{"id":918,"date":"2012-02-10T07:27:51","date_gmt":"2012-02-10T10:27:51","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/?p=918"},"modified":"2012-02-16T10:28:28","modified_gmt":"2012-02-16T13:28:28","slug":"fe-e-ciencia-gemeas-amigas-ou-inimigas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/2012\/02\/10\/fe-e-ciencia-gemeas-amigas-ou-inimigas\/","title":{"rendered":"F\u00e9 e Ci\u00eancia: g\u00eameas amigas, ou inimigas?"},"content":{"rendered":"<p>O div\u00f3rcio entre a f\u00e9 e a ci\u00eancia, ou entre a f\u00edsica e a metaf\u00edsica, marcou o fim da Idade Medieval e o in\u00edcio do Iluminismo. N\u00e3o me entenda mal. Creio que este div\u00f3rcio trouxe inestim\u00e1veis benef\u00edcios para ambos os lados, mas n\u00e3o sem um alto pre\u00e7o. Como os div\u00f3rcios s\u00e3o caraterizados por brigas, mal entendidos, rotula\u00e7\u00f5es preconceituosas ou at\u00e9 mesmo xinga\u00e7\u00f5es dos dois lados, tamb\u00e9m a ci\u00eancia e a teologia sofrem de grande dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disto, com o amadurecimento da ci\u00eancia, cresce a convic\u00e7\u00e3o popular que a ela pertence o campo de fatos enquanto \u00e0 religi\u00e3o pertence o campo de valores. Curiosamente ao campo de fatos se aplica a regra de singularidade e dogma. Isto \u00e9, a respeito de determinado fen\u00f4meno, cientificamente falando, os fatos s\u00e3o \u00fanicos, e uma vez estabelecidos, se tornam dogmas. O inverso ocorre na percep\u00e7\u00e3o do papel da religi\u00e3o para quem \u00e9 relegado campo de valores. Estes valores, n\u00e3o como fatos, s\u00e3o m\u00faltiplos e por isso culturalmente n\u00e3o devem ser entendidos como dogmas universais, apenas do gosto do fregu\u00eas.<!--more--><\/p>\n<p>Digo isso a princ\u00edpio s\u00f3 para ilustrar a dificuldade de interc\u00e2mbio que historicamente existe entre estes dois paradigmas. Uma uma par\u00e1bola vai ajudar (a primeira regra da teologia \u00e9 se n\u00e3o souber da resposta, conte uma par\u00e1bola!).<\/p>\n<p>Em julho de 1979, na famosa universidade, Massachusetts Institute of Technology na cidade de Cambridge, Massachusetts, igrejas do mundo inteiro, protestantes, cat\u00f3licos romanos e cat\u00f3licos ortodoxos, se-reuniram (com o apoio do Conc\u00edlio Mundial de Igrejas) para discutir o tema, \u201cF\u00e9 e ci\u00eancia num mundo injusto\u201d. O astr\u00f4nomo australiano eminente, Robert Hanbury Brown, foi convidado para dar in\u00edcio \u00e0 confer\u00eancia com uma defini\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia e uma interpreta\u00e7\u00e3o da sua natureza. Dois dos seus temas eram especialmente interessantes.<\/p>\n<p>Come\u00e7ando com uma defini\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, ele descreveu como a \u201cindustraliza\u00e7\u00e3o\u201d da ci\u00eancia \u2013 sua alian\u00e7a com institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas \u2013 modificou a compreens\u00e3o cl\u00e1ssica como uma busca pela verdade objetiva e verific\u00e1vel. Mesmo assim, como o bom cientista que \u00e9, Brown afirmou a import\u00e2ncia da objetividade e a verifiabilidade para toda tarefa cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, Brown enfatizou que os conceitos cient\u00edficos s\u00e3o met\u00e1foras e abstra\u00e7\u00f5es relacionadas a uma realidade essencialmente misteriosa. Disse ainda, que dentro da pr\u00f3pria ci\u00eancia, h\u00e1 met\u00e1foras e abstra\u00e7\u00f5es diferentes que podem ser consideradas \u201ccomplimentares\u201d e n\u00e3o antag\u00f4nicas. Com base neste \u00faltimo ponto, ele argumentou que uma ci\u00eancia devidamente modesta e a f\u00e9 podem ser vistas como respostas complimentares aos mist\u00e9rios \u00faltimos da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Depois da palestra de Brown, havia duas rea\u00e7\u00f5es convidadas. Uma veio duma cientista africana, Matu Maathai, que era basicamente uma aprova\u00e7\u00e3o entusi\u00e1stica da ci\u00eancia, mesmo com algumas ressalvas a respeito do perigo do abuso da ci\u00eancia no terceiro mundo, especialmente para o aumento de armas de destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A segunda rea\u00e7\u00e3o veio dum te\u00f3logo e fil\u00f3sofo social brasileiro, Rubem Alves, ent\u00e3o professor da UNICAMP e atualmente psicanalista e meu vizinho do lado da minha casa. T\u00edpico do esp\u00edrito brasileiro po\u00e9tico e brincalh\u00e3o, Rubem Alves deu sua resposta contando a seguinte est\u00f3ria:<\/p>\n<blockquote><p>Era uma vez um cordeiro, que amando o conhecimento objetivo, resolveu descobrir a verdade sobre os lobos. J\u00e1 sabia de muitos contos ruins sobre os lobos. Eram verdadeiros? Resolveu investigar de primeira m\u00e3o. Ent\u00e3o ele escreveu uma carta para um lobo fil\u00f3sofo com uma pergunta simples e direto: O que \u00e9 um lobo? O lobo fil\u00f3sofo respondeu a carta explicando o que os lobos s\u00e3o: seus formatos, seus tamanhos, suas cores, seus h\u00e1bitos sociais, seu pensamento, etc. Pensou, entretanto, que era irrelevante falar dos seus h\u00e1bitos aliment\u00edcios j\u00e1 que tais h\u00e1bitos, de acordo com a pr\u00f3pria filosofia do lobo fil\u00f3sofo, n\u00e3o pertenciam \u00e0 ess\u00eancia dos lobos. Pois bem, o cordeiro ficou t\u00e3o impressionado com a carta que resolveu fazer uma visita na casa do seu novo amigo, o lobo. Foi somente ent\u00e3o que aprendeu para sua infelicidade que os lobos t\u00eam uma fraqueza por churrasco de cordeiro.<\/p><\/blockquote>\n<p>Seria f\u00e1cil confundir as personagens da par\u00e1bola de Rubem Alves. Poderia imaginar que para ele, o lobo representa o cientista puro e o cordeiro o religioso. Tamb\u00e9m n\u00e3o seria dif\u00edcil imaginar o contr\u00e1rio. Mas o pr\u00f3prio Dr. Alves explica: o lobo somos todos n\u00f3s que pretendemos nos definir com objetividade e dist\u00e2ncia pessoal. Os lobos s\u00e3o os cientistas, religiosos, pol\u00edticos, economistas e at\u00e9 professores universit\u00e1rios. Entretanto o tom bastante negativo de Alves ilustra a dif\u00edcil rela\u00e7\u00e3o entre a ci\u00eancia e a religi\u00e3o. Esta rela\u00e7\u00e3o t\u00eanua tem uma longa hist\u00f3ria que n\u00e3o d\u00e1 para relatar adequadamente aqui. Mas \u00e9 um relacionamento que n\u00e3o precisa ser, e n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico relacionamento poss\u00edvel. Gostaria de propor um outro, n\u00e3o de incompatibilidade entre lobo e cordeiro, mas do\u00a0<em>desconhecimento m\u00fatuo entre dois g\u00eameos que s\u00e3o criados separadamente<\/em>.<\/p>\n<p>J\u00e1 aparece nas reportagens na televis\u00e3o: dois g\u00eameos, ou duas g\u00eameas que eram separados logo depois do nascimento se encontram d\u00e9cadas depois. A alegria \u00e9 enorme, mas na pr\u00f3pria reportagem d\u00e1 para perceber que os dois j\u00e1 s\u00e3o bem diferentes, devido a influ\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 de fatores psicol\u00f3gicos que levam quaisquer irm\u00e3os, g\u00eameos ou n\u00e3o, a terem suas pr\u00f3prias personalidades, mas tamb\u00e9m devido a cria\u00e7\u00e3o em contextos totalmente diferentes que os g\u00eameos sofrearam. Talvez eu esteja exagerando na analogia, mas\u00a0<em>prefiro ver a f\u00e9 e a ci\u00eancia como g\u00eameos criados separados.<\/em>\u00a0Deveriam ter mais em comum do que de fato t\u00eam, n\u00e3o id\u00eanticos, pela mesma raz\u00e3o que g\u00eameos id\u00eanticos n\u00e3o s\u00e3o id\u00eanticos na sua personalidade. Fa\u00e7o esta fant\u00e1stica afirma\u00e7\u00e3o que\u00a0<em>a f\u00e9, certamente a f\u00e9 crist\u00e3, literalmente come\u00e7a e termina com uma preocupa\u00e7\u00e3o cosmol\u00f3gica,<\/em>\u00a0uma preocupa\u00e7\u00e3o que normalmente relegamos a ci\u00eancia. Enquanto isso,\u00a0<em>a ci\u00eancia sem d\u00favida est\u00e1 fazendo perguntas cada vez mais teleol\u00f3gicas e est\u00e9ticas<\/em>, que se refere \u00e0 finalidade e a beleza da realidade conhec\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>A prioridade cosmol\u00f3gica da f\u00e9 b\u00edblica<\/strong><\/p>\n<p>A\u00a0<em>f\u00e9,\u00a0<\/em>pelo menos a f\u00e9 b\u00edblica,\u00a0<em>n\u00e3o \u00e9 de maneira alguma, contra a ci\u00eancia<\/em>. Pelo contr\u00e1rio, do ponto de vista teol\u00f3gica,\u00a0<em>a f\u00e9 incentiva e exige a ci\u00eancia<\/em>no que se refere geralmente de qualquer busca pela verdade e no que se refere especificamente da incumb\u00eancia humana de classificar, compreender, e explicar abstratamente a natureza (G\u00eanesis 2.19-20).<\/p>\n<p><strong>1. A busca da verdade<\/strong><br \/>\n(Salmo 25.1-5; Prov\u00e9rbios 1.7; 2.1-6; 23.23; Daniel 2.20-21; Jo\u00e3o 14.6; Romanos 12.1-2; Filipenses 4.8)<\/p>\n<p>Paul Tillich definiu uma vez a religi\u00e3o como qualquer \u201cprocupa\u00e7\u00e3o \u00faltima\u201d que alguem tenha. Assim foi al\u00e9m das defini\u00e7\u00f5es tradicionais que restringia a religi\u00e3o ao campo do m\u00edstico, ou do sobrenatural. Mesmo com esta defini\u00e7\u00e3o ampla de Tillich, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil associar a f\u00e9 b\u00edblica com uma preocupa\u00e7\u00e3o com o divino. Interessantemente as Escrituras antigas fazem uma n\u00edtida liga\u00e7\u00e3o entre o divino e a verdade. Em Jo\u00e3o 14.6, Jesus alega ser a verdade, n\u00e3o s\u00f3 saber ao seu respeito, mas de ser a verdade. N\u00e3o estava inovando. No Antigo Testamento j\u00e1 dizera que o conhecimento (<em>daath<\/em>) pertence a Deus (1 Samuel 2.3). E onde a sabedoria \u00e9 personificada, ela adquire carater\u00edsticas divinas. Al\u00edas, em Prov\u00e9rbios 1-8 ela \u00e9 ao mesmo tempo personificada e divinizada. Agora, \u00e9 importante esclarecer que a afirma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica \u201cDeus \u00e9 a verdade\u201d, deve ser entendido inclusivamente, n\u00e3o exclusivamente. N\u00e3o \u00e9 uma nega\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o de tudo na ci\u00eancia e em qualquer paradigma humana\u00a0<em>que \u00e9 verdadeiro<\/em>. Quem busca a Deus, busca a verdade. E quem de fato busca a verdade, est\u00e1 no caminho a Deus, mesmo que n\u00e3o intencionalmente, quer seja te\u00edsta, de\u00edsta ou ateu. Portanto a f\u00e9, pela sua busca pela verdade e de modo geral, incentiva e exige a ci\u00eancia.<br \/>\n<strong><br \/>\n2. A incumb\u00eancia cient\u00edfica<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m especificamente a f\u00e9 crist\u00e3, nas primeiras p\u00e1ginas da sua constitui\u00e7\u00e3o, a B\u00edblia, come\u00e7a com uma preocupa\u00e7\u00e3o cosmol\u00f3gica: \u201cno princ\u00edpio criou Deus os c\u00e9us e a terra.\u201d E nas su\u00e1s \u00faltimas p\u00e1ginas lemos da recria\u00e7\u00e3o dos mesmos. Os diversos relatos da B\u00edblia sobre o in\u00edcio do universo (s\u00f3 em G\u00eanesis h\u00e1 duas vers\u00f5es logo no in\u00edcio e h\u00e1 outras nos salmos, nos profetas e tamb\u00e9m no Novo Testamento) demonstram um interesse nos elementos da natureza em si e por si s\u00f3 que em muito supera o interesse que se encontra nos escritos teol\u00f3gicos e que em muito coincide com as descri\u00e7\u00f5es cient\u00edficas.<\/p>\n<p>Agora esta \u00faltima frase, \u201ca preocupa\u00e7\u00e3o b\u00edblica\u2026em muito coincide com as descri\u00e7\u00f5es cient\u00edficas\u201d precisa de explica\u00e7\u00e3o. Duas observa\u00e7\u00f5es quanto \u00e0 linguagem n\u00e3o cient\u00edfica da B\u00edblia e o papel de aux\u00edlio que ci\u00eancia presta para uma leitura retrospectiva da B\u00edblia.<\/p>\n<p>Primeiro, tem havido verdadeiras revolu\u00e7\u00f5es a partir do fim do s\u00e9culo passado e especialmente nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas sobre m\u00e9todos de interpreta\u00e7\u00e3o da Escrituras. Alguns m\u00e9todos s\u00e3o mais controvertidos que os outros. Mas de grosso modo tem havido uma compreens\u00e3o e aprecia\u00e7\u00e3o cada vez mais dos meios culturais e historicamente limitados da composi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria dos diversos livros da B\u00edblia. Sem necessariamente abrir a m\u00e3o da autoridade das Escrituras (alguns abrem, outros n\u00e3o), e baseado na analogia da encarna\u00e7\u00e3o do divino no ser humano Jesus, e francamente com o aux\u00edlio do desenvolvimento da antropologia cultural e social, os te\u00f3logos come\u00e7am a apreciar e dar espa\u00e7o cada vez mais para a express\u00e3o de verdades divinas atrav\u00e9s de for\u00e7as de express\u00e3o culturalmente influenciadas. Talvez para muitos de voc\u00eas estou falando o \u00f3bvio. Mas para outros n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o \u00f3bvio. Por exemplo, se Davi n\u00e3o era o pai de Jesus, por que Jesus \u00e9 chamado constantemente \u201cfilho de Davi\u201d? A resposta \u00e9 simples: a palavra \u201cfilho\u201d (<em>ben<\/em>) em hebraico se refere \u00e0 descend\u00eancia, n\u00e3o apenas filia\u00e7\u00e3o imediata. Semelhantemente o arranjo de eventos na vida de Jesus varia entre os Evangelhos simplesmente porque aqueles que relataram os eventos \u2013 Mateus, Marcos, Lucas, e Jo\u00e3o \u2013 n\u00e3o seguiram, por raz\u00f5es \u00f3bvias, a metodologia da historiografia moderna e ocidental. Escreveram dentro das normas culturais da sua \u00e9poca e a inspira\u00e7\u00e3o divina veio atrav\u00e9s de t\u00e3o humanidade, n\u00e3o ultr-passando-a.<\/p>\n<p>Tendo isto em vista, volto a afirma\u00e7\u00e3o anterior: \u201ca preocupa\u00e7\u00e3o b\u00edblica,<em>dentro da linguagem b\u00edblica<\/em>, \u2026em muito coincide com as descri\u00e7\u00f5es cient\u00edficas\u201d Por exemplo, G\u00eanesis fala do surgimento de toda a ra\u00e7a humana, n\u00e3o apenas dum indiv\u00edduo. A palavra, \u201cAd\u00e3o\u201d significa simplesmente \u201cser humano\u201d e \u00e9 uma deriva\u00e7\u00e3o da palavra \u201cterra\u201d, de onde o ser humano surgiu. N\u00e3o \u00e9 isto a perspectiva cient\u00edfica: que a ra\u00e7a humana se constitue dos mesmos elementos da terra?<\/p>\n<p>Em segundo lugar, a perspectiva b\u00edblica, nem sempre a mesma dos te\u00f3logos, n\u00e3o se restringe \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da terra, muito menos da ra\u00e7a humana, mas come\u00e7a numa escala mais abrangente, a cria\u00e7\u00e3o do universo. E apesar de tudo que alguns crist\u00e3os bem intencionados dizem, a linguagem hebraico a respeito dos \u201cdias\u201d da cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 permite mas exige o conceito de per\u00edodos longos, n\u00e3o somente de 24 horas (como j\u00e1 acreditavam os pais da igreja: Irineu, Or\u00edgenes, Basil, Agostinho nos primeiros s\u00e9culos (1-5), e Tom\u00e1s Aquinas no s\u00e9culo 13, certamente n\u00e3o sob a influ\u00eancia da modernidade). Dentro do campo sem\u00e2ntico da palavra, yom, est\u00e1 o cnceito de per\u00edodos. S\u00f3 para d\u00e1 um exemplo, pelo menos mil anos depois do relato da cria\u00e7\u00e3o, o autor de Hebreus no Novo Testamento, disse que podemos entrar no descanso de Deus, a nomenclatura do s\u00e9timo dia da cria\u00e7\u00e3o, dia este no qual ainda passamos conforme o autor de Hebreus.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, todos os relatos da cria\u00e7\u00e3o na B\u00edblia pressup\u00f5em um alto grau de\u00a0<em>ordem\u00a0<\/em>num relacionamento din\u00e2mico com o\u00a0<em>caos\u00a0<\/em>(Josu\u00e9 10.12; Ju\u00edzes 5.20; G\u00eanesis 49.25; \u00caxodo 15.8,11; N\u00fameros 16.30; Deuteron\u00f4mio 33.14ss; Jeremias 31:35-36 e Salmo 29 e 8). A constru\u00e7\u00e3o ordeira da cria\u00e7\u00e3o sobressai em Prov\u00e9rbios 8.22-36 como a arquitetura da sabedoria personificada. Tamb\u00e9m, a ordem \u00e9 imediatamente evidente no relato de G\u00eanesis 1 da a\u00e7\u00e3o inicial de Deus sobre e contra todo o caos (compare G\u00eanesis 1.2 com Isa\u00edas 45.18!). Essa ordem, ou subordina\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o, continuamente recebe destaque em v\u00e1rios salmos, especialmente Salmo 18.7-15. Hoje, as teorias de caos e especialmente de complexidade (fen\u00f4menos de estudo interdisciplinar) confirmam esta rela\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para o surgimento de sistemas complexos (talvez a rela\u00e7\u00e3o entre a entropia e as for\u00e7as ken\u00e9ticas ilustre este ponto).<\/p>\n<p>Antigamente, os te\u00f3logos tinham basicamente duas op\u00e7\u00f5es para a interpreta\u00e7\u00e3o do relato cosmol\u00f3gico de G\u00eanesis 1 e 2. Alguns trataram os relatos de G\u00eanesis 1 e 2 como pura inven\u00e7\u00e3o sem nenhuma rela\u00e7\u00e3o com acontecimentos hist\u00f3ricos. Isto parecia-lhes a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o a tantas incompatibilidades com a ci\u00eancia moderna. Outros estudiosos, no intuito de ser fiel a autoridade das escrituras, for\u00e7am uma seq\u00fc\u00eancia restritamente cronol\u00f3gica nos relatos propondo interpreta\u00e7\u00f5es cada vez mais fant\u00e1sticas e inacredit\u00e1veis.<\/p>\n<p>Hoje, com a li\u00e7\u00f5es da antropologia, \u00e9 mais f\u00e1cil descartar estas duas interpreta\u00e7\u00f5es t\u00e3o preocupadas com a cronologia (ou pela sua nega\u00e7\u00e3o ou pela afirma\u00e7\u00e3o) ambas partindo de conceitos contempor\u00e2neos e ocidentais do tempo e da hist\u00f3ria, em contraposi\u00e7\u00e3o aos conceitos hebraicos antigos. Nos relatos da cria\u00e7\u00e3o, Israel n\u00e3o estava interessado na natureza f\u00edsica da cria\u00e7\u00e3o em si, como n\u00f3s hoje em dia procuramos entender pela ci\u00eancia natural a origem das coisas. Para Israel, o relato da cria\u00e7\u00e3o era importante \u00e0 medida que explicava\u00a0<em>seu\u00a0<\/em>relacionamento com o plano de Deus, para este mundo todo. Isto \u00e9, devemos entender os relatos n\u00e3o cronol\u00f3gicamente mas\u00a0<em>topicamente<\/em>, o t\u00f3pico sendo o prop\u00f3sito de Deus para a sua cria\u00e7\u00e3o, ou mais precisamente, o reino de Deus.<\/p>\n<p>Desta perspectiva, Deus primeiro cria tr\u00eas grupos b\u00e1sicos de\u00a0<em>reinos<\/em>, ou dom\u00ednios, durante os primeiros tr\u00eas dias. Nos pr\u00f3ximos tr\u00eas dias, Deus cria os\u00a0<em>reis\u00a0<\/em>para governarem nos reinos, anteriormente criados. O \u00faltimo rei a ser designado (constituindo a primeira Grande Comiss\u00e3o!) \u00e9 o homem, que recebe o mandato representativo e real como governador-administrador sobre todos os outros reis e reinados. Por representativo, quer dizer que a humanidade foi criada por Deus \u00e0 sua imagem (<em>\u00e7elem<\/em>) e semelhan\u00e7a (<em>d\u00eam\u00fbth<\/em>), isto \u00e9, segundo a sua esp\u00e9cie (G\u00eanesis 1.26,11).<\/p>\n<p>O importante no relato, ent\u00e3o, \u00e9 ressaltar o\u00a0<em>prop\u00f3sito\u00a0<\/em>da cria\u00e7\u00e3o do homem, e n\u00e3o tanto a\u00a0<em>forma\u00a0<\/em>que assumiu. Semelhantemente, o relato se importa mais com o prop\u00f3sito do resto da cria\u00e7\u00e3o, do que com a forma e com a natureza desta origem em si, sendo estas \u00faltimas, preocupa\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia moderna.<\/p>\n<p>Dentro do esquema apresentado a humanidade tem um chamamento representativo para\u00a0<em>reinar como Deus reina<\/em>. Por esta raz\u00e3o, o ser humano \u00e9 n\u00e3o somente o servo do Senhor, como tamb\u00e9m representante dele. Assim como Deus faz, o representante deveria fazer, refletindo as caracter\u00edsticas do Criador. Nisto, a realeza e o dom\u00ednio de Deus s\u00e3o refletidos no dom\u00ednio e na administra\u00e7\u00e3o apropriados da humanidade sobre a cria\u00e7\u00e3o. A fun\u00e7\u00e3o que a imagem de Deus no ser humano tem, portanto, \u00e9 exatamente o que o texto b\u00edblico elabora em G\u00eanesis 1.28, \u201cter dom\u00ednio\u201d (<em>r\u00e2dh\u00e2h<\/em>) e \u201csujeitar\u201d (<em>k\u00f4bhash<\/em>) a terra. Isto \u00e9 o seu status como senhor no mundo. Deus coloca a humanidade no mundo como sinal da sua soberania. E de acordo com G\u00eanesis 2.19-20, esta soberania \u00e9 exercida pela incumb\u00eancia (divina) de classificar, compreender, e explicar abstratamente a natureza. A incumb\u00eancia e o destino do ser humano est\u00e3o ligados ao universo e vice versa (Romanos 8.19-21).<\/p>\n<p>O Salmo 8 concorda com este conceito de G\u00eanesis 1 de que a humanidade realiza sua comiss\u00e3o como rei do reino terrestre, assim como Deus \u00e9 Rei do reino celeste, e o status do ser humano sendo por um pouco menor do que Deus. Daniel Thambyrajah Niles, te\u00f3logo e mission\u00e1rio indiano ilustra esta rela\u00e7\u00e3o da seguinte forma:<\/p>\n<blockquote><p>O homem \u00e9 a \u00fanica criatura que Deus fez cujo ser n\u00e3o est\u00e1 em si mesmo, e que por si mesmo n\u00e3o \u00e9 nada. A \u201ccanicidade\u201d do c\u00e3o est\u00e1 no c\u00e3o, mas a \u201chumanidade\u201d do homem n\u00e3o est\u00e1 no homem. Est\u00e1 na sua rela\u00e7\u00e3o com Deus. O homem \u00e9 homem porque reflete Deus, e somente quando ele assim o faz [tradu\u00e7\u00e3o] (1958:60-61).<\/p><\/blockquote>\n<p>O ser humano \u00e9\u00a0<em>homo Dei<\/em>, ou est\u00e1 aqu\u00e9m da sua pr\u00f3pria humanidade. As implica\u00e7\u00f5es desta incumb\u00eancia divina do ser humano para a tarefa da ci\u00eancia s\u00e3o grandes. Repare, por exemplo, que tal incumb\u00eancia \u00e9 da ess\u00eancia da humanidade, e n\u00e3o um derivado da sua salva\u00e7\u00e3o. Pois em G\u00eanesis 1 e 2 n\u00e3o se fala da salva\u00e7\u00e3o simplesmente porque n\u00e3o havia ainda a queda. A queda aparece somente no cap\u00edtulo 3. Novamente afirmo: a incumb\u00eancia divina para governar o mundo natural especialmente atrav\u00e9s da sua classifica\u00e7\u00e3o nominal das suas diversas partes (sem d\u00favida a ci\u00eancia \u00e9 campi\u00e3o na fabrica\u00e7\u00e3o de palavr\u00f5es!) \u00c9 da ess\u00eancia de toda a humanidade, n\u00e3o s\u00f3 dos religiosos. Precede a queda. Ali\u00e1s, mesmo depois da queda a incumb\u00eancia permanece em p\u00e9 (G\u00eanesis 9.1-7). Na teologia esta incumb\u00eancia comum \u00e9 denominada \u201cgra\u00e7a comum\u201d ou \u201crevela\u00e7\u00e3o comum\u201d e se distingui da \u201cgra\u00e7a especial\u201d pela salva\u00e7\u00e3o, ou a \u201crevela\u00e7\u00e3o especial\u201d atrav\u00e9s das Escrituras. S\u00f3 que \u201cespecial\u201d n\u00e3o significa que a revela\u00e7\u00e3o \u00e9 verdadeira que a revela\u00e7\u00e3o comum (por exemplo, atrav\u00e9s da ci\u00eancia). A qualifica\u00e7\u00e3o, \u201cespecial\u201d, se refere ao meio da revela\u00e7\u00e3o \u2013 as Escrituras \u2013 n\u00e3o a sua qualidade.<\/p>\n<p><strong>O interesse est\u00e9tico e teleol\u00f3gico da ci\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Acima usei a analogia de g\u00eameos criados separadamente para descreve a rela\u00e7\u00e3o entre a ci\u00eancia e a f\u00e9. Disse que a f\u00e9, certamente a f\u00e9 crist\u00e3, literalmente come\u00e7a e termina com uma preocupa\u00e7\u00e3o cosmol\u00f3gica, uma preocupa\u00e7\u00e3o que normalmente relegamos a ci\u00eancia e elaborei um pouco sobre isso. Tamb\u00e9m disse que a ci\u00eancia est\u00e1 fazendo perguntas cada vez mais teleol\u00f3gicas e est\u00e9ticas, que se refere \u00e0 finalidade e a beleza da realidade conhec\u00edvel, perguntas que geralmente relegamos \u00e0 religi\u00e3o. J\u00e1 que tal afirma\u00e7\u00e3o foge da minha compet\u00eancia profissional, n\u00e3o vou arriscar uma elabora\u00e7\u00e3o deste ponto. Vou apenas ilustr\u00e1-lo atrav\u00e9s de alguns cientistas mundialmente conhecidos e respeitados.<\/p>\n<p>Primeiro, algumas cita\u00e7\u00f5es do astr\u00f4nomo John Barrow (co-autor com Frank Tipler do livro que elabora o princ\u00edpio cosmol\u00f3gico antr\u00f3pico), no seu livro,\u00a0<em>The Artful Universe<\/em>\u00a0(Oxford: Oxford University, 1995):<\/p>\n<blockquote><p>da contra-capa: \u201cincrivelmente, descobrimos que algumas das propriedades do Universo que s\u00e3o esseciais para a exist\u00eancia de qualquer forma de vida fazem um papel chave na determina\u00e7\u00e3o de respostas psicol\u00f3gicas e religiosas para o Cosmos.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>P\u00e1gina viii: \u201ca fascina\u00e7\u00e3o cient\u00edfica com o fruto da complexidade organizada em todas as suas formas deveria lev\u00e1-los \u00e0s artes criativas aonde se encontra m exemplos extraordin\u00e1rios de precis\u00e3o estruturada.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Segundo, John Holland, um dos maiores matem\u00e1ticos e simuladores de intelig\u00eancia no cumputador de MIT, no seu livro,\u00a0<em>Hidden Order: How Adaptation Builds Complexity<\/em>\u00a0(Reading, Massachusetts: Addison-Wesley, 1995):<\/p>\n<blockquote><p>P\u00e1gina 146: \u201ca constru\u00e7\u00e3o de modelos \u00e9 a arte de selecionar aqueles aspectos dum processo que s\u00e3o revelantes para a pergunta sendo feita\u2026esta sele\u00e7\u00e3o \u00e9 guiada por gosto, por eleg\u00e2ncia e por met\u00e1fora; \u00e9 uma quest\u00e3o de indu\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s de dedu\u00e7\u00e3o. A alta ci\u00eancia depende desta arte.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Terceiro, o pr\u00eamio nobel, Steven Weinberg, no seu livro,\u00a0<em>Dreams of a Final Theory<\/em>\u00a0(New York: Pantheon Books, 1992):<\/p>\n<blockquote><p>P\u00e1gina 17: \u201co progresso na f\u00edsica \u00e9 frequentemente guiado por julgamentos que somente podem ser chamados de est\u00e9ticos\u201d<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>P\u00e1gina 98: \u201cacredito que a aceita\u00e7\u00e3o geral da relatividade geral se deve em grande parte \u00e0 atra\u00e7\u00e3o da teoria em si \u2013 em s\u00edntese, \u00e0 sua beleza.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>P\u00e1gina 104: \u201ccientistas e historiadores da ci\u00eancia j\u00e1 h\u00e1 muito tempo desistiram da perspectiva antiga de Francis Bacon, que as hip\u00f3teses cient\u00edficas deveriam se desenvolver pela observa\u00e7\u00e3o patente e sem preconceito da natureza.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>P\u00e1gina 149: \u201cn\u00e3o somente nosso julgamento est\u00e9tico \u00e9 um meio para chegar \u00e0s explana\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e julgando sua validade \u2013 f<em>az parte daquilo que queremos dizer por uma explana\u00e7\u00e3o<\/em>.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>P\u00e1gina 219: \u201co alvo da f\u00edsica no seu n\u00edvel mais fundamental n\u00e3o \u00e9 somente descrever o mundo mas\u00a0<em>explicar\u00a0<\/em>por que ele \u00e9 do jeito que \u00e9.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Portanto \u00e9 tanto pelo interesse cient\u00edfico \u2013 explicar por que o mundo \u00e9 do jeito que \u00e9 \u2013 quanto pelo interesse da f\u00e9 b\u00edblica \u2013 que de grosso modo incentiva e apoia a investiga\u00e7\u00e3o cientifica, que prefiro ver a f\u00e9 e a ci\u00eancia como g\u00eameos, ou para diminuir o exagero, pelo menos como irm\u00e3os. Mas ainda n\u00e3o falamos dos m\u00e9todos e muito menos das conseq\u00fc\u00eancias dos dois paradigmas que tanto os distinguem. Quem sabe, tanto Rubem Alves quanto eu, no fim, temos a raz\u00e3o e devemos ver os agentes da f\u00e9 e da ci\u00eancia, isto \u00e9 os religiosos e os cientistas como lobos g\u00eameos, embora criados separadamente.<\/p>\n<p><strong>Passagens b\u00edblicas para medita\u00e7\u00e3o:<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li>Salmo 25.1-5<\/li>\n<li>Prov\u00e9rbios 1.7; 2.1-6; 23.23<\/li>\n<li>Daniel 2.20-21<\/li>\n<li>Jo\u00e3o 14.6<\/li>\n<li>Romanos 12.1-2<\/li>\n<li>Filipenses 4.8<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O div\u00f3rcio entre a f\u00e9 e a ci\u00eancia, ou entre a f\u00edsica e a metaf\u00edsica, marcou o fim da Idade Medieval e o in\u00edcio do Iluminismo. N\u00e3o me entenda mal. Creio que este div\u00f3rcio trouxe inestim\u00e1veis benef\u00edcios para ambos os lados, mas n\u00e3o sem um alto pre\u00e7o. 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