{"id":110,"date":"2013-08-17T11:53:42","date_gmt":"2013-08-17T14:53:42","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/?page_id=110"},"modified":"2013-08-17T11:55:40","modified_gmt":"2013-08-17T14:55:40","slug":"fp-3-modelos-para-relacionar-ciencia-e-religiao","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/faraday-papers\/fp-3-modelos-para-relacionar-ciencia-e-religiao\/","title":{"rendered":"FP3: Modelos para Relacionar Ci\u00eancia e Religi\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/files\/2013\/08\/fp3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-111 alignleft\" alt=\"Exif_JPEG_PICTURE\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/files\/2013\/08\/fp3.jpg\" width=\"207\" height=\"207\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/files\/2013\/08\/fp3.jpg 336w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/files\/2013\/08\/fp3-150x150.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/files\/2013\/08\/fp3-300x300.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/files\/2013\/08\/fp3-80x80.jpg 80w\" sizes=\"auto, (max-width: 207px) 100vw, 207px\" \/><\/a><em>O Dr. Denis Alexander \u00e9 o Diretor do Faraday Institute for Science and Religion, e Fellow do St Edmund\u2019s College, em Cambridge; \u00e9 tamb\u00e9m Senior Affiliated Scientist no Babraham Institute, em Cambridge, onde foi anteriormente chefe do Programa de Imunologia Molecular e do Laborat\u00f3rio de Sinaliza\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento de Linf\u00f3citos. O Dr. Alexander \u00e9 tamb\u00e9m Editor da revista Science &amp; Christian Belief e autor de Rebuilding the Matrix \u2013 Science and Faith in the 21<sup>th<\/sup> Century (Lion, 2001).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\">\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><b>Resumo<\/b><\/p>\n<p>As intera\u00e7\u00f5es entre ci\u00eancia e religi\u00e3o s\u00e3o variadas e complexas, tanto historicamente como na atualidade. Modelos podem ser \u00fateis para explicar os dados. O artigo compara quatro dos principais modelos propostos para descrever as intera\u00e7\u00f5es de ci\u00eancia e religi\u00e3o, destacando suas for\u00e7as e fraquezas, e conclui que o modelo da \u201ccomplementaridade\u201d \u00e9 o mais frut\u00edfero de todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0***<\/p>\n<p>\u00a0Em ci\u00eancia, modelos rivais freq\u00fcentemente s\u00e3o foco de intenso debate. O termo \u201cmodelo\u201d tem v\u00e1rios sentidos em ci\u00eancia, mas em geral se refere a uma id\u00e9ia chave capaz de incorporar satisfatoriamente certo grupo de dados. No come\u00e7o dos anos 1950, por exemplo, diversos modelos rivais tentaram descrever a estrutura do DNA, a mol\u00e9cula que codifica os genes, mas no final Watson e Crick puseram fim \u00e0 discuss\u00e3o: o modelo da dupla h\u00e9lice de fato proveu a melhor forma de descrever a estrutura do DNA<a title=\"\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<div>\n<p>Seria poss\u00edvel um modelo \u00fanico capaz de esclarecer, de um modo semelhante, o relacionamento entre a ci\u00eancia e a religi\u00e3o? Parece bem improv\u00e1vel. Para come\u00e7ar, ambas s\u00e3o empreendimentos altamente complexos. Al\u00e9m do mais, ambas existem em constante fluxo. Diferentemente da estrutura imut\u00e1vel do DNA, descrita por um modelo \u00fanico e bem estabelecido descoberto recentemente, n\u00e3o h\u00e1 um relacionamento entre a ci\u00eancia e a religi\u00e3o aguardando para ser descoberto. Assim, h\u00e1 boas raz\u00f5es para crer que a abordagem mais segura ao investigar ci\u00eancia e religi\u00e3o seria simplesmente descrever a complexidade dessa rela\u00e7\u00e3o<a title=\"\" href=\"#_ftn2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Mas a vida \u00e9 curta e modelos t\u00eam certa utilidade conceitual para mapear os meios de relacionar diferentes saberes, servindo ao menos como ferramentas introdut\u00f3rias ao que \u00e9 agora uma vasta literatura. Ademais, defensores barulhentos continuam a sustentar que um \u00fanico modelo seria suficiente para cobrir o relacionamento de ci\u00eancia e religi\u00e3o. Assim este artigo tem dois fins principais: o primeiro \u00e9 apresentar quatro dos modelos mais importantes, de modo a permitir a visualiza\u00e7\u00e3o das intera\u00e7\u00f5es entre ci\u00eancia e f\u00e9, e o segundo \u00e9 criticar a no\u00e7\u00e3o de que qualquer um destes modelos isoladamente seja suficiente, embora destacando um modelo em particular que tem se provado o mais frut\u00edfero. Tratamentos completos do tema est\u00e3o dispon\u00edveis, apresentando cole\u00e7\u00f5es de modelos mais nuan\u00e7adas<a title=\"\" href=\"#_ftn3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Definindo Ci\u00eancia e Religi\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Falar a respeito das intera\u00e7\u00f5es entre dois corpos de conhecimento j\u00e1 sup\u00f5e a sua distin\u00e7\u00e3o. Tal suposi\u00e7\u00e3o teria parecido algo sem sentido para os eruditos medievais, para os quais teologia e filosofia natural existiam fundidas em um corpo abrangente de conhecimento. Hoje, no entanto, ao menos no mundo de fala inglesa, o termo \u201cci\u00eancia\u201d \u00e9 comumente usado para se referir \u00e0 \u201cmoderna ci\u00eancia experimental\u201d, um empreendimento claramente distinto da teologia, sendo as linhas de demarca\u00e7\u00e3o h\u00e1 muito reconhecidas pela estrutura universit\u00e1ria. Para os prop\u00f3sitos deste artigo, podemos definir ci\u00eancia como \u201cum esfor\u00e7o intelectual para explicar o funcionamento do mundo f\u00edsico, informado por investiga\u00e7\u00f5es emp\u00edricas e conduzido por uma comunidade treinada em certas t\u00e9cnicas especializadas.\u201d Definir religi\u00e3o de forma sucinta \u00e9 algo notoriamente dif\u00edcil, mas para os nossos objetivos podemos defini-la como \u201cum sistema de cren\u00e7as relacionado a realidades transcendentes, concernente ao prop\u00f3sito e ao sentido do mundo, expresso em certas pr\u00e1ticas sociais\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Os Quatro Modelos de Relacionamento<\/strong><\/p>\n<p>Vamos descrever quatro modelos, destacando tanto a utilidade como as inadequa\u00e7\u00f5es de cada um para lidar com os dados dispon\u00edveis. Na discuss\u00e3o que se segue, \u00e9 preciso lembrar que modelos podem desempenhar tanto o papel descritivo como o normativo: eles reivindicam descrever o que a realidade <i>\u00e9<\/i>, mas freq\u00fcentemente s\u00e3o usados para promover o que ela <i>deveria ser<\/i>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1. O MODELO DO CONFLITO<\/strong><\/p>\n<p>Como o nome sugere, este modelo prop\u00f5e que ci\u00eancia e religi\u00e3o existem em oposi\u00e7\u00e3o fundamental, e que sempre foi assim. A id\u00e9ia \u00e9 claramente expressa por Worrall: \u201cCi\u00eancia e religi\u00e3o est\u00e3o em conflito irreconcili\u00e1vel&#8230; N\u00e3o h\u00e1 modo de manter uma mentalidade apropriadamente cient\u00edfica e ser, ao mesmo tempo, um crente religioso verdadeiro.\u201d <a title=\"\" href=\"#_ftn4\">[4]<\/a> Note-se tanto a presen\u00e7a de elementos descritivos quanto de normativos em sua afirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>&#8211; Apoio para o Modelo<\/i><\/p>\n<p>Sociologicamente falando, h\u00e1 pouca d\u00favida de que esse modelo permanece popular. Em pesquisa recente entre <i>UK Sixth Formers<\/i><a title=\"\" href=\"#_ftn5\">[5]<\/a> por exemplo, 29% concordaram que \u201ca ci\u00eancia est\u00e1 em conflito com a religi\u00e3o\u201d <a title=\"\" href=\"#_ftn6\">[6]<\/a>. Suas suposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o alimentadas pela m\u00eddia, que frequentemente favorece o conflito a fim de prender a aten\u00e7\u00e3o dos ouvintes. Richard Dawkins \u00e9 um defensor estridente do modelo do conflito: \u201cEu retribuo \u00e0s religi\u00f5es o cumprimento de consider\u00e1-las teorias cient\u00edficas e&#8230; eu vejo Deus como uma explica\u00e7\u00e3o concorrente para os fatos do universo e da vida\u201d<a title=\"\" href=\"#_ftn7\">[7]<\/a><\/p>\n<div>\n<blockquote><p><i>\u2018Em geral, o conflito tende a ocorrer quando a ci\u00eancia ou a religi\u00e3o adotam atitudes \u201cexpansionistas\u201d\u2019<\/i><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>A id\u00e9ia de conflito \u00e9 tamb\u00e9m apoiada pelos ramos mais fundamentalistas das f\u00e9s Abra\u00e2micas, que adotam interpreta\u00e7\u00f5es muito literalistas da B\u00edblia ou do Cor\u00e3o. Nos EUA, cerca de 40% da popula\u00e7\u00e3o sustenta cren\u00e7as criacionistas<a title=\"\" href=\"#_ftn8\">[8]<\/a>. Mais recentemente um movimento anti-darwiniano conhecido como Design Inteligente (DI) alcan\u00e7ou a popularidade nos EUA, reivindicando que certas entidades biol\u00f3gicas s\u00e3o demasiado complexas para terem surgido por \u201cacaso\u201d, o que evidenciaria a sua origem por \u201cdesign\u201d, alternativamente. Tanto o criacionismo como o DI conduziram a ostensivos processos legais sobre o curr\u00edculo em escolas nos EUA. No contexto mais secularizado da Europa, onde os curr\u00edculos educacionais s\u00e3o estabelecidos nacionalmente, ao inv\u00e9s de o serem por comit\u00eas escolares locais, como na Am\u00e9rica, o criacionismo e o DI atra\u00edram relativamente pouca aten\u00e7\u00e3o. A despeito disso, a enorme influ\u00eancia da m\u00eddia dos EUA, somada \u00e0 cobertura dada por revistas cient\u00edficas, assegurou a tais conflitos locais uma abrang\u00eancia internacional.<\/p>\n<p>Em geral, o conflito ocorre quando a ci\u00eancia ou a religi\u00e3o adotam atitudes \u201cexpansionistas\u201d, reivindicando responder a quest\u00f5es que pertencem ao outro dom\u00ednio de inquiri\u00e7\u00e3o. Em seu livro <i>Consili\u00eancia<\/i>, por exemplo, E.O. Wilson sugere que todo conhecimento, sem exce\u00e7\u00e3o, incluindo a religi\u00e3o, pode ser transformado em conhecimento cient\u00edfico<a title=\"\" href=\"#_ftn9\">[9]<\/a>. Muitos cientistas e fil\u00f3sofos, em contrapartida, sustentam que tal expansionismo cient\u00edfico \u00e9 um abuso da ci\u00eancia, e que o grande sucesso desta se deve em parte \u00e0 mod\u00e9stia de suas ambi\u00e7\u00f5es explanat\u00f3rias.<\/p>\n<p>Gera\u00e7\u00f5es de escritores que promoveram o modelo do conflito tendem a se apoiar em exemplos hist\u00f3ricos para sustentar sua tese. Epis\u00f3dios como o choque de Galileu com a Igreja em torno da teoria helioc\u00eantrica, e a suposta oposi\u00e7\u00e3o da Igreja \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o Darwiniana s\u00e3o os exemplos costumeiros. Entretanto, apenas a extrema pobreza de conhecimento em literatura de hist\u00f3ria da ci\u00eancia permite o emprego de tal material para sustentar o modelo do conflito. De fato, como discutiremos abaixo, a literatura em geral tende a subverter este modelo<a title=\"\" href=\"#_ftn10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>&#8211; Uma Cr\u00edtica do Modelo do Conflito<\/i><\/p>\n<p>O grau de popularidade de uma id\u00e9ia no dom\u00ednio p\u00fablico \u00e9 um crit\u00e9rio pobre para julgar a sua veracidade. Teorias cient\u00edficas s\u00e3o aceitas com base em dados, n\u00e3o por voto popular. Aqueles que desejam avaliar o modelo do conflito como cientistas devem estar mais interessados em evid\u00eancias do que em popularidade.<\/p>\n<p>O fato de o modelo do conflito ser largamente sustentado por opostos polares, nas margens mais extremas, tanto da comunidade cient\u00edfica como da religiosa, deveria nos fazer cautelosos. O fato \u00e9 que o n\u00famero de cientistas especializados em atacar a religi\u00e3o em nome da ci\u00eancia \u00e9 um min\u00fasculo subconjunto da comunidade cient\u00edfica. Mas com a aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia a voz dos extremistas \u00e9 amplificada. P\u00f3los opostos t\u00eam mais em comum do que gostariam de admitir. Mais interessante, no entanto, \u00e9 a quest\u00e3o das cren\u00e7as religiosas dos cientistas. Se o modelo do conflito tivesse algum valor, poder\u00edamos prever uma rela\u00e7\u00e3o negativa entre a pr\u00e1tica religiosa e a cient\u00edfica. Nos EUA, no entanto, os dados sugerem que a cren\u00e7a em um Deus pessoal que responde a ora\u00e7\u00f5es permaneceu virtualmente inalterada, em torno de 40% dos cientistas entre 1916 e 1996<a title=\"\" href=\"#_ftn11\">[11]<\/a>. Al\u00e9m disso, h\u00e1 na Europa e nos EUA uma pletora de sociedades e peri\u00f3dicos envolvendo cientistas que desejam investigar as implica\u00e7\u00f5es de sua ci\u00eancia para a sua f\u00e9, e tais atividades n\u00e3o indicam qualquer incompatibilidade intr\u00ednseca entre ci\u00eancia e cren\u00e7a religiosa<a title=\"\" href=\"#_ftn12\">[12]<\/a>.<\/p>\n<div>\n<blockquote><p><i>\u2018Os abusos ideol\u00f3gicos da ci\u00eancia contribu\u00edram muito para o modelo do conflito\u2019<\/i><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Os abusos ideol\u00f3gicos da ci\u00eancia contribu\u00edram muito para o modelo do conflito, mas tais aplica\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas n\u00e3o s\u00e3o intr\u00ednsecas \u00e0s teorias. N\u00e3o obstante, pessoas freq\u00fcentemente usam o prest\u00edgio da ci\u00eancia e das \u201cGrandes Teorias\u201d, particularmente, para fundamentar suas ideologias particulares. O fato de a teoria Darwiniana, por exemplo, ter sido usada para apoiar o capitalismo, o comunismo, o racismo, o te\u00edsmo e o ate\u00edsmo deveria, ao menos, levar a uma pausa para reflex\u00e3o<a title=\"\" href=\"#_ftn13\">[13]<\/a>.<\/p>\n<p>O que solapa o modelo do conflito, talvez mais do que qualquer outra coisa, \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a religiosa para a emerg\u00eancia hist\u00f3rica da ci\u00eancia moderna. Muitos dos fil\u00f3sofos naturais com pap\u00e9is chave na funda\u00e7\u00e3o das disciplinas cient\u00edficas atuais viam a sua f\u00e9 em Deus como uma motiva\u00e7\u00e3o importante para a explora\u00e7\u00e3o e a compreens\u00e3o do mundo criado por Ele<a title=\"\" href=\"#_ftn14\">[14]<\/a>. A emerg\u00eancia de aspectos espec\u00edficos da inquiri\u00e7\u00e3o cient\u00edfica foi nutrida pela f\u00e9 Crist\u00e3. A atitude emp\u00edrica (= experimental), por exemplo, t\u00e3o central para desenvolvimento da ci\u00eancia moderna, foi estimulada pela no\u00e7\u00e3o de um relacionamento contingente entre Deus e a ordem criada, de modo que as propriedades da mat\u00e9ria poderiam ser determinadas apenas experimentalmente, ao inv\u00e9s de deduzidas de primeiros princ\u00edpios. A id\u00e9ia de leis cient\u00edficas, articulada claramente pela primeira vez nos escritos de Newton, Boyle e Descartes, foi nutrida pela id\u00e9ia b\u00edblica de Deus como legislador. Hoje nenhum historiador da ci\u00eancia cr\u00ea que o modelo do conflito forne\u00e7a uma estrutura abrangente e satisfat\u00f3ria para explicar as intera\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas entre ci\u00eancia e religi\u00e3o. Quando a fric\u00e7\u00e3o ocorria, tratava-se mais de rusgas entre primos de primeiro grau, e jamais aquele tipo de inimizade que nasce da incompatibilidade essencial<a title=\"\" href=\"#_ftn15\">[15]<\/a>.<br \/>\n<strong>2. O MODELO MNI<\/strong><\/p>\n<p>Stephen Jay Gould popularizou a no\u00e7\u00e3o de que ci\u00eancia e religi\u00e3o pertenceriam a \u201cMagist\u00e9rios N\u00e3o-Interferentes\u201d, ou MNI, em sua obra <i>Rocks of Ages<\/i><a title=\"\" href=\"#_ftn16\">[16]<\/a><i>. <\/i>Segundo ele, ci\u00eancia e religi\u00e3o operam em compartimentos separados, lidando com quest\u00f5es de tipos muito diferentes; assim, por defini\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode haver conflito entre elas. Gould sustentou ainda que a ci\u00eancia lida com fatos, ao passo que a religi\u00e3o lida com \u00e9tica, valores e prop\u00f3sito. Gould n\u00e3o foi o primeiro a sustentar isso, mas vamos aproveitar o r\u00f3tulo \u201cMNI\u201d, inventado por ele, por ser muito conveniente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>&#8211; Apoio para o Modelo<\/i><\/p>\n<p>A melhor evid\u00eancia em favor do modelo MNI \u00e9 precisamente aquela citada por Gould: de fato, ci\u00eancia e religi\u00e3o levantam quest\u00f5es de tipos bem diferentes sobre o mundo. A ci\u00eancia se interessa por explica\u00e7\u00f5es mecanicistas, que elucidem a origem e o funcionamento das coisas. Ela busca generaliza\u00e7\u00f5es amplas, que descrevam as propriedades da mat\u00e9ria para viabilizar predi\u00e7\u00f5es acuradas. A ci\u00eancia busca express\u00f5es matem\u00e1ticas de dados, sempre que poss\u00edvel. O teste experimental e a replicabilidade s\u00e3o fatores cr\u00edticos para o m\u00e9todo cient\u00edfico. A religi\u00e3o, em contraste, se interessa por quest\u00f5es \u00faltimas; como no famoso aforismo de Leibiniz: \u201cPorque h\u00e1 alguma coisa ao inv\u00e9s de nada?\u201d A religi\u00e3o quer saber, em primeiro lugar, porque a ci\u00eancia \u00e9 poss\u00edvel. Nas palavras de Stephen Hawking: \u201cO que p\u00f5e fogo nas equa\u00e7\u00f5es?\u201d Porque o universo se d\u00e1 ao trabalho de existir? Teria a vida um significado ou prop\u00f3sito supremo? Deus existe? Como dever\u00edamos agir no mundo? Gould estava certo: ci\u00eancia e religi\u00e3o levantam quest\u00f5es de tipos diferentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>&#8211; Uma cr\u00edtica do modelo MNI<\/i><\/p>\n<p>Tr\u00eas cr\u00edticas principais podem ser levantadas contra o MNI. A primeira \u00e9 hist\u00f3rica. O pr\u00f3prio Gould mina fatalmente o seu modelo ao escrever cativantes ensaios sobre figuras chave na hist\u00f3ria da ci\u00eancia cujas id\u00e9ias foram grandemente influenciadas por suas cren\u00e7as religiosas<a title=\"\" href=\"#_ftn17\">[17]<\/a>. O tr\u00e1fego constante de id\u00e9ias entre a ci\u00eancia e a religi\u00e3o ao longo de s\u00e9culos, e ainda hoje, \u00e9 um ponto contra a tese de que elas existem em dom\u00ednios separados.<\/p>\n<p>A segunda cr\u00edtica principal destaca que, embora a ci\u00eancia e a religi\u00e3o levantem, sim, quest\u00f5es qualitativamente diferentes, o fato \u00e9 que ambas se referem \u00e0 mesma realidade. A ci\u00eancia deve seu sucesso \u00e0 natureza restrita de suas indaga\u00e7\u00f5es. No entanto, mesmo este foco limitado p\u00f5e \u00e0 mostra fatos que, para muitos cientistas, tem sentido religioso. O Professor Paul Davies, por exemplo, um cosmologista que n\u00e3o adota nenhuma cren\u00e7a religiosa tradicional, descobriu-se for\u00e7ado, diante do elegante ajuste-fino das leis que estruturam do universo, a considerar as explica\u00e7\u00f5es religiosas<a title=\"\" href=\"#_ftn18\">[18]<\/a>. Tais conclus\u00f5es n\u00e3o deveriam acontecer, se o MNI fosse correto em sua vers\u00e3o \u201cforte\u201d.<\/p>\n<p>Um terceiro problema do modelo adv\u00e9m do fato bastante \u00f3bvio de que tanto a ci\u00eancia como a religi\u00e3o s\u00e3o atividades profundamente humanas. O cientista com cren\u00e7as religiosas, que trabalha na Segunda Feira com uma equipe de pesquisa na bancada de um laborat\u00f3rio, \u00e9 a mesma pessoa que adora a Deus com outras pessoas no Domingo, em uma igreja. Embora as duas atividades sejam claramente distintas, o c\u00e9rebro simplesmente n\u00e3o foi projetado para compartimentalizar as diferentes facetas de nossas vidas, como se elas carecessem de conex\u00f5es. De fato, muitos crist\u00e3os encontram sinergias poderosas entre a vida de f\u00e9 e a viv\u00eancia cient\u00edfica<a title=\"\" href=\"#_ftn19\">[19]<\/a>. Ademais, crentes religiosos cuja f\u00e9 requer bases evidenciais argumentariam que suas cren\u00e7as religiosas s\u00e3o t\u00e3o factuais como as suas cren\u00e7as cient\u00edficas. Estas caracter\u00edsticas bem estabelecidas do pensamento e da experi\u00eancia religiosa n\u00e3o se encaixam prontamente com o modelo MNI.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>3. MODELOS DE FUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>Modelos de fus\u00e3o representam o oposto polar do modelo MNI, na sua tend\u00eancia de apagar completamente a distin\u00e7\u00e3o entre os tipos cient\u00edfico e religioso de conhecimento, ou na tentativa de utilizar a ci\u00eancia para construir sistemas religiosos de pensamento, ou vice-versa. O uso do plural (\u201cmodelos\u201d) \u00e9 necess\u00e1rio porque h\u00e1 uma diversidade de estrat\u00e9gias para a fus\u00e3o.<\/p>\n<p>Modelos de fus\u00e3o que partem da ci\u00eancia para a religi\u00e3o s\u00e3o mais favorecidos em sistemas monistas do que em sistemas dualistas de pensamento. Pensar o conhecimento de Deus (teologia) como algo distinto do conhecimento da ordem material (ci\u00eancia) \u00e9 mais f\u00e1cil em culturas influenciadas pelas f\u00e9s abra\u00e2micas, que tradicionalmente distinguem entre Deus e sua cria\u00e7\u00e3o. Em contraste, para culturas influenciadas pelos sistemas monistas de pensamento do Hindu\u00edsmo e do Budismo, nos quais todo conhecimento \u00e9 visto como parte da mesma realidade suprema, at\u00e9 mesmo o falar sobre \u201crelacionar conhecimento cient\u00edfico e religioso\u201d pode soar bem amb\u00edguo. Se todo conhecimento \u00e9 enfim uma parte da mesma realidade, como em princ\u00edpio estes dom\u00ednios podem estar separados? Essa cosmovis\u00e3o vem alimentando livros que sugerem que a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica, por exemplo, se encaixa particularmente com o pensamento religioso oriental, exemplificando assim a abordagem de \u201cfus\u00e3o\u201d<a title=\"\" href=\"#_ftn20\">[20]<\/a>. A teologia do processo tem alguma afinidade com os sistemas monistas de pensamento, e em sua \u201cvers\u00e3o forte\u201d exemplifica o modelo de fus\u00e3o<a title=\"\" href=\"#_ftn21\">[21]<\/a>. Vindo da dire\u00e7\u00e3o oposta, os criacionistas apresentam convic\u00e7\u00f5es religiosas como se fossem ci\u00eancia, buscando fundir conhecimento cient\u00edfico e religioso pela prioriza\u00e7\u00e3o das cren\u00e7as religiosas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>&#8211; Apoio para os Modelos de Fus\u00e3o<\/i><\/p>\n<p>A diversidade entre as tentativas de fundir conhecimento cient\u00edfico e religioso \u00e9 tal que precisar\u00edamos tratar cada caso separadamente, o que o nosso espa\u00e7o n\u00e3o permite. Mas em geral, os modelos de fus\u00e3o t\u00eam o m\u00e9rito de usualmente (mas nem sempre) levarem a s\u00e9rio tanto a ci\u00eancia como a religi\u00e3o; tanto que gostariam de lan\u00e7ar m\u00e3o das convic\u00e7\u00f5es de uma para construir elementos da outra. Tais tentativas devem ser claramente diferenciadas da teologia natural, para a qual certas propriedades da natureza, reveladas pela ci\u00eancia, expressam a exist\u00eancia e\/ou a natureza de Deus. Os modelos de fus\u00e3o v\u00e3o al\u00e9m da teologia natural propondo que o pr\u00f3prio <i>conte\u00fado<\/i> da ci\u00eancia informe o <i>conte\u00fado<\/i> da cren\u00e7a religiosa, e vice-versa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>&#8211; Uma Cr\u00edtica dos Modelos de Fus\u00e3o<\/i><\/p>\n<p>Duas cr\u00edticas mais importantes podem ser feitas aos modelos de fus\u00e3o. A primeira adv\u00e9m da importante decis\u00e3o tomada pelos fundadores da Royal Society, com sua divisa: <i>Nullius in verba<\/i> (\u201ca mera palavra n\u00e3o \u00e9 suficiente\u201d), para focalizar a filosofia natural e evitar discutir religi\u00e3o em seus eventos. A decis\u00e3o n\u00e3o se deveu de modo algum \u00e0 aus\u00eancia de convic\u00e7\u00f5es crist\u00e3s por sua parte \u2013 longe disso \u2013 mas ao seu reconhecimento de que o sucesso no estudo da Cria\u00e7\u00e3o requer um foco em suas propriedades, ao inv\u00e9s do foco em seu sentido supremo. Em retrospecto, a decis\u00e3o parece ter desempenhado um importante papel, ao encorajar o desenvolvimento da ci\u00eancia como um corpo distinto de conhecimento sobre o mundo, marcadamente separado, no que tange ao conte\u00fado de suas publica\u00e7\u00f5es, dos mundos da pol\u00edtica e da religi\u00e3o. De um ponto de vista pragm\u00e1tico, foi um enorme avan\u00e7o. Uma grande for\u00e7a da comunidade cient\u00edfica \u00e9 o fato de pessoas de qualquer f\u00e9 ou nenhuma poderem cooperar na realiza\u00e7\u00e3o de certos objetivos limitados usando m\u00e9todos, t\u00e9cnicas e ve\u00edculos de publica\u00e7\u00e3o padronizados. Ademais, uma forte tend\u00eancia \u00e0 perda de clareza \u00e9 o que se obt\u00e9m quando conceitos cient\u00edficos e religiosos s\u00e3o misturados confusamente no mesmo discurso.<\/p>\n<p>A segunda cr\u00edtica dirige-se \u00e0s tentativas de construir as cren\u00e7as religiosas a partir da ci\u00eancia corrente. O problema com essa abordagem \u00e9 que a ci\u00eancia se move muito r\u00e1pido. As teorias da moda de hoje s\u00e3o os restos de amanh\u00e3. Os que fundamentam suas cren\u00e7as religiosas em teorias cient\u00edficas talvez se descubram edificando sobre a areia.<br \/>\n<strong>4. O MODELO DA COMPLEMENTARIDADE<\/strong><\/p>\n<p>Este modelo sustenta que a ci\u00eancia e a religi\u00e3o referem-se \u00e0 mesma realidade a partir de diferentes perspectivas, provendo explana\u00e7\u00f5es complementares, de modo algum rivais. A linguagem da complementaridade foi originalmente introduzida pelo f\u00edsico Niels Bohr para relacionar as descri\u00e7\u00f5es da mat\u00e9ria como part\u00edcula e como onda; foi necess\u00e1rio sustentar ambas simultaneamente para fazer justi\u00e7a aos dados. Desde o tempo de Bohr a id\u00e9ia de complementaridade vem sendo grandemente ampliada, no interior do di\u00e1logo entre religi\u00e3o e ci\u00eancia, de modo a incluir qualquer entidade que requeira m\u00faltiplos n\u00edveis de explica\u00e7\u00e3o para dar conta de sua complexidade.<\/p>\n<p>O exemplo cl\u00e1ssico \u00e9 a multiplicidade de descri\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 compreens\u00e3o do indiv\u00edduo humano, que correspondem \u00e0 variedade de n\u00edveis de an\u00e1lise proporcionados por disciplinas como a bioqu\u00edmica, a biologia celular, a fisiologia, a psicologia, a antropologia e a ecologia. Nenhuma dessas descri\u00e7\u00f5es cient\u00edficas \u00e9 uma rival das outras \u2013 todas s\u00e3o necess\u00e1rias \u00e0 nossa compreens\u00e3o da complexidade dos seres humanos no contexto de seu ambiente. Um relacionamento complementar semelhante \u00e9 o que une c\u00e9rebro e mente. As descri\u00e7\u00f5es cient\u00edficas dos eventos neuronais que ocorrem durante a atividade cerebral complementam a linguagem do \u201cEu\u201d, da ag\u00eancia pessoal, que reflete os pensamentos da mente consciente. Ignorar um n\u00edvel em favor de outro empobrece a nossa compreens\u00e3o da personalidade humana.<\/p>\n<p>Falando a linguagem da complementaridade, dir\u00edamos que a religi\u00e3o prov\u00ea um conjunto adicional de explana\u00e7\u00f5es, fora dos poderes de avalia\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, ligado a quest\u00f5es factuais sobre o prop\u00f3sito supremo, o valor e o sentido das coisas. Nada, nestes n\u00edveis explanat\u00f3rios da religi\u00e3o, precisa existir em rivalidade com os n\u00edveis explanat\u00f3rios da ci\u00eancia: as descri\u00e7\u00f5es s\u00e3o complementares. Assim como \u00e9 poss\u00edvel, em princ\u00edpio, usar imagens cerebrais para descrever a atividade neuronal do c\u00e9rebro de uma cientista enquanto ela avalia dados em seu laborat\u00f3rio e pondera sobre o seu significado para certa teoria, \u00e9 igualmente poss\u00edvel realizar o mesmo experimento com uma pessoa (a mesma, eventualmente) em outro contexto, enquanto ela mesma avalia a evid\u00eancia em favor de uma cren\u00e7a religiosa. Mas em nenhum caso os dados gerados por neuroimagem poderiam ser usados para justificar (ou n\u00e3o) as conclus\u00f5es internas \u00e0 reflex\u00e3o dessas pessoas; tais conclus\u00f5es teriam de se basear nas considera\u00e7\u00f5es racionais feitas pelas pr\u00f3prias pessoas envolvidas. As reflex\u00f5es pessoais e as descri\u00e7\u00f5es da atividade cerebral durante tais reflex\u00f5es fornecem percep\u00e7\u00f5es complementares de uma realidade unificada. Mas <i>ambos<\/i> os relatos s\u00e3o essenciais para fazer justi\u00e7a ao fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>&#8211; Apoio para o Modelo da Complementaridade<\/i><\/p>\n<p>O modelo tem a grande vantagem de levar a s\u00e9rio tanto a explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica como a religiosa, fazendo justi\u00e7a a ambas. Ao inv\u00e9s de cair na armadilha do reducionismo ing\u00eanuo, de assumir que as explica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas seriam as \u00fanicas relevantes, aspira considerar as quest\u00f5es mais amplas e \u00faltimas que transcendem a ci\u00eancia; mas sem desqualificar o conhecimento cient\u00edfico. Ao mesmo tempo, o modelo tende a subverter os modelos de fus\u00e3o, ao mostrar que estes ou investem as teorias cient\u00edficas de implica\u00e7\u00f5es religiosas injustificadas, ou incorporam cren\u00e7as religiosas a um contexto cient\u00edfico de modo inapropriado, quando na realidade a situa\u00e7\u00e3o requer a explica\u00e7\u00e3o multifacetada que o modelo da complementaridade proporciona. O modelo tamb\u00e9m subverte o cen\u00e1rio desejado por Dawkins, citado acima, no qual as explica\u00e7\u00f5es cient\u00edfica e religiosa aparecem como rivais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>&#8211; Uma Cr\u00edtica do Modelo da Complementaridade<\/i><\/p>\n<p>Duas cr\u00edticas principais t\u00eam sido assestadas contra o modelo. A primeira \u00e9 a de que ele pode escorregar rapidamente para uma forma MNI, fugindo assim \u00e0 dif\u00edcil tarefa de reunir dados aparentemente irreconcili\u00e1veis em uma teoria unificada. Esta \u00e9 uma cr\u00edtica v\u00e1lida levantada por Donald MacKay, para quem explica\u00e7\u00f5es complementares seriam justificadas \u201capenas quando conclu\u00edmos que ambas s\u00e3o necess\u00e1rias para fazer justi\u00e7a \u00e0 experi\u00eancia\u201d <a title=\"\" href=\"#_edn1\">[21]<\/a>.<\/p>\n<p>Conforme a segunda cr\u00edtica, o modelo pode dar a impress\u00e3o de que a ci\u00eancia \u00e9 a esfera da verdade objetiva e dos fatos, ao passo que a religi\u00e3o seria a esfera das convic\u00e7\u00f5es subjetivas e dos valores. Mas n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o, em princ\u00edpio, para supor que descri\u00e7\u00f5es morais e religiosas n\u00e3o possam ser vistas como factuais tais como as descri\u00e7\u00f5es cient\u00edficas. Podemos aceitar, por exemplo, como um fato moral, que o estupro e o canibalismo s\u00e3o errados. Se aceitarmos tais afirma\u00e7\u00f5es como fatos morais, n\u00e3o parecer\u00e1 irracional argumentar que as dimens\u00f5es morais ou religiosas em nossas descri\u00e7\u00f5es complementares da realidade podem ser t\u00e3o factuais quanto a descri\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Conclus\u00f5es<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 um modelo \u00fanico que abranja adequadamente todas as complexidades das intera\u00e7\u00f5es variadas entre a ci\u00eancia e a religi\u00e3o. A despeito disso, um modelo parece ser claramente mais \u00fatil. Para aqueles interessados em dados, mais do que em ret\u00f3rica, o modelo do Conflito carece de plausibilidade, embora a sua exclus\u00e3o n\u00e3o implique a aus\u00eancia de fric\u00e7\u00e3o ocasional. Igualmente, o modelo MNI n\u00e3o convence, ao menos em sua forma \u201cforte\u201d. Os modelos de Fus\u00e3o correm o risco de apagar os limites entre diferentes corpos de conhecimento, que deveriam ser mantidos distintos a bem da clareza. O modelo da complementaridade n\u00e3o d\u00e1 conta de todas as intera\u00e7\u00f5es entre a ci\u00eancia e a religi\u00e3o, mas \u00e9 v\u00e1lido para muitas delas, reconhecendo que a realidade \u00e9 multifacetada. Aqueles que pensam que o conhecimento fornecido por sua pr\u00f3pria especialidade \u00e9 o \u00fanico conhecimento que importa deveriam abrir suas mentes e ser menos paroquiais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p align=\"center\"><b>Os \u201cFaraday Papers\u201d<\/b><\/p>\n<p align=\"center\"><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p>Os <i>Faraday Papers<\/i> s\u00e3o publicados pelo Instituto Faraday para Ci\u00eancia e Religi\u00e3o, St. Edmund\u2019s College, Cambridge, CB3 OBN, UK, uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos para educa\u00e7\u00e3o e pesquisa (<a href=\"http:\/\/www.faraday-institute.org\/\">www.faraday-institute.org<\/a>). As opini\u00f5es expressas s\u00e3o dos autores e n\u00e3o representam necessariamente as vis\u00f5es do instituto. Os Faraday Papers abordam uma ampla gama de t\u00f3picos relacionados \u00e0s intera\u00e7\u00f5es entre ci\u00eancia e religi\u00e3o. Uma lista completa dos Faraday Papers dispon\u00edveis pode ser vista em <a href=\"http:\/\/www.faraday-institute.org\/\">www.faraday-institute.org<\/a> onde c\u00f3pias gratuitas podem ser baixadas em formato pdf. C\u00f3pias impressas como esta podem tamb\u00e9m ser obtidas em ma\u00e7os de dez ou mais ao pre\u00e7o de \u00a31.5 por c\u00f3pia + postagem. Detalhes para encomenda on-line encontram-se em <a href=\"http:\/\/www.faraday-institute.org\/\">www.faraday-institute.org<\/a>.<\/p>\n<p align=\"center\">Data de publica\u00e7\u00e3o: Abril de 2007. \u00a9 The Faraday Institute for Science and Religion<\/p>\n<p align=\"center\">Tradu\u00e7\u00e3o para o Portugu\u00eas: Guilherme V.R. de Carvalho, Novembro de 2008.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Watson J. D. and Crick F. H. C. <i>Nature<\/i> (1953) 171, 737-738.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> John Hedley Brooke, <a href=\"http:\/\/161.58.114.60\/webexclusives.php?article_id=590\">http:\/\/161.58.114.60\/webexclusives.php?article_id=590<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> Barbour, I. <i>When Science Meets Religion<\/i>, San Francisco: Harper (2000); Haught, J. F., <i>Science and Religion: From Conflict to Conversation<\/i>, Paulist Press (2005); Stenmark, M. <i>How to Relate Science and Religion<\/i>, Grand Rapids\/Cambridge: Eerdmans (2004).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a> Worral, J. \u201cScience Discredits Religion\u201d, em: Peterson, M. L. &amp; Van Arragon, R. J. (eds.) <i>Contemporary Debates in Philosophy of Religion<\/i>, Blackwell (2004), p. 60<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a> <i>Sixth Form<\/i> \u00e9 o termo usado no sistema educacional brit\u00e2nico para designar os estudos preparat\u00f3rios para o exame nacional <i>A Level<\/i>, necess\u00e1rio para o ingresso na Universidade. A pesquisa foi feita entre esses estudantes (N. do Tr.).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a> Wilkinson, D. \u201cHawking, Dawkins and The Matrix\u201d, em: Alexander, D. (ed.) <i>Can We Be Sure About Anything?<\/i> Leicester: Apollos (2005) p. 224<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref7\">[7]<\/a> Dawkins, R. <i>River Out of Eden<\/i>, HarperCollins (1995), pp. 46-47. Em Portugu\u00eas: <i>O Rio que Sa\u00eda do \u00c9den<\/i>, Rocco (1996).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref8\">[8]<\/a> Miller, J.D., Scott, E.C. and Okamoto, S. \u201cPublic Acceptance of Evolution\u201d, <i>Science<\/i> (2006) 313: 765-766.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref9\">[9]<\/a> Wilson, E.O. <i>Consili\u00eancia: A Unidade do Conhecimento<\/i>, Campus (1999).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref10\">[10]<\/a> Para leitura posterior: Brooke, J. H. <i>Ci\u00eancia e Religi\u00e3o: Algumas Perspectivas Hist\u00f3ricas<\/i>. Porto Editora, 2005. Lindberg, D.C. <i>The Beginnings of Western Science<\/i>, University of Chicago Press (1992); Lindberg, D. &amp; Numbers, R. (eds.) <i>When Science and Christianity Meet<\/i>, University of Chicago Press (2004); Brooke, J. &amp; Cantor, G. <i>Reconstructing Nature \u2013 The Engagement of Science and Religion<\/i>, T &amp; T Clark, Edinburgh (1998); Harrison, P. <i>The Bible,<\/i> <i>Protestantism and the Rise of Natural Science<\/i>, Cambridge University Press (1998).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref11\">[11]<\/a> Larson, E. J. and Witham, L. \u201cScientists are still keeping the faith\u201d, <i>Nature<\/i> (1997) 386, 435-436. Outra investiga\u00e7\u00e3o ampla, organizada pela Comiss\u00e3o Carnegie entre 60.000 professores universit\u00e1rios nos EUA, aproximadamente um quarto de toda a doc\u00eancia universit\u00e1ria no pa\u00eds, mostrou que 55% daqueles envolvidos em ci\u00eancias f\u00edsicas e ci\u00eancias da vida descreveram a si mesmos como religiosos, e cerca de 43% deles v\u00e3o \u00e0 igreja regularmente.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref12\">[12]<\/a> Por exemplo, <i>Christians in Science <\/i>(<a href=\"http:\/\/www.cis.org.uk\/\">www.cis.org.uk<\/a>); the <i>American Scientific Afilliation<\/i> (<a href=\"http:\/\/www.asa3.org\/\">www.asa3.org<\/a>); the <i>International Society for Science and Religion<\/i> (<a href=\"http:\/\/www.issr.org.uk\/\">www.issr.org.uk<\/a>), mas h\u00e1 muitas outras; ver links em: <a href=\"http:\/\/www.st-edmunds.cam.ac.uk\/faraday\/links.php\">www.st-edmunds.cam.ac.uk\/faraday\/links.php<\/a>.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref13\">[13]<\/a> Alexander, D. R. <i>Rebuilding the Matrix \u2013 Science &amp; Faith in the 21<sup>th<\/sup> Century<\/i>, Oxford: Lion (2001), chapter 7.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref14\">[14]<\/a> See citations in Footnote 9.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref15\">[15]<\/a> See citations in Footnote 9.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref16\">[16]<\/a> \u201c<i>Non-Overlapping Magisteria<\/i> \u2013 NOMA\u201d. Gould, S.J., <i>Os Pilares do Tempo<\/i>, Rocco (2002).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref17\">[17]<\/a> P. ex. Gould, S.J., sobre o Reverendo Thomas Burnet (autor da obra setecentista <i>The Sacred Theory of Earth<\/i>), em: <i>Ever Since Darwin<\/i>, Penguin Books (1980), cap. 17, pp. 141-146.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref18\">[18]<\/a> Davies, P. <i>The Mind of God: The Scientific Basis for a Rational World<\/i>, Simon &amp; Schuster, Ed. Reimpressa (1993); Davies, P.<i> The Goldilocks Enigma: Why is the Universe Just Right for Life?<\/i> London: Allen Lane (2006).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref19\">[19]<\/a> Berry, R.J. (ed.) <i>Real Science, real faith: 16 scientists discuss their work and faith<\/i>, Monarch, reprint (1995).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref20\">[20]<\/a> P. ex. Zukav, G. <i>A Dan\u00e7a dos Mestres Wu Li: Um Panorama da Nova F\u00edsica<\/i>, ECE (1979).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref21\">[21]<\/a> Whitehead, A. N. <i>Process and Reality: An Essay in Cosmology<\/i>, New York: Macmillan (1929). Critical edn. By Griffin, D. R. &amp; Sherbourne, D.W., New York: Macmillan (1978).<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ednref1\">[21]<\/a> MacKay, D.M. <i>The Open Mind<\/i>, Leicester: IVP (1988), p 35.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; O Dr. Denis Alexander \u00e9 o Diretor do Faraday Institute for Science and Religion, e Fellow do St Edmund\u2019s College, em Cambridge; \u00e9 tamb\u00e9m Senior Affiliated Scientist no Babraham Institute, em Cambridge, onde foi anteriormente chefe do Programa de Imunologia Molecular e do Laborat\u00f3rio de Sinaliza\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento de Linf\u00f3citos. 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