{"id":773,"date":"2011-09-26T19:42:22","date_gmt":"2011-09-26T21:42:22","guid":{"rendered":"http:\/\/escriturasagrada.com\/?p=773"},"modified":"2012-10-29T19:39:10","modified_gmt":"2012-10-29T21:39:10","slug":"uma-nova-heresia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/2011\/09\/26\/uma-nova-heresia\/","title":{"rendered":"Uma Nova Heresia?"},"content":{"rendered":"<p>Esta foi a pergunta que foi levantada para mim quando li a reflex\u00e3o por Augustus Nicodemus intitulada \u201cUma nova heresia sobre Paulo\u201d, se referindo a uma linha de estudos paulinos conhecida como a \u201cNova Perspectiva sobre Paulo\u201d (NPP).<a href=\"\/Documents\/Current%20Projects\/Tom%20Wright.docx#_ftn1\">[1]<\/a> Ao ler a sua descri\u00e7\u00e3o das perspectivas de E. P. Sanders e de N.T. Wright, confesso que tive grande dificuldade de reconhecer estes autores. O Sanders e o Wright do articulista n\u00e3o s\u00e3o os autores dos seus pr\u00f3prios livros, e sim, uma constru\u00e7\u00e3o pelo articulista, de f\u00e1cil destrui\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, \u00e9 dif\u00edcil tamb\u00e9m reconhecer como genu\u00edno o Lutero do articulista. Pergunto, estamos mesmo lidando com uma \u201cnova heresia a respeito de Paulo\u201d, promovida pelo Wright? O equ\u00edvoco est\u00e1 mesmo com Wright ou com a avalia\u00e7\u00e3o a seu respeito? Precisamos duma segunda olhada \u00e0 controv\u00e9rsia.<\/p>\n<p><!--more-->O articulista nos apresenta quatro personagens principais: E. P. Sanders, Krister Stendahl, James Dunn e N. T. (Thomas) Wright. Destes quatro, a preocupa\u00e7\u00e3o maior est\u00e1 com Wright, talvez porque seja recebido com entusiasmo por pessoas evangelicais, eu inclusive.<a href=\"\/Documents\/Current%20Projects\/Tom%20Wright.docx#_ftn2\">[2]<\/a> Ao longo da reflex\u00e3o, percebemos que a maior defici\u00eancia apontada de Wright seria que ele, mesmo se identificando com o mundo evangelical, seguiria as ideias dos outros tr\u00eas. Entretanto, esta alega\u00e7\u00e3o simplesmente n\u00e3o \u00e9 verdadeira e Wright n\u00e3o aceita as ideias destes outros tr\u00eas em todos os pontos que o articulista apresenta. Por exemplo, Wright afirma, sim, a morte substitutiva de Cristo, o pleno perd\u00e3o por Deus em Cristo Jesus e a justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9. A incapacidade ou indisposi\u00e7\u00e3o de distinguir o pensamento de Wright dos outros autores e assim reconhecer in\u00fameras vertentes da NPP revela uma defici\u00eancia muito grande por parte do articulista. Agora, vamos substanciar a nossa defesa de Wright, seguindo a mesma ordem de cinco partes usada pelo articulista&#8230;<a href=\"\/Documents\/Current%20Projects\/Tom%20Wright.docx#_ftn3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>1. A representa\u00e7\u00e3o pelo articulista de E. P. Sanders \u00e9 tendenciosa. Por um lado, afirma corretamente que a obra, <em>Paul and Palestininian Judaism<\/em>, 1977, foi ocasi\u00e3o crucial para o surgimento da NPP. Entretanto, esta obra realiza o contr\u00e1rio do que o articulista alega. Basta uma olhada at\u00e9 ligeira \u00e0s primeiras 400 p\u00e1ginas do livro para perceber que o juda\u00edsmo que Sanders nos apresenta se baseia firmemente em documentos e tradi\u00e7\u00f5es <em>dos per\u00edodos imediatamente anterior e contempor\u00e2neo do cristianismo emergente<\/em> e n\u00e3o do juda\u00edsmo posterior dos s\u00e9culos III-IV, como o articulista afirma. Sanders avalia e cita extensivamente documentos n\u00e3o s\u00f3 do Talmude e Mishn\u00e1, como tamb\u00e9m dos Rolos de Qumr\u00e3 e do Pseudep\u00edgrafo, e isto <em>em contraposi\u00e7\u00e3o aos reformadores que n\u00e3o tiveram acesso a estas \u00faltimas duas categorias<\/em>. Vale a pena esclarecer que a cita\u00e7\u00e3o criteriosa do Talmude e do Mishn\u00e1, embora sejam dos s\u00e9culos III e IV, tamb\u00e9m \u00e9 v\u00e1lida quando est\u00e3o citando ensinos anteriores que eram contempor\u00e2neos da igreja primitiva. O fato indiscut\u00edvel, que o articulista nem menciona, \u00e9 que temos literalmente centenas de documentos a nossa disposi\u00e7\u00e3o hoje que os reformadores simplesmente n\u00e3o possu\u00edam.<a href=\"\/Documents\/Current%20Projects\/Tom%20Wright.docx#_ftn4\">[4]<\/a>Portanto, estamos numa posi\u00e7\u00e3o, sim, de entender o contexto judaico do Novo Testamento melhor que os reformadores.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou dizendo que concordo com todas as conclus\u00f5es de Sanders. N\u00e3o concordo, e Wright j\u00e1 publicou incansavelmente que n\u00e3o concorda, especialmente com a interpreta\u00e7\u00e3o por Sanders de como Paulo confrontava os seus opositores em Romanos e G\u00e1latas.<\/p>\n<p>2. Segundo, Wright tamb\u00e9m n\u00e3o segue a interpreta\u00e7\u00e3o por Krister Stendahl, pelo menos quando Stendahl afirma que Paulo n\u00e3o havia passado por uma \u201cconvers\u00e3o\u201d, mas sim por um \u201cchamado\u201d. Wright simplesmente rejeita esta dicotomia, e afirma que, quando Paulo fala do seu chamado em G\u00e1latas 1, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que na sua mente estava se referindo \u00e0 sua convers\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas nesta segunda parte do seu argumento, como na reflex\u00e3o toda, o articulista lamenta que a perspectiva de Stendahl e outros questione a doutrina da justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 como o centro da prega\u00e7\u00e3o de Paulo. Confesso estranheza ao ouvir esta reclama\u00e7\u00e3o dum suposto calvinista, pois a insist\u00eancia na centralidade da justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 na prega\u00e7\u00e3o de Paulo de modo geral e em Romanos especificamente sempre foi uma insist\u00eancia luterana, e n\u00e3o calvinista, ou ser\u00e1 que Jo\u00e3o Calvino e seus seguidores tamb\u00e9m se enquadram na mesma categoria de heresia que o articulista atribui a Wright? Calvino, como Wright, insistiu no conceito da alian\u00e7a e por isso, grande continuidade entre o Velho e Novo Testamento, como chave para a interpreta\u00e7\u00e3o do Novo Testamento, Paulo inclusive. Desde Calvino at\u00e9 Cranfield, esta \u201chist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o\u201d expressa especialmente na alian\u00e7a de Deus com o seu povo \u00e9 a chave tanto para entender a Carta aos Romanos quanto a teologia do Novo Testamento de modo geral. O articulista quer nos convencer que o protestantismo, desde a Reforma, seguia Lutero na sua afirma\u00e7\u00e3o da centralidade da justifica\u00e7\u00e3o. Isto simplesmente n\u00e3o \u00e9 o caso. Sim, Calvino, junto com Lutero, tamb\u00e9m afirmava que Deus imputa a sua justi\u00e7a ou a justi\u00e7a de Cristo para aqueles que creem, algo, por sinal, que Wright <em>n\u00e3o nega<\/em>. O que Wright nega \u00e9 que Paulo esteja se referindo a isso em Romanos 3.21-26. E junto com Calvino e outros, nega que a doutrina da justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 seja a mensagem central de Paulo.<a href=\"\/Documents\/Current%20Projects\/Tom%20Wright.docx#_ftn5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>3. Nesta parte, o articulista afirma corretamente que \u201ca Reforma sempre entendeu que \u2018as obras da lei\u2019 em G\u00e1latas e Romanos, contra as quais Paulo escreve, eram aqueles atos praticados pelos judeus em obedi\u00eancia aos estritos preceitos da lei de Mois\u00e9s.\u201d Depois, tamb\u00e9m corretamente disse que James G. Dunn \u201cargumentou que \u2018as obras da lei\u2019 &#8230; eram a circuncis\u00e3o, a guarda do calend\u00e1rio religioso e as leis diet\u00e1rias de Mois\u00e9s \u2013 sinais identificadores da identidade judaica do s\u00e9culo I.\u201d Mas a sua conclus\u00e3o n\u00e3o compete: \u201cEm outras palavras, a pol\u00eamica de Paulo n\u00e3o era contra o legalismo dos judaizantes, mas contra a insist\u00eancia deles em manter os gentios distantes.\u201d O articulista n\u00e3o entende nem a perspectiva de Dunn e nem de Wright (que tamb\u00e9m n\u00e3o segue toda a perspectiva de Dunn). Pelo menos para Wright, e acredito tamb\u00e9m para Dunn, <em>a pol\u00eamica de Paulo era sim, contra o legalismo dos judaizantes o que mantinha os gentios distantes<\/em> dentro do povo de Deus. E tal legalismo, na pr\u00e1tica, se manifestava especialmente na exig\u00eancia da circuncis\u00e3o, na observ\u00e2ncia do s\u00e1bado e nas leis aliment\u00edcias. O texto que o articulista cita contra Dunn e Wright, Atos 15.1, na verdade, ilustra esta posi\u00e7\u00e3o dos dois. Acrescento mais ainda, se a pol\u00eamica de Paulo era contra um legalismo judaico que abrangia <em>toda<\/em> a lei, o argumento de Paulo em G\u00e1latas 3.10 perderia a sua for\u00e7a, nem faria sentido o argumento de Paulo em Filipenses 3.6 contra os judaizantes que insistiam na circuncis\u00e3o (Fp 3.2-3).<\/p>\n<p>4. J\u00e1 falamos que os cr\u00edticos da NPP n\u00e3o distinguem suficientemente as diversas vertentes da NPP. O articulista distinguiu apenas duas, uma mais radical exemplificada por H. J. Schoeps e a outra exemplificada por H. R\u00e4is\u00e4nen. Augustus Nicodemus n\u00e3o tenta enquadrar Wright dentro duma destas duas. E a raz\u00e3o \u00e9 simples, Wright n\u00e3o se encaixa em nenhuma destas, o que desqualifica muitas da cr\u00edticas do articulista. Hoje, as vertentes da NPP s\u00e3o tantas e t\u00e3o distantes que a denomina\u00e7\u00e3o NPP fica cada vez menos \u00fatil. Mas a pergunta que conclui esta se\u00e7\u00e3o merece uma resposta: \u201ccomo a Igreja toda, mesmo contando com exegetas e te\u00f3logos do maior calibre, conseguiu se enganar por tanto tempo, do s\u00e9culo XVI at\u00e9 hoje, em um assunto t\u00e3o b\u00e1sico?\u201d A resposta \u00e9 m\u00faltipla.<\/p>\n<p><em>Primeiro<\/em>, n\u00e3o era \u201ca Igreja toda\u201d. Tirando os romanos e os ortodoxos diversos, mesmo os protestantes est\u00e3o inquietos a este respeito por mais que um s\u00e9culo, desde o surgimento de crit\u00e9rios hist\u00f3ricos ao estudo da B\u00edblia auxiliado pelas descobertas e pela disponibilidade de um n\u00famero cada vez maior de documentos judaicos do s\u00e9culo I. Ignorar isto \u00e9 simplesmente botar a cabe\u00e7a num buraco, o que em nada ajuda.<\/p>\n<p><em>Segundo<\/em>, \u201cos melhores te\u00f3logos e exegetas\u201d jamais superam a falta de recursos que informam o seu trabalho. Pensem s\u00f3 na analogia de Agostinho. Por que demorou tanto para haver um \u201csalto\u201d no conhecimento pelos Reformadores? Era o capricho dos Reformadores? Ou o surgimento das universidades por toda a Europa e a tradu\u00e7\u00e3o dos cl\u00e1ssicos gregos para latim fornece n\u00e3o s\u00f3 o contexto para o surgimento do Iluminismo como tamb\u00e9m a Reforma Protestante? Isto n\u00e3o diminui a a\u00e7\u00e3o de Deus na vida corajosa dos Reformadores. Apenas forneceu o contexto social e intelectual necess\u00e1rio da mesma forma que a organiza\u00e7\u00e3o romana e as suas estradas pelo imp\u00e9rio forneceram parte do contexto para a expans\u00e3o do cristianismo nascente.<\/p>\n<p>E <em>terceiro<\/em>, n\u00e3o se trata de \u201cengano\u201d por parte dos Reformadores, pelo menos n\u00e3o na perspectiva de Wright.<a href=\"\/Documents\/Current%20Projects\/Tom%20Wright.docx#_ftn6\">[6]<\/a> Como j\u00e1 esclarecemos, a perspectiva de Wright afirma n\u00e3o s\u00f3 a soberania, justi\u00e7a e poder de Deus, a morte substitutiva de Cristo, o perd\u00e3o dos pecados e a salva\u00e7\u00e3o de todos aqueles que creem, unicamente pela gra\u00e7a de Deus, mas tamb\u00e9m a justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9, at\u00e9 mesmo justi\u00e7a de Deus ou de Cristo imputada. Mas vamos esclarecer, a justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 \u00e9 uma doutrina importante sim. E estamos falando, junto com Wright, de justi\u00e7a atribu\u00edda <em>de fato<\/em> por Deus e <em>n\u00e3o por n\u00f3s<\/em>, como na doutrina romana de justi\u00e7a infundida. Mas a quest\u00e3o que Wright levanta \u00e9 esta: a doutrina da justi\u00e7a de Cristo imputada por Deus \u00e9 o que Paulo est\u00e1 afirmando em Romanos? Este \u00e9 o cerne da sua mensagem e preocupa\u00e7\u00e3o ao escrever esta carta? E tal doutrina&#8230;isto \u00e9 importante&#8230;para Paulo, descreve o processo da salva\u00e7\u00e3o ou \u00e9 a declara\u00e7\u00e3o por Deus do status do j\u00e1 salvo pela f\u00e9, chamado antem\u00e3o para servi-Lo? Ou seja, a linguagem da justifica\u00e7\u00e3o em Romanos e G\u00e1latas, <em>para Paulo<\/em>, se refere a que, um processo pelo qual algu\u00e9m \u00e9 salvo ou o status declarado por Deus do j\u00e1 salvo?<\/p>\n<p>5. Novamente, Wright n\u00e3o simplesmente \u201cabra\u00e7a a \u2018nova perspectiva\u2019, seguindo Stendahl, Sanders, e Dunn\u201d. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o rejeita tudo que eles escreveram. Augustus Nicodemus tem raz\u00e3o: segundo Wright, \u201cpara Paulo a justifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa que Deus transfere a sua pr\u00f3pria justi\u00e7a ao pecador, como ensina a doutrina da imputa\u00e7\u00e3o; Deus, \u00e0 semelhan\u00e7a do se faz num tribunal, considera vindicado o pecador, sem, todavia, imputar-lhe a sua pr\u00f3pria justi\u00e7a&#8230;Deus absolve o pecador por causa de sua<a href=\"\/Documents\/Current%20Projects\/Tom%20Wright.docx#_ftn7\">[7]<\/a> fidelidade ao pacto, \u00e0 alian\u00e7a\u201d. Absolutamente! Mas para Wright, esta justi\u00e7a n\u00e3o \u00e9 menos real ou efetiva. De todo jeito,\u00a0 procede de Deus. O ponto de Wright \u00e9 que isto \u00e9 um veredito, consequ\u00eancia de algo que <em>j\u00e1<\/em> aconteceu: um chamado efetivo (usando a linguagem tanto de Wright quanto da Confiss\u00e3o de Westminster). Mas <em>n\u00e3o se refere<\/em>, como para Lutero e Calvino, ao processo de salva\u00e7\u00e3o. Para isto Paulo usa a linguagem do \u201cchamado\u201d (Gl 1.15-16).<\/p>\n<p>Justi\u00e7a imputada<\/p>\n<p><span style=\"color: #333333; font-weight: 300;\">A discuss\u00e3o a respeito da justi\u00e7a imputada (perspectiva dos protestantes) ou a justi\u00e7a infundida (perspectiva cat\u00f3lico romana) \u00e9 longa e exige muito mais aten\u00e7\u00e3o que podemos dar aqui. Basta dizer que a perspectiva de Wright acaba derrubando o fundamento de ambas as perspectivas por afirmar que Paulo n\u00e3o tinha nenhuma das duas em vista quando escreveu Romanos e G\u00e1latas. Isto n\u00e3o significa que Wright negue a doutrina em si. Pelo contr\u00e1rio, a sua perspectiva \u00e9 muito mais pr\u00f3xima da ideia de justi\u00e7a imputada<a href=\"\/Documents\/Current%20Projects\/Tom%20Wright.docx#_ftn8\">[8]<\/a> e \u00e9 poss\u00edvel usar a linguagem de justi\u00e7a imputada para descrever outras passagens, como mencionamos acima. Para Wright e muitos outros, \u00e9 preciso reexaminar o texto. A palavra que os Reformadores traduziram como \u201cimputar\u201d \u00e9 <em>logizomai<\/em>. \u00c9 muito dif\u00edcil achar um recurso lexigr\u00e1fico que traduza <em>logizomai<\/em> como \u201cimputar\u201d. Os significados habituais s\u00e3o \u201ccreditar\u201d, \u201catribuir\u201d, \u201cponderar\u201d, \u201ccalcular\u201d, \u201clevar em conta\u201d, e \u201cconsiderar\u201d. Romanos 4.3 usa o termo, citando a vers\u00e3o grega de G\u00eanesis 15.6 onde a voz passiva do verbo explicitamente indica que foi a f\u00e9 <em>de Abra\u00e3o<\/em> que foi \u201catribu\u00edda\u201d ou \u201ccontabilizada\u201d como a sua justi\u00e7a, e n\u00e3o uma justi\u00e7a alheia como Lutero entendia.<\/span><\/p>\n<p>Se a ideia n\u00e3o est\u00e1 em Romanos e G\u00e1latas, de onde Lutero a tirou? N\u00e3o podemos saber com certeza mas h\u00e1 fortes ind\u00edcios que ele recebeu a ideia de Erasmo, o pai da Renascen\u00e7a. No s\u00e9culo XVI, Erasmo procurou corrigir a tradu\u00e7\u00e3o para latim da B\u00edblia que Jer\u00f4nimo havia publicado no s\u00e9culo IV, a Vulgata. Jer\u00f4nimo havia traduzido <em>logizomai<\/em> como <em>reputat<\/em> (reputar). Erasmo, na publica\u00e7\u00e3o do seu Novo Testamento, corrigiu as onze ocorr\u00eancias desta palavra em Romanos para <em>imputat <\/em>(imputar).<a href=\"\/Documents\/Current%20Projects\/Tom%20Wright.docx#_ftn9\">[9]<\/a> Este Novo Testamento teve grande influ\u00eancia na Reforma Protestante.<\/p>\n<p>Uma nota final: Paulo elaborou a doutrina da justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9 para dizer, entre outras coisas, que todos que creem, tanto judeus quanto gentios, s\u00e3o aceitos <em>de igual forma<\/em> diante de Deus. Um dos prop\u00f3sitos expl\u00edcitos de Paulo, ent\u00e3o era de unir uma igreja dividida (Romanos 15.1-3). \u00c9 lament\u00e1vel, e ocasi\u00e3o de arrependimento, que hoje a doutrina da justifica\u00e7\u00e3o seja usada para dividir o povo de Deus.<\/p>\n<div>\n<hr size=\"1\" \/>\n<div>\n<p><a href=\"\/Documents\/Current%20Projects\/Tom%20Wright.docx#_ftnref1\">[1]<\/a> Em <em>Apolog\u00e9tica crista. Uma revista de teologia e doutrinas<\/em>. \u00a0Ano 3 (2011), Edi\u00e7\u00e3o 10.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a href=\"\/Documents\/Current%20Projects\/Tom%20Wright.docx#_ftnref2\">[2]<\/a> Outros l\u00edderes evangelicais que endossam o trabalho de Wright incluem I. Howard Marshall, Richard B. Hays, Darrell Bock, Carl Blomberg, Michael Bird (<a href=\"http:\/\/www.ivpress.com\/cgi-ivpress\/book.pl\/review\/code=3863\">http:\/\/www.ivpress.com\/cgi-ivpress\/book.pl\/review\/code=3863<\/a>) e Gordon Fee (<a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/N._T._Wright\">http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/N._T._Wright<\/a>). H\u00e1 alguns anos recomendei os escritos do Tom Wright para a Editora Ultimato, que desde ent\u00e3o, traduziu alguns dos seus livros destinados \u00e0 audi\u00eancia leiga. Em seguida, a Editora Ultimato publicou <em>Simplesmente Crist\u00e3o <\/em>em 2008, e em 2009, <em>O Mal e a Justi\u00e7a de Deus<\/em> e <em>Surpreendido pela Esperan\u00e7a<\/em>. <a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/tag\/n-t-wright\/\">http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/blogdaultimato\/tag\/n-t-wright\/<\/a> . Ele j\u00e1 \u00e9 aclamado por muitos como um dos maiores estudiosos de Novo Testamento da atualidade. Considerando a sua posi\u00e7\u00e3o assumidamente evangelical isto \u00e9 especialmente not\u00f3rio.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a href=\"\/Documents\/Current%20Projects\/Tom%20Wright.docx#_ftnref3\">[3]<\/a> \u00c9 importante notar que as cr\u00edticas do Augustus Nicodemus remedam um debate antigo acerca do livro de Wright, <em>What Paul Really Said<\/em>, 1997. Entretanto, o debate avan\u00e7ou muito de l\u00e1 para c\u00e1, principalmente pela publica\u00e7\u00e3o do livro de John Piper em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 perspectiva de Wright acerca da justifica\u00e7\u00e3o (pode baixar o livro inteiro aqui: <a href=\"http:\/\/www.desiringgod.org\/resource-library\/online-books\/the-future-of-justification\">http:\/\/www.desiringgod.org\/resource-library\/online-books\/the-future-of-justification<\/a>) e a resposta de Wright com seu livro, <em>Justification. God\u2019s Plan and Paul\u2019s Vision<\/em>, publicado pela IVP em 2009. Tamb\u00e9m not\u00f3ria \u00e9 a sua publica\u00e7\u00e3o de <em>Paul in Fresh Perspective <\/em>em 2006 e as suas respostas \u00e0 debate: <a href=\"http:\/\/www.thepaulpage.com\/the-shape-of-justification\/\">http:\/\/www.thepaulpage.com\/the-shape-of-justification\/<\/a> e <a href=\"http:\/\/www.ntwrightpage.com\/Wright_New_Perspectives.htm\">http:\/\/www.ntwrightpage.com\/Wright_New_Perspectives.htm<\/a>. Uma busca na internet por \u201cN. T. Wright\u201d e \u201cjustification\u201d trar\u00e1 um avalanche de reflex\u00f5es de ambos os lados do debate. A continua\u00e7\u00e3o do debate bem ilustra posi\u00e7\u00f5es energ\u00e9ticas e contr\u00e1rias <em>dentro do movimento evangelical<\/em>.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a href=\"\/Documents\/Current%20Projects\/Tom%20Wright.docx#_ftnref4\">[4]<\/a> A perspectiva de Lutero sobre o juda\u00edsmo da \u00e9poca da igreja primitiva, que Augustus Nicodemus defende como ortodoxa, \u00e9 especialmente problem\u00e1tica, n\u00e3o s\u00f3 porque, diferente de Sanders, n\u00e3o conhecia as fontes contempor\u00e2neas \u00e0 igreja primitiva, mas porque esta perspectiva levou Lutero a rejeitar a posi\u00e7\u00e3o can\u00f4nica da Carta de Tiago. Provavelmente, na falta de conhecimento de fontes prim\u00e1rias sobre o juda\u00edsmo do s\u00e9culo I, Lutero baseou a sua perspectiva do juda\u00edsmo antigo na sua perspectiva do juda\u00edsmo da sua \u00e9poca. A este respeito, chamamos aten\u00e7\u00e3o para o livro que Lutero publicou em 1.543, aos 60 anos, intitulado: <em>Sobre os judeus e as suas mentiras <\/em>(pode baixar o livro inteiro aqui: <a href=\"http:\/\/www.humanitas-international.org\/showcase\/chronography\/documents\/luther-jews.htm\">http:\/\/www.humanitas-international.org\/showcase\/chronography\/documents\/luther-jews.htm<\/a>), onde prop\u00f4s a queima das suas sinagogas, o confisco das suas resid\u00eancias, a proibi\u00e7\u00e3o das suas ora\u00e7\u00f5es ou ensino e at\u00e9 mesmo do uso do nome de Deus pelos judeus. Pediu que os oficiais de governo \u201cse livrassem\u201d dos judeus e afirmou \u201cestamos errados por n\u00e3o mat\u00e1-los\u201d como forma de nos vingar da morte de Jesus Cristo. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que Lutero deixou um legado imensur\u00e1vel para o protestantismo. Mas, igualmente \u00e9 claro que a sua aprecia\u00e7\u00e3o do juda\u00edsmo, tanto antigo quanto da sua \u00e9poca, muito necessita de revis\u00e3o. Dizer isto n\u00e3o \u00e9 trair o legado reformado. \u00c9 honr\u00e1-lo, por apoiar veementemente o seu princ\u00edpio principal de interpreta\u00e7\u00e3o: <em>sola scriptura<\/em>. Lutero desafiou corretamente a tradi\u00e7\u00e3o religiosa ao oferecer uma nova interpreta\u00e7\u00e3o de <em>metanoeite<\/em> como \u201carrependimento\u201d ao inv\u00e9s de \u201cpenit\u00eancia\u201d. Lutero fez isso porque acreditou que <em>sola scriptura<\/em> est\u00e1 acima da tradi\u00e7\u00e3o. Wright, diferente de Nicodemos, insiste no mesmo princ\u00edpio.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a href=\"\/Documents\/Current%20Projects\/Tom%20Wright.docx#_ftnref5\">[5]<\/a> Wright, por exemplo, afirma a ideia da imputa\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a de Cristo nos crentes em duas outras passagens: 1 Cor\u00edntios 1.30-31, junto com a imputa\u00e7\u00e3o de sabedoria (o que Paulo mais enfatiza aqui), santifica\u00e7\u00e3o e reden\u00e7\u00e3o; e 2 Cor\u00edntios 5.21, que fala n\u00e3o de soteriologia, mas da voca\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a href=\"\/Documents\/Current%20Projects\/Tom%20Wright.docx#_ftnref6\">[6]<\/a> Mas muitos dos outros autores citados pelo articulista, Sanders, Dunn, e Stendahl, enfatizam o \u201cengano\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a href=\"\/Documents\/Current%20Projects\/Tom%20Wright.docx#_ftnref7\">[7]<\/a> De <em>Deus<\/em>, n\u00e3o a nossa, conforme Wright!<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a href=\"\/Documents\/Current%20Projects\/Tom%20Wright.docx#_ftnref8\">[8]<\/a> <a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Imputed_righteousness\">http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Imputed_righteousness<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a href=\"\/Documents\/Current%20Projects\/Tom%20Wright.docx#_ftnref9\">[9]<\/a> Ben Witherington III. <em>The Indelible Image: The Theological and Ethical World of the New Testament, Vol. 1: The Individual Witnesses<\/em>. Intervarsity Press: 2009, p\u00e1g.s 223-227.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta foi a pergunta que foi levantada para mim quando li a reflex\u00e3o por Augustus Nicodemus intitulada \u201cUma nova heresia sobre Paulo\u201d, se referindo a uma linha de estudos paulinos conhecida como a \u201cNova Perspectiva sobre Paulo\u201d (NPP).[1] Ao ler a sua descri\u00e7\u00e3o das perspectivas de E. P. Sanders e de N.T. Wright, confesso que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[12405],"tags":[],"class_list":["post-773","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-interpretacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/773","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=773"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/773\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1385,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/773\/revisions\/1385"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=773"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=773"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=773"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}