele viajou com a gente para Goiânia e Brasília. Dali a gente seguiria para o Congresso Vinde/MPC, em Guarapari. Só que em Goiânia acabamos encontrando o Reny, antigo integrante do grupo. Ele estava voltando dos EUA e estava um tanto deslocado. Decidimos chamá-lo para fazer Brasília e Guarapari conosco. Ele topou. Foi um momento muito gostoso pra gente.
VOLTA PARA GOIÂNIA – PRIMEIRO TRABALHO SOLO
No final de 1993, eu havia terminado o meu curso no Centro Evangélico de Missões. Não dava mais para ficar em Viçosa. O tempo meu, o da Cláudia e o do Pedro tinham acabado ali. A gente até quis mudar para Vitória e trabalhar com a MPC capixaba, mas Deus mudou os rumos. Voltamos para Goiânia. Só que dessa vez a gente trouxe o Élben e o Chima. Estava começando uma nova etapa na vida do Expresso.
O Élben se mudou para Goiânia, e nós montamos o estúdio Expressão Livre. A coisa até que caminhou, mas não o suficiente para decolar. O Élben chegou a vender o seu fuscão pra botar grana no projeto. Nesse tempo o Expresso gravou uma fita chamada Aviva, e nós fizemos outras produções menores. O Chima não aguentou ficar em Goiânia, por causa da falta de grana. Nessa época a Cláudia engravidou, e vieram a Anna Carolina e, um tempo depois, o Cézar. Depois de 7 anos sem termos filhos, por problemas nas gestações, vieram dois, em curto espaço de tempo. Ficou impossível para a Cláudia levar o trabalho adiante. Ela deixou o grupo, não oficialmente, mas já não nos podia acompanhar nas viagens. Foi uma fase super difícil para ela e para mim. Nessa época o Rogério, de Vitória, mudou-se pra Goiânia por causa do grupo. Entrou também o Romero Fonseca, amigo de longas datas e companheiro de sons do Reny. Veio também somar ao grupo o Jader, excelente baterista.
Nessa época eu gravei uma canção minha e a inscrevi num festival promovido pelo Banco do Estado de Goiás. Fiz isso de forma totalmente despretensiosa, até mesmo porque a música tinha conteúdo teológico. Para a minha surpresa, fiquei em segundo lugar num festival que não teve primeiro, em razão de tramoias para desviar a verba para outras áreas do festival, por isso me considero o grande vencedor. A música era Terra: Irmã, Mãe, Amiga.
Esse foi o empurrão que faltava para eu gravar o meu primeiro trabalho solo, e o primeiro trabalho em CD da minha carreira. Era o ano de 1995. Reuni minhas músicas que estavam engavetadas, por não fazerem o estilo do Expresso, e coloquei tudo ali. O CD começou a tocar nas rádios FMs de boa audiência da cidade, e o meu nome, de certa forma, foi sendo divulgado.
Na mesma época, o Expresso estava conquistando um espaço muito legal, tanto em Goiânia quanto em diversas cidades. Viajávamos muito e tocávamos direto; shoppings, teatros, escolas, igrejas, espaços culturais, universidades, programas de TV. Foi uma fase muito gostosa para o grupo. Gravamos o CD Cordel no estúdio Expressão Livre. Nessa época o Élben tinha se mudado para Brasília e deixado o trabalho. Eu e o meu pai acabamos comprando a parte dele no estúdio. Apesar dos poucos recursos técnicos de que dispúnhamos, inauguramos uma fase nas produções musicais do grupo: a valorização do acústico. Abrimos mão totalmente do teclado e introduzimos a percussão de forma mais presente. Nessa época estavam no Expresso eu, no vocal, na viola caipira e no baixo; Cláudia, na flauta e no vocal; Reny, no violão e no vocal; Rogério, no violão e no vocal; Romero, na flauta e no vocal; Jader, na bateria; e Maxwell, na percussão.
CORDEL E BRASÍLIA
Mas o inesperado estava por acontecer… Com as constantes viagens do grupo e as gravações noite a dentro, minha vida ficou uma loucura. Aos poucos fui deixando a liderança da MPC e passei a me ausentar bastante de casa. Isso não foi legal. Não sentia paz e via a cada dia uma distância sendo criada entre mim e a Cláudia, entre mim e os meus filhos. Passamos então a orar pedindo a Deus para resolver essa questão.
Em dezembro de 1996, fui convidado pela Igreja Presbiteriana de Brasília para trabalhar como missionário entre a juventude, o que traria muitas, muitíssimas, mudanças. Teria que deixar o Expresso, a MPC, a música, ou seja, o tripé no qual estava firmado todo o meu ministério. Era um preço alto, mas necessário para a minha sobrevivência e de minha família.
Com muita dor no coração, eu me vi me mudando para Brasília, em janeiro de 1997, quando o CD Cordel estava sendo concluído. Foram anos de muita luta e de muita tristeza. Poderia dizer até de depressão.
MENINO
Depois de dois anos silenciosos e depressivos em Brasília, Deus começou a abrir algumas portas. Embora não dispusesse mais de tempo para poder seguir no trabalho, como vinha fazendo até então, fui me encontrando no caminho com algumas pessoas que vieram a se tornar grandes parceiras: Kalley Seraine, Marcos Benaia, Eline Márcia, Diana Mota, Renato Vieira. Além do mais comecei a receber apoio de amigos que me incentivavam a seguir adiante, principalmente do Neander Coelho e do João Antônio. Esse estímulo foi tão importante que em 1999 eu estava entrando novamente no estúdio para gravar o meu segundo trabalho, Menino.
Foi um trabalho que surgiu na hora certa, para recuperar a autoestima de músico sem espaço, sem motivação. Reuni um repertório que vinha trabalhando com alguns amigos, fiz algumas canções novas durante as férias e parti para o duro trabalho de gravação. Produzimos esse trabalho no estúdio Art Manha, do Toninho Maia. Dei continuidade àquela linha do acústico e do regional e aproveitei a virtuosidade do Renato, não economizando na percussão.
Relembrei músicas que me marcaram como Taças de Cristais, do Janires, e Salmo 40, de Guilherme Kerr e de Nelson Bomilcar. O trabalho veio para arejar a vida, como janelas abertas para espantar todo o mofo e toda a escuridão que se iam alojando na alma de poeta. Foi bom demais da conta!
Nesse trabalho contei com a ajuda de muitos amigos. A troupe que me acompanhava era formada pela Cláudia, nas flautas e no vocal; pelo Benaia, no violão e na viola; pelo Kalley, no violino; pelo Jader Steter, na bateria, amigão que toca com o Expresso Luz até hoje; pelo Renato Vieira, na percussão; e pela Eline Márcia, no vocal. Ainda participaram desse CD meu irmão Fernando, no vocal; Paulo André, no violão; Enos Marcelino, no acordeom; e Rose Mary, no cello.
Com o trabalho pronto, saímos para a rua, divulgando. Por meio do Renato conheci um baixista chamado Davi, que se somou ao grupo. Também passamos a contar com as participações da Diana Mota, hoje esposa do Renato.
Não cantamos o tanto quanto gostaríamos, não. Todo mundo era muito ocupado com suas atividades, eu muito mais, cheio de coisas para resolver, curso na faculdade para levar adiante… Mas fizemos uns trabalhos bem legais, como o Som do Céu, Arte na Quadra e algumas outras apresentações.
Com o tempo nossos encontros foram ficando cada vez mais esparsos. O Benaia, o Renato e a Diana buscaram outros caminhos. Ficou difícil contar com o Jader, que morava em Goiânia e tocava com o Expresso. Perdi o contato com o Davi do baixo. Mas isso não impediu que eu continuasse a levar o trabalho adiante. Chamei o Léo Barbosa, que na época começava a tocar percussão na igreja, para me dar uma força, e fizemos muita coisa juntos, só nós dois.
MATA DO TUMBÁ
No final de 2001, desafiei o Neander Coelho a produzir um terceiro trabalho. Eu pensava numa forma de comemorar os 50 anos da MPC em alto estilo. Ele topou, e, quando me toquei, estava novamente entrando em estúdio. Dessa vez, mais consciente do momento da vida e da fase “solo”. Sempre havia trabalhado com grupo e estava difícil me adaptar ao trabalho sozinho, tendo que criar tudo: músicas, idéias, conceitos.
Coloquei o nome desse terceiro trabalho de Mata do Tumbá. É uma referência à reserva ambiental que cerca o acampamento da MPC em Belo Horizonte. No Treinamento de Líderes de 2001, eu fiz um tema instrumental para violão, flauta e violino, enquanto observava a mata pela varanda. Gostei tanto do tema que o coloquei como música título. Traduzia muito bem meu sentimento pela MPC, pela mata, pelo acampamento, pelo ministério: um misto de alegria e saudosismo. Uma linda música. Na gravação, confiei o arranjo ao maestro Joel Barbosa, que arrebentou…
Nessa época Deus estava preparando uma galera legal para somar forças comigo. Foram chegando, aos poucos, Ricardo Amorim, Sandro Araújo, Nelsinho Rios e Andreiev Kalupniek. Com Léo, Eline, Cláudia, Kalley e eu, uma banda muito legal foi formada. Descambamos para um regionalismo ainda mais convicto. Começamos a pesquisar sons e ritmos e fomos dando cara ao Mata. Levei a viola caipira mais a sério, desde que adquiri, com o apoio sempre amigo do João Antônio, um instrumento feito pelo luthier Vergílio Lima.
Ousei, incorporando a viola de cocho numa canção, a rabeca em outra. Gravamos um CD sem bateria. Só percussão. Era o meu sonho se tornando realidade. Esse trabalho teve uma importância muito grande para minha vida e para meu ministério. Soou definitivamente como um “sim” de Deus para a minha caminhada nessa nova fase. Contamos com a participação especial do Hélio Delmiro, músico que eu admirava de longa data. Tê-lo no CD como músico e como amigo foi um enorme presente dos céus.
E A COISA VAI SE AMPLIANDO
Um dos grandes benefícios do Mata do Tumbá foi a definição do que seria a minha banda. Assim que terminamos o CD, preparamos um show de lançamento no Teatro do Sesi, em Taguatinga – DF e, logo depois, um show ainda maior na Sala Martins Penna do Teatro Nacional. Os mesmos músicos que participaram nas gravações toparam levar esse trabalho adiante. Além da Cláudia, da Eline, do Léo Barbosa, do Ricardo Amorim e do Kalley, que já me acompanhavam anteriormente, chegaram o Enos Marcelino (na época integrante da Cia de Jesus), o Sandro Araújo e o Nelsinho Rios. A banda estava mais que perfeita, formada por músicos de alta qualidade.
Com esse grupo conquistando espaços dentro e fora da Igreja, aos poucos o nosso trabalho começou a aparecer no cenário cultural brasileiro, não apenas em Brasília. Os convites se tornaram mais frequentes, e precisei de sabedoria para conciliar minha agenda pessoal, pastoral e de músico.
Com a mesma banda entramos no estúdio para um projeto totalmente novo: a gravação de um CD “quase ao vivo”. A ideia era registrar, com ritmos brasileiros, o repertório de cânticos que cantávamos nas igrejas. Muita gente pedia esse material, e não tínhamos nada gravado. O Nelsinho Rios tomou a frente comigo e, juntamente com o Andreiev Kalupniek, pensamos numa gravação ágil e barata. Em 16 horas, incluindo a mixagem e a masterização, estava pronto o Santa Louvação, em tempo recorde.
Em janeiro de 2004, passei uns dias de férias em Vitória – ES. Fiquei hospedado ao lado da casa do compadre Rogério Pinheiro, que, nessa altura, já tinha deixado o Expresso Luz e retornado à sua terra natal. Nesse encontro tivemos momentos especiais com nossas famílias, tempo de boas prosas e muitas cantorias. Decidimos compor algumas canções e oferecê-las ao Expresso Luz. Não sei bem por que, mas as canções não se encaixaram na proposta do momento para o grupo. Eles tinham outras expectativas. Nem por isso abandonamos o projeto. Decidimos compor umas 11 canções e gravar um CD temático que falasse do mangue e do cerrado, do siri e do pequi, duas realidades distintas, separadas geograficamente, mas interessantemente unidas. Com a ajuda da Internet preparamos o repertório e, em 2005, entramos no estúdio do Andreiev, em Brasília, para gravar o Siripequi. Não posso deixar de mencionar a ajuda inestimável e companheira do Daniel Stretch, que, juntamente com o Rogério, fez o arranjo de cada uma das canções. A banda base do CD foi a mesma que me acompanhava.
PROJETOS CULTURAIS
Nessa época começamos a fazer as primeiras viagens internacionais com a banda, ou parte dela. Em 2005, estive em Boston e em Charlotte com o Enos Marcelino. Depois, em 2007, por 15 dias, viajei com a banda pelos EUA, com apresentações em igrejas e eventos, por meio da Mocidade Para Cristo, nas cidades de Orlando, Colorado Springs e Charlotte.
No Brasil começamos a fazer shows em espaços culturais, como o Restaurante Feitiço Mineiro, os Projetos Culturais da Aliança Francesa, os SESCs Brasília, a Sala Funarte, o Circuito Cultural de Tatuí – SP, o Teatro Dias Gomes – SP, o Teatro Nacional – DF, o Teatro Cine Ouro – GO, entre vários outros. O grupo passou a ser convidado a compor a agenda anual do Projeto Prata da Casa do Clube do Choro de Brasília, um dos espaços mais respeitados e concorridos da agenda cultural brasiliense.
E assim demos mais um passo que foi a apresentação de um projeto para o FAC – Fundo da Arte e da Cultura do Governo do Distrito Federal. Desse projeto surgiu o CD Flor do Cerrado, que tem sido muito bem aceito no meio popular brasileiro.
Em 2008, após o lançamento do CD, o grupo se apresentou em Nova Iorque. Inicialmente as apresentações seriam realizadas somente em igrejas, no entanto foi convidado a se apresentar também num show prévio ao Brazilian Day NY. Na oportunidade, mostramos nossa música para centenas de pessoas que estavam reunidas na 46 Street, conhecida como Little Brazil, em Manhattan. O nosso trabalho foi muito bem recebido, e alguns bons contatos surgiram daí.
Ainda em 2008 e 2009, realizou-se o projeto Pelas Estradas desses Brasis, em Brasília, Goiânia, Belo Horizonte, São Luís do Maranhão, Codó e Teresina. Nesse projeto a banda dividiu o palco com músicos consagrados como Telo Borges, Rubão, Expresso Luz e Stênio Március.
Em 2009, o meu trabalho foi selecionado entre mais de 2.700 artistas de todo país para compor o restrito grupo de 60 artistas que se apresentaria no Projeto Pauta Funarte, projeto promovido e patrocinado pelo Ministério da Cultura. Foi uma grande vitória.
E agora temos diante de nós a gravação do nosso primeiro DVD, na cidade de Pirenópolis. Mas isso é outra história…



há 5 meses atrás
Oi Carlinhos, que legal ler a sua história, sou muito amiga do Israel Pessoa, moro aqui nos Estados Unidos e fiquei triste de não poder assisti-los quando vieram aqui. Acompanhei muito o Expresso luz e o Milad, estes dois conjuntos fizeram parte da minha vida.
Um abraço e que Deus te abençoe muito.
Será que é muito tarde para o Israel fazer carreira na musica sertaneja?…
há 3 meses atrás
Eita amigo,…….que história massa!! ……… e que alegria me deu de estar presente em alguns desses momentos!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Puxa!!!!!! GAnhei o dia!!!!! Fique na paz!!!!
Um grande abraço.