{"id":452,"date":"2014-02-10T10:31:41","date_gmt":"2014-02-10T13:31:41","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/?p=452"},"modified":"2014-02-10T11:01:21","modified_gmt":"2014-02-10T14:01:21","slug":"a-teoria-da-evolucao-e-uma-boa-teoria-cientifica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/2014\/02\/10\/a-teoria-da-evolucao-e-uma-boa-teoria-cientifica\/","title":{"rendered":"A Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 uma boa teoria Cient\u00edfica?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><span style=\"color: #808000;\"><br \/>\n<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><span style=\"color: #808000;\">Por Glenon Dutra (Professor de F\u00edsica da UFRB, membro da rede <em>Teste da F\u00e9 Brasil<\/em>) <\/span><\/strong><\/p>\n<p>Novamente compartilharei nesse blog algumas observa\u00e7\u00f5es a respeito de uma conversa que tive com uma pessoa em certa ocasi\u00e3o. A conversa girou em torno da qualidade da Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o (TE) enquanto Teoria Cient\u00edfica e quem dialogava comigo questionava essa qualidade alegando a exist\u00eancia de in\u00fameros problemas n\u00e3o resolvidos em seu corpo te\u00f3rico. Os argumentos utilizados s\u00e3o bem populares e bastante conhecidos nos livros daqueles que tentam desqualificar a TE. O principal \u00e9 aquele apresentando a ideia de que uma boa teoria cient\u00edfica deve:<\/p>\n<p><strong>A. explicar satisfatoriamente aquilo a que se prop\u00f5e;<\/strong><br \/>\n<strong> B. possuir provas a favor da mesma;<\/strong><br \/>\n<strong> C. n\u00e3o possuir muitas provas em contr\u00e1rio;<\/strong><br \/>\n<strong> D. poder ser falseada;<\/strong><br \/>\n<strong> E. partir de experimentos ou fatos para basear e sustentar seus pressupostos.<\/strong> <!--more--><\/p>\n<p>Meu interlocutor prosseguia afirmando que: \u201cdiferente das outras ci\u00eancias, as descobertas que desmentem a evolu\u00e7\u00e3o fazem os evolucionistas criarem novas desculpas para a teoria estar certa, baseando-se em pressuposi\u00e7\u00f5es e n\u00e3o em fatos\u201d. Foi utilizada como exemplo a f\u00edsica, afirmando-se sua superioridade por estar firmada em teorias \u201cmensuradas e testadas\u201d.<\/p>\n<p>Assim, partindo desses pressupostos, ele desqualificava categoricamente a TE por n\u00e3o cumprir essas especifica\u00e7\u00f5es. E, pasmem, \u00e9 verdade, a TE n\u00e3o cumpre realmente esses crit\u00e9rios. Ela possui in\u00fameros problemas de verifica\u00e7\u00e3o experimental sendo um dos mais famosos a dificuldade de se encontrar f\u00f3sseis intermedi\u00e1rios entre uma esp\u00e9cie e outra. Basta ir a uma livraria evang\u00e9lica e voc\u00ea encontrar\u00e1 diversos autores com listas de problemas relativos \u00e0s provas experimentais da TE. S\u00e3o livros bem f\u00e1ceis de encontrar e n\u00e3o vou me delongar expondo esses problemas aqui. Caso voc\u00ea, leitor, queria se aprofundar nesse assunto, h\u00e1 um resumo desses problemas em Grudem (1999, pp. 214-215). Os livros de Philip E. Jonson tamb\u00e9m possuem bons argumentos contr\u00e1rios \u00e0 TE e vale a pena dar uma lida para ter um contraponto ao que estou escrevendo.<\/p>\n<p>Mas sigamos em frente; diante do exposto, vou simplificar as coisas em duas possibilidades. Vou cham\u00e1-las de \u201cHip\u00f3tese 1\u201d e \u201cHip\u00f3tese 2\u201d:<\/p>\n<p><em>Hip\u00f3tese 1 &#8211; Existe um compl\u00f4 de cientistas evolucionistas tentando ocultar a verdade sobre a origem das esp\u00e9cies.<\/em><br \/>\n<em> Hip\u00f3tese 2 &#8211; A ideia de \u201cqualidade\u201d de uma teoria cient\u00edfica apresentada pelo meu colega est\u00e1 errada.<\/em><\/p>\n<p>Reconhe\u00e7o que no meio acad\u00eamico existe gente desonesta a ponto de falsificar resultados para conseguir justificar suas hip\u00f3teses. Afinal, realmente existem casos de evolucionistas que tentaram falsificar registros f\u00f3sseis. Sem falar que o jogo pol\u00edtico por tr\u00e1s da disputa pelos investimentos em pesquisa tamb\u00e9m favorece o \u201csumi\u00e7o\u201d de dados comprometedores a esse ou aquele grupo de pesquisa. Mesmo assim, acho muito pouco plaus\u00edvel que a maioria dos pesquisadores seja desonesta. Portanto, tamb\u00e9m n\u00e3o vou gastar tempo tentando mostrar que a Hip\u00f3tese 1 \u00e9 absurda. Al\u00e9m do mais, se eu demonstrar a plausibilidade da Hip\u00f3tese 2, n\u00e3o precisarei me deter na primeira.<\/p>\n<p>A Hip\u00f3tese 2 est\u00e1 vinculada a uma vis\u00e3o bem popular de conhecimento cient\u00edfico como conhecimento provado por meio de experimenta\u00e7\u00e3o, testes e medidas. A quest\u00e3o aqui \u00e9 se essa vis\u00e3o \u00e9 realmente correta. Se sim, todas as teorias cient\u00edficas que j\u00e1 existiram dever\u00e3o obedecer aos crit\u00e9rios \u201cA\u201d, \u201cB\u201d, \u201cC\u201d, \u201cD\u201d e \u201cE\u201d estabelecidos no in\u00edcio do texto. Al\u00e9m disso, nenhuma dessas teorias pode ter passado por ajustes baseados em especula\u00e7\u00e3o, os \u00fanicos ajustes permitidos seriam aqueles baseados em fatos, ou seja, em resultados experimentais mensur\u00e1veis e cuidadosamente testados.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #808000;\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/files\/2014\/02\/TeCopernicana.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-454 alignleft\" alt=\"TeCopernicana\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/files\/2014\/02\/TeCopernicana.jpg\" width=\"234\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/files\/2014\/02\/TeCopernicana.jpg 650w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/files\/2014\/02\/TeCopernicana-292x300.jpg 292w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/files\/2014\/02\/TeCopernicana-146x150.jpg 146w\" sizes=\"auto, (max-width: 234px) 100vw, 234px\" \/><\/a><\/span><\/strong>Portanto, para mostrar que a Hip\u00f3tese 2 est\u00e1 correta, basta encontrarmos uma teoria cient\u00edfica reconhecidamente aceita e verificarmos que ela n\u00e3o obedece aos crit\u00e9rios \u201cA\u201d, \u201cB\u201d, \u201cC\u201d, \u201cD\u201d e \u201cE\u201d, al\u00e9m de sofrer ajustes baseados em especula\u00e7\u00f5es. Para dar maior validade ao meu argumento, vou tentar demonstrar a validade da Hip\u00f3tese 2 em uma teoria utilizada pela F\u00edsica: o Modelo Helioc\u00eantrico de Cop\u00e9rnico. Justifico a escolha por esse conjunto te\u00f3rico devido \u00e0s suas semelhan\u00e7as com a TE. Ambos sofreram resist\u00eancia por parte da igreja por serem, supostamente, contr\u00e1rios \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o b\u00edblica corrente em suas \u00e9pocas e ambos iniciaram uma revolu\u00e7\u00e3o em suas respectivas \u00e1reas de conhecimento.<\/p>\n<p>Aprendemos (ou pelo menos dever\u00edamos ter aprendido) na escola sobre o modelo planet\u00e1rio de Ptolomeu. Nesse modelo a Terra estaria parada no centro do universo e todos os corpos celestes (Sol, Lua, planetas e estrelas) girariam em torno da Terra. O Sol a Lua e a Terra girariam em \u00f3rbitas circulares e os planetas teriam dois tipos de \u00f3rbitas: uma \u00f3rbita circular em torno de um determinado ponto (<em>epiciclo<\/em>) e a \u00f3rbita circular desse ponto em rela\u00e7\u00e3o ao centro da Terra (<em>deferente<\/em>). Tamb\u00e9m aprendemos que a Igreja, influenciada pelas ideias aristot\u00e9licas, defendia esse modelo como verdadeiro e de acordo com a B\u00edblia.<\/p>\n<p>Por volta de 1510 o astr\u00f4nomo polon\u00eas Nicolau Cop\u00e9rnico escreveu um pequeno livro (o <em>Comentariolus<\/em>) onde apresenta uma descri\u00e7\u00e3o resumida de seu modelo helioc\u00eantrico. Nesse livro suas ideias s\u00e3o apresentadas como uma maneira mais simples de interpretar os movimentos dos corpos celestes do que no modelo de Ptolomeu. No entanto, ao tentar abra\u00e7ar todas as caracter\u00edsticas at\u00e9 ent\u00e3o conhecidas dos modelos planet\u00e1rios, por volta de 1530, escreveu uma obra mais completa e densa (e nem um pouco simples) o \u201cRevolu\u00e7\u00f5es das orbes celestes\u201d , livro que s\u00f3 foi publicado no ano de sua morte, em 1543.<\/p>\n<p>De forma simplificada, o modelo de Cop\u00e9rnico prop\u00f5e que o Sol seja o centro do Universo e os planetas, a Terra (com a Lua girando ao redor da Terra) girariam em torno do Sol com velocidades constantes e em \u00f3rbitas circulares. As estrelas estariam localizadas em uma grande esfera im\u00f3vel e bem distante do Sol, o firmamento. A Terra apresentaria alguns movimentos que explicariam todos os movimentos dos corpos celestes tal como vistos de sua superf\u00edcie. Os principais movimentos da Terra seriam o de rota\u00e7\u00e3o em torno do seu eixo ao longo de um dia e o de transla\u00e7\u00e3o em torno do Sol ao longo de um ano.<\/p>\n<p>Vamos analisar rapidamente alguns problemas apresentados pela Teoria de Cop\u00e9rnico logo em sua origem:<\/p>\n<p><strong>A) Uma boa teoria cient\u00edfica deve explicar satisfatoriamente aquilo a que se prop\u00f5e.<\/strong><\/p>\n<p>A Teoria de Cop\u00e9rnico propunha que o planeta Terra se movesse a alt\u00edssimas velocidades tanto em torno de si mesmo como em torno do Sol. S\u00f3 para se ter uma ideia, aqui na cidade onde eu moro, a velocidade de rota\u00e7\u00e3o da Terra, de acordo com a Teoria de Cop\u00e9rnico, chegaria a, aproximadamente, 300m\/s, enquanto isso, o planeta inteiro se moveria em torno do Sol a incr\u00edveis 30km\/s. O problema \u00e9, como \u00e9 que estamos nos movendo a velocidades t\u00e3o altas e n\u00e3o sentimos nada? Por que n\u00e3o sentimos o vento batendo em nosso rosto enquanto nos movemos com a Terra de oeste para leste a 300m\/s? Por que quando eu pulo n\u00e3o fico tr\u00e1s em rela\u00e7\u00e3o ao movimento da Terra? A Teoria n\u00e3o conseguia explicar isso de forma satisfat\u00f3ria. Por qu\u00ea? Porque as teorias f\u00edsicas que permitiriam as repostas a essas quest\u00f5es ainda n\u00e3o existiam. As respostas a essas perguntas come\u00e7aram a ser elucidadas em 1630 por Galileu (mais de 100 anos depois da publica\u00e7\u00e3o do <em>Comentariolus<\/em>!) e s\u00f3 foram respondidas em definitivo em 1687, por Isaac Newton (mais de 150 anos depois do <em>Comentariolus<\/em>!).<\/p>\n<blockquote><p>Por que quando eu pulo n\u00e3o fico tr\u00e1s em rela\u00e7\u00e3o ao movimento da Terra? A Teoria de Cop\u00e9rnico n\u00e3o conseguia explicar isso de forma satisfat\u00f3ria. Por qu\u00ea? Porque as teorias f\u00edsicas que permitiriam as repostas a essas quest\u00f5es ainda n\u00e3o existiam.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>B) Uma boa teoria cient\u00edfica deve possuir provas a favor da mesma.<\/strong><\/p>\n<p>Aqui encontramos outro problema da Teoria de Cop\u00e9rnico. Qual prova possu\u00eda Cop\u00e9rnico de que a Terra possu\u00eda movimentos? Algum leitor \u00e9 capaz de me citar uma prova de que a Terra possui movimento de rota\u00e7\u00e3o? E o de transla\u00e7\u00e3o? N\u00e3o vale falar da sucess\u00e3o dos dias e noites ou das esta\u00e7\u00f5es do ano, pois esses fen\u00f4menos poderiam ser explicados pelo modelo de Ptolomeu, com a Terra parada, sendo desnecess\u00e1ria a confec\u00e7\u00e3o de uma nova teoria para isso.<\/p>\n<p>O leitor tamb\u00e9m pode argumentar que os movimentos s\u00e3o relativos e que tanto faz dizer se a Terra est\u00e1 parada ou em movimento. Mas ser\u00e1 que essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 verdadeira do ponto de vista din\u00e2mico? Realmente uma pessoa girando em um brinquedo de parque de divers\u00f5es pode ser considerada parada enquanto todo o parque gira em torno dela. Mas ser\u00e1 poss\u00edvel transferir a sensa\u00e7\u00e3o de tontura dessa pessoa para as pessoas do parque quando mudamos o ponto de refer\u00eancia? Claro que n\u00e3o! H\u00e1 uma diferen\u00e7a sens\u00edvel no comportamento dos corpos em movimentos circulares quando comparados a corpos em repouso que n\u00e3o pode ser eliminada apenas mudando-se o ponto de refer\u00eancia.<\/p>\n<p>De fato, a principal prova experimental do movimento de rota\u00e7\u00e3o da Terra, o P\u00eandulo de Foucault , s\u00f3 veio a ser constru\u00edda em 1851. J\u00e1 a principal prova experimental do movimento de transla\u00e7\u00e3o da Terra foi dada em 1836 quando o astr\u00f4nomo alem\u00e3o Friedrich Wilhelm Bessel conseguiu, pela primeira vez, observar a paralaxe de uma estrela (isso mesmo, as provas surgiram mais de 300 anos ap\u00f3s Cop\u00e9rnico propor seu modelo!).<\/p>\n<blockquote><p>a principal prova experimental do movimento de rota\u00e7\u00e3o da Terra, o P\u00eandulo de Foucault , s\u00f3 veio a ser constru\u00edda em 1851.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>C) Uma boa teoria cient\u00edfica n\u00e3o pode possuir muitas provas em contr\u00e1rio.<\/strong><\/p>\n<p>Para in\u00edcio de conversa esse crit\u00e9rio \u00e9, no m\u00ednimo, muito estranho. Qual a quantidade de provas em contr\u00e1rio \u00e9 suficiente para rejeitarmos uma teoria? Qual o n\u00famero adequado? Como decidir? \u00c9 esquisito n\u00e3o acham? Mas vejam bem: Cop\u00e9rnico prop\u00f4s que os planetas se moviam com velocidades constantes, mas as velocidades observ\u00e1veis dos movimentos planet\u00e1rios n\u00e3o eram constantes; tamb\u00e9m prop\u00f4s que as \u00f3rbitas seriam circulares e um s\u00e9culo depois Kepler demonstrou que elas eram el\u00edpticas; propunha-se que a Lua estivesse ligada a Terra (por girar em torno dela), mas ent\u00e3o ela deveria cair sobre n\u00f3s assim como os outros corpos presos \u00e0 Terra. Sem falar na enorme quantidade de provas contr\u00e1rias \u00e0 rota\u00e7\u00e3o e transla\u00e7\u00e3o da Terra existentes na \u00e9poca. Voc\u00eas podem ler sobre os problemas para se provar a Teoria copernicana em Cohen (1988), Medeiros (2002) e Lopes (2001).<\/p>\n<blockquote><p>Qual a quantidade de provas em contr\u00e1rio \u00e9 suficiente para rejeitarmos uma teoria? Qual o n\u00famero adequado? Como decidir?<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>D) Uma boa teoria cient\u00edfica pode ser falseada.<\/strong><\/p>\n<p>A ideia de falseabilidade de uma teoria prov\u00e9m do fil\u00f3sofo da ci\u00eancia Karl Popper em meados do s\u00e9culo XX. Para ele, uma afirma\u00e7\u00e3o pode ser considerada cient\u00edfica caso possa ser falseada, isto \u00e9, quando for poss\u00edvel o planejamento de um experimento que a contradiga. Observe que n\u00e3o \u00e9 preciso que o experimento a contradiga e nem que exista a tecnologia necess\u00e1ria para a realiza\u00e7\u00e3o do experimento, basta a possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o de tal experimento para que a afirma\u00e7\u00e3o seja considerada cient\u00edfica. Vou dar dois exemplos:<\/p>\n<p><em>Afirma\u00e7\u00e3o 1: \u201cOs nascidos no signo de libra podem enfrentar aborrecimentos no trabalho amanh\u00e3.\u201d (Matsumoto)<\/em><\/p>\n<p><em>Afirma\u00e7\u00e3o 2: \u201c\u00c1cido \u00e9 uma subst\u00e2ncia que, numa rea\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, transfere \u00edons H+ para uma base.\u201d (ibdem)<\/em><\/p>\n<p>De acordo com o crit\u00e9rio de Popper, a afirma\u00e7\u00e3o 1 n\u00e3o pode ser considerada cient\u00edfica por n\u00e3o ser poss\u00edvel test\u00e1-la. Ela \u00e9 verdadeira caso o libriano sofra aborrecimentos em seu trabalho ou n\u00e3o. J\u00e1 a segunda afirma\u00e7\u00e3o pode ser considerada cient\u00edfica por ser poss\u00edvel planejar um experimento para verificar a transfer\u00eancia de \u00edons H+ do \u00e1cido para uma base em uma rea\u00e7\u00e3o qu\u00edmica.<\/p>\n<p>Se f\u00f4ssemos rigorosos com Cop\u00e9rnico da mesma forma que somos rigorosos com Darwin, n\u00e3o poder\u00edamos ter aceitado a cientificidade de sua teoria se ela envolvesse afirma\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podiam ser false\u00e1veis. O problema \u00e9 que Cop\u00e9rnico, para salvar suas hip\u00f3teses de movimentos circulares e uniformes em torno do Sol lan\u00e7ou m\u00e3o do mesmo artif\u00edcio de Ptolomeu, a exist\u00eancia de <em>epiciclos<\/em> e <em>deferentes<\/em> que n\u00e3o podiam \u00e0 \u00e9poca ser confirmados experimentalmente. O pr\u00f3prio tradutor dos <em>Comentariolus<\/em> reconhece os problemas de falseabilidade existentes nesses ajustes (Cop\u00e9rnico, 2003, p. 9).<\/p>\n<blockquote><p>Se f\u00f4ssemos rigorosos com Cop\u00e9rnico da mesma forma que somos rigorosos com Darwin, n\u00e3o poder\u00edamos ter aceitado a cientificidade de sua teoria se ela envolvesse afirma\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podiam ser false\u00e1veis.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>E) Uma boa teoria cient\u00edfica deve partir de experimentos ou fatos para basear e sustentar seus pressupostos<\/strong><\/p>\n<p>Acredito ser esse o ponto mais problem\u00e1tico da Teoria de Cop\u00e9rnico. Isto porque, por mais incr\u00edvel que pare\u00e7a, Cop\u00e9rnico n\u00e3o parte de experimenta\u00e7\u00f5es ou de fatos para basear boa parte de seus argumentos. Ali\u00e1s, muito pelo contr\u00e1rio, boa parte dos fatos e observa\u00e7\u00f5es acess\u00edveis a ele em sua \u00e9poca contrariavam suas hip\u00f3teses. S\u00f3 para termos uma no\u00e7\u00e3o, quantos sabem de onde Cop\u00e9rnico retirou a ideia de que as \u00f3rbitas celestes seriam circulares? Ele observou isto? Mediu o movimento dos astros? N\u00e3o! De modo nenhum. Cop\u00e9rnico considerou as \u00f3rbitas celestes como circulares porque comungava com as ideias plat\u00f4nicas de que os astros seriam seres \u201cdivinos e imut\u00e1veis e o \u00fanico movimento compat\u00edvel com corpos perfeitos seria o circular e uniforme\u201d (Lopes, 2001, p. 220).<\/p>\n<p>E a rota\u00e7\u00e3o da Terra? Algum leitor acredita que Cop\u00e9rnico realizou experimentos ou observou algum fato para afirmar sua possibilidade? Tamb\u00e9m n\u00e3o! Apesar desses movimentos se oporem drasticamente aos conhecimentos da F\u00edsica de sua \u00e9poca, Cop\u00e9rnico afirmava sua veracidade por ser a Terra esf\u00e9rica, sendo a rota\u00e7\u00e3o, um tipo de movimento natural de uma esfera (Cohen, 1988, p. 71). Isso mesmo! Cop\u00e9rnico resolve o dif\u00edcil problema f\u00edsico da rota\u00e7\u00e3o da Terra afirmando que ela gira por ser natural \u00e0s esferas girarem. Ele foge do problema de ter que demonstrar isso experimentalmente afirmando ser a rota\u00e7\u00e3o um movimento natural.<\/p>\n<p>E quanto \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de que, \u201cdiferente das outras ci\u00eancias, as descobertas que desmentem a evolu\u00e7\u00e3o fazem os evolucionistas criarem novas desculpas para a teoria estar certa, baseando-se em pressuposi\u00e7\u00f5es e n\u00e3o em fatos\u201d? Seria verdade isso? Nas outras ci\u00eancias os cientistas n\u00e3o fazem ajustes e nem criam novas desculpas? Os cientistas abandonam suas teorias sempre que elas sofrem algum rev\u00e9s experimental? Qualquer historiador da ci\u00eancia honesto ir\u00e1 reconhecer que isso n\u00e3o acontece. O mesmo pode se dizer a respeito da Teoria de Cop\u00e9rnico.<\/p>\n<p>Em 1510 Cop\u00e9rnico publicou seu livreto apresentando resumidamente suas ideias. Nesse livreto ele afirmava estar atr\u00e1s de um modelo mais simples que o de Ptolomeu para explicar o movimento dos astros. Na primeira vez em que o modelo \u00e9 apresentado, ele assume que os planetas giram em torno do Sol em \u00f3rbitas circulares. Por\u00e9m, ao detalhar seu modelo em seu segundo livro, percebe n\u00e3o ser poss\u00edvel encaixar as observa\u00e7\u00f5es conhecidas em seu modelo inicial. O que ele fez? Abandonou a teoria? N\u00e3o! Fez ajustes nas \u00f3rbitas acrescentando <em>epiciclos<\/em> \u00e0s mesmas. Esse ajuste foi t\u00e3o dif\u00edcil que seu modelo acabou por ficar, ironicamente, mais complicado do que o modelo de Ptolomeu (o qual pretendia simplificar). Veja o que Cohen (1988, p.67) diz a respeito disso:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA afirma\u00e7\u00e3o de que o sistema copernicano foi uma grande simplifica\u00e7\u00e3o da astronomia resulta de uma m\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o. Esta afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida se considerarmos o sistema de Cop\u00e9rnico na sua forma rudimentar de um s\u00f3 c\u00edrculo para cada planeta; no entanto, esta \u00e9 apenas uma aproxima\u00e7\u00e3o grosseira, como Cop\u00e9rnico bem sabia. Vimos que, para obter uma representa\u00e7\u00e3o mais exacta dos movimentos planet\u00e1rios, recorreu a uma combina\u00e7\u00e3o de c\u00edrculos sobre c\u00edrculos, reminisc\u00eancia das constru\u00e7\u00f5es de Ptolomeu, embora com objetivos diferentes.\u201d (Ibidem)<\/p><\/blockquote>\n<p>Al\u00e9m disso, para explicar porque n\u00e3o sent\u00edamos o movimento da Terra, Cop\u00e9rnico, contrariando toda a F\u00edsica conhecida em sua \u00e9poca e sem nenhuma prova experimental, afirmou os objetos sobre a Terra compartilhavam de seu movimento circular. Para explicar por que os astr\u00f4nomos de sua \u00e9poca n\u00e3o observavam a paralaxe estelar, tamb\u00e9m sem nenhuma prova experimental, afirmou que as estrelas estavam muito mais longe do que se pensava. Algumas explica\u00e7\u00f5es eram at\u00e9 mesmo contradit\u00f3rias. Ele afirmava que a Terra tinha o movimento de rota\u00e7\u00e3o por ser esf\u00e9rica e ao mesmo tempo afirmava que o Sol, tamb\u00e9m esf\u00e9rico, era est\u00e1tico.<\/p>\n<p>Eu ainda poderia escrever um livro inteiro sobre os problemas do modelo planet\u00e1rio de Cop\u00e9rnico (e, acreditem, existem livros sobre isso), mas a falta de tempo n\u00e3o me permite isso. Tamb\u00e9m poderia pegar qualquer outra teoria mais moderna (como a mec\u00e2nica de Newton, a Relatividade de Galileu ou a gen\u00e9tica de Mendel) e sempre encontraria problemas semelhantes de contradi\u00e7\u00e3o com os princ\u00edpios \u201cA\u201d, \u201cB\u201d, \u201cC\u201d, \u201cD\u201d e \u201cE\u201d. Imaginem se Cop\u00e9rnico adotasse os crit\u00e9rios \u201cA\u201d, \u201cB\u201d, \u201cC\u201d, \u201cD\u201d e \u201cE\u201d para avaliar sua teoria? Provavelmente a teria abandonado logo de in\u00edcio atrasando por um per\u00edodo indefinido a Revolu\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica que suas ideias nos proporcionaram.<\/p>\n<p>Qual a raz\u00e3o dessa aparente contradi\u00e7\u00e3o entre o que se espera de uma teoria cient\u00edfica e as teorias cient\u00edficas verdadeiras? Ela acontece porque, na verdade, fazer ci\u00eancia \u00e9 algo muito mais complexo do que pensamos e envolve uma s\u00e9rie de fatores hist\u00f3ricos, sociais, pol\u00edticos, religiosos e metaf\u00edsicos que n\u00e3o s\u00e3o considerados popularmente.<\/p>\n<p>Retornando \u00e0 TE e baseando-me na an\u00e1lise feita do modelo copernicano, considero profundamente injusta a campanha de desqualifica\u00e7\u00e3o realizada por muitos crist\u00e3os contra a Teoria. O crist\u00e3o, como qualquer outro, tem o direito de discordar da teoria, levantar problemas e propor alternativas a ela. Mas isto \u00e9 diferente de desconsider\u00e1-la como ci\u00eancia. Se vamos dizer que a Evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 ci\u00eancia de qualidade deveremos adotar os mesmos crit\u00e9rios para outras teorias cient\u00edficas e, fazendo isso, o que nos restar\u00e1?<\/p>\n<p>Concluindo, procurei ao longo do texto apresentar uma das no\u00e7\u00f5es mais populares sobre a qualidade de teorias cient\u00edficas, frequentemente utilizada, por autores crist\u00e3os, para desqualificar a Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o. Utilizei essa no\u00e7\u00e3o popular para avaliar a validade de outra teoria, j\u00e1 reconhecida como uma teoria de boa qualidade e que tamb\u00e9m foi rejeitada por pensadores crist\u00e3os em sua \u00e9poca: A Teoria Helioc\u00eantrica de Cop\u00e9rnico. Por meio da compara\u00e7\u00e3o demonstrou-se que, se concordarmos os crit\u00e9rios \u201cA\u201d, \u201cB\u201d, \u201cC\u201d, \u201cD\u201d e \u201cE\u201d para avaliarmos se uma teoria \u00e9 realmente boa, o corpo te\u00f3rico copernicano seria sumariamente reprovado. Como a hist\u00f3ria da ci\u00eancia demonstrou a qualidade do Sistema Copernicano, deduzimos que os crit\u00e9rios \u201cA\u201d, \u201cB\u201d, \u201cC\u201d, \u201cD\u201d e \u201cE\u201d s\u00e3o falsos e n\u00e3o servem para avaliar a qualidade de uma teoria cient\u00edfica.<\/p>\n<blockquote><p>considero profundamente injusta a campanha de desqualifica\u00e7\u00e3o realizada por muitos crist\u00e3os contra a Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o. O crist\u00e3o, como qualquer outro, tem o direito de discordar da teoria, levantar problemas e propor alternativas a ela. Mas isto \u00e9 diferente de desconsider\u00e1-la como ci\u00eancia. Se vamos dizer que a Evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 ci\u00eancia de qualidade deveremos adotar os mesmos crit\u00e9rios para outras teorias cient\u00edficas e, fazendo isso, o que nos restar\u00e1?<\/p><\/blockquote>\n<p>Finalmente, se esses crit\u00e9rios n\u00e3o s\u00e3o v\u00e1lidos para refutar a TE, resta a n\u00f3s crist\u00e3os: ou a alternativa de assumirmos a nossa descren\u00e7a na ci\u00eancia (o que seria v\u00e1lido e coerente para muitos de n\u00f3s) ou ent\u00e3o, verificarmos as falhas em nossa argumenta\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o da b\u00edblia procurando estabelecer um di\u00e1logo melhor com essa teoria. Vale a pena lembrar que isto j\u00e1 aconteceu no passado quando interpret\u00e1vamos literalmente os textos b\u00edblicos insinuantes da imobilidade da Terra e a aceita\u00e7\u00e3o do modelo cient\u00edfico n\u00e3o destruiu a nossa f\u00e9. N\u00e3o devemos nos esquecer do exemplo de Galileu e o vexame imposto \u00e0 Igreja que o condenou&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Obras Citadas<\/em><\/strong><br \/>\nCohen, I. B. (1988). <em>O Nascimento de uma nova f\u00edsica<\/em>. Lisboa: Gradiva.<br \/>\nCop\u00e9rnico, N. (2003). <em>Comentariolus: Pequeno coment\u00e1rio de Nicolau Cop\u00e9rnico a respeito de suas pr\u00f3prias hip\u00f3teses acerca dos movimentos celestes<\/em> (2\u00aa edi\u00e7\u00e3o ed.). (R. d. Martins, Trad.) S\u00e3o Paulo: Livraria da F\u00edsica.<br \/>\nGrudem, W. (1999). <em>Teologia Sistem\u00e1tica<\/em>. S\u00e3o Paulo: Vida Nova.<br \/>\nLopes, M. H. (2001). <em>A retrogra\u00e7\u00e3o dos planetas e suas expica\u00e7\u00f5es: os orbes dos planetas e seus movimentos, da Antiguidade a Cop\u00e9rnico.<\/em> S\u00e3o Paulo: PUC\/SP.<br \/>\nMatsumoto, F. M. (?). <em>Racionalismo Cr\u00edtico<\/em>. Acesso em 25 de 11 de 2013, dispon\u00edvel em P\u00e1gina do Professor Dr. Fl\u00e1vio Matsumoto do Departamento de Qu\u00edmica da UFPR: http:\/\/www.quimica.ufpr.br\/fmatsumo\/CQ155_RacionalismoCritico.pdf<br \/>\nMedeiros, A. (2002). <em>A invisibilidade dos pressupostos e das limita\u00e7\u00f5es da teoria copernicana nos livros did\u00e1ticos de F\u00edsica<\/em>. Caderno Brasileiro de Ensino de F\u00edsica, 29-52.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Glenon Dutra (Professor de F\u00edsica da UFRB, membro da rede Teste da F\u00e9 Brasil) Novamente compartilharei nesse blog algumas observa\u00e7\u00f5es a respeito de uma conversa que tive com uma pessoa em certa ocasi\u00e3o. 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