paiHá alguns dias, faleceu a Marília Pêra, aos 72 anos. Os artistas da geração dela estão partindo, um a um. Este ano foram muitas as notas de falecimento de galãs e divas de tv da velha guarda. Sem falar que a mídia agrava as perdas com depoimentos, retrospectivas e, como neste caso, com cobertura jornalística do funeral. Na internet, o nome de Marília está entre os trending topics do Twitter. “A arte chora”, escreveu Serginho Groisman.

Um detalhe que me tem chamado a atenção é uma expressão repetida por alguns famosos, como Tarcísio Meira, ao se referirem a alguns desses colegas que partem “para o plano superior”: “ele era presente, atento e cuidadoso”.

Notei que essa expressão, usada no meio artístico, qualificava uma pessoa que estabelecia laços, coisa talvez mais difícil naquele meio. Ainda mais na vida corrida de hoje. Imagino que um artista deva se movimentar mais que uma borboleta. Mas alguns, ao falecer, recebem o reconhecimento da “presença”, da “atenção” e do “cuidado”. Gente que conseguiu estar ali, quando ali estava; conseguiu ter olhos do coração para quem estava à sua volta; e, pasmem, conseguiu cuidar dos seus colegas. Na profundidade e intimidade possíveis. Isso não é curioso?

Nessa hora, o Tarcísio Meira fez aquela boca torta, olhou para dentro da câmera — eu cheguei a me afastar, pensando que estava olhando dentro dos meus olhos — e disse: fulano “era presente, atento e cuidadoso”. E eu não pude evitar de pensar: “é Deus falando comigo” (eu sei, tem horas em que exagero nas “leituras devocionais” dos fatos corriqueiros da vida). Ouvi-o dizer: “aí está um alvo para a sua maturidade”. E imediatamente respondi: “sim, eu também quero isso pra mim; amém”.

Que problema eu arrumei! — Como? Como é ser presente, atento e cuidadoso? Estar presente já ajuda, mas não resolve totalmente. Os ausentes sempre falam de “qualidade”. Em geral, sobre o tempo que dedicam aos filhos e cônjuges. Mas presença é mais que estar perto. Lembro-me de uma professora que, depois da chamada, perguntava: “quem de vocês está aqui?”

Aí, entra a segunda perna do tripé: atenção. Sim, presença com atenção me parece um bom caminho. E o banquinho vai parar em pé com a terceira perna: o cuidado de quem cuida. Sem terceirizações, “corbãs” ou transferências.

Quem almeja esse tripé, excelente coisa almeja. Imagine a glória para um pai, uma mãe, um avô, um cônjuge ou um pastor, ser lembrado nestes termos: “sempre foi presente, atento e cuidadoso”.

Faço desse tripé meu voto para 2016, com a ajuda de Deus.