{"id":390,"date":"2013-10-21T22:53:51","date_gmt":"2013-10-22T01:53:51","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/?p=390"},"modified":"2013-11-05T12:58:47","modified_gmt":"2013-11-05T15:58:47","slug":"dez-questoes-sobre-o-teste-da-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/2013\/10\/21\/dez-questoes-sobre-o-teste-da-fe\/","title":{"rendered":"Dez quest\u00f5es sobre o &#8220;Teste da F\u00e9&#8221;: uma resposta inicial aos cr\u00edticos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><strong><span style=\"color: #808000;\">por Guilherme de Carvalho<\/span><\/strong><\/p>\n<p>O lan\u00e7amento recente do livro <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/o-teste-da-fe\" target=\"_blank\">O Teste da F\u00e9<\/a>\u00a0gerou discuss\u00f5es acaloradas, e perguntas foram feitas sobre a nossa identidade teol\u00f3gica. H\u00e1 muito o que dizer, e n\u00e3o h\u00e1 como resolver isso em um \u00fanico post. Ent\u00e3o decidi organizar os questionamentos em perguntas principais, e vamos come\u00e7ar respondendo a 10 perguntas b\u00e1sicas:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>(1) Qual \u00e9 o prop\u00f3sito do projeto \u201cTeste da F\u00e9 Brasil\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>Antes de tudo, reabrir a conversa\u00e7\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia moderna e f\u00e9 evang\u00e9lica.<\/p>\n<p>O campo evang\u00e9lico brasileiro apresenta uma atitude amb\u00edgua em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia, e em geral n\u00e3o apresenta a estima e a valoriza\u00e7\u00e3o da vida intelectual e da vida cient\u00edfica que caracterizam o protestantismo cl\u00e1ssico. No seu extremo mais fundamentalista tendemos a combinar uma leitura b\u00edblica question\u00e1vel com um uso seletivo e pragm\u00e1tico da evid\u00eancia cient\u00edfica, sem reconhecer o campo cient\u00edfico como um campo leg\u00edtimo e sem ver a ci\u00eancia como uma voca\u00e7\u00e3o leg\u00edtima para o crist\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, no extremo mais \u201cmodernista\u201d do movimento evang\u00e9lico, onde ele se aproxima do que grosso modo se chama \u00e0s vezes de \u201cliberalismo teol\u00f3gico\u201d, v\u00ea-se a tend\u00eancia de revisar a f\u00e9 evang\u00e9lica sistematicamente, em termos de ideologias e cosmovis\u00f5es seculares que pululam a academia moderna, apelando-se ao avan\u00e7o da ci\u00eancia moderna como prova de que a doutrina e as formas confessionais cl\u00e1ssicas da f\u00e9 crist\u00e3 estariam ultrapassadas. <!--more--><\/p>\n<p>A essas anomalias soma-se um emprego pouco cr\u00edtico da tecnologia moderna &#8211; ela mesma resultado da ci\u00eancia &#8211; n\u00e3o apenas no uso di\u00e1rio e no entretenimento, como tamb\u00e9m na organiza\u00e7\u00e3o e atividades eclesi\u00e1sticas e pastorais. \u00c9 uma atitude paradoxal que \u201ccoa\u201d as express\u00f5es discursivas da ci\u00eancia e \u201cengole\u201d seus resultados pr\u00e1ticos e sociais.<\/p>\n<p>\u00c9 urgente, por isso, uma reconstru\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 evang\u00e9lica e ci\u00eancia moderna, e a combina\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os para inspirar uma poss\u00edvel comunidade de cientistas e intelectuais de f\u00e9 capaz de mediar entre a comunidade evang\u00e9lica e o campo cient\u00edfico e contribuir para uma teologia evang\u00e9lica p\u00fablica consistente com a voca\u00e7\u00e3o integral da igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>(2) \u201cO Teste da F\u00e9\u201d \u00e9 uma defesa do \u201cEvolucionismo Te\u00edsta\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o exatamente. O livro \u201cO Teste da F\u00e9\u201d apresenta o testemunho pessoal de dez cientistas sobre como eles chegaram \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3 e como integraram sua f\u00e9 e sua voca\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. O DVD, sim, apresenta uma introdu\u00e7\u00e3o ao di\u00e1logo de religi\u00e3o e ci\u00eancia hoje, na forma de um document\u00e1rio em tr\u00eas partes: na primeira, o assunto \u00e9 cosmologia e a inteligibilidade do universo; na segunda, origens biol\u00f3gicas e meio ambiente; na terceira, neuroci\u00eancias e natureza humana. Na segunda parte, a vis\u00e3o evolucion\u00e1ria \u00e9 apresentada como plaus\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o projeto tem uma atitude positiva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. Mas esse n\u00e3o \u00e9 o tema do livro. O tema \u00e9 a possibilidade de ser, ao mesmo tempo, crist\u00e3o e cientista. Nesse sentido, \u00e9 \u00fatil para pessoas de qualquer posi\u00e7\u00e3o: ateus, cat\u00f3licos, criacionistas cient\u00edficos e evolucionistas te\u00edstas. Destacamos, inclusive, que a obra \u00e9 extremamente \u00fatil para ajudar a apresentar a f\u00e9 crist\u00e3 a pessoas que t\u00eam preconceitos intelectuais contra o cristianismo. Se voc\u00ea quer fazer evangeliza\u00e7\u00e3o na universidade ou educa\u00e7\u00e3o sobre f\u00e9 e ci\u00eancia, &#8220;O Teste da F\u00e9&#8221; \u00e9 um bom recurso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>(3) Como o projeto &#8220;Teste da F\u00e9 Brasil&#8221; interpreta a B\u00edblia?<\/strong><\/p>\n<p>A pergunta \u00e9 essencial, mas sua resposta direta exigiria um estudo de todos os textos centrais envolvidos na discuss\u00e3o de f\u00e9 e ci\u00eancia \u2013 algo que queremos fazer aos poucos, mas que n\u00e3o temos espa\u00e7o para fazer aqui. Ent\u00e3o vamos fazer algo indireto e mais r\u00e1pido: vamos apresentar <em>como pensamos que a B\u00edblia n\u00e3o deve ser interpretada.<\/em><\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, quero deixar claro que n\u00e3o arredamos o p\u00e9 das cren\u00e7as evang\u00e9licas cl\u00e1ssicas (como Ad\u00e3o hist\u00f3rico, queda espa\u00e7o-temporal, Provid\u00eancia de Deus etc), nem da inerr\u00e2ncia b\u00edblica. O projeto &#8220;Teste da F\u00e9 Brasil&#8221; est\u00e1 comprometido com uma vis\u00e3o elevada das Escrituras. Mas n\u00e3o acreditamos que a B\u00edblia seja um manual de ci\u00eancias e que o literalismo seja uma pr\u00e1tica hermen\u00eautica s\u00e3. Explico:<\/p>\n<p>Muitos crist\u00e3os t\u00eam enfatizado corretamente que a redescoberta da interpreta\u00e7\u00e3o literal das Escrituras foi um grande marco na hist\u00f3ria da teologia crist\u00e3, quando os reformadores protestantes superaram a forma cat\u00f3lica medieval (por meio de alegoriza\u00e7\u00f5es e da explora\u00e7\u00e3o de alegados m\u00faltiplos n\u00edveis de significado)\u00a0de ler a B\u00edblia. Esse tipo de leitura se prestava \u00e0 justifica\u00e7\u00e3o de doutrinas teol\u00f3gicas, morais e regras institucionais que n\u00e3o tinham nenhum fundamento real na inten\u00e7\u00e3o dos autores b\u00edblicos. A interpreta\u00e7\u00e3o literal das Escrituras ajudou os te\u00f3logos protestantes (e, aos poucos, os cat\u00f3licos come\u00e7aram a reconhecer isso) a desenvolver uma teologia realmente b\u00edblica, atenta \u00e0 inten\u00e7\u00e3o do texto sagrado, ao inv\u00e9s de introduzir elementos estranhos.<\/p>\n<p>Mas a interpreta\u00e7\u00e3o &#8220;literal&#8221; n\u00e3o \u00e9 o mesmo que a interpreta\u00e7\u00e3o &#8220;literalista&#8221;. Interpretar literalmente a Escritura \u00e9 <em>interpretar cada texto de acordo com a inten\u00e7\u00e3o do seu autor e \u00e0 luz de toda a Escritura Sagrada<\/em>. Isso significa que precisamos dar aten\u00e7\u00e3o ao g\u00eanero e \u00e0 estrutura de cada texto, para determinar sua inten\u00e7\u00e3o. Se um texto \u00e9, por exemplo, uma prosa, seus elementos narrativos devem ser tomados literalmente (\u00e9 o caso, por exemplo, do evangelho de Lucas); se \u00e9 uma par\u00e1bola, sua narrativa pode ser puramente fict\u00edcia (como as par\u00e1bolas de Jesus). Literalismo \u00e9 a pr\u00e1tica de tratar toda a Escritura de um modo uniforme, mesmo quando o g\u00eanero nos sugere outra leitura.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">Interpreta\u00e7\u00e3o &#8220;literal&#8221; n\u00e3o \u00e9 o mesmo que interpreta\u00e7\u00e3o &#8220;literalista&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>No caso de G\u00eanesis 1 temos uma mistura inusitada, descrita por muitos como &#8220;prosa exaltada&#8221;. N\u00e3o \u00e9 nem poesia nem prosa pura, mas uma combina\u00e7\u00e3o das duas. G\u00eanesis 2 tamb\u00e9m apresenta esse tra\u00e7o, mas de um modo completamente diferente. Por isso, muitos exegetas evang\u00e9licos concordam, hoje, que o pr\u00f3prio texto n\u00e3o foi escrito para ser lido literalmente, em todos os seus detalhes (o espa\u00e7o n\u00e3o nos permite exp\u00f4r isso agora, mas eu recomendo o livro &#8220;Como Ler G\u00eanesis&#8221;, de Tremper Longman, Editora Vida Nova). Se isso estiver correto (e creio que est\u00e1), a leitura literal de G\u00eanesis 1 \u00e9 a de um relato poetizado, ou uma \u201cprosa metaf\u00f3rica\u201d, e a leitura literalista seria t\u00e3o n\u00e3o literal quanto uma leitura aleg\u00f3rica.<\/p>\n<p>A outra quest\u00e3o em jogo \u00e9 a leitura das Escrituras com a finalidade de construir teorias cient\u00edficas a partir delas. Isso \u00e9 o que chamamos, \u00e0s vezes, de &#8220;presun\u00e7\u00e3o enciclop\u00e9dica&#8221;. H\u00e1 muitas evid\u00eancias de que a B\u00edblia n\u00e3o apresenta um ponto de vista cient\u00edfico. Um exemplo comum \u00e9 o emprego do ponto de vista pr\u00e9-cient\u00edfico, como quando o livro de Josu\u00e9 nos diz que o sol parou no c\u00e9u em Gibeom (Js 10.12-13). Crist\u00e3os geocentristas atacaram Galileu Galilei alegando que isso seria evid\u00eancia de que o sol gira em torno da terra, e n\u00e3o o contr\u00e1rio; mas hoje todo crist\u00e3o heliocentrista entende perfeitamente que n\u00e3o se tratava de uma afirma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica abstrata. A verdade no relato n\u00e3o estava na explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do fen\u00f4meno, mas, sim, unicamente na factualidade do fen\u00f4meno (que o sol parou do ponto de vista do observador, o dia foi mais longo, e Josu\u00e9 venceu a batalha).<\/p>\n<p>O mesmo se d\u00e1 quando Mois\u00e9s nos diz em Gn 7.11 que &#8220;as comportas do c\u00e9u se abriram&#8221; para o dil\u00favio. Literalmente, significa que havia janelas no c\u00e9u que se abriram para que as \u00e1guas exteriores descessem \u00e0 terra. Ora, os antigos acreditavam que o c\u00e9u era uma ab\u00f3bada s\u00f3lida, assim como acreditavam que o sol se movia no c\u00e9u, simplesmente porque parecia assim de seu ponto de vista. O curioso \u00e9 que Deus, sabendo que alguns crist\u00e3os fervorosos leriam esses textos literalisticamente no futuro, nem por isso &#8220;corrigiu&#8221; a ci\u00eancia antiga, que nesses casos era apenas um desdobramento do senso comum.<\/p>\n<p>Mas por que Deus n\u00e3o corrigiu a ci\u00eancia antiga ao inspirar as Escrituras? Simplesmente porque isso n\u00e3o interferiria na inten\u00e7\u00e3o do texto. E a inten\u00e7\u00e3o do texto n\u00e3o era falar sobre cosmologia antiga ou senso comum, mas anunciar que houve uma chuva e um dil\u00favio; que o fen\u00f4meno aconteceu e era um ju\u00edzo divino. Como ele aconteceu n\u00e3o faz parte de fato da inten\u00e7\u00e3o humano-divina do texto, e a narra\u00e7\u00e3o pr\u00e9-cient\u00edfica usada para comunicar a mensagem n\u00e3o corrompe ou diminui a veracidade e factualidade do texto. Por isso mesmo, a interpreta\u00e7\u00e3o literalista n\u00e3o \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o fiel do texto. Pelo contr\u00e1rio, ela preenche o texto com um n\u00edvel de significado cient\u00edfico abstrato que nunca esteve na mente dos autores, assim como os cat\u00f3licos medievais introduziam n\u00edveis de sentido moral e teol\u00f3gico para justificar suas doutrinas preferidas. Ela desrespeita a inten\u00e7\u00e3o do texto sagrado. O texto b\u00edblico fala sobre Deus, sobre seus atos criadores e salvadores no tempo e no espa\u00e7o, e sobre a condi\u00e7\u00e3o humana diante disso, e apresenta toda a precis\u00e3o necess\u00e1ria para comunicar essa mensagem de modo infal\u00edvel.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">A interpreta\u00e7\u00e3o literalista n\u00e3o \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o fiel do texto. Pelo contr\u00e1rio, ela preenche o texto com um n\u00edvel de significado cient\u00edfico abstrato que nunca esteve na mente dos autores, assim como os cat\u00f3licos medievais introduziam n\u00edveis de sentido moral e teol\u00f3gico para justificar suas doutrinas preferidas<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&#8220;Mas isso n\u00e3o seria desmitologiza\u00e7\u00e3o?&#8221; De jeito nenhum. A no\u00e7\u00e3o de desmitologiza\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o envolve a nega\u00e7\u00e3o do sobrenatural, milagres e provid\u00eancia especial. Isso n\u00e3o se aplica ao nosso caso por duas raz\u00f5es: (1) n\u00e3o negamos que o dil\u00favio aconteceu, e que foi uma interven\u00e7\u00e3o divina; (2) mito \u00e9 uma coisa, ci\u00eancia antiga \u00e9 outra. Vamos tratar mais disso em outro post.<\/p>\n<p>Essa percep\u00e7\u00e3o hermen\u00eautica n\u00e3o \u00e9 nova, tem origens em Agostinho; e mesmo Jo\u00e3o Calvino sabia reconhecer o fato de que Deus se &#8220;acomodou&#8221; \u00e0s limita\u00e7\u00f5es humanas ao inspirar as Escrituras. Acomodou-se, n\u00e3o no sentido de permitir erros factuais, falsidades teol\u00f3gicas ou mitologias, mas no sentido de n\u00e3o eliminar a finitude do autor inspirado (e finitude \u00e9 criaturidade) ao mostrar por ela sua infinitude; de falar de um modo acess\u00edvel ao p\u00fablico original, que recebeu a mensagem. Colocando de um outro modo: a inspira\u00e7\u00e3o b\u00edblica \u00e9 <em>econ\u00f4mica<\/em>, no sentido de que n\u00e3o implica uma corre\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de absolutamente tudo o que o homem antigo pensava, mas de tudo o que era necess\u00e1rio corrigir para que seu discurso fosse a pr\u00f3pria palavra de Deus, verdadeiro e infal\u00edvel em sua inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com isso, n\u00e3o quero dizer que fatos b\u00edblicos n\u00e3o tenham em alguns momentos uma sobreposi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia moderna. Como muitos evang\u00e9licos, reconhe\u00e7o que o ensino b\u00edblico sobre a natureza do homem, do pecado, e da obra redentiva exigem um &#8220;Ad\u00e3o hist\u00f3rico&#8221;, e que o relato de G\u00eanesis 2 e 3 tem tra\u00e7os liter\u00e1rios que n\u00e3o permitem l\u00ea-lo como mera par\u00e1bola, por exemplo. Isso certamente significa que a doutrina b\u00edblica do homem tem implica\u00e7\u00f5es para uma teoria antropol\u00f3gica crist\u00e3. Ainda assim, ela n\u00e3o significa que a \u201cfonte\u201d prim\u00e1ria para uma teoria paleoantropol\u00f3gica seja a B\u00edblia. Ela n\u00e3o implica, por exemplo, que a cria\u00e7\u00e3o do homem foi necessariamente especial, nem nos diz se Deus fez o homem a partir de um ancestral, ou se havia pr\u00e9-adamitas (entre os quais Caim foi habitar e se casou). A B\u00edblia fala da \u00e1gua, mas a \u201cfonte\u201d prim\u00e1ria para estudar a \u00e1gua \u00e9 a pr\u00f3pria \u00e1gua, e n\u00e3o a B\u00edblia. Nunca encontraremos a composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica da \u00e1gua na B\u00edblia. Tamb\u00e9m n\u00e3o encontraremos uma teoria biol\u00f3gica ou paleoantropol\u00f3gica na B\u00edblia, embora devamos rejeitar toda teoria biol\u00f3gica ou paleantropol\u00f3gica sobre o homem que seja demonstravelmente incompat\u00edvel com a antropologia b\u00edblica.<\/p>\n<p>Entendo que a leitura &#8220;enciclop\u00e9dica&#8221; das Escrituras, buscando nelas a fundamenta\u00e7\u00e3o cognitiva para as ci\u00eancias (e negando assim a sua soberania relativa), \u00e9 um erro grav\u00edssimo, corretamente chamado de <em>biblicismo<\/em>. Eu diria aos meus irm\u00e3os &#8220;criacionistas-da-terra-jovem&#8221; que, na minha opini\u00e3o, eles est\u00e3o lendo a B\u00edblia de forma errada, e com isso est\u00e3o for\u00e7ando um conflito inexistente com a ci\u00eancia moderna.<\/p>\n<p>Enfim, a leitura literalista e enciclop\u00e9dica das Escrituras pratica uma esp\u00e9cie de &#8220;docetismo revelacional&#8221;: a B\u00edblia tem a &#8220;apar\u00eancia&#8221; de ser um livro humano, mas n\u00e3o \u00e9; na verdade, \u00e9 um livro puramente divino. O divino absorveu completamente o humano, de modo que n\u00e3o h\u00e1 mais acomoda\u00e7\u00e3o divina. Essa vis\u00e3o n\u00e3o compreende a natureza das Escrituras, nem o sentido da interpreta\u00e7\u00e3o literal dos reformadores protestantes, e cria uma hermen\u00eautica que \u00e9 ultimamente incompat\u00edvel com a cristologia ortodoxa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>(4) O \u201cTeste da F\u00e9 Brasil\u201d prop\u00f5e que a interpreta\u00e7\u00e3o b\u00edblica seja controlada pela ci\u00eancia moderna?<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma boa pergunta, e a resposta \u00e9 &#8220;n\u00e3o&#8221;. O questionamento da interpreta\u00e7\u00e3o literalista da B\u00edblia n\u00e3o tem o prop\u00f3sito de acomodar as Escrituras \u00e0 ci\u00eancia moderna. Na verdade, a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o-literalista \u00e9 muito antiga. O te\u00f3logo Agostinho de Hipona, reconhecido por cat\u00f3licos e protestantes como um dos principais doutores da Igreja, defendeu uma interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o literalista de G\u00eanesis em seu \u201cComent\u00e1rio Literal ao Livro de G\u00eanesis\u201d, escrito no final do s\u00e9culo IV (AD). H\u00e1 uma longa tradi\u00e7\u00e3o de te\u00f3logos e cientistas que se recusaram a usar as Escrituras como os defensores do literalismo b\u00edblico agora a usam.<\/p>\n<p>Mesmo assim, isso n\u00e3o significa que a ci\u00eancia n\u00e3o possa ter um papel na interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia. Mesmo os criacionistas cient\u00edficos admitem que a evid\u00eancia arqueol\u00f3gica pode nos ajudar a ler a B\u00edblia e at\u00e9 mesmo alterar detalhes de interpreta\u00e7\u00e3o, como a descoberta dos rolos do Mar Morto, que lan\u00e7aram nova luz sobre o juda\u00edsmo antigo. Assim tamb\u00e9m um desdobramento da ci\u00eancia moderna pode mostrar, por exemplo, que a nossa interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia est\u00e1 errada. No caso de G\u00eanesis 1, concordo com os que acreditam que tanto os desdobramentos recentes na interpreta\u00e7\u00e3o de G\u00eanesis, quanto a evid\u00eancia cient\u00edfica, s\u00e3o testemunhas <em>independentes<\/em> e <em>complementares<\/em> a favor de uma hermen\u00eautica n\u00e3o-literalista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>(5) A teoria da evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 incompat\u00edvel com a cosmovis\u00e3o crist\u00e3?<\/strong><\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o de que a teoria da evolu\u00e7\u00e3o corrompe a cosmovis\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 falsa, no meu julgamento. Ela confunde sob um \u00fanico termo (&#8220;evolu\u00e7\u00e3o&#8221;) tr\u00eas (ou at\u00e9 mais) usos distintos:<\/p>\n<p>(i) <em>&#8220;Evolu\u00e7\u00e3o&#8221; como representa\u00e7\u00e3o diacr\u00f4nica e progressiva da vida na terra,<\/em> envolvendo aumento de complexidade e de diversidade biol\u00f3gica ao longo do tempo. Vamos chama-la aqui de Hist\u00f3ria Natural Evolucion\u00e1ria (HNE), que simplesmente reconhece essa dimens\u00e3o temporal e uma ou outra forma de gradualismo. Michael Behe, por exemplo, um dos &#8220;pais&#8221; do Design Inteligente (DI), aceita a teoria nesse ponto e em outros, como a hip\u00f3tese do ancestral comum. Isso foi negado recentemente pelos l\u00edderes brasileiros do DI, mas Behe \u00e9 muito claro:<\/p>\n<p><em>\u201cMuitas pessoas pensam que questionar a evolu\u00e7\u00e3o darwiniana significa defender o criacionismo. Da forma habitualmente entendida, o criacionismo implica a cren\u00e7a em que a Terra foi formada h\u00e1 apenas dez mil anos, uma interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia ainda muito popular. Desejo deixar claro que n\u00e3o tenho motivos para duvidar que o universo tem os bilh\u00f5es de anos de idade que os f\u00edsicos alegam. Acho a ideia de ascend\u00eancia comum (que todos os organismos tiveram um mesmo ancestral) muito convincente e n\u00e3o tenho nenhuma raz\u00e3o particular para p\u00f4-la em d\u00favida. Respeito muito o trabalho de meus colegas que estudam o desenvolvimento e o comportamento de organismos dentro do arcabou\u00e7o evolucion\u00e1rio, e acho que bi\u00f3logos que assim pensam deram enormes contribui\u00e7\u00f5es ao nosso conhecimento do mundo.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Michael Behe, A Caixa Preta de Darwin. Zahar, 1997, p. 15.<\/em><\/p>\n<p>(ii) <em>&#8220;Evolu\u00e7\u00e3o Darwiniana&#8221; como mecanismo darwiniano cl\u00e1ssico, neodarwiniano ou p\u00f3s-darwiniano<\/em>. Aqui encontramos o que se pode chamar de Teoria Darwiniana da Evolu\u00e7\u00e3o (TDE), e seu interesse \u00e9 explicar porque a hist\u00f3ria natural sugere uma vis\u00e3o gradual ou semi-gradual do fen\u00f4meno da vida terrestre. O mecanismo neodarwiniano envolve processos conhecidos como muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, transforma\u00e7\u00f5es epigen\u00e9ticas, sele\u00e7\u00e3o natural, deriva gen\u00e9tica, especia\u00e7\u00e3o, converg\u00eancia, etc.<\/p>\n<p>(iii) <em>&#8220;Evolucionismo&#8221;, isto \u00e9, evolu\u00e7\u00e3o transformada em metaf\u00edsica geral para explicar tudo, e at\u00e9 a moralidade e a racionalidade, como no naturalismo filos\u00f3fico<\/em>. Segundo essa perspectiva, tudo o que o homem \u00e9 pode ser explicado de forma suficiente por meio das ci\u00eancias biol\u00f3gicas, e as outras ci\u00eancias do homem s\u00e3o ultimamente redut\u00edveis \u00e0 biologia, e esta \u00e0 f\u00edsica. Essa posi\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00e0s vezes chamada de Grande Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o (GTE), e caracteriza a posi\u00e7\u00e3o, por exemplo, dos neo-ate\u00edstas. N\u00e3o era essa, no entanto, a posi\u00e7\u00e3o de Darwin e de muitos cientistas no s\u00e9culo XX.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Respeito muito o trabalho de meus colegas que estudam o desenvolvimento e o comportamento de organismos dentro do arcabou\u00e7o evolucion\u00e1rio, e acho que bi\u00f3logos que assim pensam deram enormes contribui\u00e7\u00f5es ao nosso conhecimento do mundo.<br \/>\n(Michael Behe, l\u00edder do movimento do Design Inteligente)<br \/>\n<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>H\u00e1 muitos bi\u00f3logos evolucion\u00e1rios evang\u00e9licos como Simon Conway Morris (Cambridge University) que aceitam (i), problematizam (ii) movendo-se para posi\u00e7\u00f5es p\u00f3s-darwinianas (n\u00e3o &#8220;anti&#8221; darwinianas), e rejeitam (iii), mantendo a f\u00e9 evang\u00e9lica cl\u00e1ssica sem problemas. A GTE ou &#8220;evolucion-ISMO&#8221; \u00e9 certamente incompat\u00edvel com a f\u00e9 crist\u00e3. Como qualquer outro &#8220;ismo&#8221;. Sua falha central \u00e9 a absolutiza\u00e7\u00e3o de um n\u00edvel explanat\u00f3rio particular (a partir da abstra\u00e7\u00e3o de um recorte espec\u00edfico da realidade temporal, que \u00e9 a dimens\u00e3o bi\u00f3tica) e a redu\u00e7\u00e3o dos outros n\u00edveis a esse n\u00edvel. Esse procedimento se baseia no chamado \u201cdogma da autonomia religiosa da raz\u00e3o\u201d, e \u00e9 um erro intelectual e espiritual.<\/p>\n<p>Mas a HNE n\u00e3o exige o evolucionismo para funcionar, no entanto. Nem mesmo a TDE implica a metaf\u00edsica evolucionista. Pelo contr\u00e1rio, h\u00e1 evid\u00eancias de que mesmo a TDE, que tem seus problemas, n\u00e3o pode se manter de p\u00e9 a n\u00e3o ser dentro de uma cosmovis\u00e3o te\u00edsta, como o fil\u00f3sofo evang\u00e9lico Alvin Plantinga demonstrou recentemente. Desse modo, mantida estritamente como teoria da hist\u00f3ria biol\u00f3gica da terra, a teoria da evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nenhuma for\u00e7a contra a f\u00e9 evang\u00e9lica. Se aceita, ela pode e deve ser lida dentro da narrativa <em>Cria\u00e7\u00e3o-Queda-Reden\u00e7\u00e3o<\/em> que funda a cosmovis\u00e3o crist\u00e3.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">Mantida estritamente como teoria da hist\u00f3ria biol\u00f3gica da terra, a teoria da evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nenhuma for\u00e7a contra a f\u00e9 evang\u00e9lica<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Quanto \u00e0 TDE, eu concordo com o movimento do Design Inteligente em que a s\u00edntese neodarwiniana \u00e9 insuficiente para dar conta da diversidade e complexidade da vida biol\u00f3gica na terra, e por isso me considero p\u00f3s-darwiniano. Mas uma posi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-darwiniana n\u00e3o implica de forma alguma a mera nega\u00e7\u00e3o de Darwin. Do fato de que o DI apontou o problema, n\u00e3o significa que tenha a solu\u00e7\u00e3o. O que se espera \u00e9 uma nova s\u00edntese que seja capaz de lidar com as fragilidades da s\u00edntese neo-darwinana (apontadas pelo DI e por outros cr\u00edticos) de modo a cont\u00ea-la e super\u00e1-la, mais ou menos como a f\u00edsica relativ\u00edstica de Einstein superou a f\u00edsica newtoniana tornando-a um caso particular de uma teoria maior. Um dos tra\u00e7os de uma teoria p\u00f3s-darwiniana ser\u00e1 certamente algo que o DI deseja incluir: a presen\u00e7a de design (mesmo que n\u00e3o seja o microdesign proposto pelos defensores do DI) e a irredutibilidade entre n\u00edveis diferentes de realidade (como entre a \u201cvida\u201d e a \u201cmat\u00e9ria\u201d).<\/p>\n<p>Por isso mesmo, a express\u00e3o empregada por muitos crist\u00e3os que aceitam a teoria da evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 &#8220;criacionismo evolucion\u00e1rio&#8221;, ao inv\u00e9s de &#8220;evolucionismo te\u00edsta&#8221;. Destaco ainda que, grosso modo, os criacionistas progressivos e os criacionistas evolucion\u00e1rios concordam em aceitar o ponto (i), concordam em rejeitar o ponto (iii) e discordam no ponto (ii). Al\u00e9m disso, a classifica\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil. Como eu, por exemplo, acredito que uma singularidade (ou um &#8220;milagre&#8221;) seria necess\u00e1rio para produzir a primeira forma de vida, sou frequentemente considerado um &#8220;criacionista progressivo&#8221;. Mas eu mesmo me descrevo como criacionista evolucion\u00e1rio, j\u00e1 que n\u00e3o considero a TDE satisfat\u00f3ria mas nem por isso a considero uma fraude, e aceito a HNE.<\/p>\n<p>Mas o ponto chave, aqui, \u00e9 que, corretamente compreendida, <em>a teoria da evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 meramente uma teoria biol\u00f3gica, e n\u00e3o uma cosmovis\u00e3o<\/em>. Ela n\u00e3o responde \u00e0s grandes quest\u00f5es sobre quem \u00e9 Deus, de onde veio o mundo, porque ele \u00e9 intelig\u00edvel, porque h\u00e1 beleza na cria\u00e7\u00e3o, sobre a natureza do mal, sobre o que \u00e9 o homem, sobre o seu destino, sobre a exist\u00eancia da liberdade, ou mesmo sobre o que \u00e9 a \u201cvida\u201d. Como ela pode ser uma \u201ccosmovis\u00e3o\u201d, a n\u00e3o ser se for for\u00e7ada a trabalhar como escrava para um falso senhor chamado \u201cnaturalismo filos\u00f3fico\u201d? O evolucionismo \u00e9 uma fraude; a teoria da evolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma palavra final quanto a esse ponto. H\u00e1 outras quest\u00f5es espec\u00edficas que precisam de respostas mais detalhadas: por exemplo, a quest\u00e3o do problema do mal dentro de uma vis\u00e3o evolucion\u00e1ria ou n\u00e3o evolucion\u00e1ria da biologia. Vamos tratar dessas quest\u00f5es em artigos posteriores no blog do &#8220;Teste da F\u00e9 Brasil&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>(6) H\u00e1 precedentes para evang\u00e9licos aceitarem a teoria da evolu\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Muitos cientistas, intelectuais, te\u00f3logos e pastores evang\u00e9licos aceitaram a possibilidade da teoria da evolu\u00e7\u00e3o, com graus variados de convic\u00e7\u00e3o; homens como Asa Gray, um presb\u00edtero e professor de Harvard, colega de Darwin; ou Benjamin Warfield, te\u00f3logo presbiteriano de Princeton (com restri\u00e7\u00f5es); mesmo o holand\u00eas Abraham Kuyper ventilou essa possibilidade. Podemos citar ainda alguns autores evang\u00e9licos populares: C. S. Lewis, John Stott, Alister McGrath, William Lane Craig, N. T. Wright, Alvin Plantinga e o pastor Tim Keller, da Redeemer em NY; e exegetas recentes como Bruce Waltke, editor da B\u00edblia de Genebra e ex professor do RTS (cujo coment\u00e1rio de G\u00eanesis \u00e9 publicado pela Cultura Crist\u00e3), Tremper Longman (autor do &#8220;Como Ler G\u00eanesis&#8221;, j\u00e1 citado) e John Walton, do Wheaton College, uma das mais importantes institui\u00e7\u00f5es educacionais evang\u00e9licas dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>&#8220;Os nomes n\u00e3o provam nada&#8221;, j\u00e1 me disseram. Mormente porque alguns deles t\u00eam pontos doutrin\u00e1rios question\u00e1veis. \u00c9 verdade que nada provam sobre o m\u00e9rito da quest\u00e3o. Mas indicam, sim, que o criacionismo-da-terra-jovem n\u00e3o \u00e9 uma ortodoxia. N\u00e3o tem o status elevado de uma &#8220;doutrina agostiniana da queda&#8221; ou de uma &#8220;cristologia calced\u00f4nica&#8221;. \u00c9 apenas uma opini\u00e3o dominante.<\/p>\n<p>Esse ponto \u00e9 muito importante, j\u00e1 que muitos l\u00edderes crist\u00e3os e pastores insistem em tratar esse ponto como um aspecto essencial da f\u00e9 crist\u00e3 hist\u00f3rica, como se o seu questionamento abalasse a f\u00e9 evang\u00e9lica. Mas nada poderia estar t\u00e3o longe da verdade. Pelo contr\u00e1rio, desde o s\u00e9culo XIX a tend\u00eancia geral dos te\u00f3logos e intelectuais evang\u00e9licos era de aceitar a evid\u00eancia geol\u00f3gica e f\u00edsica de uma terra muito antiga, ou o \u201ctempo profundo\u201d (&#8220;deep time&#8221;), e a viabilidade da evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, sen\u00e3o aceita por todos e seu discuss\u00e3o, emergia como possibilidade vi\u00e1vel para crist\u00e3os.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">O &#8216;criacionismo-da-terra-jovem&#8217; n\u00e3o \u00e9 uma ortodoxia. N\u00e3o tem o status elevado de uma &#8216;doutrina agostiniana da queda&#8217; ou de uma &#8216;cristologia calced\u00f4nica&#8217;. \u00c9 apenas uma opini\u00e3o dominante<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Foi em 1923 que o ge\u00f3logo amador George McCready Price, membro da Igreja Adventista do S\u00e9timo dia, escreveu um livro para defender a posi\u00e7\u00e3o adventista sobre geologia, e essa obra acabou influenciando Henry Morris e John Withcomb, fundadores do Criacionismo Cient\u00edfico ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial. Poucos crist\u00e3os evang\u00e9licos sabem que as bases para o moderno Criacionismo Cient\u00edfico foram constru\u00eddas por Adventistas, cuja leitura do Antigo Testamento era notavelmente literalista n\u00e3o apenas quanto ao G\u00eanesis, mas quanto \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o de ordenan\u00e7as da Lei na Nova Alian\u00e7a. A hist\u00f3ria toda foi contada em detalhes no livro de um ex-adventista que est\u00e1 hoje entre os maiores historiadores do mundo no campo da ci\u00eancia e religi\u00e3o: Ronald Numbers (<em>The Creationists: from Scientific Creationism to Intelligent Design<\/em>, Harvard University Press). A vincula\u00e7\u00e3o do Criacionismo Cient\u00edfico com uma igreja heterodoxa, \u00e0s margens da identidade evang\u00e9lica, n\u00e3o \u00e9 prova isolada contra essa posi\u00e7\u00e3o, mas no m\u00ednimo deveria nos levar \u00e0 reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que temos mestres o suficiente na igreja crist\u00e3 em geral e na igreja evang\u00e9lica nos dizendo o contr\u00e1rio para suspeitarmos de qualquer um que afirme ser o &#8220;criacionismo-da-terra-jovem&#8221; um distintivo evang\u00e9lico essencial. Repetindo: o &#8220;criacionismo-da-terra-jovem&#8221; n\u00e3o \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ou evang\u00e9lica ortodoxa, mas apenas uma posi\u00e7\u00e3o entre outras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>(7) At\u00e9 que ponto o crist\u00e3o deve aceitar a autoridade da comunidade cient\u00edfica?<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida nenhuma, a regra final de f\u00e9 e pr\u00e1tica do crist\u00e3o \u00e9 a B\u00edblia. A ci\u00eancia moderna \u00e9 um empreendimento fal\u00edvel, em processo de aperfei\u00e7oamento constante, cheio de becos sem sa\u00edda e condicionada por pressuposi\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas de todo tipo.<\/p>\n<p>Mas essa n\u00e3o \u00e9 toda a hist\u00f3ria. Penso que os crist\u00e3os evang\u00e9licos deveriam mostrar mais respeito pela comunidade cient\u00edfica moderna. Afinal de contas, ela nasceu sob a influ\u00eancia da Reforma Protestante, a partir de um fundamento b\u00edblico. Foram os protestantes &#8211; os calvinistas, principalmente &#8211; os atores que libertaram a ci\u00eancia, tanto do dom\u00ednio da metaf\u00edsica aristot\u00e9lica, abrindo-a para a empiria, quanto das amarras do biblicismo (\u00e0 \u00e9poca chamado de &#8220;ci\u00eancia mosaica&#8221;), reconhecendo (antes de Kuyper explicar o que ocorria) sua &#8220;esfera de soberania&#8221;. \u00c9 verdade que a &#8220;moderna ci\u00eancia moderna&#8221;, como escreveu Schaeffer, sob o influxo do naturalismo filos\u00f3fico, produziu anomalias; mas temos boas raz\u00f5es para consider\u00e1-las exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Me parece extremamente contradit\u00f3rio invocar a Reforma e a B\u00edblia para explicar a ci\u00eancia moderna, e em seguida negar sua autoridade em seu pr\u00f3prio campo.<\/p>\n<p>Acontece que o reconhecimento da soberania de Cristo sobre o todo da vida nos leva naturalmente a compreender que ele governa cada campo da vida diretamente, e de um modo singular, por meio dos instrumentos que ele mesmo estabeleceu. Ele \u00e9 o Senhor na Cria\u00e7\u00e3o e na Reden\u00e7\u00e3o, e todas as coisas encontram coer\u00eancia Nele. E da\u00ed veio o reconhecimento da autoridade da ci\u00eancia pelos protestantes, que viabilizou a revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Isso nos leva de volta \u00e0 quest\u00e3o da hermen\u00eautica enciclop\u00e9dica, e porque ela nos parece problem\u00e1tica: a B\u00edblia \u00e9 a autoridade m\u00e1xima em nossa vida e pensamento, mas n\u00e3o \u00e9 a autoridade m\u00e1xima em matem\u00e1tica, pois as propriedades associativas dos n\u00fameros s\u00e3o realidades objetivas, independentes da nossa interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia. E na medida em que apreendemos as leis matem\u00e1ticas, as empregamos na leitura da pr\u00f3pria B\u00edblia. A B\u00edblia tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 a autoridade m\u00e1xima em gram\u00e1tica da l\u00edngua portuguesa. Pelo contr\u00e1rio, precisamos aprender gram\u00e1tica com outras pessoas e outros livros, e ent\u00e3o conseguimos ler a B\u00edblia. As leis da l\u00f3gica tamb\u00e9m n\u00e3o se baseiam na B\u00edblia; nem nossos cinco sentidos. Precisamos aceitar a \u201cautoridade\u201d dos olhos para ler a B\u00edblia, e n\u00e3o faz sentido depender da vis\u00e3o para ler, dos ouvidos para ouvir, e depois negar que os cinco sentidos sejam formas de conhecimento independentes, sustentadas pelo pr\u00f3prio Deus por meio de Jesus Cristo.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">As Escrituras n\u00e3o substituem as outras fontes de conhecimento e as outras autoridades cognitivas, mas nos habilitam a reconhec\u00ea-las e, eventualmente, a corrigi-las<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nada disso significa que a B\u00edblia tenha menos autoridade. \u00c9 que Deus se revela no livro da Cria\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m no livro da Gra\u00e7a, mas o mesmo Deus se revela nos dois livros. As leis da l\u00f3gica s\u00e3o leis de Deus, n\u00e3o dos l\u00f3gicos. E n\u00e3o dependem da B\u00edblia para funcionar. Mas a B\u00edblia abre os nossos olhos para reconhecer toda a revela\u00e7\u00e3o de Deus, e para nos submetermos a todas as autoridades que Deus estabeleceu. Em outras palavras: as Escrituras n\u00e3o substituem as outras fontes de conhecimento e as outras autoridades cognitivas, mas nos habilitam a reconhec\u00ea-las e, eventualmente, a corrigi-las.<\/p>\n<p>\u201cMas isso torna a Palavra de Deus sujeita \u00e0 Cria\u00e7\u00e3o!\u201d, De modo algum. A Cria\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 o texto da Palavra de Deus. N\u00e3o foi a Palavra de Deus quem a estabeleceu e a sustenta? N\u00e3o \u00e9 o mesmo logos da B\u00edblia o logos do mundo? Considero perverso procurar meios de colocar a palavra redentiva das Escrituras em contradi\u00e7\u00e3o com a palavra criativa do espa\u00e7o-tempo. Al\u00e9m disso, a nossa teologia \u00e9 a &#8220;manjedoura&#8221; da palavra redentiva, assim como a ci\u00eancia \u00e9 a &#8220;manjedoura&#8221; da palavra criativa. Sejamos humildes quanto \u00e0s nossas &#8220;manjedouras&#8221;.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">A nossa teologia \u00e9 a &#8216;manjedoura&#8217; da palavra redentiva, assim como a ci\u00eancia \u00e9 a &#8216;manjedoura&#8217; da palavra criativa. Sejamos humildes quanto \u00e0s nossas &#8216;manjedouras&#8217;<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Sem d\u00favida todas as nossas experi\u00eancias cognitivas devem estar submetidas \u00e0 Palavra de Deus; mas o jugo de Cristo \u00e9 suave. Sua gra\u00e7a geral n\u00e3o deixou que a experi\u00eancia humana se tornasse completamente obscura e enganosa. Isso significa que n\u00e3o precisamos ter uma posi\u00e7\u00e3o \u201ccartesiana\u201d, duvidando de tudo o que conhe\u00e7o at\u00e9 que encontre um vers\u00edculo da B\u00edblia para provar aquilo. Essa cren\u00e7a e pr\u00e1tica de recusar a legitimidade das outras fontes e autoridades cognitivas, \u00e9 o que chamamos de biblicismo, que considero uma forma de idolatria cognitiva. Pelo contr\u00e1rio, como as Escrituras j\u00e1 tratam a Cria\u00e7\u00e3o como obra de Deus, posso estudar a Cria\u00e7\u00e3o com a expectativa de que minhas descobertas l\u00e1 ser\u00e3o coerentes, em \u00faltima inst\u00e2ncia, com tudo o que a B\u00edblia diz, mesmo que devido \u00e0 minha ignor\u00e2ncia ou pecado, eu seja incompetente para demonstrar essa coer\u00eancia.<\/p>\n<p>Enfim, meu sentimento geral \u00e9 de que a Ci\u00eancia pertence, em certo sentido, ao solo crist\u00e3o, e merece ser ouvida com simpatia e humildade. Isso dito, precisamos reconhecer que a ci\u00eancia tem becos sem sa\u00edda, ideol\u00f3gicas estranhas e conflitos de paradigmas.<\/p>\n<p>Recentemente, por exemplo, descobertas arqueol\u00f3gicas na Ge\u00f3rgia (leste europeu) sugeriram que a narrativa paleoantropol\u00f3gica dominante hoje, que distingue, dentro do G\u00eanero \u201cHomo\u201d, v\u00e1rias esp\u00e9cies como \u201chomo habilis\u201d, \u201chomo erectus\u201d e \u201chomo ergaster\u201d, estaria errada \u2013 seriam todos varia\u00e7\u00f5es de uma \u00fanica esp\u00e9cie, o \u201chomo erectus\u201d, e este, por sua vez, teria dimens\u00f5es mais pr\u00f3ximas do homem moderno do que se pensava. Isso acontece com a ci\u00eancia; novas descobertas, novas teorias. O mesmo acontece com autoridades pol\u00edticas: quantas vezes elas j\u00e1 erraram, at\u00e9 mesmo se levantando contra Deus e realizando coisas terr\u00edveis? Isso acontece at\u00e9 com a teologia, embora de um modo diferente. A mudan\u00e7a da teologia cat\u00f3lica medieval para a teologia da Reforma \u00e9 um exemplo.<\/p>\n<p>O que fazer ent\u00e3o? Eu gosto de uma met\u00e1fora frequentemente repetida para dizer isso: assim como um trem s\u00f3 anda sobre dois trilhos, que n\u00e3o podem nem se afastar, nem se unir (do contr\u00e1rio o trem descarrila), devemos manter teologia e ci\u00eancia paralelas, sem se fundirem nem se ignorarem. Elas devem ficar numa conversa\u00e7\u00e3o constante, e isso pode ajudar tanto aos cientistas quanto aos te\u00f3logos. Em suma: a ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 nem absoluta nem irrelevante. Ela tem uma autoridade relativa que deve ser reconhecida, e a pr\u00f3pria B\u00edblia nos d\u00e1 base para aceit\u00e1-la.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">A ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 nem absoluta nem irrelevante. Ela tem uma autoridade relativa que deve ser reconhecida, e a pr\u00f3pria B\u00edblia nos d\u00e1 base para aceit\u00e1-la<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>(8) A Editora Ultimato foi \u201cunilateral\u201d, apresentando apenas uma vis\u00e3o das coisas no projeto \u201cTeste da F\u00e9 Brasil\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>A Editora Ultimato n\u00e3o foi &#8220;desonesta&#8221; ou &#8220;unilateral&#8221;, como alguns irm\u00e3os maldosamente declararam, ao publicar &#8220;apenas um lado&#8221; \u2013 no caso, a obra \u201cO Teste da F\u00e9\u201d. Pelo contr\u00e1rio; se n\u00e3o me engano, a querida editora Ultimato \u00e9 a \u00daNICA editora evang\u00e9lica brasileira que apresenta OS DOIS LADOS da quest\u00e3o! Ela publica um importante livro do Dr. Philip Johnson (&#8220;Ci\u00eancia, Intoler\u00e2ncia e F\u00e9&#8221;), advogado do &#8220;Design Inteligente&#8221;, e &#8220;O Teste da F\u00e9&#8221;, que favorece o Criacionismo Evolucion\u00e1rio. E nos eventos de lan\u00e7amento do projeto, ambos foram vendidos lado a lado, por decis\u00e3o minha. Eu desafio os irm\u00e3os &#8220;criacionistas-da-terra-jovem&#8221; que levantaram essa cr\u00edtica a fazerem o mesmo com suas editoras, e a terem a honestidade de vender esses livros da Editora Ultimato lado a lado em seus eventos daqui em diante.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, o principal advogado da posi\u00e7\u00e3o DI no Brasil havia sido convidado para um dos eventos de lan\u00e7amento do Teste da F\u00e9, e n\u00e3o apenas rejeitou vir no \u00faltimo momento, como declarou nas redes sociais n\u00e3o ter nenhum respeito pela posi\u00e7\u00e3o representada pelo Teste da F\u00e9. O fundador do movimento do DI no Brasil assumiu comportamento semelhante, com acusa\u00e7\u00f5es infundadas de &#8220;liberalismo teol\u00f3gico&#8221; e \u201cheresia\u201d. Tendo em vista o comportamento belicoso e intolerante dos representantes do Design Inteligente no Brasil, s\u00f3 podemos dar por encerrada a conversa\u00e7\u00e3o antes mesmo de iniciada; mas n\u00e3o sem antes recomendar aos &#8220;criacionistas-da-terra-jovem&#8221; que mant\u00eam a sobriedade uma atitude melhor &#8211; ao menos pr\u00f3xima \u00e0 de nossos oponentes ate\u00edstas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>(9) Mas a teoria da evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o leva \u00e0 incredulidade e \u00e0 apostasia?<\/strong><\/p>\n<p>Como j\u00e1 argumentamos antes, eu n\u00e3o creio que a evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, em si, seja raz\u00e3o para incredulidade ou apostasia. Acredito que o problema est\u00e1 com seu aprisionamento pelo Naturalismo Filos\u00f3fico, que \u00e9 o nosso verdadeiro inimigo. Concordamos com o criacionismo cient\u00edfico no combate ao Naturalismo, mas discordamos quanto a jogar o beb\u00ea fora com a \u00e1gua suja do banho.<\/p>\n<p>Na verdade, a julgar por meus contatos pessoais pelo Brasil, temo que o &#8220;criacionismo-da-terra-jovem&#8221; seja n\u00e3o o salvador, mas o respons\u00e1vel pela aliena\u00e7\u00e3o de muitos cientistas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3, e de muitos jovens crist\u00e3os aspirantes \u00e0 ci\u00eancia. Certamente muitos falham em manter a ousadia crist\u00e3 diante da oposi\u00e7\u00e3o secular; mas para v\u00e1rios o problema \u00e9 antes o sentimento de n\u00e3o poderem honestamente abandonar a ci\u00eancia moderna em favor de um criacionismo cient\u00edfico com credenciais question\u00e1veis. Muitos o fazem em campos como a engenharia ou a bioqu\u00edmica; mas sob a \u00f3tica biol\u00f3gica isso parece extremamente dif\u00edcil, chegando \u00e0s raias da irracionalidade. N\u00e3o penso que a explica\u00e7\u00e3o seja a falta de f\u00e9, apenas. O fato \u00e9 que a identifica\u00e7\u00e3o desnecess\u00e1ria de uma f\u00e9 genu\u00edna com o criacionismo cient\u00edfico torna a solu\u00e7\u00e3o do dilema algo imposs\u00edvel para muitos jovens universit\u00e1rios. E assim eles ganham mais uma raz\u00e3o para abandonar a igreja.<\/p>\n<p>O que acontece, na minha opini\u00e3o, \u00e9 que o criacionismo cient\u00edfico torna-se involuntariamente aliado dos naturalistas e neo-ate\u00edstas, quando concorda com eles sobre a absoluta incompatibilidade entre a biologia evolucion\u00e1ria e a f\u00e9 evang\u00e9lica. Essa tens\u00e3o desnecess\u00e1ria acaba dificultando ainda mais a vida do estudante crist\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">O criacionismo cient\u00edfico torna-se involuntariamente aliado dos naturalistas e neo-ate\u00edstas, quando concorda com eles sobre a absoluta incompatibilidade entre a biologia evolucion\u00e1ria e a f\u00e9 evang\u00e9lica<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>(10) O \u201cTeste da F\u00e9\u201d defende a revis\u00e3o da teologia evang\u00e9lica \u00e0 luz da evolu\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>De forma alguma. Cada trilho tem que permanecer no seu lugar!<\/p>\n<p>Quanto a isso, devo mencionar um fato interessante. Devido \u00e0 rea\u00e7\u00e3o negativa de alguns conservadores contra o Teste da F\u00e9, alguns irm\u00e3os que assumem posi\u00e7\u00f5es revisionistas quanto \u00e0 teologia evang\u00e9lica se solidarizaram comigo. Eu agrade\u00e7o as palavras e apoio, mas quero deixar claro que n\u00e3o pretendo me tornar um revisionista gratuitamente. Continuo sustentando uma vis\u00e3o conservadora sobre autoridade b\u00edblica e sobre os fundamentos doutrin\u00e1rios do Cristianismo. N\u00e3o vejo absolutamente nenhum futuro em coisas como &#8220;te\u00edsmo aberto&#8221;, &#8220;teologia relacional&#8221;, hermen\u00eauticas libert\u00e1rias da B\u00edblia, etc. Continuo considerando o anarquismo de esquerda, por exemplo, (como em Ellul) pobre, incompat\u00edvel com o Cristianismo cl\u00e1ssico (cat\u00f3lico e evang\u00e9lico) e insuficiente para uma teologia pol\u00edtica evang\u00e9lica. Digo isso porque aqueles que identificam o criacionismo evolucion\u00e1rio com liberalismo teol\u00f3gico s\u00e3o pessoas desinformadas ou desonestas, estejam elas no extremo fundamentalista ou no extremo liberal do espectro crist\u00e3o contempor\u00e2neo.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\">Aqueles que identificam o criacionismo evolucion\u00e1rio com liberalismo teol\u00f3gico s\u00e3o pessoas desinformadas ou desonestas, estejam elas no extremo fundamentalista ou no extremo liberal do espectro crist\u00e3o contempor\u00e2neo<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>N\u00e3o quero dizer com isso que o desenvolvimento da ci\u00eancia n\u00e3o possa, eventualmente, nos ajudar a interpretar melhor um texto b\u00edblico, ou a pensar melhor sobre uma dimens\u00e3o da vida humana tamb\u00e9m tratada nas Escrituras, como j\u00e1 mencionamos anteriormente. Considere, por exemplo, o grande aux\u00edlio da arqueologia recente da Corinto Romana nos estudos das Cartas de Paulo realizados por Bruce Winter (em \u201cWhen Paul Left Corinth\u201d), ou os fabulosos resultados da pesquisa de N. T. Wright em \u201cA Ressurrei\u00e7\u00e3o do Filho de Deus\u201d. Ocorre que n\u00e3o temos que mudar a teologia para nos tornar palat\u00e1veis ao mundo moderno. Se mudarmos a teologia, a mudaremos porque a verdade exige; e a verdade pode aparecer vestida com a ci\u00eancia moderna. Mas no caso particular da teoria da evolu\u00e7\u00e3o, aparentemente n\u00e3o h\u00e1 nenhuma necessidade de alterar radicalmente nenhum ponto fundamental da f\u00e9 crist\u00e3 cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>Fico por aqui, gente. Em posts futuros, tanto originais quanto traduzidos, a equipe do Teste da F\u00e9 Brasil continuar\u00e1 a responder a perguntas de teologia, filosofia e ci\u00eancia relacionadas com esse tema.<\/p>\n<p><em>E que o Senhor nos ilumine!<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Guilherme de Carvalho<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Guilherme de Carvalho O lan\u00e7amento recente do livro O Teste da F\u00e9\u00a0gerou discuss\u00f5es acaloradas, e perguntas foram feitas sobre a nossa identidade teol\u00f3gica. H\u00e1 muito o que dizer, e n\u00e3o h\u00e1 como resolver isso em um \u00fanico post. 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