Há poucos anos atrás ouvi pela primeira vez falar desse tal de EP. De início me soou como mais uma das modernidades na indústria da música. Depois, pesquisando, fiquei sabendo que é uma abreviatura de “Extended Play” e que remonta os tempos do vinil. As categorias daquela época, mais conhecidas, eram basicamente os Compactos Simples e Duplos (que cabiam de uma a duas faixas por lado do disco, durando em média até 15 minutos) e o Long Play ou LP (que cabiam quantas faixas pudessem ser administradas naquele espaço – quase sempre de 4 a 6 de cada lado, numa duração média de 60 minutos). O EP era exatamente o formato utilizado entre o Compacto e o LP. Tinha em média de duas a oito faixas, com uma duração de 3 a 40 minutos.

Nos tempos do vinil era uma opção, apesar de não muito utilizada, para aqueles que gravavam uma quantidade de músicas insuficientes para um LP e mais do que pudesse conter num Compacto.

Os tempos passaram. Presenciamos uma revolução com o surgimento da música digital. Uma série de inovações foram incorporadas neste processo, reinventando as formas de captação, edição, mixagem, masterização, fabricação e distribuição, sem falar dos novos formatos disponíveis ao público e das interações artista-artista e artista-público. Possibilidades inimagináveis agora eram realidades disponíveis a um custo acessível.

No meio de tudo isso, vimos o ressurgimento do EP. É claro, debaixo de um novo conceito. Se antes, o que estava em jogo era o espaço físico disponível no vinil, agora o EP ressurge por outras razões.

Eu particularmente entendo que o EP é fruto dessa ansiedade que nos atinge a todos, viventes do mundo pós-moderno. A tecnologia trouxe enormes avanços no que tange a equipamentos e possibilidades de produção de um álbum. Se antigamente, para se produzir um trabalho era preciso pagar caro por algumas poucas horas de estúdio, hoje é possível ter um estúdio de qualidade no quarto dos fundos de casa a um custo razoável (considerando os preços dos equipamentos de anos atrás).

Assim, as possibilidades de gravação foram democratizadas. Existem inúmeras opções para se produzir um álbum, de acordo com o orçamento disponível. Opções que vão do mais simples ao mais complexo, do totalmente eletrônico ao totalmente acústico, do barato e econômico ao caro e sofisticado.

Acho que o retorno do EP surge especialmente como opção para aquele que tem poucos recursos financeiros, insuficientes para bancar a produção de um trabalho com 12 ou mais faixas, mas que tem músicas em estoque. Com o EP ele vislumbra a possibilidade de lançar um álbum por partes. É uma maneira que o artista encontrou para conter a ansiedade que antes precisava ser dominada por longos meses e anos de produção de um álbum completo. Por outro lado o EP é a forma encontrada para saciar um público cada vez mais ansioso por novidades. Talvez em nome dessa ansiedade mercadológica, vemos que artistas renomados também partiram para a produção de EPs, obviamente por razões diferentes do curto orçamento para a produção.

O certo é que o mercado da música se adaptou ao novo momento. O público mais antenado já não compra mais o CD físico, nem mesmo se liga em comprar um álbum completo, se as músicas não lhe agradam. Hoje compra apenas as faixas que lhe interessa nos sites de música digital ou as curte através dos aplicativos que oferecem música em streaming, como o Spotify, Deezer, Rdio, entre inúmeros outros.

É coisa do passado ficar aguardando o lançamento de um novo trabalho do artista preferido a cada ano, ou a cada dois anos. Hoje o mercado é tão dinâmico que algumas poucas canções são produzidas e lançadas em prazo de poucas semanas ou meses, sistematicamente, no mercado fonográfico. O EP se encaixa perfeitamente nisso.

Eu sou artista dos tempos do vinil. Estou nessa praia desde os anos 80, quando participei de minha primeira gravação num estúdio de 4 canais. Confesso que preciso me esforçar, e muito, para acompanhar toda essa evolução.