{"id":259,"date":"2013-08-20T23:47:53","date_gmt":"2013-08-21T02:47:53","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/?page_id=259"},"modified":"2013-08-20T23:48:17","modified_gmt":"2013-08-21T02:48:17","slug":"teismo-cristao-e-ciencia-o-pensamento-de-roy-clouser","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/teismo-cristao-e-ciencia-o-pensamento-de-roy-clouser\/","title":{"rendered":"Te\u00edsmo Crist\u00e3o e Ci\u00eancia: o pensamento de Roy Clouser"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por Guilherme de Carvalho*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Resumo**<\/strong><\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo americano Roy Clouser desenvolveu recentemente um modelo para explicar a rela\u00e7\u00e3o entre a religi\u00e3o e a ci\u00eancia, a partir de uma cr\u00edtica interna do empreendimento cient\u00edfico. Segundo Clouser, todo pensamento te\u00f3rico depende de pressuposi\u00e7\u00f5es a respeito da ordem c\u00f3smica cuja natureza \u00e9 indistingu\u00edvel de certos tipos de cren\u00e7a religiosa \u2013 aquelas cren\u00e7as a respeito do que constituiria o fundamento divino do mundo. A partir da observa\u00e7\u00e3o da indistinguibilidade dessas cren\u00e7as, Clouser sustenta que a ci\u00eancia tem, necessariamente, um ponto de partida religioso que condiciona a constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica.<\/p>\n<p>A partir dessa descoberta, Clouser apresenta a cren\u00e7a te\u00edsta crist\u00e3 cl\u00e1ssica como um ponto de partida vi\u00e1vel para o empreendimento cient\u00edfico, e como uma imagem de mundo superior \u00e0s imagens n\u00e3o-te\u00edstas de mundo, na medida em que estas n\u00e3o fornecem subs\u00eddios suficientes para lidar com o problema do reducionismo cient\u00edfico e com os impasses te\u00f3ricos relacionados a ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O debate sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a religi\u00e3o e a ci\u00eancia \u00e9 um dos grandes temas do momento. Muitas vezes prejudicada por posicionamentos extremistas, tanto do lado da religi\u00e3o como do lado da ci\u00eancia, a reflex\u00e3o sobre o tema tem ocupado as mentes de fil\u00f3sofos, te\u00f3logos e cientistas da mais alta compet\u00eancia, e angaria crescente reconhecimento, n\u00e3o somente por sua import\u00e2ncia pol\u00edtica e cultural, na busca por uma integra\u00e7\u00e3o e harmoniza\u00e7\u00e3o entre a f\u00e9 e a pr\u00e1tica cient\u00edfica, mas tamb\u00e9m pela constata\u00e7\u00e3o de que posicionamentos religiosos tem impacto decisivo na pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias cient\u00edficas.<\/p>\n<p>S\u00e3o diversas as possibilidades de contato entre religi\u00e3o e ci\u00eancia, desde o conflito aberto at\u00e9 \u00e0 integra\u00e7\u00e3o. Entre as alternativas para correlacionar religi\u00e3o e ci\u00eancia, o Dr. Ian Barbour favorece a busca de s\u00edntese sistem\u00e1tica, ou integra\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica, que ocorre quando \u201c[&#8230;] ambas, a religi\u00e3o e a ci\u00eancia, contribu\u00edrem para uma vis\u00e3o coerente do mundo, elaborada numa metaf\u00edsica includente\u201d (Barbour, 2004:50). Barbour rejeita a equipara\u00e7\u00e3o entre metaf\u00edsica e ci\u00eancia ou metaf\u00edsica e religi\u00e3o, e reconhece a import\u00e2ncia de preservar a diversidade dos modos de experi\u00eancia (Barbour, 2004: 54), mas nem por isso desiste da tentativa de desenvolver uma vis\u00e3o coerente da realidade. O pr\u00f3prio Barbour, no entanto, como outros especialistas no campo, abandona o te\u00edsmo crist\u00e3o cl\u00e1ssico em sua proposta de integra\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica, ao usar como refer\u00eancia uma forma de filosofia do processo que elimina a descontinuidade entre o Criador e a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma importante alternativa para o di\u00e1logo entre a ci\u00eancia e a religi\u00e3o, no interior da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, que mant\u00e9m a \u00eanfase te\u00edsta na diferen\u00e7a ontol\u00f3gica de Criador e criatura e, ao mesmo tempo, promove uma criativa integra\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica por meio de uma teoriza\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica \u00e9 a proposta do Dr. Roy Clouser, que se tornou famoso, principalmente, por sua obra principal, <i>The Myth of Religious Neutrality: An Essay on the Hidden Role of Religious Belief in Theories<\/i> (1991,2005). A posi\u00e7\u00e3o do Dr. Clouser \u00e9, na maior parte, uma amplia\u00e7\u00e3o e clarifica\u00e7\u00e3o da obra do fil\u00f3sofo holand\u00eas Herman Dooyeweerd, e apresenta-se como um dos mais sofisticados modelos te\u00edstas de integra\u00e7\u00e3o atualmente dispon\u00edveis. Neste artigo vamos apresentar uma s\u00edntese da proposta de Clouser.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li><strong>A Natureza da \u201cCren\u00e7a Religiosa\u201d<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O programa te\u00edsta de Roy Clouser para uma \u201creforma interna\u201d da ci\u00eancia come\u00e7a com a redefini\u00e7\u00e3o da natureza e import\u00e2ncia da cren\u00e7a religiosa para o pensamento te\u00f3rico. Assim, em sua obra principal, ele inicia o argumento pondo em quest\u00e3o o pr\u00f3prio conceito de religi\u00e3o, mas para conceituar cren\u00e7a religiosa. Clouser admite que a tarefa de definir \u201creligi\u00e3o\u201d seria muito dif\u00edcil e, de qualquer forma, al\u00e9m do escopo do seu trabalho; sua inten\u00e7\u00e3o assim \u00e9 focalizar apenas <i>um uso particular do termo, no sentido em que ele qualifica a cren\u00e7a<\/i> (Clouser, 2005<sup>a<\/sup>:9).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\">\u00a0<i>Redefinindo a \u201cCren\u00e7a Religiosa\u201d<\/i><\/p>\n<p>Para definir a cren\u00e7a religiosa de modo n\u00e3o arbitr\u00e1rio, isto \u00e9, que \u201cestabele\u00e7a o conjunto de caracter\u00edsticas compartilhadas unicamente por todas as coisas do tipo definido\u201d (Clouser, 2005<sup>a<\/sup>:10), Clouser procede a um breve estudo comparativo das cren\u00e7as religiosas de diversas religi\u00f5es, incluindo a maiores atualmente vivas (Juda\u00edsmo, Cristianismo, Isl\u00e3, Hindu\u00edsmo, Budismo e Tao\u00edsmo), bem como as antigas (a cren\u00e7a grega nos deuses Ol\u00edmpicos, os cultos mist\u00e9ricos, a religi\u00e3o Romana, o polite\u00edsmo Eg\u00edpcio, a religi\u00e3o Canan\u00e9ia), outros cultos menores (Druidismo, Mitra\u00edsmo, Zoroastrismo, Shinto\u00edsmo, cultos abor\u00edgenes, etc) e casos d\u00fabios, como os ensinos Epicuristas sobre os deuses. Sua conclus\u00e3o preliminar \u00e9 a de que n\u00e3o h\u00e1 cren\u00e7as em comum que se repitam universalmente.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, n\u00e3o h\u00e1 uma conex\u00e3o necess\u00e1ria das cren\u00e7as religiosas com outros elementos da experi\u00eancia religiosa. Assim, h\u00e1 formas de cren\u00e7a religiosa que n\u00e3o s\u00e3o fonte de direcionamento moral, ou que n\u00e3o inspiram adora\u00e7\u00e3o de qualquer tipo nos crentes. Tampouco \u00e9 poss\u00edvel identificar a cren\u00e7a religiosa a partir de certo rito, desde que toda pr\u00e1tica ritual se baseia, no fundo, em comportamentos que tem m\u00faltiplos usos, sendo que apenas o sentido que o uso tem em certo contexto pode torn\u00e1-lo religioso \u2013 isto \u00e9, sua conjun\u00e7\u00e3o com certa cren\u00e7a religiosa (Clouser, 2005<sup>a<\/sup>:11,12). A cren\u00e7a num \u201cSer supremo\u201d n\u00e3o \u00e9 universal (no Budismo e no Hindu\u00edsmo, por exemplo, n\u00e3o h\u00e1 cren\u00e7a em um \u201cSer supremo\u201d). O conceito de \u201crealidade suprema\u201d (ultimate reality) de Tillich tamb\u00e9m seria inadequado, porque n\u00e3o recupera, de fato, um elemento comum a todas as religi\u00f5es, mas prescreve a sua pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o de religi\u00e3o verdadeira (Clouser, 2005<sup>a<\/sup>:13).<a title=\"\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a> A id\u00e9ia de que o n\u00facleo da cren\u00e7a religiosa seria a atribui\u00e7\u00e3o de valor irrestrito tamb\u00e9m \u00e9 inadequada porque, em muitas religi\u00f5es, a divindade \u00e9 odiada pelos fi\u00e9is!<\/p>\n<p>Para solucionar a dificuldade Clouser prop\u00f5e uma mudan\u00e7a de estrat\u00e9gia. Ao inv\u00e9s de comparar conte\u00fados e estruturas religiosas espec\u00edficas, em conex\u00e3o com a cren\u00e7a religiosa, ele sugere que consideremos a estrutura da pr\u00f3pria cren\u00e7a religiosa. E considerando essa estrutura ele nota que h\u00e1 uma ampla discord\u00e2ncia sobre o que \u00e9 o divino, e sobre como o restante da vida se relaciona com o divino (moral, valores, ritos, etc), mas tamb\u00e9m que a converg\u00eancia para o que se acredita ser divino \u00e9 universal (Clouser, 2005<sup>a<\/sup>:17). Ou seja, o que \u00e9 compartilhado pelas diversas religi\u00f5es, e que poderia ser utilizado numa defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o-arbitr\u00e1ria, \u00e9 a orienta\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a para o que recebe o \u201cstatus\u201d de divindade.<\/p>\n<p>Recolocando a quest\u00e3o dessa forma, Clouser obteve, como resultado, que a atribui\u00e7\u00e3o de \u201cdivindade\u201d, no interior de certa cren\u00e7a religiosa, consiste na atribui\u00e7\u00e3o de <i>incondicionalidade<\/i>. Ser \u201cdivino\u201d significaria ser \u201cn\u00e3o-dependentemente real\u201d. Segundo Clouser, essa estrutura se repetiria at\u00e9 mesmo em formas de cren\u00e7a religiosa que n\u00e3o tem uma defini\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de divindade, na medida em que o objeto da cren\u00e7a religiosa sempre \u00e9 uma realidade que recebe o status de incondicionalidade:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Ap\u00f3s mais de quarenta anos de estudos em religi\u00e3o comparativa, eu nunca encontrei uma tradi\u00e7\u00e3o religiosa que falhe em atribuir o status de divindade como consistindo em ter incondicionalidade, ou realidade n\u00e3o-dependente. O divino \u00e9 aquilo que simplesmente est\u00e1 aqui, \u201c\u00e9\u201d, enquanto que tudo o que \u00e9 n\u00e3o-divino depende, para a sua exist\u00eancia, do divino (Clouser, 2005b:6).<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como evid\u00eancias adicionais, Clouser lembra que \u201cvirtualmente todos os fil\u00f3sofos pr\u00e9-socr\u00e1ticos conceberam o status da divindade como sendo aquilo que n\u00e3o depende de nada mais para a sua exist\u00eancia\u201d, sendo que o seu debate girava em torno de qual realidade atribuir esse status (Clouser, 2005<sup>a<\/sup>:20), e que essa compreens\u00e3o era compartilhada por Plat\u00e3o e por Arist\u00f3teles. Apenas na idade m\u00e9dia o debate cessou, pela \u00f3bvia raz\u00e3o do dom\u00ednio monote\u00edsta. Nas religi\u00f5es de origem b\u00edblica n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre a \u201cdivindade\u201d e Deus, enquanto que, nas diversas formas de paganismo, os \u201cdeuses\u201d costumam ser diferenciados da \u201cdivindade\u201d. Os reformadores, Lutero, principalmente, teriam percebido a diferen\u00e7a te\u00f3rica entre status divino e o possuidor da divindade. Finalmente, diversos estudiosos modernos da religi\u00e3o reconheceram a conex\u00e3o entre cren\u00e7a religiosa e atribui\u00e7\u00e3o de incondicionalidade.<a title=\"\" href=\"#_ftn2\">[2]<\/a> Clouser define, ent\u00e3o, cren\u00e7a religiosa, como se segue:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma cren\u00e7a \u00e9 religiosa desde que:<\/p>\n<p>(1)\u00a0\u00a0\u00a0 seja uma cren\u00e7a em algo como sendo divino per se n\u00e3o importando como isso ser\u00e1 finalmente descrito, ou<\/p>\n<p>(2)\u00a0\u00a0\u00a0 seja uma cren\u00e7a sobre como o n\u00e3o-divino depende do divino per se, ou<\/p>\n<p>(3)\u00a0\u00a0\u00a0 seja uma cren\u00e7a sobre como os humanos v\u00eam a estar em uma rela\u00e7\u00e3o apropriada com o divino per se,<\/p>\n<p>(4)\u00a0\u00a0\u00a0 sendo que o n\u00facleo essencial da divindade per se \u00e9 ter o status de realidade incondicionalmente n\u00e3o-dependente (Clouser, 2005<sup>a<\/sup>:24).<a title=\"\" href=\"#_ftn3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><i>Os Tr\u00eas Tipos B\u00e1sicos de Cren\u00e7a Religiosa<\/i><\/p>\n<p>A partir dessa defini\u00e7\u00e3o de cren\u00e7a religiosa, como a cren\u00e7a sobre o que \u00e9 a realidade divina e\/ou como o cosmo e o homem se relacionam com essa realidade, Clouser identifica tr\u00eas tipos b\u00e1sicos de cren\u00e7a religiosa.<\/p>\n<p>O tipo \u201cpag\u00e3o\u201d tem, como caracter\u00edstica essencial, a id\u00e9ia de que o divino \u00e9 \u201c[&#8230;] alguma parte, aspecto, for\u00e7a ou princ\u00edpio no universo, aberto \u00e0 nossa experi\u00eancia e pensamento ordin\u00e1rio\u201c (Clouser, 2005\u00aa:44). Nessa concep\u00e7\u00e3o a realidade \u00e9 vista como um <i>continuum<\/i> ontol\u00f3gico, sendo que algumas regi\u00f5es desse <i>continuum<\/i> s\u00e3o divinas e as outras s\u00e3o dependentes. Esse tipo de cren\u00e7a n\u00e3o se limita \u00e0s formas c\u00falticas de paganismo, nas quais, por exemplo, uma for\u00e7a da natureza, como as \u201ctempestades\u201d (Ba\u2019al, Zeus, J\u00fapiter) \u00e9 adorada como divina. Essas formas c\u00falticas entraram em decl\u00ednio pela influ\u00eancia do Hindu\u00edsmo, Budismo e Isl\u00e3, mas suas cren\u00e7as subjacentes s\u00e3o ainda sustentadas no ocidente, como no caso do pitagorismo (a cren\u00e7a no aspecto quantitativo da realidade como incondicionado) ou do materialismo de Marx, por exemplo (Clouser, 2005\u00aa:45,46). Sob essa categoria Clouser inclui tamb\u00e9m as cosmovis\u00f5es dualistas, como a doutrina Tao\u00edsta do Yin-Yang e o dualismo grego Mat\u00e9ria\/Forma (Clouser, 2005\u00aa:47).<\/p>\n<p>O tipo \u201cpante\u00edsta\u201d de religi\u00e3o teria seus principais representantes no Hindu\u00edsmo e no Budismo. Clouser faz a interessante observa\u00e7\u00e3o de que, de certo modo, o pante\u00edsmo inverte o arranjo ontol\u00f3gico do paganismo: \u201cAo inv\u00e9s de localizar o divino como uma subdivis\u00e3o de uma realidade cont\u00ednua, a cren\u00e7a pante\u00edsta \u00e9 de que, seja o que for, que experimentemos como realidade n\u00e3o-divina, isso \u00e9, na verdade, uma subdivis\u00e3o da realidade divina, que \u00e9 tanto infinita como todo-abrangente\u201d (Clouser, 2005\u00aa:48). Ou seja, paganismo e pante\u00edsmo concordam em ver a realidade como um <i>continuum<\/i>, sendo que no primeiro o divino \u00e9 uma subdivis\u00e3o do todo, e no segundo o todo \u00e9 uma subdivis\u00e3o do divino. No pante\u00edsmo, portanto, as coisas parecem ser n\u00e3o-divinas por um efeito de ilus\u00e3o; de fato, se algo \u00e9 dependente, ent\u00e3o esse algo n\u00e3o \u00e9 verdadeiramente real, pois somente o divino \u00e9 real.<\/p>\n<p>O tipo \u201cb\u00edblico\u201d de religi\u00e3o teria, como caracter\u00edstica central, <i>a nega\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de uma realidade cont\u00ednua<\/i>. Clouser estabelece este ponto da forma mais forte poss\u00edvel, quando declara que \u201co Ser de Deus n\u00e3o \u00e9 o ser da cria\u00e7\u00e3o\u201d (Clouser, 1999:44), rompendo explicitamente com a analogia do Ser do pensamento metaf\u00edsico.<a title=\"\" href=\"#_ftn4\">[4]<\/a> O juda\u00edsmo, o cristianismo e o Isl\u00e3 receberam a id\u00e9ia hebraica de cria\u00e7\u00e3o, na qual o Criador \u00e9 distinto do universo criado por ele, e este universo surge \u201cdo nada\u201d. Desse modo, as tradi\u00e7\u00f5es religiosas de origem b\u00edblica distinguem-se do paganismo, ao rejeitar a exalta\u00e7\u00e3o de uma parte da cria\u00e7\u00e3o ao status de divindade, e do pante\u00edsmo, recusando sua no\u00e7\u00e3o de cosmo ilus\u00f3rio. Parte tamb\u00e9m desse tipo de cren\u00e7a, ao menos em princ\u00edpio, seria a rejei\u00e7\u00e3o das interpreta\u00e7\u00f5es dualistas do cosmo e, consequentemente, do dualismo antropol\u00f3gico que tenta atribuir a um ou outro aspecto da condi\u00e7\u00e3o humana a preemin\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos outros. Finalmente, h\u00e1 uma consistente \u00eanfase, no interior dessa tradi\u00e7\u00e3o, na gravidade do pecado da idolatria \u2013 a nega\u00e7\u00e3o da descontinuidade b\u00e1sica <i>Criador-criatura<\/i>, como a origem do mal humano.<a title=\"\" href=\"#_ftn5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a02. O Impacto da Cren\u00e7a Religiosa no Pensamento Te\u00f3rico-Cient\u00edfico<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><i>Explica\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica e Pressuposi\u00e7\u00e3o Metaf\u00edsica<\/i><\/p>\n<p>Segundo Clouser, seria imposs\u00edvel a constru\u00e7\u00e3o ou ado\u00e7\u00e3o de teorias cient\u00edficas sem a regula\u00e7\u00e3o interna de algum tipo de vis\u00e3o metaf\u00edsica sobre a natureza essencial da realidade.<a title=\"\" href=\"#_ftn6\">[6]<\/a> A raz\u00e3o disso \u00e9 que, na constru\u00e7\u00e3o de teorias sobre a realidade, n\u00f3s n\u00e3o apenas identificamos os objetos da nossa experi\u00eancia, mas manipulamos conceitos sobre esses objetos, e nossas pressuposi\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas controlam a pr\u00f3pria formula\u00e7\u00e3o dos conceitos.<\/p>\n<p>Todos os objetos reais, segundo Clouser, apresentam diferentes tipos de propriedades, sendo que cada tipo de propriedade pode ser relacionado com uma \u201cregularidade\u201d ou \u201clei\u201d. A rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito cognoscente e os objetos reais sempre se d\u00e1 dentro dos limites dessas leis, que garantem a diversidade e regularidade dos tipos de propriedades. Clouser chama os diferentes tipos de leis e propriedades de <i>aspectos<a title=\"\" href=\"#_ftn7\"><b>[7]<\/b><\/a><\/i> e, \u00e0s disciplinas que se dedicam a cada aspecto, de <i>ci\u00eancias<\/i> (Clouser, 2005\u00aa:67).<\/p>\n<p>H\u00e1 varia\u00e7\u00f5es no modo da rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito e os objetos de sua experi\u00eancia. Clouser segue o pensamento de Herman Dooyeweerd, distinguindo entre dois n\u00edveis b\u00e1sicos de experi\u00eancia cognitiva. No n\u00edvel <i>ordin\u00e1rio<\/i>, ou pr\u00e9-te\u00f3rico, temos a forma\u00e7\u00e3o de conceitos a partir da \u201caten\u00e7\u00e3o\u201d a certas particularidades dos fatos da experi\u00eancia. Neste n\u00edvel, n\u00e3o h\u00e1 muito rigor e controle na forma\u00e7\u00e3o dos conceitos. J\u00e1 no n\u00edvel <i>te\u00f3rico<\/i>, \u201cintensificamos\u201d a aten\u00e7\u00e3o de modo a considerar analiticamente certas propriedades daquele fato. Praticamos, assim, a abstra\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, em diferentes n\u00edveis. Abstrair \u00e9 \u201cextrair\u201d, por assim dizer, conjuntos de propriedades de seu contexto concreto (os objetos da experi\u00eancia). No n\u00edvel ordin\u00e1rio, temos a <i>baixa abstra\u00e7\u00e3o<\/i>, e, no n\u00edvel te\u00f3rico, a <i>alta abstra\u00e7\u00e3o<\/i> (Clouser, 2005\u00aa:64).<\/p>\n<p>O \u201cmaterial\u201d abstra\u00eddo \u00e9 utilizado para construir <i>conceitos<\/i>. Um conceito seria \u201c[&#8230;] a combina\u00e7\u00e3o no pensamento de duas ou mais propriedades, rela\u00e7\u00f5es, partes de coisas, em concord\u00e2ncia com as leis da l\u00f3gica\u201d (Clouser, 1996b:6). No pensamento pr\u00e9-te\u00f3rico, as conex\u00f5es l\u00f3gicas s\u00e3o feitas inconscientemente, como parte de um processo natural, acompanhando o tipo de inten\u00e7\u00e3o que o indiv\u00edduo tem em certo momento (social, est\u00e9tica, biol\u00f3gica, etc.). No pensamento te\u00f3rico o indiv\u00edduo realiza <i>atos logicamente qualificados<\/i>, que concentram a inten\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas entre as coisas; assim, <i>no pensamento te\u00f3rico, as conex\u00f5es l\u00f3gicas s\u00e3o feitas de modo consciente e sistem\u00e1tico<\/i>. Ter\u00edamos, pois, dois tipos de conceitos: os pr\u00e9-te\u00f3ricos e os te\u00f3ricos. A caracter\u00edstica do conceito te\u00f3rico seria o rigor na distin\u00e7\u00e3o dos tipos de propriedades e o controle l\u00f3gico no estabelecimento de conex\u00f5es entre as propriedades, rela\u00e7\u00f5es e partes de coisas.<\/p>\n<p>O que s\u00e3o essas \u201cconex\u00f5es l\u00f3gicas\u201d? Clouser apresenta inicialmente alguns exemplos da f\u00edsica. Na f\u00f3rmula densidade=massa\/volume (d=m\/vl) temos um exemplo muito simples de nexo l\u00f3gico, no qual tr\u00eas propriedades f\u00edsicas s\u00e3o abstra\u00eddas e correlacionadas com o fim de obter-se uma \u201cregularidade\u201d, isto \u00e9, uma lei. Essas rela\u00e7\u00f5es entre propriedades s\u00e3o a mat\u00e9ria fundamental para a constru\u00e7\u00e3o de teorias. Como \u00e9 evidente, tais rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o estabelecidas no pensamento pr\u00e9-te\u00f3rico; elas exigem a alta abstra\u00e7\u00e3o e a concentra\u00e7\u00e3o l\u00f3gica sobre as propriedades abstra\u00eddas, produzindo, como resultado, conceitos te\u00f3ricos sobre as propriedades e sobre suas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por sua pr\u00f3pria natureza, o ato logicamente qualificado n\u00e3o pode conter a totalidade do fato real. Pois a sua caracter\u00edstica definidora \u00e9 a intensifica\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o, que conduz ao <i>isolamento de certas particularidades<\/i> do fato, para serem submetidas a s\u00ednteses l\u00f3gicas. Este isolamento das particularidades pode, num primeiro momento, p\u00f4r sua aten\u00e7\u00e3o nas diferentes \u201cpartes\u201d do fato, e em suas rela\u00e7\u00f5es, mas s\u00f3 se transforma em explica\u00e7\u00e3o te\u00f3rica quando procuramos formar conceitos sobre essas \u201cpartes\u201d, com a finalidade de <i>explicar como elas se articulam<\/i>. Isso significa que precisamos considerar as particularidades do fato <i>definindo-as a partir de suas propriedades<\/i>, buscando correlacionar logicamente essas propriedades. A explica\u00e7\u00e3o te\u00f3rica sempre envolve, desse modo, a abstra\u00e7\u00e3o de <i>tipos<\/i> de propriedades e de rela\u00e7\u00f5es (Clouser, 2005\u00aa:66):<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>[&#8230;] vamos considerar o caso de uma bi\u00f3loga olhando para micr\u00f3bios atrav\u00e9s de um microsc\u00f3pio. Como ela os experimenta, os micr\u00f3bios parecem ter, espacialmente, dimens\u00f5es e forma, sensorialmente, cor, fisicamente, massa, etc. Pode tamb\u00e9m ser significativa a quantidade deles, dentro de certa \u00e1rea. Mas essas propriedades s\u00e3o todas compreendidas do ponto de vista de seu foco abstrativo no aspecto biol\u00f3gico dos micr\u00f3bios. \u00c9 este foco que guia e direciona o seu pensamento. Mesmo que o tamanho, massa, cor e n\u00famero dos micr\u00f3bios n\u00e3o sejam, em si mesmos, propriedades biol\u00f3gicas, s\u00e3o de todo importantes, na medida em que contribuem para a compreens\u00e3o dos processos vitais desses objetos (Clouser, 2005\u00aa:69).<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como fica claro, pelo exemplo acima, Clouser entende que a distin\u00e7\u00e3o dos <i>tipos de propriedades<\/i> \u00e9 intr\u00ednseca ao processo abstrativo, de modo que as propriedades do fato real s\u00e3o consideradas e correlacionadas do ponto de vista desse \u201crecorte\u201d aspectual, seja ele qual for. <a title=\"\" href=\"#_ftn8\">[8]<\/a> E essa distin\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisa ocorrer de forma consciente; na maioria das vezes ocorre automaticamente, em fun\u00e7\u00e3o da totalidade do processo te\u00f3rico, mais ou menos como o movimento que fazemos com os olhos para ler um texto, do qual n\u00e3o temos consci\u00eancia enquanto prestamos aten\u00e7\u00e3o ao texto (Clouser, 2005\u00aa:68).<\/p>\n<p>Temos aqui um ponto chave do pensamento de Clouser: a explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica exige a distin\u00e7\u00e3o dos <i>tipos<\/i> de propriedades para considerar <i>um aspecto<\/i> de certo fato, mas, ao mesmo tempo, precisa considerar a rela\u00e7\u00e3o entre as <i>propriedades de outros tipos<\/i> e o fato, do ponto de vista daquele aspecto.<a title=\"\" href=\"#_ftn9\">[9]<\/a> \u201cAs teorias cient\u00edficas postulam conceitos que combinam propriedades de diferentes tipos e especificam como eles se relacionam\u201d (Clouser, 2005\u00aa:187). Por isso mesmo, explica\u00e7\u00e3o sempre precisa come\u00e7ar por uma hip\u00f3tese sobre a rela\u00e7\u00e3o entre os tipos de propriedades. Essa hip\u00f3tese n\u00e3o \u00e9 dada pela pr\u00f3pria reflex\u00e3o cient\u00edfica, no entanto, mas trazida a ela da reflex\u00e3o pr\u00e9-cient\u00edfica. Assim, o pensamento te\u00f3rico sempre traz consigo uma pr\u00e9-compreens\u00e3o do fato que est\u00e1 sendo conceptualizado, do ponto de vista de sua unidade e estrutura.<\/p>\n<p>Em raz\u00e3o disso, segundo Clouser, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel construir um conceito te\u00f3rico sobre qualquer coisa, sem expressar, em algum momento, uma pressuposi\u00e7\u00e3o sobre a estrutura geral da realidade e da inser\u00e7\u00e3o daquele fato real dentro dessa realidade. Especificamente, a vis\u00e3o que o indiv\u00edduo sustenta sobre quais s\u00e3o os <i>tipos<\/i> b\u00e1sicos de propriedades, isto \u00e9, os <i>aspectos<\/i>, e sobre <i>como eles est\u00e3o relacionados<\/i> controla a explica\u00e7\u00e3o te\u00f3rica dos fatos reais. Examinando os conceitos utilizados por uma teoria cient\u00edfica, seria poss\u00edvel determinar que tipo de rela\u00e7\u00e3o entre os tipos de propriedade isolados pela teoria e os outros tipos de propriedade que comp\u00f5e o horizonte total da experi\u00eancia pr\u00e9-te\u00f3rica.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que, uma hip\u00f3tese geral sobre a natureza e correla\u00e7\u00e3o entre os diferentes aspectos da nossa experi\u00eancia \u00e9 uma hip\u00f3tese metaf\u00edsica muito ampla, que se identifica com uma hip\u00f3tese sobre a natureza e estrutura b\u00e1sica da realidade. Por essa raz\u00e3o, Clouser sustenta que as teorias e conceitos cient\u00edficos n\u00e3o podem evitar a depend\u00eancia de pressuposi\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas.<\/p>\n<p>As pressuposi\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas podem, obviamente, ser tamb\u00e9m submetidas \u00e0 reflex\u00e3o. Isto \u00e9, o indiv\u00edduo pode procurar compreender a estrutura aspectual da realidade como um todo, e tentar explicar a correla\u00e7\u00e3o entre os aspectos. Desde que toda explica\u00e7\u00e3o busca o sentido de algo a partir de outros sentidos, ela dever\u00e1, finalmente, repousar em algo que n\u00e3o significa outra coisa, mas que d\u00e1 sentido a tudo. Por essa raz\u00e3o a metaf\u00edsica cl\u00e1ssica construiu a no\u00e7\u00e3o de \u201cSer\u201d, como a realidade \u00faltima e a fonte do sentido das coisas. Em nosso caso, o pensamento dever\u00e1, necessariamente, buscar algo que transcenda a diversidade aspectual da experi\u00eancia, e que seja capaz de dar sentido a essa diversidade. Esse fato absolutamente prim\u00e1rio e n\u00e3o-significante seria o \u201cfundamento\u201d, isto \u00e9, aquilo do que todos os fatos e aspectos da experi\u00eancia dependem. A realidade <i>n\u00e3o-dependente<\/i>. A pressuposi\u00e7\u00e3o sobre a realidade n\u00e3o-dependente \u00e9 dada, implicitamente, na hip\u00f3tese metaf\u00edsica sobre a rela\u00e7\u00e3o inter-aspectual \u2013 mesmo quando essa hip\u00f3tese n\u00e3o \u00e9 submetida \u00e0 an\u00e1lise filos\u00f3fica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Em suma: \u00e9 o tema da conectividade inter-aspectual que n\u00e3o pode ser evitado e que for\u00e7a as teorias a assumirem ou especificarem a natureza dessa conectividade. Isso n\u00e3o pode ser evitado porque os diferentes tipos aspectuais n\u00e3o podem ser pensados em isolamento; n\u00f3s nos tornamos explicitamente conscientes deles apenas quando os abstra\u00edmos dos objetos da experi\u00eancia pr\u00e9-te\u00f3rica e os diferenciamos, contrastando um com o outro. \u00c9 este fato intrat\u00e1vel que levanta o tema da natureza de sua conectividade, e responder a essa quest\u00e3o \u00e9 o mesmo que propor (ou assumir) alguma id\u00e9ia sobre a natureza b\u00e1sica da realidade (Clouser, 2005\u00aa:191).<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De acordo com Clouser, a estrat\u00e9gia mais comum, na explica\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e cient\u00edfica, \u00e9 a identifica\u00e7\u00e3o de um dos aspectos da experi\u00eancia com a realidade incondicionada. Ou seja, um dos tipos b\u00e1sicos de propriedades e leis identificados na abstra\u00e7\u00e3o \u00e9 utilizado como ponto de partida para explicar a origem dos outros, construindo-se, assim, uma explica\u00e7\u00e3o para a sua interconex\u00e3o. Isso leva ao esfor\u00e7o de reduzir uma dimens\u00e3o da experi\u00eancia a outra. Clouser encaixa os argumentos reducionistas em duas alternativas principais: (1) a demonstra\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia de um aspecto em rela\u00e7\u00e3o a outro, ou <i>redu\u00e7\u00e3o fraca<\/i>, e (2) a elimina\u00e7\u00e3o do aspecto, ou redu\u00e7\u00e3o forte. Temos, portanto, que pressuposi\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas reducionistas constituem a base para teorias metaf\u00edsicas e explica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas reducionistas.<\/p>\n<p>Esse procedimento torna a teoria metaf\u00edsica reducionista bastante plaus\u00edvel, ao menos dentro das ci\u00eancias cujos dom\u00ednios correspondem aos aspectos absolutizados. Esta seria a raz\u00e3o, segundo Clouser, porque o grau de plausibilidade de uma teoria cient\u00edfica varia de pessoa para pessoa, conforme as suas pressuposi\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas. O materialista, o vitalista, o historicista e o fenomenalista t\u00eam percep\u00e7\u00f5es diferentes do mundo, no interior de seu pensamento te\u00f3rico (Clouser, 1996\u00aa:8).<\/p>\n<p>A cr\u00edtica de Clouser a essa estrat\u00e9gia, como o fez antes Dooyeweerd, \u00e9 de que, nesse tipo de procedimento, a experi\u00eancia ordin\u00e1ria, pr\u00e9-cient\u00edfica, na qual a totalidade dos aspectos \u00e9 dada simultaneamente e de forma interdependente, \u00e9 considerada enganosa. A vasta maioria das teorias metaf\u00edsicas rejeita essa experi\u00eancia e procura identificar a natureza b\u00e1sica da realidade <i>no interior do pensamento abstrato<\/i>, escolhendo um ou outro dos aspectos abstra\u00eddos para explicar todos os outros (Clouser, 2005b:2).<\/p>\n<p>Esse procedimento seria filosoficamente question\u00e1vel, em primeiro lugar, porque os aspectos abstra\u00eddos no pensamento te\u00f3rico n\u00e3o s\u00e3o a pr\u00f3pria realidade, mas constru\u00e7\u00f5es mentais, que n\u00e3o podem ganhar preced\u00eancia sobre a experi\u00eancia ordin\u00e1ria de mundo. Pelo contr\u00e1rio, n\u00e3o h\u00e1 explica\u00e7\u00e3o te\u00f3rica capaz de transcender essa experi\u00eancia e superar a primitividade do ordin\u00e1rio. Em segundo lugar, os diferentes aspectos da realidade s\u00e3o dimens\u00f5es irredut\u00edveis, tendo sentidos \u201cprimitivos\u201d que utilizamos para formar conceitos, mas est\u00e3o al\u00e9m da nossa capacidade de an\u00e1lise (isto \u00e9, s\u00e3o \u201ctranscendentais\u201d), podendo apenas ser aproximados por conceitos-limite (Clouser, 2005b;6,7). Isso pode ser percebido se, num experimento mental, tentamos abstrair completamente um aspecto dos outros: no fim, ficamos com uma palavra completamente vazia de conte\u00fado conceptual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><i>Da Religi\u00e3o para a Ci\u00eancia, atrav\u00e9s da Metaf\u00edsica<\/i><\/p>\n<p>\u00c9 exatamente no n\u00edvel da articula\u00e7\u00e3o entre a metaf\u00edsica e a ci\u00eancia que a cren\u00e7a religiosa se encaixa, na opini\u00e3o de Clouser. Isso porque, como vimos, o que caracteriza a cren\u00e7a religiosa \u00e9 a <i>atribui\u00e7\u00e3o de incondicionalidade<\/i>. A cren\u00e7a sobre o que \u00e9 a realidade divina \u00e9, metafisicamente falando, a cren\u00e7a sobre a natureza do fundamento do mundo, isto \u00e9, sobre a realidade n\u00e3o-dependente. E o pensamento te\u00f3rico, tanto cient\u00edfico como filos\u00f3fico, n\u00e3o pode evitar uma pressuposi\u00e7\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre os aspectos da realidade e, consequentemente, sobre a realidade \u00faltima, n\u00e3o-dependente, incondicionada. A teorias sempre s\u00e3o \u201cfor\u00e7adas\u201d, por assim dizer, a oferecer explica\u00e7\u00f5es sobre a natureza da conex\u00e3o inter-aspectual, e assim a se posicionar sobre qual seria a natureza b\u00e1sica da realidade.<\/p>\n<p>Como vimos, anteriormente, h\u00e1 tr\u00eas tipos b\u00e1sicos de cren\u00e7a sobre a realidade \u00faltima: o tipo pag\u00e3o, o tipo pante\u00edsta, e o tipo b\u00edblico. A marca do tipo \u201cpag\u00e3o\u201d \u00e9 a identifica\u00e7\u00e3o de um \u201crecorte\u201d da realidade com o fundamento desta. No interior da atividade cient\u00edfica, o \u201cpaganismo\u201d consistiria da atribui\u00e7\u00e3o de incondicionalidade a um aspecto da experi\u00eancia, abstra\u00eddo no processo te\u00f3rico, com a conseq\u00fcente tentativa de reduzir as propriedades e rela\u00e7\u00f5es dos fatos reais a este aspecto teoricamente abstra\u00eddo. Desse modo,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>A metaf\u00edsica desempenha um papel intermedi\u00e1rio entre as cren\u00e7as sobre a divindade e as teorias cient\u00edficas, e o faz por meio da regula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas da natureza dos postulados cient\u00edficos, mas tamb\u00e9m sobre a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de \u201cexplica\u00e7\u00e3o\u201d. Pois, desde que o divino \u00e9 localizado dentro do universo, o que mais seria uma explica\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o ser mostrar como isto que est\u00e1 sendo explicado \u00e9 eliminado em favor de, ou \u00e9 id\u00eantico com, ou \u00e9 dependente, do divino? Em outras palavras, de um referencial pag\u00e3o, a explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode significar outra coisa que n\u00e3o alguma forma de redu\u00e7\u00e3o (Clouser, 2005b:10).<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Clouser deixa claro que n\u00e3o identifica religi\u00e3o e metaf\u00edsica. A religi\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno humano complexo, e a metaf\u00edsica um procedimento te\u00f3rico. O seu ponto \u00e9 de que a metaf\u00edsica explica a estrutura do real a partir de uma pressuposi\u00e7\u00e3o sobre a realidade incondicional, n\u00e3o-dependente, e que essa pressuposi\u00e7\u00e3o \u00e9 religiosa por natureza, pois o incondicional \u00e9 o divino. E, desde que a ci\u00eancia n\u00e3o pode operar sem pressuposi\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas, n\u00e3o h\u00e1 teoria cient\u00edfica que n\u00e3o pressuponha uma forma de cren\u00e7a religiosa \u2013 pag\u00e3, pante\u00edsta ou b\u00edblica. Assim, <i>a cren\u00e7a religiosa sempre migra para a ci\u00eancia, por meio de suas inevit\u00e1veis pressuposi\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas<\/i>.<\/p>\n<p>O procedimento da redu\u00e7\u00e3o inter-aspectual, refletido nos diversos \u201cismos\u201d te\u00f3ricos \u2013 numerologismo pitag\u00f3rico, materialismo, vitalismo, sensorialismo\/fenomenalismo, logicismo, sociologismo, historicismo, economicismo, etc, seria nada menos que o resultado da aplica\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica, no campo do pensamento te\u00f3rico, de cren\u00e7as religiosas, isto \u00e9, cren\u00e7as sobre a realidade incondicional. Isso n\u00e3o acontece, segundo Clouser, devido a algum \u201cdescuido\u201d por parte dos pensadores, mas devido \u00e0 pr\u00f3pria estrutura do pensamento te\u00f3rico, que n\u00e3o pode evitar a quest\u00e3o da conectividade inter-aspectual e, consequentemente, do <i>arch\u00e9<\/i>, a realidade incondicionada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a03. A Relev\u00e2ncia do Te\u00edsmo para a Ci\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>A partir dessas reflex\u00f5es percebemos qual seria a relev\u00e2ncia do te\u00edsmo para a ci\u00eancia, segundo Clouser. O efeito principal da cren\u00e7a pag\u00e3 sobre a ci\u00eancia moderna e a filosofia tem sido a confus\u00e3o criada pela competi\u00e7\u00e3o de diferentes formas de reducionismo metaf\u00edsico, e a insist\u00eancia em buscar no interior do pensamento abstrato a realidade n\u00e3o-dependente, \u00e9 a garantia de que tal conflito n\u00e3o cessar\u00e1. Nesse contexto, uma perspectiva radicalmente te\u00edsta seria capaz de ajudar a ci\u00eancia a superar a tend\u00eancia ao reducionismo. Contra a tend\u00eancia atual de tentar separar a ci\u00eancia da cren\u00e7a te\u00edsta, Clouser interroga:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>[&#8230;] porqu\u00ea n\u00f3s devemos pensar que f\u00e9s pag\u00e3s podem regular teorias internamente e pervasivamente, mas n\u00e3o a cren\u00e7a em Deus? Porqu\u00ea n\u00e3o devemos esperar que a cren\u00e7a em Deus possa ao menos delimitar um espectro de hip\u00f3teses aceit\u00e1veis, como o fazem as f\u00e9s pag\u00e3s? Porqu\u00ea pensar que apenas as cren\u00e7as em divindades pag\u00e3s podem proporcionar uma base a partir da qual expliquemos a natureza das coisas [&#8230;]? (Clouser, 2005\u00aa:198).<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse ponto cabe uma important\u00edssima qualifica\u00e7\u00e3o na explica\u00e7\u00e3o de Clouser a respeito do te\u00edsmo. Segundo ele, h\u00e1 uma diversidade, dentro do te\u00edsmo, na compreens\u00e3o da natureza de Deus, que tem import\u00e2ncia elevada para o pensamento te\u00f3rico. Muitos te\u00edstas admitem teorias reducionistas por n\u00e3o preservar adequadamente a caracter\u00edstica b\u00e1sica da metaf\u00edsica te\u00edsta, que seria a diferen\u00e7a qualitativa Criador-criatura.<\/p>\n<p>Clouser tratou do problema, inicialmente, ao refletir sobre a natureza da linguagem religiosa, oferecendo uma cr\u00edtica do conceito de analogia. A solu\u00e7\u00e3o anal\u00f3gica argumenta que h\u00e1 uma semelhan\u00e7a entre o Criador e suas criaturas, e que essa semelhan\u00e7a garante a possibilidade de nos referirmos a Deus. Trata-se uma analogia, naturalmente; n\u00e3o \u00e9 que, por exemplo, o amor de Deus seja id\u00eantico ao nosso, mas que \u00e9 semelhante. Esta teoria, que foi sustentada por Agostinho, Tom\u00e1s de Aquino e Anselmo \u00e9 chamada por Clouser de teoria AAA (Clouser, 2005\u00aa:202). Apesar dos defensores da teoria da analogia se esfor\u00e7arem por manter a diferen\u00e7a entre Deus e suas criaturas, Clouser aponta que \u201c\u00c9 simplesmente imposs\u00edvel conceber duas coisas como sendo semelhantes, se ao mesmo tempo supomos que elas n\u00e3o tem propriedades em comum, univocamente\u201d (Clouser, 1983:6). O compartilhamento de qualidades exige, em algum n\u00edvel, a univocidade.<\/p>\n<p>Assim, do ponto de vista do racioc\u00ednio anal\u00f3gico, podemos compreender e nos referir a Deus porque ele compartilhou algumas de suas qualidades com a cria\u00e7\u00e3o. Deste modo, h\u00e1 certa continuidade entre a realidade criada e a natureza divina, na interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00f3gica. Do ponto de vista da tipologia de Clouser, isso constitui uma forma mista de te\u00edsmo e paganismo, pois implica na atribui\u00e7\u00e3o de incondicionalidade a certas qualidades da cria\u00e7\u00e3o.<a title=\"\" href=\"#_ftn10\">[10]<\/a><\/p>\n<p>Em resposta a este te\u00edsmo de s\u00edntese, Clouser faz uma sugest\u00e3o ins\u00f3lita: ao inv\u00e9s de aceitarmos que Deus compartilhou com a cria\u00e7\u00e3o algumas de suas qualidades, devemos reafirmar a aseidade de Deus, e pensar, ao contr\u00e1rio, que <i>Deus assumiu algumas qualidades da sua cria\u00e7\u00e3o, com o fim de relacionar-se com ela<\/i>. Desse modo, os assim-chamados \u201catributos\u201d de Deus n\u00e3o seriam qualidades divinas, mas qualidades da cria\u00e7\u00e3o que Deus assumiu para agir na cria\u00e7\u00e3o. A linguagem religiosa n\u00e3o seria, pois, anal\u00f3gica, mas un\u00edvoca, na medida em que, quando falamos do \u201camor\u201d de Deus, estamos falando de amor, literalmente. A \u201cdivindade\u201d do amor de Deus n\u00e3o estaria, entretanto, no amor, enquanto qualidade, mas no fato de Deus se relacionar conosco a partir dessa qualidade. O Ser incriado de Deus seria \u201clivre de qualidades\u201d (Clouser, 1995:121).<\/p>\n<p>Clouser argumenta que a sua teoria teria sido antecipada pelos pais capad\u00f3cios (Bas\u00edlio de Cesar\u00e9ia, Greg\u00f3rio Nazianzeno, Greg\u00f3rio de Nissa e Macrina, a irm\u00e3 de Bas\u00edlio, que contribuiu em suas id\u00e9ias e na edi\u00e7\u00e3o de seus livros), e nos reformadores, incluindo Lutero mas, principalmente, em Calvino. Na perspectiva capad\u00f3cia, o ser incriado de Deus estaria al\u00e9m de qualquer compreens\u00e3o humana, e a sua condescend\u00eancia teria permitido que ele impusesse a si mesmo um modo humilde de exist\u00eancia, para se relacionar conosco (Clouser, 2005\u00aa:220). Lutero distingue entre o Deus \u201cvestido\u201d e Deus em sua pr\u00f3pria natureza. E Calvino, nas <i>Institutas<\/i>, afirma explicitamente que Deus n\u00e3o revelou a n\u00f3s como \u00e9 em Si mesmo, mas apenas em rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s (Clouser, 2005\u00aa:222). Assim, Clouser denomina esta tradi\u00e7\u00e3o a interpreta\u00e7\u00e3o <i>capadociana-reformacional<\/i> (C\/R) do te\u00edsmo. Essa vers\u00e3o \u00e9 a que ele acredita guardar verdadeiro potencial transformador para a ci\u00eancia: \u201cA vis\u00e3o AAA requer que o cosmos seja explicado reducionisticamente, enquanto que a vis\u00e3o C\/R de Deus pro\u00edbe a redu\u00e7\u00e3o\u201d (Clouser, 2005\u00aa:203).<\/p>\n<p>A partir do te\u00edsmo C\/R, Clouser estabelece dois princ\u00edpios fundamentais para o pensamento te\u00f3rico; o que chama de \u201ccriacionismo universal\u201d, ou princ\u00edpio da <i>pancria\u00e7\u00e3o<\/i>:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cTudo o que n\u00e3o \u00e9 Deus \u00e9 a sua cria\u00e7\u00e3o e nada na cria\u00e7\u00e3o, sobre a cria\u00e7\u00e3o, ou verdadeiro da cria\u00e7\u00e3o \u00e9 auto-existente\u201d, e o princ\u00edpio da <i>irredutibilidade<\/i>: \u201cNenhum aspecto da cria\u00e7\u00e3o deve ser considerado, seja como o \u00fanico aspecto genu\u00edno ou como tornando a exist\u00eancia de qualquer outro aspecto poss\u00edvel ou atual\u201d (Clouser, 2005\u00aa:241). E, partindo de uma an\u00e1lise n\u00e3o-reducionista das estruturas b\u00e1sicas do sentido da realidade, que \u00e9 a conectividade inter-aspectual, ele chega a outros dois princ\u00edpios explanat\u00f3rios: os princ\u00edpios da <i>universalidade aspectual<\/i> (cada aspecto habita em todos os outros) e da <i>inseparabilidade aspectual<\/i> (a inteligibilidade de cada aspecto depende de sua conex\u00e3o com os outros) (Clouser, 2005\u00aa:254,257).<\/p><\/blockquote>\n<p>O te\u00edsmo b\u00edblico, <i>capadociano-reformacional<\/i> surge, ent\u00e3o, como alternativa capaz de superar o reducionismo metaf\u00edsico, na medida em que, ao postular uma descontinuidade fundamental entre o divino e o n\u00e3o-divino, localizando o \u201cSer\u201d divino para al\u00e9m do \u201cser\u201d criado, destr\u00f3i a possibilidade de obter um acesso ao fundamento da realidade no interior do pensamento te\u00f3rico. A <i>diferen\u00e7a qualitativa infinita Criador-criatura<\/i>, utilizada como ponto de partida para a explica\u00e7\u00e3o da conectividade inter-aspectual, garante que a pluralidade-na-unidade dos aspectos seja reconhecida como real (contra o pante\u00edsmo), mas implica em que nenhum dos aspectos artificialmente abstra\u00eddos pode ser considerado mais real que os outros, ou auto-existente. Isso significa, ent\u00e3o, que o te\u00edsmo b\u00edblico de fato ajuda o pensador a compreender a realidade, criando uma atitude positiva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia humana do mundo, em sua primitividade, e gerando uma cr\u00edtica ao dogmatismo da autonomia da raz\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es Finais<\/strong><\/p>\n<p>A proposta de Roy Clouser \u00e9 uma forma modificada mas basicamente fiel ao sistema desenvolvido pelo jurista e fil\u00f3sofo holand\u00eas Herman Dooyeweerd, principalmente em sua obra magna, <i>A New Critique of Theoretical Thought<\/i>, publicada em ingl\u00eas em meados da d\u00e9cada de 50. Clouser parece ter, no entanto, uma grande preocupa\u00e7\u00e3o em tornar a filosofia de Dooyeweerd, que foi denominada \u201cfilosofia da id\u00e9ia cosmon\u00f4mica\u201d, ou, mais comumente, <i>filosofia reformacional,<\/i> uma metodologia acess\u00edvel, capaz de ser aplicada sistematicamente nos diversos campos do saber. Al\u00e9m disso, desenvolveu de forma original alguns temas do pensamento reformacional, como a diferen\u00e7a qualitativa infinita Criador-criatura, a cr\u00edtica ao conceito de analogia, e o desenvolvimento de uma cr\u00edtica original \u00e0 autonomia religiosa do pensamento te\u00f3rico, integrando estudos comparativos de religi\u00e3o e filosofia da religi\u00e3o.<\/p>\n<p>No sistema Dooyeweerdiano-Clouseriano, a regula\u00e7\u00e3o religiosa das teorias \u00e9 interna. Assim, apesar de ser um te\u00edsta crist\u00e3o convicto, dentro da tradi\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica calvinista, Clouser rejeita a tentativa de acomodar teorias cient\u00edficas a interpreta\u00e7\u00f5es literais da B\u00edblia. A raz\u00e3o desse posicionamento n\u00e3o \u00e9, como ele deixa claro, uma descren\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 autoridade das Escrituras crist\u00e3s, que ele aceita como Palavra de Deus; tampouco considera os fundamentalistas muito \u201cradicais\u201d. Pelo contr\u00e1rio, Clouser critica os fundamentalistas por n\u00e3o serem suficientemente consistentes; pois a estrat\u00e9gia da acomoda\u00e7\u00e3o exterior deixa as teorias intactas, mantendo no escuro os seus pressupostos metaf\u00edsicos e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, religiosos. Clouser chama dessa atitude de \u201cpresun\u00e7\u00e3o enciclop\u00e9dica\u201d, que seria in\u00fatil, na maior parte das vezes.<\/p>\n<p>Assim, ao inv\u00e9s de mera acomoda\u00e7\u00e3o, Clouser preconiza uma reforma interna do pensamento te\u00f3rico, no sentido de identificar e modificar as pressuposi\u00e7\u00f5es religiosas das teorias, visando uma regula\u00e7\u00e3o interna da ci\u00eancia pela f\u00e9 te\u00edsta. Vamos concluir a nossa exposi\u00e7\u00e3o com uma declara\u00e7\u00e3o de Clouser a este respeito:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>Oferecendo a alternativa de uma metaf\u00edsica irredutivelmente pluralista, o te\u00edsmo pode apresentar uma d\u00e1diva salutar ao empreendimento cient\u00edfico, e \u00e9 para este projeto mais pervasivo e construtivo que eu gostaria de despertar a aten\u00e7\u00e3o dos te\u00edstas. Tal projeto deve incluir, tanto o desenvolvimento de novas teorias n\u00e3o-reducionistas nas ci\u00eancias, como a elabora\u00e7\u00e3o de interpreta\u00e7\u00f5es n\u00e3o-reducionistas das teorias existentes \u2013 incluindo a teoria da evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica (Clouser, 2001:10).<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>BARBOUR, Ian G. <i>Quando a Ci\u00eancia Encontra a Religi\u00e3o: Inimigas, Estranhas ou Parceiras?<\/i> S\u00e3o Paulo: Cultrix, 1994.<\/p>\n<p>CLOUSER, Roy A. <i>The Myth of Religious Neutrality: An Essay on the Hidden Role of Religious Belief in Theories<\/i>. Revised Edition. Notre Dame: University of Notre Dame Press, 2005a.<\/p>\n<p>CLOUSER, Roy A. <i>Prospects for Theistic Science<\/i>. Perspectives on Science and Christian Faith, March 2006 (online desde: 2005b). Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.freewebs.com\/royclouser\/longerarticles.htm\">http:\/\/www.freewebs.com\/royclouser\/longerarticles.htm<\/a> (acessado em 20\/05\/2006)<\/p>\n<p>CLOUSER, Roy A. <i>Knowing with the Heart: Religious Experience &amp; Belief in God<\/i>. Downers Grove: InterVarsity Press, 1999.<\/p>\n<p>CLOUSER, Roy A. The Uniqueness of Dooyeweerd\u00b4s Program for Philosophy and Science: Whence the Difference? In: GRIFFIOEN, Sander, BALK, Bert M. <i>Christian Philosophy at the Close of the Twentieth Century: Assessment and Perspective<\/i>. Kampen: uitgeverij Kok, 1995, p. 113-125.<\/p>\n<p>CLOUSER, Roy A. On the General Relation of Religion, Metaphysics and Science. In: VAN DER MEER, Jitse M., ed. <i>Facets of Faith and Science, vol 2: The Role of Beliefs in Mathematics and the Natural Sciences: An Augustinian Perspective<\/i>. Lanham: The Pascal Centre for Advanced Studies in Faith and Science\/University Press of America, 1996a, cap. 3. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.freewebs.com\/royclouser\/longerarticles.htm\">http:\/\/www.freewebs.com\/royclouser\/longerarticles.htm<\/a> (acessado em 20\/05\/2006)<\/p>\n<p>CLOUSER, Roy A. A Sketch of Dooyeweerd\u2019s Philosophy of Science. In: VAN DER MEER, Jitse M., ed. <i>Facets of Faith and Science, vol 2: The Role of Beliefs in Mathematics and the Natural Sciences: An Augustinian Perspective<\/i>. Lanham: The Pascal Centre for Advanced Studies in Faith and Science\/University Press of America, 1996b, cap. 4. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.freewebs.com\/royclouser\/longerarticles.htm\">http:\/\/www.freewebs.com\/royclouser\/longerarticles.htm<\/a> (acessado em 20\/05\/2006)<\/p>\n<p>CLOUSER, Roy A. Religious Language: A New Look at an Old Problem. In: HART, H., VAN DER HOEVEN, J., WOLTERSTORFF, N., eds. <i>Rationality in the Calvinian Tradition<\/i>. University Press of America, 1983, p. 385-407. Dispon\u00edvel em:<\/p>\n<p>CLOUSER, Roy. A. Is Theism Compatible with Evolution? In: <i>Intelligent Design Creationism and Its Critics: Philosophical, Theological, and Scientific Perspectives, <\/i>Ed. Rob Pennock. (Cambridge: MIT Press, 2001), 513\u2013536. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.freewebs.com\/royclouser\/longerarticles.htm\">http:\/\/www.freewebs.com\/royclouser\/longerarticles.htm<\/a> (acessado em 20\/05\/2006)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div><\/div>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p>* Graduado em Teologia (Universidade Presbiteriana Mackenzie), Mestre em Teologia (Faculdade Teol\u00f3gica Batista de S\u00e3o Paulo), mestre em Ci\u00eancias da Religi\u00e3o pela UMESP. Diretor de <em>L&#8217;Abri Fellowship Brasil<\/em>, pastor na <em>Igreja Esperan\u00e7a<\/em> e membro do <em>Kuyper Hub.<\/em><\/p>\n<p>** O artigo foi publicado originalmente nos anais do Simp\u00f3sio da ALER de 2005.<\/p>\n<p>[1] Segundo Clouser, para Tillich \u201c[&#8230;] a verdadeira religi\u00e3o \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o ou a cren\u00e7a que tem sucesso em ser direcionada para o infinito, enquanto que a falsa religi\u00e3o \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o que intenciona ser dirigida para o infinito, mas n\u00e3o o alcan\u00e7a. Mas isso mesmo n\u00e3o pode ser correto. Pois as religi\u00f5es te\u00edstas \u2013 Juda\u00edsmo, Cristianismo e Isl\u00e3 \u2013 sustentam a doutrina da cria\u00e7\u00e3o de G\u00eanesis. Elas, portanto, n\u00e3o pretendem crer que qualquer coisa seja infinita no sentido Tillichiano. Ao inv\u00e9s disso, elas deliberadamente cr\u00eaem no Deus Criador que \u00e9 distinto do universo que Ele criou\u201d (Clouser, 2005<sup>a<\/sup>:13,14). Ou seja, a defini\u00e7\u00e3o de Tillich \u00e9 t\u00e3o estreita que <i>elimina as tr\u00eas grandes religi\u00f5es monote\u00edstas<\/i>!<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> \u201c[&#8230;] incluindo: William James, A. C. Bouquet, H. Dooyeweerd, Hans Kung, Paul Tillich, Mircea Eliade, N. Kemp Smith, Joachim Wach, C. S. Lewis, Will Herberg, e Robert Neville, para nomear uns poucos\u201d (Clouser, 2005a:22).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> Clouser introduz ainda uma distin\u00e7\u00e3o significativa entre os sentidos prim\u00e1rio e secund\u00e1rio da cren\u00e7a religiosa. Cren\u00e7as como, por exemplo, a de que a escravid\u00e3o \u00e9 errada, podem ser formadas a partir de cren\u00e7as religiosas, e guardarem uma conex\u00e3o hist\u00f3rica com certa religi\u00e3o, mas, em si mesmas, n\u00e3o s\u00e3o religiosas, pois podem ser ocasionadas por condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o religiosas. Nesses casos, as cren\u00e7as s\u00e3o religiosas num sentido secund\u00e1rio, distinto do abordado aqui (Clouser, 2005\u00aa:26).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> Isso significar\u00e1, evidentemente, uma cr\u00edtica \u00e0 s\u00edntese da metaf\u00edsica aristot\u00e9lica com o cristianismo operada por Tom\u00e1s de Aquino, como uma tentativa de restabelecer a continuidade ontol\u00f3gica entre Deus e o cosmo criado.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> Clouser discute um pouco algumas das implica\u00e7\u00f5es desses diferentes tipos de cren\u00e7a para a vida religiosa (Clouser, 2005\u00aa:51-55).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a> O termo \u201cmetaf\u00edsica\u201d n\u00e3o \u00e9 usado, aqui, com sentido pejorativo, nem para indicar as formas tipicamente gregas de especula\u00e7\u00e3o sobre o \u201cSer-em-si\u201d, mas simplesmente como a teoria sobre a estrutura fundamental da realidade. Em Clouser, o termo \u00e9 intercambi\u00e1vel com \u201contologia\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref7\">[7]<\/a> \u201cAspectos n\u00e3o s\u00e3o [&#8230;] tipos ou classes de coisas, mas tipos de propriedades que a coisas parecem ter, juntamente com a ordem nomol\u00f3gica que vale para estas propriedades\u201d (Clouser, 1996b:1). Uma lista de quinze aspectos, numa escala ascendente, \u00e9 apresentada por Clouser, derivada de Dooyeweerd: (1) quantitativo, (2) espacial, (3) cin\u00e9tico, (4) f\u00edsico, (5) bi\u00f3tico, (6) sens\u00f3rio, (7) l\u00f3gico, (8) hist\u00f3rico, (9) ling\u00fc\u00edstico, (10) social, (11), econ\u00f4mico, (12) est\u00e9tico, (13) \u201cjusticial\u201d, (14) \u00e9tico, (15) fiduci\u00e1rio.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref8\">[8]<\/a> Para Clouser, a abstra\u00e7\u00e3o de tipos de propriedades sempre \u00e9 realizada, embora, geralmente, de forma inconsciente. Quando \u00e9 feita de forma controlada e atenta, temos um n\u00edvel a mais de reflex\u00e3o, que ele descreve como \u201cabstra\u00e7\u00e3o das abstra\u00e7\u00f5es\u201d (Clouser, 2005\u00aa:66). Essa seria a forma de reflex\u00e3o t\u00edpica da teoria geral da realidade, que caracteriza a filosofia e a distingue das ci\u00eancias em geral (Clouser, 2005\u00aa:70).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref9\">[9]<\/a> \u201c[&#8230;] analisar os conceitos [&#8230;] invoca a quest\u00e3o de como as propriedades de diferentes tipos aspectuais inclu\u00eddas nele se relacionam entre si\u201d (Clouser, 2005\u00aa:78).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref10\">[10]<\/a> \u201cPois ela requer que quaisquer tipos de propriedades e leis que s\u00e3o verdadeiros para Deus sejam tamb\u00e9m incriados quando ocorrem nas criaturas, assim como o s\u00e3o em Deus\u201d (Clouser, 1995:119).<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Por Guilherme de Carvalho* &nbsp; Resumo** O fil\u00f3sofo americano Roy Clouser desenvolveu recentemente um modelo para explicar a rela\u00e7\u00e3o entre a religi\u00e3o e a ci\u00eancia, a partir de uma cr\u00edtica interna do empreendimento cient\u00edfico. Segundo Clouser, todo pensamento te\u00f3rico depende de pressuposi\u00e7\u00f5es a respeito da ordem c\u00f3smica cuja natureza \u00e9 indistingu\u00edvel de certos tipos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":23,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-259","page","type-page","status-publish","hentry","count-0","even alt","author-guilhermevrc","last"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/259","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/23"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=259"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/259\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":262,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/259\/revisions\/262"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=259"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}