Versão completa do texto Sola Scriptura em tempos de “pós-verdade”, publicado na revista Ultimato, edição #367.

Três histórias reais. Primeira: em 2016, a Oxford Dictionaries elegeu o vocábulo “pós-verdade” como a palavra do ano na língua inglesa. Segundo a instituição, naquele ano houve um crescimento de 2.000% no uso do termo, um neologismo em que se admite que numa sociedade “midiática” (mediada pela mídia) não existem mais fatos, apenas versões. A verdade, agora, depende de quem narra os fatos.

Segunda: em uma rodinha de fim de culto, um irmão, frustrado com a parte do sermão que dizia que o significado de “justiça de Deus”, em Romanos, tinha a conotação de um processo de justificação, interrompeu o papo e disse: “Parem com esse negócio de significado, conotação, mimimi bíblico! É o que está escrito e pronto! Pra quê complicar? Estão querendo torcer as coisas?! Não está escrito: ‘justiça de Deus’? Então! É justiça e pronto! É pau! É cana!”. E se retirou da conversa, como quem tinha dito a última palavra.

Terceira: uma política evangélica, ao incitar seu auditório à luta, arrematou: “Porque na minha Bíblia está escrito que sem derramamento de sangue não haverá redenção. Vamos à luta com quaisquer que sejam as nossas armas”.

Uma das grandes mudanças introduzidas pela Reforma Protestante foi o livre acesso às Escrituras, facilitado pela imprensa de Gutemberg, inventada alguns anos antes, de cujo prelo saiu, como primeiro livro, a Bíblia Sagrada. Até então, a consulta direta às Escrituras era dificultada por vários motivos, dentre os quais o analfabetismo, a inexistência de exemplares da Bíblia nas igrejas e, talvez o principal, a obrigatória mediação da Igreja no entendimento do texto sagrado. Não se podia compreender uma passagem bíblica de modo diferente da interpretação oficial. Com isso, a tradição se associou à leitura bíblica, tendo, inclusive, prevalência sobre o próprio texto bíblico. Por exemplo, a tradição diz que Jesus não teve irmãos. Outro exemplo: a compreensão da afirmação de Jesus a Pedro: “Tu és Pedro, e sobre essa pedra edificarei a minha igreja” fixou-se como a instituição do primeiro papa. Para os reformadores, essa “pedra” refere-se à afirmação de Pedro: “Tu és o Cristo, filho do Deus vivo” (Mt 16.16-18).

O movimento de livre acesso às Escrituras evoluiu, com Lutero e seus sucessores, para o direito ao foro íntimo, no contato com elas, entendendo-se que Deus nos dá a compreensão por meio do Espírito Santo. E mais, chegou-se à afirmação de que somente as Escrituras são verdade e autoridade sobre questões de fé e prática: sola Scriptura – tudo o que se disse ou que se venha a dizer sobre essas questões deverá passar pelo crivo das Escrituras.

A essas alturas, o “dossel sagrado” – expressão de Peter Berger, falecido em julho de 2017 – já se desfazia. Aquela cúpula simbólica que mantinha a visão do mundo e a interpretação dos fatos da história e do cotidiano únicas, coesas e imutáveis – se preciso, com o uso da espada – começa a ruir, para dar lugar ao pluralismo iluminista. Desde então, a cada dia existe menos consenso sobre um número maior de coisas. Em cada cabeça, uma sentença; em cada coração, uma verdade.

E os fatos? Ora, os fatos!

Não muitos séculos passados, vivemos a era da “pós-verdade”. Mesmo em termos de fé. Mesmo em termos de doutrinas bíblicas, ou cristãs; mesmo entre os reformados, ou evangélicos. Sim, numa mesma denominação; numa mesma igreja; numa mesma família. Maior que os fatos bíblicos (se é que temos acesso a eles, dirá a “pós-verdade”) é a forma como os interpretamos, a narrativa à qual os ajustamos para dar suporte às nossas percepções espirituais.

E o que restou da sólida “cúpula sagrada”? Do antigo evangelho? Da palavra da verdade?

Bem, das rígidas estruturas de imposição e manutenção do cristianismo medieval restou pouco. Inclusive entre os católicos. Do antigo evangelho, ainda hoje best-seller incontestável, surgiram primorosas traduções, versões e comentários, em centenas de línguas e linguagens; o melhor dos mundos. E da palavra da verdade permanece, misterioso e intocado, o poder de Deus “para a salvação de todo aquele que crê”. Ela ainda salva, redime e santifica! E nos leva a dizer em nossos corações: “Senhor Jesus!” e a cuidar do pobre, da criança, da viúva e do estrangeiro. Para esse fenômeno pode haver muitas versões. Mas não “pós-verdade”.

• Rubem Amorese é presbítero na Igreja Presbiteriana do Planalto, em Brasília. Foi professor na Faculdade Teológica Batista por vinte anos e também consultor legislativo no Senado Federal. É autor de, entre outros, Fábrica de Missionários e Ponto Final.

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