{"id":412,"date":"2013-11-04T20:38:14","date_gmt":"2013-11-04T23:38:14","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/?p=412"},"modified":"2013-11-05T12:57:04","modified_gmt":"2013-11-05T15:57:04","slug":"uma-introducao-bem-curta-a-filosofia-da-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/2013\/11\/04\/uma-introducao-bem-curta-a-filosofia-da-ciencia\/","title":{"rendered":"Uma Introdu\u00e7\u00e3o Bem Curta \u00e0 Filosofia da Ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><span style=\"color: #808000;\">por <a href=\"http:\/\/biologos.org\/blog\/author\/bancewicz-ruth\">Ruth Bancewicz (Faraday Institute)<\/a><\/span><\/strong><br \/>\n<strong> <span style=\"color: #808000;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Giselle Fontes Botelho (F\u00edsica do INMETRO e membro da rede Teste da F\u00e9 Brasil)<\/span><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Algumas pessoas\u00a0trabalham com o destrinchamento das suposi\u00e7\u00f5es que os cientistas fazem, e checam se o que eles dizem combina com o que realizam. Quais s\u00e3o os limites da ci\u00eancia? Que tipos de quest\u00f5es ela pode responder corretamente e quais s\u00e3o os principais aspectos que a definem? Esse tipo de filosofia \u00e9 uma fonte valiosa de pensamento cr\u00edtico e essencial para qualquer discuss\u00e3o sobre ci\u00eancia e religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Explorando a filosofia da ci\u00eancia [1] eu rapidamente descobri que n\u00e3o iria conseguir as respostas de forma f\u00e1cil. Fil\u00f3sofos adoram discordar entre si e cientistas nem sempre concordam com o que os fil\u00f3sofos dizem. Eu suspeito que essa desconex\u00e3o aconte\u00e7a em parte porque os fil\u00f3sofos nem sempre gastam algum tempo em laborat\u00f3rios de ci\u00eancia moderna\u00a0fazendo an\u00e1lises e em parte porque fil\u00f3sofos e cientistas falam em linguagens diferentes. Entretanto, algumas ideias s\u00e3o \u00fateis ao pensar sobre o que \u00e9 ci\u00eancia. <!--more--><\/p>\n<p>A matem\u00e1tica, por exemplo, \u00e9 dedut\u00edvel: todos os x s\u00e3o y, este \u00e9 um x, logo \u00e9 y. A ci\u00eancia, por outro lado, \u00e9 comumente indutiva: at\u00e9 agora todas as vacas que temos visto s\u00e3o ruminantes, isso parece um tipo de vaca, logo \u00e9 prov\u00e1vel que ela seja ruminante. Cientistas tendem a partir de dados limitados \u2013 a an\u00e1lise das vacas de uma parte do mundo \u2013 para uma conclus\u00e3o mais geral: todas as vacas s\u00e3o ruminantes. Esses s\u00e3o argumentos baseados em probabilidades, ent\u00e3o eles levam a conclus\u00f5es provis\u00f3rias. Um dia pode ser que encontremos uma esp\u00e9cie que compartilhe de todas as caracter\u00edsticas das vacas, mas que tenha um s\u00f3 est\u00f4mago e n\u00e3o quatro &#8211; ent\u00e3o n\u00f3s precisaremos inventar novas defini\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A abordagem indutiva tem obtido \u00eaxito ao predizer coisas sobre o mundo de forma confi\u00e1vel e tamb\u00e9m se torna base para desenvolvimento de tecnologia. Essa aproxima\u00e7\u00e3o se baseia na uniformidade da natureza. Espera-se que a gravidade se comporte da mesma maneira em J\u00fapiter e na Terra e que se J\u00fapiter \u00e9 maior que a Terra, a gravidade seja bem mais forte por l\u00e1. Essa expectativa de que as leis da natureza n\u00e3o mudam de um lado do universo para outro \u00e9 um ato de f\u00e9, mas um ato que tem funcionado at\u00e9 agora. A <a href=\"http:\/\/scienceandbelief.org\/2013\/10\/03\/day-science-and-night-science\/\">night science<\/a>\u00a0\u00e9, na maioria das vezes, uma introdu\u00e7\u00e3o mais bagun\u00e7ada do que simples, mas seu princ\u00edpio continua importante.<\/p>\n<p>Outra abordagem \u00fatil em ci\u00eancia \u00e9 a infer\u00eancia \u00e0 melhor explica\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 um trabalho de detetive: a \u00e1gua absorve e emite a luz numa frequ\u00eancia determinada, n\u00f3s observamos essa mesma frequ\u00eancia da luz vinda de um planeta distante, ent\u00e3o o planeta tem \u00e1gua na sua superf\u00edcie. O pr\u00f3ximo passo \u00e9 testar a dedu\u00e7\u00e3o com alguns outros experimentos. No fim voc\u00ea faz de um caso a sua hip\u00f3tese usando toda a evid\u00eancia que voc\u00ea encontrou e seus colegas julgam se voc\u00ea est\u00e1 certo ou n\u00e3o. A melhor maneira de mostrar confian\u00e7a no trabalho de algu\u00e9m \u00e9 basear a sua pesquisa nesse trabalho \u2013 voc\u00ea vai logo perceber se eles fizeram os experimentos bem ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a indu\u00e7\u00e3o as coisas come\u00e7am a ficar mais complicadas e eu percebo que os cientistas come\u00e7am a ficar insatisfeitos com a filosofia da ci\u00eancia nesse ponto. Cientistas experimentais s\u00e3o pessoas pr\u00e1ticas e eles usam m\u00e9todos de pesquisa que funcionam. Claro que \u00e9 bom examinar suas suposi\u00e7\u00f5es e tend\u00eancias, mas quando se trata de decidir se o mundo f\u00edsico funciona para al\u00e9m do pensamento humano, as coisas come\u00e7am a ficar um tanto abstratas demais para algumas pessoas. Como diz Samir Okasha em seu livro <a href=\"http:\/\/ukcatalogue.oup.com\/product\/9780192802835.do#.UlQqU2Q5y8U\">Philosophy of Science: A Very Short Introduction<\/a> (Filosofia da Ciencia: Uma Introdu\u00e7\u00e3o muito breve, em tradu\u00e7\u00e3o livre), de tempos em tempos os fil\u00f3sofos da ci\u00eancia andam tentando dizer aos cientistas o que \u00e9 e o que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel e frequentemente os fil\u00f3sofos estavam errados.<\/p>\n<p>No fim das contas, definir ci\u00eancia \u00e9 dif\u00edcil porque as t\u00e9cnicas das diferentes \u00e1reas s\u00e3o muito variadas. A astronomia \u00e9 uma ci\u00eancia hist\u00f3rica porque a luz das gal\u00e1xias mais distantes leva bilh\u00f5es de anos para chegar aqui, assim como a geologia e a biologia evolucion\u00e1ria tamb\u00e9m envolvem um trabalho hist\u00f3rico de detetive. F\u00edsicos te\u00f3ricos acham que modelos matem\u00e1ticos s\u00e3o a realidade, na medida em que eles \u00e0s vezes se baseiam em equa\u00e7\u00f5es, mesmo em face da evid\u00eancia \u201cpesada\u201d. J\u00e1 os f\u00edsicos experimentais querem ver o fen\u00f4meno f\u00edsico antes de aceitarem a teoria. A maioria dos cientistas \u00e9 reducionista, destrinchando as coisas nos pedacinhos e pecinhas que as comp\u00f5em. Mas cada \u00e1rea tem seus limites: os bi\u00f3logos v\u00e3o trabalhar com as mol\u00e9culas, enquanto os qu\u00edmicos est\u00e3o mais preocupados com os fen\u00f4menos at\u00f4micos. Os sistemas dos bi\u00f3logos s\u00e3o antirreducionistas, trabalhando em organismos como um todo ou em grupos de organismos. Qualquer tentativa de uma defini\u00e7\u00e3o precisa deixa algu\u00e9m de fora ou inclui um campo acad\u00eamico que tradicionalmente n\u00e3o tem nada a ver com ci\u00eancia, como historia ou literatura.<\/p>\n<p>Em geral, a ci\u00eancia normalmente escolhe algumas alternativas poss\u00edveis [2]: estuda os objetos ou fen\u00f4menos que podem ser pesados, medidos ou observados. Quest\u00f5es de significado ou valor ficam de fora. Ela utiliza generaliza\u00e7\u00f5es sobre propriedades ou descri\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas das coisas. Suas afirma\u00e7\u00f5es s\u00e3o sempre provis\u00f3rias e abertas a falsifica\u00e7\u00f5es. Ela reduz a tend\u00eancia pessoal ao m\u00ednimo, colocando em camadas a relev\u00e2ncia e a repeti\u00e7\u00e3o de outros para reduzir ainda mais essa tend\u00eancia. Essa \u00e9 a aproxima\u00e7\u00e3o mais comum dos cientistas e \u00e9 conhecida como \u201crealismo cr\u00edtico\u201d. Existe um mundo f\u00edsico real fora daquilo que podemos estudar, mas nosso conhecimento n\u00e3o \u00e9 nem exaustivo e nem final.<em> [3]<\/em><\/p>\n<div>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<\/div>\n<p><a href=\"http:\/\/scienceandbelief.org\/2013\/10\/10\/a-very-very-short-introduction-to-philosophy-of-science\/#_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0Samir Okasha,\u00a0<a href=\"http:\/\/ukcatalogue.oup.com\/product\/9780192802835.do#.UlVbtmQ5y8V\">Philosophy of Science: A Very Short Introduction<\/a>\u00a0(Oxford: Oxford University Press, 2002);\u00a0<a href=\"http:\/\/books.google.co.uk\/books\/about\/What_is_this_Thing_Called_Science.html?id=Dp1f03arcbYC&amp;redir_esc=y\">A.F. Chalmers, What is this thing called Science? 2nd edition<\/a>\u00a0(Milton Keynes: The Open University, 1982); Harry Collins and Trevor Pinch,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cambridge.org\/gb\/academic\/subjects\/general-science\/history-science\/golem-what-you-should-know-about-science-2nd-edition-1\">The Golem: What You Should Know About Science<\/a>, 2nd edition\u00a0(Cambridge: Canto, 1998); John Polkinghorne,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cambridge.org\/gb\/academic\/subjects\/general-science\/popular-science\/beyond-science-wider-human-context-1\">Beyond Science: The Wider Human Context<\/a>\u00a0(Cambridge: Cambridge University Press, 1996)<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/scienceandbelief.org\/2013\/10\/10\/a-very-very-short-introduction-to-philosophy-of-science\/#_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u00a0Based on an excerpt from Denis Alexander, lecture on \u2018<a href=\"http:\/\/scienceandbelief.org\/2013\/06\/13\/the-christian-roots-of-modern-science\/\">The Christian Roots of Science<\/a>\u2019, Launde Abbey, Leicestershire, June 2013.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/scienceandbelief.org\/2013\/10\/10\/a-very-very-short-introduction-to-philosophy-of-science\/#_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>\u00a0John Polkinghorne, Beyond Science: The Wider Human Context (Cambridge: Cambridge University Press, 1996)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Ruth Bancewicz (Faraday Institute) Tradu\u00e7\u00e3o: Giselle Fontes Botelho (F\u00edsica do INMETRO e membro da rede Teste da F\u00e9 Brasil) &nbsp; Algumas pessoas\u00a0trabalham com o destrinchamento das suposi\u00e7\u00f5es que os cientistas fazem, e checam se o que eles dizem combina com o que realizam. 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