{"id":89,"date":"2013-08-17T11:08:09","date_gmt":"2013-08-17T14:08:09","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/?page_id=89"},"modified":"2013-08-17T11:55:46","modified_gmt":"2013-08-17T14:55:46","slug":"o-debate-sobre-religiao-e-ciencia-uma-introducao-por-john-polkinghorne","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/faraday-papers\/o-debate-sobre-religiao-e-ciencia-uma-introducao-por-john-polkinghorne\/","title":{"rendered":"FP1: O Debate Sobre Religi\u00e3o e Ci\u00eancia \u2013 Uma Introdu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/files\/2013\/08\/fp1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-92 alignleft\" alt=\"fp1\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/files\/2013\/08\/fp1.jpg\" width=\"211\" height=\"143\" \/><\/a><em>O Reverendo Dr. John Polkinghorne KBE FRS trabalhou com f\u00edsica te\u00f3rica de part\u00edculas elementares por 25 anos; foi Professor de F\u00edsica Matem\u00e1tica na Universidade de Cambridge e, em seguida, Presidente do Queens\u2019 College, em Cambridge. O Dr. Polkinghorne \u00e9 fellow da Royal Society, foi o Presidente Fundador da International Society for Science and Religion (2002-2004) e \u00e9 autor de numerosos livros sobre ci\u00eancia e religi\u00e3o, incluindo Science and Theology (Londres: SPCK, 1998).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><b>Resumo<\/b><\/p>\n<p>Ci\u00eancia e Teologia t\u00eam coisas a dizer uma \u00e0 outra, uma vez que ambas se preocupam com a busca da verdade, alcan\u00e7ada por meio da cren\u00e7a fundamentada. Entre os t\u00f3picos importantes para tal di\u00e1logo est\u00e3o a teologia natural, a cria\u00e7\u00e3o, a provid\u00eancia divina e os milagres. Este artigo apresenta um breve panorama do estado atual do di\u00e1logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0***<\/p>\n<div>\n<p>Os participantes do debate entre ci\u00eancia e religi\u00e3o empregam diversas estrat\u00e9gias, dependendo do que procuram \u2013 confronto ou harmonia. Para uma introdu\u00e7\u00e3o ao assunto, a primeira tarefa \u00e9 resumir a agenda de discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>O parceiro natural para o di\u00e1logo com a ci\u00eancia \u00e9 a teologia, a disciplina intelectual que descreve a experi\u00eancia religiosa, da mesma forma como a ci\u00eancia descreve a investiga\u00e7\u00e3o humana do universo f\u00edsico. Tanto a ci\u00eancia como a teologia reivindicam explorar a natureza da realidade, mas claramente o fazem em n\u00edveis diferentes. O objeto de estudo das ci\u00eancias naturais \u00e9 o mundo f\u00edsico e os seres vivos que nele habitam. As ci\u00eancias tratam seus assuntos objetivamente, por meio de um modo impessoal de encontro, que emprega a ferramenta investigativa da interroga\u00e7\u00e3o experimental. A Natureza \u00e9 submetida a testes, baseados em experimentos pass\u00edveis de repeti\u00e7\u00e3o, tantas vezes quantas o pesquisador quiser. Mesmo as ci\u00eancias hist\u00f3ricas como a cosmologia f\u00edsica ou a biologia evolucion\u00e1ria ap\u00f3iam muito de seu poder explanat\u00f3rio nas descobertas das ci\u00eancias diretamente experimentais, como a f\u00edsica e a gen\u00e9tica. O prop\u00f3sito da ci\u00eancia \u00e9 obter uma compreens\u00e3o precisa de como as coisas acontecem. Sua preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 com os processos que ocorrem no mundo.<\/p>\n<div>\n<blockquote><p><i>\u2018todas as tradi\u00e7\u00f5es religiosas olham para o passado, para os eventos primordiais nos quais elas tiveram a sua origem\u2019<\/i><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o da teologia \u00e9 com a quest\u00e3o da verdade sobre a natureza de Deus, d\u2019Aquele ao qual \u00e9 pr\u00f3prio se aproximar com rever\u00eancia e obedi\u00eancia, o qual n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel para ser posto sob teste experimental. Como ocorre em todas as formas de relacionamento, o encontro com a realidade transpessoal do divino tem que ser baseado na confian\u00e7a, e seu car\u00e1ter \u00e9 intrinsecamente individual e \u00fanico. Experi\u00eancias religiosas n\u00e3o podem simplesmente ser provocadas pela manipula\u00e7\u00e3o humana. Ao inv\u00e9s disso, a teologia se baseia nos atos revelat\u00f3rios de auto-desvelamento divino. Em particular, todas as tradi\u00e7\u00f5es religiosas olham para o passado, para os eventos primordiais nos quais elas tiveram a sua origem, e que desempenham um papel \u00fanico na constitui\u00e7\u00e3o de sua compreens\u00e3o da divindade. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria c\u00f3smica, o objetivo central da teologia \u00e9 lidar com a quest\u00e3o de porque os eventos ocorreram. Sua preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 com temas de significado e prop\u00f3sito. A cren\u00e7a em Deus como Criador traz a implica\u00e7\u00e3o de que uma mente e vontade divina existe por tr\u00e1s do que acontece no universo.<\/p>\n<p>Essas diferen\u00e7as entre a ci\u00eancia e a teologia levaram alguns a supor que elas seriam completamente desconectadas entre si, ocupadas com formas de discurso separadas e at\u00e9 mesmo incomensur\u00e1veis. Se isso fosse verdade, n\u00e3o poderia haver um debate verdadeiro entre ci\u00eancia e religi\u00e3o. Essa imagem de duas linguagens sem conex\u00e3o tem sido popular entre cientistas que n\u00e3o desejam ser desrespeitosos com a religi\u00e3o, entendida por eles como atividade cultural, mas que tampouco querem considerar seriamente as reivindica\u00e7\u00f5es cognitivas da religi\u00e3o quanto ao conhecimento de Deus. Quando essa posi\u00e7\u00e3o \u00e9 adotada, a compara\u00e7\u00e3o que se segue entre ci\u00eancia e teologia \u00e9 frequentemente posta em termos que, na verdade, s\u00e3o desfavor\u00e1veis para a religi\u00e3o. Muitas vezes, sustenta-se que a ci\u00eancia lida com fatos, ao passo que a religi\u00e3o supostamente se funda apenas em opini\u00f5es. H\u00e1 aqui um duplo erro.<\/p>\n<p>An\u00e1lises produzidas pela filosofia da ci\u00eancia no s\u00e9culo XX deixaram claro que a busca cient\u00edfica pela compreens\u00e3o \u00e9 baseada em algo muito mais sutil do que uma confronta\u00e7\u00e3o n\u00e3o-problem\u00e1tica entre fatos experimentais indubit\u00e1veis e predi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas inescap\u00e1veis. Teoria e experimenta\u00e7\u00e3o se entretecem de formas intrincadas, e n\u00e3o h\u00e1 fatos cient\u00edficos interessantes que n\u00e3o sejam simultaneamente fatos j\u00e1 interpretados. O apelo a teorias \u00e9 necess\u00e1rio para se explicar o que realmente est\u00e1 sendo medido por um aparato sofisticado. Por sua vez, a teologia n\u00e3o se baseia na mera asser\u00e7\u00e3o de verdades inquestion\u00e1veis derivadas das declara\u00e7\u00f5es de alguma autoridade inquestion\u00e1vel. A cren\u00e7a religiosa tem as suas pr\u00f3prias motiva\u00e7\u00f5es, e seu apelo \u00e0 revela\u00e7\u00e3o ocupa-se da interpreta\u00e7\u00e3o daquelas ocasi\u00f5es singularmente significativas de desvelamento divino, e n\u00e3o de verdades proposicionais comunicadas de um modo misterioso.<\/p>\n<p>Uma s\u00e9rie de considera\u00e7\u00f5es mostra que a hip\u00f3tese da independ\u00eancia entre ci\u00eancia e teologia \u00e9 muito ing\u00eanua para ser convincente. \u201cComo?\u201d e \u201cPor qu\u00ea?\u201d s\u00e3o quest\u00f5es que podem ser levantadas simultaneamente e, muitas vezes, ambas devem ser consideradas se quisermos obter uma compreens\u00e3o adequada da realidade. Um bule ferve tanto porque o g\u00e1s em chamas aquece a \u00e1gua quanto porque algu\u00e9m quer preparar um ch\u00e1. As duas quest\u00f5es s\u00e3o, sem d\u00favida, logicamente distintas, e n\u00e3o h\u00e1 uma conex\u00e3o inevit\u00e1vel ligando as duas respostas, embora deva existir um grau de consist\u00eancia entre elas. Colocar o bule no refrigerador com a inten\u00e7\u00e3o de fazer ch\u00e1 n\u00e3o faz muito sentido.<\/p>\n<p>A teologia precisa ouvir a explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da hist\u00f3ria do universo e determinar sua rela\u00e7\u00e3o com a cren\u00e7a religiosa de que o mundo \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de Deus. Se h\u00e1 um desajuste total, alguma forma de revis\u00e3o pode ser necess\u00e1ria. Fundamentalistas religiosos cr\u00eaem que tal revis\u00e3o sempre teria de ser do lado da ci\u00eancia, enquanto fundamentalistas cientificistas cr\u00eaem que a religi\u00e3o \u00e9 simplesmente irrelevante para a compreens\u00e3o do cosmo. Essas posi\u00e7\u00f5es extremas correspondem \u00e0 imagem de um conflito entre a ci\u00eancia e a religi\u00e3o, tendo cada lado a miss\u00e3o de obter a vit\u00f3ria total no debate: uma vis\u00e3o seriamente distorcida que falha em reconhecer a complementaridade entre as duas formas de busca da verdade. Uma vis\u00e3o mais equilibrada seria a de que ambas as explica\u00e7\u00f5es merecem ser escrupulosamente abordadas em seu relacionamento m\u00fatuo, o que nos d\u00e1 uma agenda criativa para o debate entre ci\u00eancia e religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Tanto a ci\u00eancia quanto a teologia t\u00eam sido rotuladas pelo p\u00f3s-modernismo como metanarrativas lend\u00e1rias, constru\u00eddas e endossadas socialmente. Em resposta, ambas apelam \u00e0s motiva\u00e7\u00f5es experienciais de suas cren\u00e7as e reivindicam o que foi denominado <i>realismo cr\u00edtico<\/i> como a melhor descri\u00e7\u00e3o de suas realiza\u00e7\u00f5es: embora n\u00e3o alcancem conhecimento exaustivo \u2013 pois a explora\u00e7\u00e3o da natureza revela continuamente fatos novos e inesperados, e a realidade infinita de Deus sempre exceder\u00e1 a compreens\u00e3o de seres humanos finitos \u2013 ambas cr\u00eaem ser capazes de obter verossimilhan\u00e7a, ou seja, descri\u00e7\u00f5es de aspectos da realidade que s\u00e3o adequadas para alguns, embora nem todos os fins. Com suas reivindica\u00e7\u00f5es cr\u00edtico-realistas, a ci\u00eancia e a teologia exibem um grau de parentesco, e este fato por si s\u00f3 seria suficiente para encorajar o di\u00e1logo entre elas.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia tem obtido seu grande sucesso devido \u00e0 mod\u00e9stia de sua ambi\u00e7\u00e3o, restringindo-se ao encontro impessoal e limitando-se a descrever os processos naturais. O fato \u00e9 que as redes lan\u00e7adas por ela s\u00e3o muito grosseiras para capturar o todo da realidade. Sua compreens\u00e3o da m\u00fasica, por exemplo, \u00e9 estruturada em termos de respostas do sistema nervoso ao impacto de ondas de ar no t\u00edmpano. O profundo mist\u00e9rio da m\u00fasica \u2013 como uma seq\u00fc\u00eancia temporal de sons \u00e9 capaz de descrever uma esfera eterna de beleza? \u2013 escapa totalmente \u00e0 sua compreens\u00e3o. Um elemento importante no debate contempor\u00e2neo entre ci\u00eancia e religi\u00e3o \u00e9 o reconhecimento da import\u00e2ncia de \u201cquest\u00f5es de limite\u201d, referentes a assuntos que emergem da pr\u00e1tica cient\u00edfica, mas que v\u00e3o al\u00e9m dos limites postos <i>pela pr\u00f3pria ci\u00eancia<\/i> a seu potencial explanat\u00f3rio. Essas quest\u00f5es de limite t\u00eam sido a base para um novo tipo de teologia natural, largamente desenvolvida pelos pr\u00f3prios cientistas, alguns dos quais n\u00e3o aderem a nenhuma tradi\u00e7\u00e3o religiosa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Teologia Natural<\/b><\/p>\n<p>A Teologia Natural \u00e9 a tentativa de aprender algo sobre Deus a partir de considera\u00e7\u00f5es gerais tais como o exerc\u00edcio da raz\u00e3o e a investiga\u00e7\u00e3o do mundo. Sua forma cl\u00e1ssica \u00e9 associada a pensadores como Tom\u00e1s de Aquino (s\u00e9culo treze) e William Paley (1743-1805). Eles falavam em termos de \u201cprovas\u201d da exist\u00eancia de Deus e frequentemente buscavam explica\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas para a aptid\u00e3o funcional dos seres vivos, compreendidos como havendo sido projetados pelo divino Art\u00edfice. A Teologia Natural contempor\u00e2nea \u00e9 mais modesta em seu car\u00e1ter. Seu objetivo n\u00e3o \u00e9 a inescapabilidade l\u00f3gica, mas a compreens\u00e3o iluminada, reivindicando que o te\u00edsmo explica mais do que o ate\u00edsmo. O relacionamento da Teologia Natural com a ci\u00eancia \u00e9 de complementaridade, ao inv\u00e9s de rivalidade. Reconhecendo que as quest\u00f5es cient\u00edficas devem receber respostas cient\u00edficas, a nova Teologia Natural se concentra nas quest\u00f5es de limite que emergem da ci\u00eancia, mas que escapam ao seu escopo explanat\u00f3rio. Duas dessas metaquest\u00f5es t\u00eam se revelado particularmente importantes.<\/p>\n<div>\n<blockquote><p><i>\u2018Uma compreens\u00e3o religiosa torna a pr\u00f3pria inteligibilidade do universo intelig\u00edvel\u2019<\/i><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>A primeira diz respeito \u00e0 raz\u00e3o porque a ci\u00eancia \u00e9 poss\u00edvel, na forma profunda e extensiva que conhecemos. Obviamente a necessidade evolucion\u00e1ria de sobreviv\u00eancia pode explicar porque os humanos s\u00e3o capazes de compreender grosso modo os fen\u00f4menos do dia-a-dia. Ainda assim \u00e9 dif\u00edcil crer que nossa habilidade para compreender o mundo subat\u00f4mico da f\u00edsica qu\u00e2ntica e o mundo c\u00f3smico da curvatura espa\u00e7o temporal \u2013 ambos os dom\u00ednios remotamente distantes do impacto direto sobre eventos do dia a dia, e ambos requerendo, para a sua compreens\u00e3o, modos altamente contra-intuitivos de pensamento \u2013 seja meramente um b\u00f4nus fortuito da necessidade de sobreviv\u00eancia. Al\u00e9m disso, o mundo n\u00e3o \u00e9 apenas racionalmente transparente em um grau profundo \u00e0 inquiri\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mas tamb\u00e9m \u00e9, em semelhante grau, racionalmente belo, concedendo repetidamente aos cientistas o senso de maravilha como uma recompensa pelo trabalho de pesquisa. Na f\u00edsica fundamental, uma t\u00e9cnica comprovada de descoberta \u00e9 a busca por teorias cujas equa\u00e7\u00f5es sejam matematicamente belas, desde que apenas estas teorias atingem a fertilidade de longo prazo capaz de nos persuadir de sua verossimilhan\u00e7a. Por que a ci\u00eancia profunda \u00e9 poss\u00edvel, e por que seus sucessos envolvem t\u00e3o intimamente a disciplina aparentemente abstrata da matem\u00e1tica, s\u00e3o certamente quest\u00f5es significativas sobre a natureza do nosso mundo. A ci\u00eancia, por si s\u00f3, \u00e9 incapaz de explicar este car\u00e1ter profundo das leis da natureza. Ela \u00e9 obrigada a trat\u00e1-lo simplesmente como a base inexplic\u00e1vel que tem de ser assumida para sua exposi\u00e7\u00e3o dos detalhes do processo. Entretanto, parece intelectualmente insatisfat\u00f3rio abandonar a quest\u00e3o assim, como se a ci\u00eancia fosse apenas um feliz acidente. Uma compreens\u00e3o religiosa torna a pr\u00f3pria inteligibilidade do universo intelig\u00edvel, explicando que o mundo est\u00e1 cravejado de sinais de intelig\u00eancia precisamente porque a Mente do seu Criador est\u00e1 por tr\u00e1s dessa ordem maravilhosa.<\/p>\n<p>Essa ordem n\u00e3o \u00e9 apenas bela, mas tamb\u00e9m profundamente frut\u00edfera. O universo como n\u00f3s o conhecemos come\u00e7ou a 13.7 bilh\u00f5es de anos atr\u00e1s, essencialmente como uma bola de energia quase uniforme, em expans\u00e3o. Hoje o universo \u00e9 rico e complexo, com santos e cientistas entre seus habitantes. Esse fato em si mesmo sugere que algo vem acontecendo na hist\u00f3ria c\u00f3smica que vai al\u00e9m do que a ci\u00eancia pode dizer; mas al\u00e9m disso, a compreens\u00e3o cient\u00edfica dos processos evolucion\u00e1rios dessa hist\u00f3ria tem mostrado que o cosmo era desde o in\u00edcio prenhe de potencial para a vida baseada em carbono. As leis b\u00e1sicas da natureza, em seu car\u00e1ter atual, tiveram que assumir uma forma quantitativa espec\u00edfica para possibilitar a emerg\u00eancia da vida em algum local do universo. Esse ajuste-fino (<i>fine-tuning<\/i>) dos par\u00e2metros fundamentais \u00e9 usualmente denominado Princ\u00edpio Antr\u00f3pico.<a title=\"\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a> Um mundo capaz de produzir seres autoconscientes \u00e9 um universo muito espec\u00edfico, de fato. Esta especificidade c\u00f3smica levanta a segunda metaquest\u00e3o, sobre <i>por que<\/i> isto deveria ser assim. O ajuste-fino Antr\u00f3pico veio como um choque para muitos cientistas. Eles tendem a preferir o geral ao particular, sendo ent\u00e3o inclinados a supor que n\u00e3o haveria nada de muito especial sobre o nosso mundo. A Teologia Natural enxerga o potencial antr\u00f3pico como um dom que o Criador deu \u00e0 cria\u00e7\u00e3o. Aqueles que recusam esta id\u00e9ia s\u00e3o levados, ou a considerar o ajuste-fino como outro acidente incrivelmente feliz, ou a abra\u00e7ar a extraordin\u00e1ria suposi\u00e7\u00e3o de que h\u00e1, de fato, um vasto multiverso composto de muit\u00edssimos universos bem diferentes, mas que apenas um \u00e9 observ\u00e1vel por n\u00f3s, sendo o nosso universo, por puro acaso, aquele no qual as circunst\u00e2ncias permitiram o desenvolvimento da vida baseada em carbono.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Cria\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>A doutrina da cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o diz respeito primariamente a <i>como<\/i> as coisas come\u00e7aram, mas <i>por que<\/i> elas existem. Deus \u00e9 visto como ordenador e sustentador do cosmo, sendo o seu Criador hoje, tanto quanto o era na \u00e9poca do <i>Big Bang<\/i> (o qual \u00e9 cientificamente interessante, mas n\u00e3o \u00e9 teologicamente cr\u00edtico). Essa compreens\u00e3o da realidade leva \u00e0 vis\u00e3o de que a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo em cont\u00ednuo desdobramento, no qual Deus age tanto por meio dos resultados do processo natural quanto por qualquer outro meio. Um di\u00e1logo frut\u00edfero entre a ci\u00eancia e a religi\u00e3o deve ser baseado nessa compreens\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<blockquote><p><i>\u2018O dom do amor concede sempre algum grau de independ\u00eancia a quem se ama.\u2019<\/i><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>A ci\u00eancia tem muito a contribuir para o di\u00e1logo interdisciplinar, atrav\u00e9s do quadro que ela pode fornecer do processo e da hist\u00f3ria do universo. Sua contribui\u00e7\u00e3o mais importante \u00e9 o conceito evolucion\u00e1rio da emerg\u00eancia de novidade em regimes onde regularidade regrada (antr\u00f3pica) e especificidade acidental interagem. A intera\u00e7\u00e3o de acaso e necessidade \u201cna margem do caos\u201d (um dom\u00ednio de processos caracterizados pelo entrela\u00e7amento de graus de ordem com sensibilidade a pequenas influ\u00eancias) tem operado em muitos n\u00edveis, da evolu\u00e7\u00e3o c\u00f3smica das estrelas e gal\u00e1xias, \u00e0 familiar hist\u00f3ria biol\u00f3gica do aumento da complexidade da vida terrestre.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma forma distorcida de hist\u00f3ria intelectual que retrata a publica\u00e7\u00e3o de <i>A Origem das Esp\u00e9cies<\/i> de Charles Darwin, em 1859, como a separa\u00e7\u00e3o final entre os caminhos da ci\u00eancia e da religi\u00e3o e o fim de qualquer debate verdadeiro entre elas. \u00c9 fato hist\u00f3rico que nem todos os cientistas aceitaram as id\u00e9ias de Darwin imediatamente e nem todos os te\u00f3logos as rejeitaram. Todos tiveram de se esfor\u00e7ar para aceitar o quanto o passado foi diferente do presente, e a necessidade, assim, de compreender esse presente \u00e0 luz de suas origens passadas. Dois pensadores crist\u00e3os, Charles Kingsley e Frederick Temple, cedo cunharam uma frase que habilmente sintetiza como pessoas religiosas deveriam pensar sobre um mundo em evolu\u00e7\u00e3o. Eles diziam que, sem d\u00favida, Deus poderia ter trazido \u00e0 exist\u00eancia um mundo j\u00e1 pronto. Mas descobrimos que o Criador fez algo mais inteligente do que isto, criando um mundo t\u00e3o f\u00e9rtil que as criaturas que nele habitam tiveram a capacidade de \u201cfazerem a si mesmas\u201d, na medida em que o processo explorat\u00f3rio da evolu\u00e7\u00e3o trazia este potencial \u00e0 realidade.<\/p>\n<p>Uma id\u00e9ia teol\u00f3gica muito importante est\u00e1 associada a este <i>insight<\/i>. Ela diz respeito ao modo como Deus pode ser compreendido em sua rela\u00e7\u00e3o com a cria\u00e7\u00e3o. A teologia crist\u00e3 cr\u00ea que o car\u00e1ter fundamental de Deus \u00e9 o amor. N\u00e3o se pode supor, portanto, que tal deidade aja como um Tirano C\u00f3smico, manipulando as cordas numa cria\u00e7\u00e3o que nada mais \u00e9 do que um divino teatro de marionetes. O dom do amor concede sempre algum grau de independ\u00eancia a quem se ama. Uma das id\u00e9ias mais iluminadoras da teologia do s\u00e9culo XX foi o reconhecimento de que o ato da cria\u00e7\u00e3o foi um ato de auto-limita\u00e7\u00e3o divina \u2013 um ato de <i>kenosis<\/i>, como os te\u00f3logos dizem \u2013 por parte do Criador, permitindo \u00e0s criaturas ser e constituir a si mesmas. Isso implica que, embora sob a permiss\u00e3o divina, nem tudo o que acontece est\u00e1 de acordo com a vontade positiva de Deus.<\/p>\n<p>Uma compreens\u00e3o <i>ken\u00f3tica<\/i> do relacionamento de Deus com o mundo auxilia a teologia em sua luta com as perplexidades do mal e do sofrimento, que certamente s\u00e3o seu problema mais desafiador. Um mundo no qual as criaturas fazem a si mesmas \u00e9 algo muito bom, mas tem o seu pre\u00e7o. A explora\u00e7\u00e3o exaustiva de todas as possibilidades (que \u00e9 o que o \u201cacaso\u201d significa no contexto evolucion\u00e1rio) inevitavelmente ter\u00e1 bordas irregulares e levar\u00e1 a becos sem sa\u00edda. O mecanismo que dirigiu a hist\u00f3ria da vida na Terra foi a muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica. Ora, se c\u00e9lulas de germes poder\u00e3o sofrer muta\u00e7\u00f5es e produzir novas formas de vida, c\u00e9lulas som\u00e1ticas poder\u00e3o tamb\u00e9m sofrer muta\u00e7\u00f5es, mas se tornar malignas. A angustiante exist\u00eancia do c\u00e2ncer n\u00e3o \u00e9 algo sem motivo, ou alguma coisa que um criador mais competente ou menos insens\u00edvel poderia ter eliminado facilmente. \u00c9 o lado sombrio e inevit\u00e1vel da produtividade da evolu\u00e7\u00e3o. Longe de ser destrutivo para um debate \u00fatil entre a ci\u00eancia e a religi\u00e3o, o ponto de vista evolucionista tem exercido uma influ\u00eancia muito positiva sobre o pensamento teol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Finalmente, h\u00e1 ainda outra quest\u00e3o levantada pela ci\u00eancia que deve ser considerada por te\u00f3logos que falam sobre o mundo como Cria\u00e7\u00e3o. O progn\u00f3stico final da Cosmologia para o futuro do universo \u00e9 desanimador. As escalas de tempo s\u00e3o imensamente longas, mas eventualmente tudo acabar\u00e1 em uma futilidade c\u00f3smica, seja por meio de um colapso ou, mais provavelmente, por meio da intermin\u00e1vel decad\u00eancia de um universo em expans\u00e3o e resfriamento eternos. A vida baseada em carbono dever\u00e1, por fim, desaparecer do cosmo. A teologia sempre se esfor\u00e7ou para manter uma vis\u00e3o realista da morte, tanto de indiv\u00edduos como do universo. Ela n\u00e3o se ap\u00f3ia em um otimismo evolucion\u00e1rio ilus\u00f3rio, mas baseia sua esperan\u00e7a de um destino al\u00e9m da morte unicamente na fidelidade do Criador do mundo. Um desdobramento recente no debate entre ci\u00eancia e religi\u00e3o \u00e9 o crescente interesse na explora\u00e7\u00e3o da coer\u00eancia dessa esperan\u00e7a. O resultado tem sido significativos desenvolvimentos no pensamento escatol\u00f3gico, mas n\u00e3o temos espa\u00e7o para dar os detalhes aqui.<a title=\"\" href=\"#_ftn2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A\u00e7\u00e3o Divina<\/b><\/p>\n<p>Pessoas religiosas oram a Deus, pedindo aux\u00edlio particular. Te\u00f3logos falam sobre a a\u00e7\u00e3o providencial de Deus na hist\u00f3ria. Mas a ci\u00eancia fala sobre a regularidade dos processos causais no mundo. Poderia isto significar que os crentes est\u00e3o enganados e Deus est\u00e1 restringido ao papel de manter o mundo existindo, mas contemplando-o como mero expectador? Todas as f\u00e9s Abra\u00e2micas (Juda\u00edsmo, Cristianismo e Isl\u00e3) falam de Deus agindo no mundo, causando conseq\u00fc\u00eancias espec\u00edficas em circunst\u00e2ncias espec\u00edficas.<\/p>\n<p>Se a ci\u00eancia implicasse um mundo mec\u00e2nico de maquin\u00e1rios c\u00f3smicos, como muitos interpretaram a f\u00edsica Newtoniana, a teologia se limitaria \u00e0 imagem de\u00edsta de um Deus que meramente p\u00f5e o mundo em movimento e ent\u00e3o deixa tudo acontecer. Entretanto, a imagem mecanicista sempre esteve sob suspeita porque os seres humanos n\u00e3o se v\u00eaem como aut\u00f4matos, mas antes como tendo liberdade para atuar como agentes intencionais. Se o futuro do mundo est\u00e1 aberto para a humanidade, certamente deve estar aberto tamb\u00e9m para o seu Criador. De fato, a ci\u00eancia do s\u00e9culo XX testemunhou a morte da vis\u00e3o meramente mecanicista da f\u00edsica. Imprevisibilidades intr\u00ednsecas (uma incerteza inescap\u00e1vel que n\u00e3o pode ser superada por c\u00e1lculos melhores ou observa\u00e7\u00f5es mais exatas) vieram \u00e0 luz, primeiro na teoria qu\u00e2ntica ao n\u00edvel subat\u00f4mico, e ent\u00e3o na teoria do caos ao n\u00edvel dos fen\u00f4menos macrosc\u00f3picos. O que essas descobertas implicam \u00e9 mat\u00e9ria de debate filos\u00f3fico.<\/p>\n<p>A natureza da causalidade \u00e9 um tema de metaf\u00edsica, influenciada pela f\u00edsica, mas n\u00e3o totalmente determinada por ela. Por exemplo, enquanto muitos f\u00edsicos cr\u00eaem que as imprevisibilidades da teoria qu\u00e2ntica s\u00e3o sinais de uma indetermina\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca, h\u00e1 uma interpreta\u00e7\u00e3o alternativa de igual adequa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica que atribui tais imprevisibilidades \u00e0 ignor\u00e2ncia de um n\u00famero de fatores inacess\u00edveis (\u201cvari\u00e1veis ocultas\u201d). A escolha entre estas interpreta\u00e7\u00f5es tem de ser feita em bases metacient\u00edficas, tais como julgamentos de economia e aus\u00eancia de artificialidade.<\/p>\n<div>\n<blockquote><p><i>\u2018Isto n\u00e3o implica que o futuro seja algum tipo de loteria aleat\u00f3ria\u2019<\/i><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>A imprevisibilidade \u00e9 uma propriedade concernente ao que se pode ou n\u00e3o se pode conhecer sobre acontecimentos futuros. A rela\u00e7\u00e3o entre o que sabemos sobre o mundo e o que mundo \u00e9 realmente \u00e9 mat\u00e9ria de animado debate filos\u00f3fico. Mas para aqueles cuja filosofia se baseia no realismo, como \u00e9 o caso de muitos cientistas, as duas coisas s\u00e3o insepar\u00e1veis. Para eles, \u00e9 natural interpretar imprevisibilidades intr\u00ednsecas como sinais de que o futuro ainda n\u00e3o est\u00e1 definido. Isto n\u00e3o implica que o futuro seja algum tipo de loteria aleat\u00f3ria, mas simplesmente que as suas causas n\u00e3o se limitam \u00e0 descri\u00e7\u00e3o cient\u00edfica convencional de trocas de energia entre os componentes do sistema. Um candidato plaus\u00edvel para fatores causais adicionais \u00e9 o exerc\u00edcio da ag\u00eancia pessoal, tanto por indiv\u00edduos humanos como pela a\u00e7\u00e3o providencial divina.<\/p>\n<p>Uma discuss\u00e3o bastante ativa no debate de ci\u00eancia e religi\u00e3o tem-se centrado na quest\u00e3o da a\u00e7\u00e3o divina. Sem entrar em detalhes sobre a variedade de posi\u00e7\u00f5es que vem sendo advogadas, pode-se dizer que pelo menos est\u00e1 claro que a ci\u00eancia n\u00e3o estabeleceu o fechamento causal do mundo f\u00edsico em seus pr\u00f3prios termos. \u00c9 inteiramente poss\u00edvel tomar de forma absolutamente s\u00e9ria o que a f\u00edsica tem a dizer e ainda crer na capacidade de ag\u00eancia, tanto humana como divina.<\/p>\n<p>Uma interpreta\u00e7\u00e3o realista das imprevisibilidades leva \u00e0 vis\u00e3o de um mundo de genu\u00edno \u201cvir-a-ser\u201d, no qual o futuro n\u00e3o \u00e9 uma conseq\u00fc\u00eancia inevit\u00e1vel do passado. Ao inv\u00e9s disso, muitos fatores causais o determinam: a lei natural, atos humanos intencionais e a provid\u00eancia divina. Se a fonte dessa liberdade no destino \u00e9 compreendida como sendo baseada na nebulosidade de processos imprevis\u00edveis, os eventos n\u00e3o podem ser analisados e classificados de uma forma transparente, como se fosse poss\u00edvel dizer que a natureza fez isto, a a\u00e7\u00e3o humana intencional fez aquilo, e a provid\u00eancia divina fez aquilo outro.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o sobre um mundo em genu\u00edno <i>vir-a-ser <\/i>tem levado alguns te\u00f3logos a repensar a rela\u00e7\u00e3o de Deus com o tempo. Deus n\u00e3o est\u00e1 aprisionado no tempo como as suas criaturas, e certamente deve haver uma dimens\u00e3o atemporal na natureza divina. A teologia cl\u00e1ssica considerou isto a hist\u00f3ria toda, e pintou Deus como totalmente fora do tempo, olhando \u201cpara baixo\u201d, por assim dizer, com a hist\u00f3ria c\u00f3smica inteira exibida sob o seu vislumbre, \u201ctudo de uma vez\u201d. Mas o Deus da B\u00edblia \u00e9 apresentado como Aquele que continuamente se engaja na hist\u00f3ria, e isto \u00e9 justamente o que poderia se esperar do Criador de um mundo com tal fertilidade em constante desdobramento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Milagre<\/b><\/p>\n<p>O tema do milagre frequentemente emerge no debate entre ci\u00eancia e religi\u00e3o. \u00c9 uma quest\u00e3o que o Cristianismo tem que tomar com muita seriedade, pois no cora\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria narrativa teol\u00f3gica est\u00e1 a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, a cren\u00e7a de que Jesus foi levantado dentre os mortos para uma vida de gl\u00f3ria infind\u00e1vel.<\/p>\n<p>Reivindica\u00e7\u00f5es do miraculoso v\u00e3o al\u00e9m de um conceito do Criador atuando no veio aberto da natureza, pois requerem a cren\u00e7a de que Deus algumas vezes age de formas \u00fanicas. A ci\u00eancia sup\u00f5e que o que usualmente acontece \u00e9 o que sempre acontece, por\u00e9m esta hip\u00f3tese n\u00e3o pode ser a base para excluir a possibilidade de eventos \u00fanicos e sem precedentes. Mas milagres criam um problema teol\u00f3gico, pois n\u00e3o se pode presumir que Deus atue como uma esp\u00e9cie de mago celestial, caprichosamente fazendo um uso exibicionista do seu poder divino. Se milagres acontecem, tem de ser porque circunst\u00e2ncias \u00fanicas os tornam uma possibilidade racional e consistente, eventos nos quais aspectos mais profundos do car\u00e1ter divino se manifestam do que normalmente \u00e9 revelado. No evangelho de S. Jo\u00e3o, milagres s\u00e3o denominados \u201csinais\u201d exatamente neste sentido revelat\u00f3rio.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a do miraculoso deve ser associada a um novo regime na hist\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o, muito similar \u00e0 forma como a explora\u00e7\u00e3o de um novo regime no mundo f\u00edsico pode manifestar propriedades totalmente inesperadas (como, por exemplo, a dualidade onda\/part\u00edcula da luz). Os cientistas n\u00e3o levantam a pergunta \u201c\u00c9 razo\u00e1vel?\u201d instintivamente, como se soubessem por anteced\u00eancia a forma que a racionalidade deve tomar. O mundo f\u00edsico tem demasiadas vezes se provado demasiado surpreendente para que tal pergunta seja apropriada. Ao inv\u00e9s disso eles perguntam: \u201cO que o faz pensar que este seja o caso?\u201d, uma inquiri\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo mais aberta e, por sua insist\u00eancia em evid\u00eancias, mais exigente. A abordagem \u00e0 quest\u00e3o do milagre no debate de ci\u00eancia e religi\u00e3o deve seguir linhas similares, n\u00e3o presumindo a sua impossibilidade a priori, mas exigindo a fundamenta\u00e7\u00e3o adequada antes de aceitar a cren\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><b>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<\/div>\n<p>Introdu\u00e7\u00f5es gerais incluem:<\/p>\n<p>Alexander, D.R., <i>Rebuilding Matrix \u2013 Science and Faith in the 21<sup>st<\/sup> Century<\/i>, Oxford: Lion (2001).<\/p>\n<p>Barbour, I.G. <i>When Science Meets Religion<\/i>, San Francisco: Harper San Francisco (2000). Em Portugu\u00eas: <i>Quando a Ci\u00eancia Encontra a Religi\u00e3o<\/i>, Cultrix (2004).<\/p>\n<p>Polkinghorne, J.C. <i>Science and Theology,<\/i> London: SPCK (1998).<\/p>\n<p>Polkinghorne, J.C. <i>Beyond Science: the Wider Human Context<\/i>, Cambridge: CUP (1996).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p align=\"center\"><b>Os \u201cFaraday Papers\u201d<\/b><\/p>\n<p align=\"center\"><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p>Os Faraday Papers s\u00e3o publicados pelo Instituto Faraday para Ci\u00eancia e Religi\u00e3o, St. Edmund\u2019s College, Cambridge, CB3 OBN, UK, uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos para educa\u00e7\u00e3o e pesquisa (<a href=\"http:\/\/www.faraday-institute.org\/\">www.faraday-institute.org<\/a>). As opini\u00f5es expressas s\u00e3o dos autores e n\u00e3o representam necessariamente as vis\u00f5es do instituto. Os Faraday Papers abordam uma ampla gama de t\u00f3picos relacionados \u00e0s intera\u00e7\u00f5es entre ci\u00eancia e religi\u00e3o. Uma lista completa dos Faraday Papers dispon\u00edveis pode ser vista em <a href=\"http:\/\/www.faraday-institute.org\/\">www.faraday-institute.org<\/a> onde c\u00f3pias gratuitas podem ser baixadas em formato pdf. C\u00f3pias impressas como esta podem tamb\u00e9m ser obtidas em ma\u00e7os de dez ou mais ao pre\u00e7o de \u00a31.5 por c\u00f3pia + postagem. Detalhes para encomenda via internet encontram-se em <a href=\"http:\/\/www.faraday-institute.org\/\">www.faraday-institute.org<\/a>.<\/p>\n<p align=\"center\">Data de publica\u00e7\u00e3o: Abril de 2007. \u00a9 The Faraday Institute for Science and Religion<\/p>\n<p align=\"center\">Tradu\u00e7\u00e3o para o Portugu\u00eas: Guilherme V.R. de Carvalho, Setembro de 2007<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Para mais informa\u00e7\u00f5es sobre o Princ\u00edpio Antr\u00f3pico, ver o Faraday Paper No 3: J.C. Polkinghorne, \u201cO Princ\u00edpio Antr\u00f3pico e o Debate de Ci\u00eancia e Religi\u00e3o\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Ver Polkinghorne, J. C. <i>The God of Hope and the End of the World<\/i>, London, SPCK\/New Haven: Yale University Press (2002).<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; O Reverendo Dr. John Polkinghorne KBE FRS trabalhou com f\u00edsica te\u00f3rica de part\u00edculas elementares por 25 anos; foi Professor de F\u00edsica Matem\u00e1tica na Universidade de Cambridge e, em seguida, Presidente do Queens\u2019 College, em Cambridge. 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