{"id":474,"date":"2014-03-21T11:58:37","date_gmt":"2014-03-21T14:58:37","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/?p=474"},"modified":"2014-03-21T11:58:37","modified_gmt":"2014-03-21T14:58:37","slug":"sobre-velhinha-pericia-e-juizo-de-valor-comum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/2014\/03\/21\/sobre-velhinha-pericia-e-juizo-de-valor-comum\/","title":{"rendered":"Sobre velhinha, per\u00edcia e Ju\u00edzo de Valor Comum"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\" align=\"center\"><strong>\u00a9 Raphael Uch\u00f4a (PUC)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma velhinha \u00e9 encontrada morta em sua humilde casa num pr\u00e9dio da esquina da Oliveira Pena com a Joaquim Paranhos. A pol\u00edcia e a per\u00edcia s\u00e3o chamadas para averigua\u00e7\u00e3o do caso. A pobre senhora foi envenenada, confirmou o estudo laboratorial feito a partir de an\u00e1lises intricadamente complexas das gl\u00e2ndulas salivares da v\u00edtima e das gotas cuidadosamente colhidas da x\u00edcara trincada encontrada perto do corpo.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o policial continuou a busca at\u00e9 descobrir as raz\u00f5es da morte da idosa. O resultado? Assassinato. Seu \u00fanico neto havia realizado tal inf\u00e2mia esperando que a \u00fanica fonte de renda da av\u00f3, uma aposentadoria mi\u00fada recebida do governo, ficasse sob sua posse. Caso resolvido? Talvez sim. Mas algu\u00e9m de mente intranquila e com um certo distanciamento da aparente normalidade do processo de \u201cdescoberta dos fatos\u201d poderia atentar para os fundamentos que levaram as tr\u00eas conclus\u00f5es b\u00e1sicas do epis\u00f3dio: de que a pobre velha foi de fato envenenada, do fato do infame neto ter realizado tal atrocidade, e se realmente foi o neto, por que, ent\u00e3o, considerar isso uma atrocidade?<\/p>\n<p>De maneira geral, a natureza das quest\u00f5es postas aqui n\u00e3o s\u00e3o levantadas quando lemos sobre casos semelhantes. Simplesmente 1) &#8216;cremos&#8217; que a ci\u00eancia &#8216;desvendou&#8217; o caso; 2) que a investiga\u00e7\u00e3o criminal &#8216;provou&#8217; o homic\u00eddio; e 3) que trata-se, de fato, de uma atrocidade contra a vida humana. Mas, nosso problema mais fundamental \u00e9 saber o que nos faz ter tanta certeza assim. Urge aqui uma pergunta de escopo mais geral: como sabemos o que sabemos? A partir do caso da velhinha, parece haver tr\u00eas &#8216;tipos&#8217; de balizas para falarmos sobre a \u201cverdade dos fatos\u201d: a ci\u00eancia, a investiga\u00e7\u00e3o criminal, que pode utilizar m\u00e9todos cient\u00edficos para, por exemplo, demonstrar que o ch\u00e1 de fato continha veneno; e por \u00faltimo, o &#8216;ju\u00edzo de valor comum&#8217;: \u201caquilo foi uma atrocidade\u201d. Observe que h\u00e1 aqui diferentes fundamentos explicativos. No caso da ci\u00eancia, apenas descritivo, pois &#8216;afirmar&#8217; que as gotas adormecidas na x\u00edcara continham tais e tais propriedades qu\u00edmicas n\u00e3o &#8216;provam&#8217; peremptoriamente o homic\u00eddio. No m\u00e1ximo acumula-se \u00e0s outras evid\u00eancias dispostas semioticamente na cena do crime. A investiga\u00e7\u00e3o criminal e o &#8216;ju\u00edzo de valor comum&#8217; d\u00e3o seus vereditos a partir de outras bases que n\u00e3o se reduzem ao suposto \u201crigoroso\u201d m\u00e9todo cient\u00edfico: interpreta\u00e7\u00e3o dos sinais na cena do crime e a filosofia moral, por exemplo, e acabamos concordando com tais conclus\u00f5es ou tomando-as por razo\u00e1veis.<\/p>\n<p>O debate sobre os crit\u00e9rios que poderiam definir a certeza de nossas cren\u00e7as \u00e9 longo. Poder\u00edamos tra\u00e7ar pelo menos at\u00e9 o medievo, para restringir a conversa ao contexto da ci\u00eancia moderna. Alguns deste crit\u00e9rios se fundamentavam pela chamada \u201crevela\u00e7\u00e3o\u201d, ou seja, conhecimento oriundo das Escrituras, no caso judaico-crist\u00e3o, a B\u00edblia. Outros estavam vinculados ao que a raz\u00e3o poderia descobrir e discernir por conta pr\u00f3pria, sem apelo \u00e0 autoridade b\u00edblica. Esse procedimento de recorrer \u00e0 raz\u00e3o e \u00e0 revela\u00e7\u00e3o, tomando-as como fundamento do conhecimento, animaram discuss\u00f5es e investiga\u00e7\u00f5es sobre o mundo natural e a \u201cnatureza humana\u201d, na chamada Baixa Idade M\u00e9dia bem como no alvorecer da Idade Moderna.<\/p>\n<p>No entanto, foi nos s\u00e9culos XVIII e XIX que se estruturou <i>com maior vigor<\/i> a ideia de que o &#8216;verdadeiro&#8217; conhecimento se d\u00e1 <i>unicamente<\/i> por meio da pura inquiri\u00e7\u00e3o racional aliada a experimenta\u00e7\u00e3o guiada pelo teste atrav\u00e9s dos sentidos. Uma das figuras importantes na estrutura\u00e7\u00e3o de tal projeto \u00e9 o distinto bi\u00f3logo brit\u00e2nico Thomas H. Huxley. Se pud\u00e9ssemos submeter o caso da velhinha ao escrut\u00ednio de Mr. Huxley, a primeira constata\u00e7\u00e3o estaria absolutamente certa, afinal de contas a ci\u00eancia desvendou! A segunda, mais ou menos, afinal, foram acrescentados aos testes cient\u00edficos algumas infer\u00eancias semi\u00f3ticas para a resolu\u00e7\u00e3o do caso. Tal estado de d\u00favida descontentaria profundamente seu conterr\u00e2neo Sir Arthur Conan Doyle. O terceiro caso, se era uma atrocidade, o que implicaria um julgamento moral, de forma alguma. N\u00e3o ter\u00edamos como saber com certeza!<\/p>\n<p>Finalmente, aquilo que chamamos \u201cci\u00eancia\u201d, que anteriormente ao s\u00e9culo XIX atendia melhor por \u201cfilosofia natural\u201d, nem sempre foi t\u00e3o exclusivista assim, quando o assunto era saber como sabemos o que sabemos. Esse \u00e9 um projeto mais claramente do s\u00e9culo XIX. Alguns autores at\u00e9 d\u00e3o um nome pomposo: \u201cnaturalismo cient\u00edfico\u201d. Como esse projeto foi pensado, escrito e executado s\u00e3o t\u00f3picos para outros caf\u00e9s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a9 Raphael Uch\u00f4a (PUC) &nbsp; Uma velhinha \u00e9 encontrada morta em sua humilde casa num pr\u00e9dio da esquina da Oliveira Pena com a Joaquim Paranhos. A pol\u00edcia e a per\u00edcia s\u00e3o chamadas para averigua\u00e7\u00e3o do caso. 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