{"id":1372,"date":"2012-10-23T17:06:46","date_gmt":"2012-10-23T19:06:46","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/?p=1372"},"modified":"2012-10-24T13:21:37","modified_gmt":"2012-10-24T15:21:37","slug":"a-missao-social-da-igreja-desde-romanos-13-1-7-ate-constantino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/2012\/10\/23\/a-missao-social-da-igreja-desde-romanos-13-1-7-ate-constantino\/","title":{"rendered":"A miss\u00e3o social da igreja&#8230;"},"content":{"rendered":"<h3>desde Romanos 13.1-7 at\u00e9 Constantino<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Neste ensaio queremos refletir sobre a miss\u00e3o social da igreja desde a igreja primitiva at\u00e9 Constantino. Para realizar esta tarefa, come\u00e7aremos com uma reflex\u00e3o sobre Romanos 13.1-7, e depois, consideraremos como as primeiras igrejas crist\u00e3s contribu\u00edram para a transforma\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio romano at\u00e9 o ano 300 d.C. Em ambos os casos, sugiro uma interpreta\u00e7\u00e3o diferente da usual. No caso da injun\u00e7\u00e3o de Romanos e diferente da interpreta\u00e7\u00e3o comum de conformidade passiva, sugiro que a par\u00eanese participa duma perspectiva subjacente de transforma\u00e7\u00e3o social, tanto pela participa\u00e7\u00e3o nas estruturas da sociedade quanto pela subvers\u00e3o dos seus valores de privil\u00e9gio e status. No caso do impacto do cristianismo no imp\u00e9rio romano durante seus primeiros 300 anos de vida, sugiro, contra a interpreta\u00e7\u00e3o tradicional que n\u00e3o foi Constantino a raz\u00e3o do crescimento da igreja a custo do seu testemunho social. Pelo contr\u00e1rio, foi o crescimento e impacto do testemunho social da igreja que praticamente imp\u00f4s o seu reconhecimento por Constantino.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<h4>Romanos 13.1-7<\/h4>\n<p>Uma leitura mais progressista de Romanos 13.1-7 geralmente provoca embara\u00e7o e uma tentativa de subverter as injun\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas que Paulo faz para os crist\u00e3os em Roma. Ao mesmo tempo, uma leitura que n\u00e3o considere o contexto hist\u00f3rico e liter\u00e1rio, corre, como sempre, igual perigo de perder a mensagem n\u00e3o dita, que os primeiros leitores entenderiam e que estabeleceu a postura fundamental do testemunho da igreja dentro da sociedade maior.\u00a0<a title=\"\" href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Tim\/Documents\/Writing\/Manuscripts\/Portugues\/B%C3%ADblicos\/Romanos\/Romanos%2013.1-7,%20a%20miss%C3%A3o%20social%20da%20igreja%20at%C3%A9%20Constantino.doc#_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>A passagem ainda exerce um papel importante nos discursos contempor\u00e2neos sobre a miss\u00e3o social da igreja. As pesquisas exeg\u00e9ticas normalmente focalizam quest\u00f5es hist\u00f3ricas e liter\u00e1rias: por exemplo, a estrutura e a ret\u00f3rica do argumento, o significado da frase \u201ctraz a espada\u201d e a identidade das \u201cautoridades\u201d e o condicionamento hist\u00f3rico da passagem pela situa\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio romano no s\u00e9culo I. De modo geral, o ensino \u00e9 entendido como conservador, apelando para a conformidade ou at\u00e9 mesmo a passividade social da igreja em rela\u00e7\u00e3o ao estado e \u00e0s autoridades civis.<\/p>\n<p>Entretanto, dentro do contexto maior do prop\u00f3sito de Paulo nesta carta, e dentro do mundo de significados do mundo mediterr\u00e2neo, a passagem revela tamb\u00e9m uma perspectiva radical que subverte alguns valores fundamentais da cultura maior e opera numa trajet\u00f3ria de transforma\u00e7\u00e3o social. Procederemos, portanto, da seguinte maneira: em primeiro lugar, consideraremos o contexto maior do prop\u00f3sito de Paulo nesta carta e a fun\u00e7\u00e3o do contexto liter\u00e1rio imediato, cap\u00edtulos 12 a 14 e 15 at\u00e9 vers\u00edculo 13; segundo, veremos o pano de fundo cultural; terceiro, queremos destacar a adapta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica que Paulo faz destes temas culturais especialmente atrav\u00e9s do desenvolvimento ret\u00f3rico de Romanos 13.1-7, para quarto, esclarecer o conceito paulino de miss\u00e3o social.<\/p>\n<p><strong>Dentro da estrutura maior da carta.<\/strong> <em>A inten\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria da carta<\/em>. Sem d\u00favida, a Carta aos Romanos representa o pensamento maduro de Paulo sobre o seu chamado, seu evangelho e sua estrat\u00e9gia mission\u00e1rios. Hoje h\u00e1 um reconhecimento cada vez maior do prop\u00f3sito mission\u00e1rio da carta. Isto \u00e9 sinalizado logo no in\u00edcio pelo tema da carta anunciado em 1.16-17 e pelo resumo do todo o seu minist\u00e9rio mission\u00e1rio em 15.14-21 que prepara para o apelo em 15.22-33 de apoiar Paulo na sua campanha mission\u00e1ria na Espanha mais adiante e a sua \u201cmiss\u00e3o\u201d imediata em Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p>Tanto o tema da carta anunciado no cap\u00edtulo 1 quanto o resumo dos seus planos mission\u00e1rios no passado e no futuro imediato no cap\u00edtulo 15 revelam a preocupa\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica de Paulo, baseada especialmente no seu profeta predileto, Isa\u00edas, onde a salva\u00e7\u00e3o futura dos judeus \u00e9 vinculada a salva\u00e7\u00e3o universal. Por motivos que n\u00e3o podem ser discutidos aqui, Paulo entendeu na pr\u00e1tica do seu minist\u00e9rio mission\u00e1rio, que o ingresso de gentios no povo de Deus dispensava os sinais ou demarca\u00e7\u00f5es usuais do povo de Deus, tais como a circuncis\u00e3o, a observ\u00e2ncia do s\u00e1bado e as leis aliment\u00edcias. \u00c9 por isso que Paulo elabora longamente nos cap\u00edtulos 1-8 desta carta as bases teol\u00f3gicas e b\u00edblicas da sua perspectiva, isto \u00e9, do seu evangelho, defendendo a salva\u00e7\u00e3o pela \u201cgra\u00e7a\u201d de Deus.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, nos cap\u00edtulos 9-11, Paulo relaciona a salva\u00e7\u00e3o final de judeus e gentios, creio eu, com o objetivo de defender a sua pr\u00f3pria estrat\u00e9gia mission\u00e1ria de anunciar o evangelho primeiro nas sinagogas e depois nas pra\u00e7as e escolas pag\u00e3os, tamb\u00e9m at\u00e9 as extremidades do imp\u00e9rio romano, por\u00e9m sempre retornando para Jerusal\u00e9m.<\/p>\n<p>No meio da sua tentativa de defender uma perspectiva que obviamente n\u00e3o era o pressuposto comum do cristianismo primitivo, \u00e9 importante n\u00e3o perder de vista o que era, de fato, o pressuposto de todos e a base para toda a carta aos Romanos, que em Cristo, Deus estava criando uma nova humanidade, que um bom judeu como era Paulo s\u00f3 poderia entender como composta de dois grupos, judeus e gentios. E se isto era o prop\u00f3sito de Deus anunciado pelo profeta Isa\u00edas e se cumprindo no minist\u00e9rio da igreja, a incumb\u00eancia da igreja como povo de Deus implica que a unidade entre judeu e gentio caracterize o seu comportamento interno e externo. Isto nos leva a considerar a fun\u00e7\u00e3o de 12.1-15.13 dentro do pressuposto maior de Paulo e do cristianismo primitivo de modo geral, de unidade na igreja e na sociedade.<\/p>\n<p><em>A fun\u00e7\u00e3o de 12.1-15.13 dentro do prop\u00f3sito maior: unidade na igreja e na sociedade.<\/em> Nestes cap\u00edtulos Paulo aplica pastoralmente o seu prop\u00f3sito mission\u00e1rio maior na vida da(s) congrega\u00e7\u00e3o(\u00f5es) romana(s). O tema da salva\u00e7\u00e3o primeiro do judeu e tamb\u00e9m do gentio dever\u00e1 resultar na unidade dos dois dentro da igreja. A met\u00e1fora do corpo fornece o ponto de partida para toda a se\u00e7\u00e3o de par\u00eanese que argumenta a favor duma unidade que abra\u00e7a diversidade. O conhecimento pessoal que Paulo tem no cap\u00edtulo 16 dos membros das igrejas romanas demonstra que as exorta\u00e7\u00f5es de 12.1-15.6 s\u00e3o relevantes para a situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica destas igrejas. A vis\u00e3o mission\u00e1ria de Paulo n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma quest\u00e3o de geografia, como se a proclama\u00e7\u00e3o do evangelho na Espanha cumprisse a sua miss\u00e3o. Ao inv\u00e9s disto, o alvo para Paulo \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o das promessas escatol\u00f3gicas de Deus a respeito da unidade de judeus e gentios na forma\u00e7\u00e3o dum novo povo de Deus sem divis\u00e3o \u00e9tnica. Suas exorta\u00e7\u00f5es pastorais refletem uma aplica\u00e7\u00e3o desta realiza\u00e7\u00e3o dentro dos problemas espec\u00edficos das igrejas romanas. A fun\u00e7\u00e3o pastoral da passagem n\u00e3o s\u00f3 flui do prop\u00f3sito mission\u00e1rio maior de unidade na vis\u00e3o escatol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m contribui para a mesma. Pois uma comunidade crist\u00e3 unida e est\u00e1vel seria uma base bem melhor para alcan\u00e7ar a Espanha do que uma igreja cheia de conflitos internos.<\/p>\n<p><strong>Apelo para a passividade ou para a transforma\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 dentro deste contexto maior do prop\u00f3sito mission\u00e1rio de Paulo nesta carta e da fun\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de 12.1-15.6, que consideramos a 13.1-7. \u00c9 um par\u00e1grafo curto dentro da par\u00eanese maior de 12.1-15.6. Esta se\u00e7\u00e3o maior trata do comportamento da igreja em duas dire\u00e7\u00f5es: interno e externo, o comportamento entre outros membros da igreja e o comportamento entre os n\u00e3o-crentes. Ambas as dire\u00e7\u00f5es fluem do plano universal de salva\u00e7\u00e3o. Romanos 13.1-7 pertence principalmente \u00e0 \u00faltima categoria, a \u00e9tica p\u00fablica. A \u00e9tica p\u00fablica da igreja n\u00e3o \u00e9 um tema que domina toda a se\u00e7\u00e3o \u00e9tica de 12.1-15.6, mas ela j\u00e1 aparece em 12.14 e 12.17-21, onde a instru\u00e7\u00e3o geral para os membros da igreja em rela\u00e7\u00e3o aos que n\u00e3o s\u00e3o membros \u00e9 de \u201cfazer o bem perante todos os homens\u201d, \u201ctende paz com todos os homens, \u201cvencer o mal com o bem\u201d e \u201caben\u00e7oar os que vos perseguem\u201d.<\/p>\n<p><em>Pano de fundo cultural: engajamento com o mundo.<\/em> H\u00e1 outras passagens neotestament\u00e1rias sobre a rela\u00e7\u00e3o da igreja com o estado (O Livro de Apocalipse), inclusive passagens paulinas (Filipenses 1.27; 3.20; Ef\u00e9sios 1.21). Ali\u00e1s, at\u00e9 mesmo a Carta aos Romanos, que logo afirma a poder do \u201cevangelho\u201d de Deus, facilmente seria entendida como uma afronta para o imp\u00e9rio romano que anunciava literalmente um \u201cevangelho\u201d de paz e seguran\u00e7a mundial, debaixo da supremacia do C\u00e9sar, para todos os cidad\u00e3os romanos. Por isso, 13.1-7 n\u00e3o deve ser entendido como uma teologia universal do estado. Mas \u00e9 uma par\u00eanese direcionada para circunst\u00e2ncias espec\u00edficas. \u00c9 prov\u00e1vel, por exemplo, que Paulo queria evitar um novo \u00e9dito como aquele do Cl\u00e1udio oito anos atr\u00e1s em 49 d.C. que resultou na expuls\u00e3o dos judeus de Roma. Paulo temia que um novo \u00e9dito poderia atingir n\u00e3o s\u00f3 os judeus crist\u00e3os como a igreja toda. Al\u00e9m disto, ele estava ciente de que o pagamento de impostos era potencialmente uma quest\u00e3o sens\u00edvel. Entretanto n\u00e3o \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica ou at\u00e9 mesmo a aplica\u00e7\u00e3o do ensino \u00e0 situa\u00e7\u00e3o que explica a natureza fundamental da passagem. 13.1-7 \u00e9 uma exorta\u00e7\u00e3o que faz parte dum estrato maior de ensino \u00e9tico cuja fun\u00e7\u00e3o era de exortar os crist\u00e3os a participar no mundo. Se isto for verdade, ent\u00e3o 13.1-7 \u00e9 parte duma tradi\u00e7\u00e3o que guia a igreja no processo de transforma\u00e7\u00e3o social do mundo e que depende de envolvimento mission\u00e1rio, entusiasmado e circunspeto nas estruturas da sociedade. Para Paulo, este envolvimento era o corol\u00e1rio \u00e9tico e missiol\u00f3gico do plano de Deus para a salva\u00e7\u00e3o universal.<\/p>\n<p><em>Os c\u00f3digos dom\u00e9sticos<\/em>. Romanos 13.1-7 faz parte dum corpo maior de ensino no Novo Testamento estruturado e enraizado semelhantemente num elemento dominante e muito b\u00e1sico da cosmovis\u00e3o mediterr\u00e2nea antiga, isto \u00e9, a casa. Os relacionamentos mais fundamentais da cultura mediterr\u00e2nea antiga eram relacionamentos de parentesco e a institui\u00e7\u00e3o da casa (<em>oikos<\/em>), dentro da qual a maioria destes relacionamentos ocorria. Mais ainda, as expectativas sociais da casa excediam a esfera privada. A casa antiga era considerada a pedra fundamental da sociedade. A sua estabilidade garantia a estabilidade da cidade-estado. Desde o per\u00edodo de Augusto, o imperador era considerado o <em>pater patriae<\/em>: ele era um pai, e o estado era a sua casa. O efeito deste contexto cultural nos escritos paulinos se evidencia no seu conceito tanto da igreja (Ef\u00e9sios 2.19; G\u00e1latas 6.10; cf. 1Tim\u00f3teo 3.15; 2Tim\u00f3teo 2.20-21) quanto do minist\u00e9rio (1Cor\u00edntios 4.1; 9.17; Colossenses 1.25). Por v\u00e1rias vezes, Paulo usa a frase, <em>oikonomia theou<\/em>, freq\u00fcentemente traduzida como \u201ca dispensa\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201co servi\u00e7o de Deus\u201d, para descrever a f\u00e9 em termos de \u201cgerenciamento da casa\u201d (Colossenses 1.25; Ef\u00e9sios 1.10; 3.2,9; 1Tim\u00f3teo 1.4). Logo, o gerenciamento ou servi\u00e7o da casa se evidencia como o pano de fundo cultural para o conceito paulino da ordem de Deus no mundo. No mundo grego-romano antigo a casa e a sociedade eram separadas apenas por uma barreira muito perme\u00e1vel. Para aqueles que atribu\u00edram a um Deus criador a estrutura b\u00e1sica da natureza, era natural expandir a id\u00e9ia do <em>oikos<\/em> humano a um oikonomia theou, que por sua vez, abrangeria toda a estrutura do universo. Isto \u00e9 a id\u00e9ia clara de 1Pedro 2.13 e o pensamento de Paulo em Romanos 13.1-7 \u00e9 semelhante. A converg\u00eancia de conceitos que ocorrem na descri\u00e7\u00e3o neotestament\u00e1ria do povo de Deus (<em>oikos<\/em>, <em>ekklesia<\/em>, <em>naos<\/em>) reflete o mesmo remapeamento de dom\u00ednios. A mesma permeabilidade existia em Romanos entre a igreja como \u201ccasa\u201d e a sociedade.<\/p>\n<p>Um exemplo desta permeabilidade \u00e9 o uso das instru\u00e7\u00f5es para a fam\u00edlia, conhecidos como \u201cc\u00f3digos dom\u00e9sticos\u201d, especialmente nos escritos de Paulo e de Pedro (Colossenses 3.18-4.1; Ef\u00e9sios 5.22-33; 1Tim\u00f3teo 2.8-15; 5.1-2; 6.1-2; Tito 2.1-3.8; 1Pedro 2.13-3.7). Os c\u00f3digos dom\u00e9sticos mostram uma afinidade com a discuss\u00e3o secular do tema \u201cquanto \u00e0 casa\u201d (<em>peri oikonomos<\/em>) e eram influenciados pelo mesmo, que incluia a rela\u00e7\u00e3o da casa com as autoridades governantes (Romanos 13.1-7; Tito 3.1-2; 1Pedro 2.13-17; cf. 1Tim\u00f3teo 2.1-2).<\/p>\n<p>O conte\u00fado dos c\u00f3digos dom\u00e9sticos neotestament\u00e1rios indica o seu interesse no comportamento crist\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es de vida t\u00edpicas. Uma vez que a met\u00e1fora da casa era usada como express\u00e3o da identidade da igreja, o mesmo padr\u00e3o de ensino pode ser aplicado aos relacionamentos dentro da comunidade crist\u00e3 e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade maior. Aqueles c\u00f3digos que contemplam o comportamento p\u00fablico da igreja, e n\u00e3o simplesmente preocupa\u00e7\u00f5es \u201cinternas\u201d, mostram a sensibilidade que os escritores do Novo Testamento tiveram em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s expectativas da sociedade maior e parecem encorajar os crist\u00e3os a viver de acordo com padr\u00f5es que eram amplamente aceitos e respeit\u00e1veis. Isto \u00e9 o primeiro n\u00edvel em que os c\u00f3digos operam. A sua natureza \u201cconvencional\u201d iria promover a estabilidade e facilitar a sobreviv\u00eancia imediata da igreja.<\/p>\n<p>Mesmo assim, nenhum dos c\u00f3digos dom\u00e9sticos do Novo Testamento reflete aceita\u00e7\u00e3o taxativa e sem cr\u00edtica da \u00e9tica vigente da cultura maior. Tanto a sua fundamenta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica quanto a sua \u00eanfase na justi\u00e7a revelam um segundo n\u00edvel mais fundamental de prop\u00f3sito. Este <em>segundo n\u00edvel<\/em> de inten\u00e7\u00e3o revela uma preocupa\u00e7\u00e3o pela igreja de ser uma influ\u00eancia de transforma\u00e7\u00e3o dentro da sociedade. A sua fundamenta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica revela a cren\u00e7a num Deus que abra\u00e7a o mundo inteiro para os seus prop\u00f3sitos. A oikonomia de Deus desenvolve a vida toda, e por isso, a vida crist\u00e3 ter\u00e1 que ser vivida dentro da cultura. De modo geral, os c\u00f3digos dom\u00e9sticos buscavam um meio termo entre a conformidade \u00e0 vida secular e o desengajamento do mundo. Em todos os casos, a entrada de alvos e valores crist\u00e3os para dentro de estruturas seculares produz tens\u00e3o (e.g., Romanos 12.14, 17-18). Paradoxalmente, os c\u00f3digos dom\u00e9sticos procuram aplacar o efeito desta tens\u00e3o enquanto tamb\u00e9m a sust\u00e9m.<\/p>\n<p>Romanos 13.1-7 deve ser visto dentro dum programa social-\u00e9tico e missiol\u00f3gico semelhante. Seu pr\u00f3prio contexto liter\u00e1rio est\u00e1 totalmente dedicado \u00e0 mensagem que o povo de Deus deve viver consciente de ser o povo de Deus no mundo. Tamb\u00e9m a passagem possui todas as marcas da tradi\u00e7\u00e3o dos c\u00f3digos dom\u00e9sticos que inclui o ensino sobre a rela\u00e7\u00e3o com o estado. As circunst\u00e2ncias espec\u00edficas em Roma, que ocasionaram a escolha paren\u00e9tica de Paulo, determinaram a forma da aplica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica (vv. 1,5,6,7), mas o alvo mais fundamental era direcionar as congrega\u00e7\u00f5es para participar proativamente na vida p\u00fablica. A liga\u00e7\u00e3o com a tradi\u00e7\u00e3o dos c\u00f3digos dom\u00e9sticos sugere que mais que um conservadorismo seguro ou uma ader\u00eancia a uma doutrina teol\u00f3gica est\u00e1 em jogo, e os temas desenvolvidos em Romanos corroboram com esta sugest\u00e3o.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o transformadora de 13.1-7 transparece mais na maneira como a passagem convoca a igreja \u00e0 a\u00e7\u00e3o. Estudos recentes da estrutura ret\u00f3rica da passagem sugerem que o v.3 expressa a a\u00e7\u00e3o central na par\u00eanese atrav\u00e9s da frase, \u201cfazer o bem\u201d. Mais duas observa\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias confirmam que \u201cfazer o bem\u201d \u00e9 a a\u00e7\u00e3o central na par\u00eanese: 1) a mudan\u00e7a para o estilo da diatribe no v.3, que focaliza a aten\u00e7\u00e3o neste imperativo central, e 2) o fato que \u201cfazer o bem\u201d continua o tema que \u00e9 central em 12.1-15.13 e \u00e9 proeminente em toda a carta. \u00c9 neste imperativo de \u201cfazer o bem\u201d que Paulo \u201ccoopta\u201d a conven\u00e7\u00e3o cultural conhecida como \u201cbenfeitoria\u201d para equipar a igreja para a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade. A pr\u00e1tica de \u201cbenfeitoria\u201d (<em>euerges\u00eda<\/em>) existia para garantir o bem-estar da sociedade atrav\u00e9s das contribui\u00e7\u00f5es dos cidad\u00e3os de maior recurso, semelhante ao padrinho ou o coronel na sociedade brasileira colonial, sem ser pejorativo. O termo, \u201ca boa obra\u201d (<em>t\u00f2 agath\u00f3n<\/em>; vv.3-4) e a ordem, \u201cfazer a boa obra\u201d (<em>t\u00f2 agath\u00f2v poie\u00efn<\/em>; v.4) aparecem freq\u00fcentemente nas descri\u00e7\u00f5es de benfeitoria, e o termo, \u201clouvor\u201d (<em>\u00e9painos<\/em>), como galard\u00e3o de goverantes para bons cidad\u00e3os e befeitores, pertencem ao dom\u00ednio sem\u00e2ntico desta conven\u00e7\u00e3o cultural. Dentro de tal discuss\u00e3o de responsabilidade p\u00fablica, as congrega\u00e7\u00f5es romanas certamente teriam entendido esta refer\u00eancia.<\/p>\n<p>O importante \u00e9 reparar como a conven\u00e7\u00e3o de benfeitoria era empregada pelos escritores crist\u00e3os. Estes, por um lado, enfatizam a continua\u00e7\u00e3o da obriga\u00e7\u00e3o dos benfeitores crist\u00e3os para a <em>politeia<\/em>. Mas tamb\u00e9m expandiram a conven\u00e7\u00e3o pela sua fundamenta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, aplicando-a a toda a comunidade crist\u00e3. O mesmo ocorre em Romanos 13.1-7 e \u00e9 neste ponto que as injun\u00e7\u00f5es desta passagem adquirem uma conota\u00e7\u00e3o radical de transforma\u00e7\u00e3o. \u201cFazer o bem\u201d se torna a obriga\u00e7\u00e3o de todos, n\u00e3o apenas os poderosos de maiores recursos. O conceito de benfeitoria efetivamente \u00e9 contextualizado para abranger a igreja toda. A benfeitoria \u00e9 subvertida e transformada em servi\u00e7o humilde, um exerc\u00edcio que coloca o escravo espiritualmente no papel do mestre (cf. 1Tim\u00f3teo 6.1-2). Na <em>oikonomia<\/em> surpreendente de Deus escravos servem humildemente da posi\u00e7\u00e3o de poder; de fato, a nobreza e a honra, galard\u00f5es da benfeitoria, s\u00e3o atribu\u00eddas aos escravos.<\/p>\n<p>Em Romanos 13.1-7, uma conven\u00e7\u00e3o cultural associada com os poderosos e os ricos \u00e9 atribu\u00edda tamb\u00e9m aos fracos e pobres. De qualquer maneira, \u201cfazer o bem\u201d deve ser entendido como o servi\u00e7o a favor dos outros e \u00e9 integral a miss\u00e3o da igreja na <em>oikonomia<\/em> salv\u00edfica de Deus de unir gentios e judeus. Esta base teol\u00f3gica da par\u00eanese capacita a igreja para minist\u00e9rio dif\u00edcil e sacrificial (8.31-19) e chama a igreja para se engajar plenamente no mundo a fim de transformar os seus caminhos e os seus valores.<\/p>\n<p>Resta-nos ver como esta incumb\u00eancia se realizava na vida da igreja nos primeiros s\u00e9culos da sua conviv\u00eancia com o imp\u00e9rio romano.<\/p>\n<h4>O testemunho social da igreja\u00a0no imp\u00e9rio romano at\u00e9 Constantino<\/h4>\n<p>Um soci\u00f3logo norte-americano, Rodney Stark, escreveu em 1996 um livro importante sobre o cristianismo, desde seu surgimento at\u00e9 Constantino. O livro \u00e9 significante porque representa a primeira tentativa por um soci\u00f3logo (e n\u00e3o um historiador da academia teol\u00f3gica que procure empregar alguns conceitos ou teorias da sociologia) de analisa o impacto do cristianismo no imp\u00e9rio romano. O livro, <em>The Rise of Christianity. A Sociologist Reconsiders History\u00a0<\/em><a title=\"\" href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Tim\/Documents\/Writing\/Manuscripts\/Portugues\/B%C3%ADblicos\/Romanos\/Romanos%2013.1-7,%20a%20miss%C3%A3o%20social%20da%20igreja%20at%C3%A9%20Constantino.doc#_ftnref2\">[2]<\/a>, em portugu\u00eas seria, <em>O surgimento do cristianismo. Um soci\u00f3logo reconsidera a hist\u00f3ria<\/em>. Sua tese \u00e9 simples e controvertida, desafiando o relato tradicional das hist\u00f3rias eclesi\u00e1sticas. Ele afirma que o \u00c9dito de Mil\u00e3o em 313 d.C., n\u00e3o era a causa do triunfo do cristianismo no imp\u00e9rio romano. Pelo contr\u00e1rio, era uma resposta astuta de Constantino para o crescimento r\u00e1pido dos crist\u00e3os que j\u00e1 representava uma for\u00e7a pol\u00edtica principal (p.2).<\/p>\n<p>Para provar sua tese, Stark emprega o conhecimento sociol\u00f3gico do processo pelo que as pessoas se convertem a religi\u00f5es novas <a title=\"\" href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Tim\/Documents\/Writing\/Manuscripts\/Portugues\/B%C3%ADblicos\/Romanos\/Romanos%2013.1-7,%20a%20miss%C3%A3o%20social%20da%20igreja%20at%C3%A9%20Constantino.doc#_ftnref3\">[3]<\/a>. O resultado \u00e9 surpreendente e demonstra com alt\u00edssimo grau de probabilidade que a comunidade crist\u00e3 entendeu e grandemente exerceu a dimens\u00e3o social do seu chamado mission\u00e1rio. Com isso, ocasionou transforma\u00e7\u00f5es significantes na sociedade romana. No que se segue, vou resumir o resultado da sua pesquisa para depois, considerar as implica\u00e7\u00f5es para a nossa discuss\u00e3o da miss\u00e3o social da igreja.<\/p>\n<p><strong>O crescimento da igreja at\u00e9 300 ou 350 d.C.<\/strong><\/p>\n<p>Citando diversas fontes hist\u00f3ricas, e come\u00e7ando com um total de apenas 1.000 no ano 40 d.C., e terminando com pouco mais de 6.000.000 no ano 300 d.C., Stark chega numa taxa de crescimento de 40% por d\u00e9cada. Com esta taxa de crescimento, a popula\u00e7\u00e3o crist\u00e3 cresceu em porcentagem da popula\u00e7\u00e3o (estimada em 60 milh\u00f5es) de 0.0017% no ano 40 d.C. at\u00e9 10,5% no ano 300 d.C. e 56,5% no ano 350 d.C. Esta proje\u00e7\u00e3o coincide com o testemunho de v\u00e1rios historiadores e tamb\u00e9m com dados arqueol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>\u00c9 importante reparar que o crescimento da comunidade crist\u00e3 deve ter parecido muito r\u00e1pido durante a primeira metade do quarto s\u00e9culo. Entretanto, em termos de <em>taxa<\/em> de crescimento, n\u00e3o era o caso. Mas por causa das caracter\u00edsticas extraordin\u00e1rias de curvas exponenciais, este era um per\u00edodo de crescimento que deve ter parecido \u201cmilagroso\u201d em termos de n\u00fameros absolutos enquanto o avan\u00e7o em n\u00fameros absolutos durante as primeiras d\u00e9cadas deve ter parecido muito pequeno.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Tabela 1:<br \/>\nO crescimento crist\u00e3o projetado para 40% por d\u00e9cada<\/p>\n<div align=\"center\">\n<table border=\"1\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"75\">\n<p align=\"center\">Ano<\/p>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"210\">\n<p align=\"center\">No. decrist\u00e3os<\/p>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"205\">\n<p align=\"center\">% dapopula\u00e7\u00e3o<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"75\">\n<p align=\"right\">40<\/p>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"210\">\n<p align=\"right\">1.000<\/p>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"205\">\u00a00,0017<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"75\">\n<p align=\"right\">50<\/p>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"210\">\n<p align=\"right\">1.400<\/p>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"205\">\u00a00,0023<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"75\">\n<p align=\"right\">100<\/p>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"210\">\n<p align=\"right\">7.530<\/p>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"205\">\u00a00,126<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"75\">\n<p align=\"right\">150<\/p>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"210\">\n<p align=\"right\">40.496<\/p>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"205\">\u00a00,07<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"75\">\n<p align=\"right\">200<\/p>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"210\">\n<p align=\"right\">217.795<\/p>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"205\">\u00a00,36<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"75\">\n<p align=\"right\">250<\/p>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"210\">\n<p align=\"right\">1.171.356<\/p>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"205\">\u00a01,9<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"75\">\n<p align=\"right\">300<\/p>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"210\">\n<p align=\"right\">6.299.832<\/p>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"205\">10,5<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td valign=\"top\" width=\"75\">\n<p align=\"right\">350<\/p>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"210\">\n<p align=\"right\">33.882.008<\/p>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"205\">56,5<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/div>\n<p>Stark n\u00e3o apresenta a proje\u00e7\u00e3o como fato, mas como uma m\u00e9dia muito prov\u00e1vel do crescimento. Sem d\u00favida havia per\u00edodos de maior e menor taxa de crescimento, mas a m\u00e9dia sugerida \u00e9 confirmada por diversas fontes hist\u00f3ricas, estudos comparativos e, como j\u00e1 dissemos, dados arqueol\u00f3gicos. Tamb\u00e9m se baseia em observa\u00e7\u00f5es verific\u00e1veis durante as \u00faltimas d\u00e9cadas que afilia\u00e7\u00e3o a novos grupos religiosos depende de v\u00ednculos a novas redes interpessoais de intera\u00e7\u00e3o, e s\u00f3 secundariamente ao apelo apolog\u00e9tico. Um fator que contribuiu grandemente para a afilia\u00e7\u00e3o duma porcentagem cada vez maior de \u201cpag\u00e3os\u201d ao cristianismo eram duas epidemias e a resposta que elas provocaram na comunidade crist\u00e3.<\/p>\n<p><strong>Duas epidemias<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong>Duas epidemias devastadoras varreram o imp\u00e9rio romano em 165 e 251 d.C., dando oportunidades inesperadas, mas cruciais, para a expans\u00e3o do cristianismo principalmente atrav\u00e9s dum compromisso sacrificial com a dimens\u00e3o social da sua voca\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria. Alguns historiadores m\u00e9dicos suspeitam que a primeira epidemia fosse a primeira ocorr\u00eancia de var\u00edola no Ocidente. Seja qual fosse, era letal, pois durante seus 15 anos de dura\u00e7\u00e3o a epidemia matou entre um quarto e um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio, inclusive o pr\u00f3prio Marco Aur\u00e9lio em 180 d.C. em Viena.<\/p>\n<p>Depois, em 251 d.C., uma segunda e nova epidemia, igualmente violenta, correu pelo imp\u00e9rio, atingindo tanto as \u00e1reas rurais quanto as cidades. Esta vez poderia ter sido de rub\u00e9ola. Tanto a var\u00edola quanto a rub\u00e9ola podem produzir grandes taxas de mortalidade ao atingirem popula\u00e7\u00f5es pela primeira vez. Embora estes desastres demogr\u00e1ficos tenham sido relatados por escritores contempor\u00e2neos o papel que exerceram no decl\u00ednio de Roma foi ignorado por historiadores at\u00e9 os tempos modernos. Hoje, entretanto, sabemos que a despopula\u00e7\u00e3o aguda foi respons\u00e1vel por pol\u00edticas antes atribu\u00eddas \u00e0 degenera\u00e7\u00e3o moral. Por exemplo, antes os historiadores atribu\u00edam o povoamento em massa dos \u201cb\u00e1rbaros\u201d como propriet\u00e1rios dentro do imp\u00e9rio e a sua indu\u00e7\u00e3o nas legi\u00f5es romanas \u00e0 decad\u00eancia do imp\u00e9rio. Mas hoje sabemos que estas eram medidas pol\u00edticas racionais implementadas por um estado com uma abund\u00e2ncia de terras esvaziadas, onde faltava m\u00e3o de obra (semelhante \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o italiana no Brasil no final do s\u00e9culo XIX e a japonesa e alem\u00e3 no in\u00edcio do s\u00e9culo XX).<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da pesquisa de dados hist\u00f3ricos prim\u00e1rios e suas observa\u00e7\u00f5es sociol\u00f3gicas sobre o desenvolvimento de movimentos de revitaliza\u00e7\u00e3o e de novos movimentos religiosos, Stark consegue sustentar de maneira admir\u00e1vel, tr\u00eas teses. Primeiro, as epidemias sabotaram as capacidades confortantes e explanat\u00f3rias do paganismo e das filosofias hel\u00eanicas que n\u00e3o viam prop\u00f3sito em desastres naturais. Ao contr\u00e1rio disto, o cristianismo, j\u00e1 muito acostumado com o sofrimento, ofereceu uma explica\u00e7\u00e3o muito mais satisfat\u00f3ria de por que estes desastres ocorriam, e projetou uma vis\u00e3o esperan\u00e7osa, e at\u00e9 entusiasmada, do futuro. Os escritos de Cipriano, bispo de Cartago, confirmam esta primeira tese.<\/p>\n<p>A segunda tese se encontra na carta pascoal de Dion\u00edsio, bispo de Alexandria. Os valores crist\u00e3os de amor e caridade, desde o in\u00edcio (isto foi a nossa observa\u00e7\u00e3o anterior baseada em Romanos 13.1-7), foram traduzidos em normas de servi\u00e7o social e de solidariedade comunit\u00e1ria. Por exemplo, Dion\u00edsio notou extensivamente os esfor\u00e7os de enfermagem realizados heroicamente pelos crist\u00e3os, muitas vezes a custo das suas pr\u00f3prias vidas. E cuidavam n\u00e3o s\u00f3 dos seus irm\u00e3os e irm\u00e3s em Cristo, como da popula\u00e7\u00e3o em geral, enquanto a resposta pag\u00e3 \u00e0 epidemia era tipicamente de fuga.<\/p>\n<p>Quando os desastres chegavam, os crist\u00e3os eram mais capazes de lidar com a situa\u00e7\u00e3o e isto resultou em taxas de sobreviv\u00eancia substancialmente mais altas. Isto significava que no final de cada epidemia, os crist\u00e3os eram uma porcentagem maior da popula\u00e7\u00e3o, mesmo sem levar em conta, novos convertidos. Estas primeiras duas teses t\u00eam um <em>pedigree<\/em> social cient\u00edfico elevado, como elementos comuns na an\u00e1lise de \u201cmovimentos de revitaliza\u00e7\u00e3o\u201d e o surgimento de novas religi\u00f5es como resposta a crises sociais (cf. os estudos do surgimento de umbanda nos centros urbanos brasileiros no s\u00e9culo XX).<\/p>\n<p>A terceira tese \u00e9 uma aplica\u00e7\u00e3o de teorias de controle de conformidade. Quando uma epidemia destr\u00f3i uma grande propor\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, ela interrompe as redes interpessoais que antes ligavam as pessoas \u00e0 ordem moral convencional. \u00c0 medida que a mortalidade crescia durante cada uma das epidemias, um grande n\u00famero de pessoas, especialmente pag\u00e3os, teria perdido os v\u00ednculos que antes dificultavam sua convers\u00e3o ao cristianismo. Ao mesmo tempo, as taxas superiores de sobreviv\u00eancia das redes sociais de crist\u00e3os teriam fornecido para os pag\u00e3os uma probabilidade maior de substituir os seus v\u00ednculos perdidos com novos v\u00ednculos crist\u00e3os.<\/p>\n<p>Em tudo, para nossos prop\u00f3sitos, \u00e9 importante notar o papel que os crist\u00e3os exerceram numa transforma\u00e7\u00e3o significante do imp\u00e9rio romano, e isto devido ao seu reconhecimento e o exerc\u00edcio da dimens\u00e3o social da sua miss\u00e3o em prol da <em>oikonomia<\/em> de Deus para o mundo. Cabe citar extensivamente uma observa\u00e7\u00e3o de Stark:<\/p>\n<blockquote><p>Algo distintivo veio ao mundo com o desenvolvimento do pensamento judeu-crist\u00e3o: a liga\u00e7\u00e3o dum c\u00f3digo \u00e9tico altamente social com a religi\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma novidade na id\u00e9ia de que o sobrenatural faz demandas comportamentais sobre os seres humanos\u2014os deuses sempre queriam sacrif\u00edcios e culto. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 novidade na no\u00e7\u00e3o de que o sobrenatural responderia a sacrif\u00edcios\u2014que os deuses podem ser induzidos a realizar servi\u00e7os em troca de sacrif\u00edcios. O que era novo era a no\u00e7\u00e3o de que relacionamentos de troca que visavam mais que interesses pr\u00f3prios eram poss\u00edveis entre os seres humanos e o sobrenatural. O ensino crist\u00e3o de que Deus ama aqueles que o amam era estranho para as cren\u00e7as pag\u00e3s&#8230; da perspectiva pag\u00e3 \u2018o que importava era&#8230;o servi\u00e7o que a divindade poderia fornecer, j\u00e1 que uma divindade (como Arist\u00f3teles h\u00e1 muito ensinou) n\u00e3o poderia sentir amor como resposta ao sacrif\u00edcio\u2019. Igualmente estranho ao paganismo era a no\u00e7\u00e3o de que, porque Deus ama a humanidade, os crist\u00e3os n\u00e3o podem agradar Deus a n\u00e3o ser que<strong> amem uns aos outros<\/strong>. De fato, como Deus demonstra o seu amor atrav\u00e9s do sacrif\u00edcio, tamb\u00e9m os seres humanos devem demonstrar o seu amor atrav\u00e9s de sacrif\u00edcio<strong> a favor dos outros<\/strong>. Al\u00e9m disto, tais responsabilidades devem se estender para al\u00e9m dos v\u00ednculos de fam\u00edlia e tribo&#8230;Estas eram id\u00e9ias revolucion\u00e1rias. (p. 86)<\/p><\/blockquote>\n<p>Al\u00e9m da rea\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os e dos pag\u00e3os \u00e0s duas grandes epidemias, Stark aponta para outros elementos da dimens\u00e3o social da miss\u00e3o da igreja que contribu\u00edram para uma transforma\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio romano. Aqui mencionamos dois: primeiro, o papel e status das mulheres dentro das comunidades crist\u00e3s, que era muito superior ao papel e status dentro da cultura grego-romana de modo geral; e segundo, e a resposta crist\u00e3 ao caos e \u00e0 mis\u00e9ria urbanos crescentes. O tempo n\u00e3o nos permite entrar em detalhes sobre mais estes dois exemplos da dimens\u00e3o social da igreja e como eles tamb\u00e9m contribu\u00edram significantemente \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio. Basta dizer que o cristianismo influenciou os padr\u00f5es convencionais de lideran\u00e7a do imp\u00e9rio romano atrav\u00e9s do status e do papel que as mulheres crist\u00e3s exerceram e novamente pela cria\u00e7\u00e3o de novas redes interpessoais entre os pag\u00e3os que experimentavam uma escassez de mulheres na popula\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m o fornecimento de novas normas e novos tipos de relacionamentos sociais, capazes de lidar com muitos problemas urbanos urgentes, revitalizou a vida nas cidades grego-romanos.<\/p>\n<h4>Conclus\u00e3o<\/h4>\n<p>Seria um erro grosseiro sugerir que o testemunho da igreja era uniforme e sempre altru\u00edsta. Entretanto, h\u00e1 ind\u00edcios hist\u00f3ricos, fortemente confirmados por observa\u00e7\u00f5es sociol\u00f3gicas sobre o surgimento e desenvolvimento de novos movimentos religiosos, de que a comunidade crist\u00e3, de modo geral, compreendeu e exerceu a dimens\u00e3o social da sua miss\u00e3o dentro da sociedade maior, e que este exerc\u00edcio multifacetado efetuou grandes transforma\u00e7\u00f5es durante os primeiros 300 anos da sua vida. Esta observa\u00e7\u00e3o corrobora com nosso estudo anterior sobre a fun\u00e7\u00e3o transformadora, mesmo mesclada com instru\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas conservadoras e conformistas, da par\u00eanese em Romanos 13.1-7 sobre a \u00e9tica p\u00fablica da igreja.<\/p>\n<div><br clear=\"all\" \/><\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Tim\/Documents\/Writing\/Manuscripts\/Portugues\/B%C3%ADblicos\/Romanos\/Romanos%2013.1-7,%20a%20miss%C3%A3o%20social%20da%20igreja%20at%C3%A9%20Constantino.doc#_ftnref1\">[1]<\/a> Muitas das observa\u00e7\u00f5es desta primeira parte foram extra\u00eddas do estudo por TOWNER, Philip H., \u201cRomans 13.1-7 and Paul\u2019s Missiological Perspective: A Call to Political Quietism or Transformation? Em SODERLUND, Sven, e WRIGHT, N. T., (eds.) <em>Romans and the people of God. Essays in Honor of Gordon D. Fee<\/em>.Grand Rapids: Eerdmans, 1999, pp. 149-169.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Tim\/Documents\/Writing\/Manuscripts\/Portugues\/B%C3%ADblicos\/Romanos\/Romanos%2013.1-7,%20a%20miss%C3%A3o%20social%20da%20igreja%20at%C3%A9%20Constantino.doc#_ftnref2\">[2]<\/a> Princeton: PrincetonUniversity Press, 1996.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Tim\/Documents\/Writing\/Manuscripts\/Portugues\/B%C3%ADblicos\/Romanos\/Romanos%2013.1-7,%20a%20miss%C3%A3o%20social%20da%20igreja%20at%C3%A9%20Constantino.doc#_ftnref3\">[3]<\/a> Eu explorei alguns destes princ\u00edpios anteriormente no seguinte trabalho: \u201cMecanismos sociais de desconvers\u00e3o\u201d. <em>Educa\u00e7\u00e3o<\/em>, v. 9, pp. 97-129, 1984 e <em>Simp\u00f3sio<\/em>, v. 29, pp. 71-84, 1985.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>desde Romanos 13.1-7 at\u00e9 Constantino &nbsp; Neste ensaio queremos refletir sobre a miss\u00e3o social da igreja desde a igreja primitiva at\u00e9 Constantino. Para realizar esta tarefa, come\u00e7aremos com uma reflex\u00e3o sobre Romanos 13.1-7, e depois, consideraremos como as primeiras igrejas crist\u00e3s contribu\u00edram para a transforma\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio romano at\u00e9 o ano 300 d.C. Em ambos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":1376,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[114,12041],"tags":[],"class_list":["post-1372","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-escritura-sagrada"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1372","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1372"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1372\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1375,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1372\/revisions\/1375"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1376"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1372"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1372"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/timcarriker\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1372"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}