{"id":101,"date":"2013-08-17T11:34:53","date_gmt":"2013-08-17T14:34:53","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/?page_id=101"},"modified":"2013-08-17T11:38:09","modified_gmt":"2013-08-17T14:38:09","slug":"a-ciencia-precisa-da-religiao","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/faraday-papers\/a-ciencia-precisa-da-religiao\/","title":{"rendered":"FP2: A Ci\u00eancia Precisa da Religi\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/files\/2013\/08\/fp2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-102 alignleft\" alt=\"fp2\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/files\/2013\/08\/fp2.jpg\" width=\"244\" height=\"163\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/files\/2013\/08\/fp2.jpg 448w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/testedafebrasil\/files\/2013\/08\/fp2-150x99.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 244px) 100vw, 244px\" \/><\/a><em>O Prof. Roger Trigg \u00e9 Professor de Filosofia da Warwick University, Presidente Fundador da Associa\u00e7\u00e3o Filos\u00f3fica Brit\u00e2nica e Presidente Fundador da Sociedade Brit\u00e2nica para a Filosofia da Religi\u00e3o, da qual \u00e9 atualmente Vice-Presidente. Prof. Trigg tem publicado amplamente sobre o relacionamento entre ci\u00eancia, religi\u00e3o e filosofia, incluindo Rationality and Science: Can Science Explain Everything? (Blackwell, 1993), e Rationality and Religion: Does Faith Need Reason? <a title=\"\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a> (Blackwell, 1998).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><b>Resumo<\/b><\/p>\n<p>Deve a ci\u00eancia constituir um sistema fechado, assumindo que toda a realidade est\u00e1 ao seu alcance? Longe de ser aut\u00f4noma, e de definir por seu m\u00e9todo a natureza da racionalidade, a pr\u00f3pria ci\u00eancia se ap\u00f3ia em pressuposi\u00e7\u00f5es fundamentais. Sem d\u00favida, podemos tomar por certa a regularidade e a natureza ordenada do mundo f\u00edsico, bem como a habilidade da mente humana de perceb\u00ea-las. Mas o te\u00edsmo pode explicar esses fatos invocando a racionalidade do Criador.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><strong>O Poder da Raz\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A id\u00e9ia de que a ci\u00eancia seja qualquer coisa <i>menos<\/i> auto-suficiente ou o exemplo supremo da raz\u00e3o humana pode parecer extraordin\u00e1ria para muitos no princ\u00edpio do s\u00e9culo vinte e um. \u201cCertamente\u201d \u2013 dir\u00e3o eles \u2013 \u201ca ci\u00eancia \u00e9, sim, a pr\u00f3pria fonte do conhecimento, e o crit\u00e9rio de tudo o que for racionalmente aceit\u00e1vel.\u201d A possibilidade de que ela necessite de justifica\u00e7\u00e3o posterior, muito menos de um tipo religioso, ser\u00e1 desconsiderada imediatamente por estes. Por essa raz\u00e3o, a ci\u00eancia muitas vezes passa a impress\u00e3o de ser segura e autoconfiante, e a f\u00e9 religiosa, a impress\u00e3o de sempre recuar frente ao avan\u00e7o do conhecimento cient\u00edfico. Algumas vezes os crentes religiosos colocam a sua f\u00e9 na inabilidade atual da ci\u00eancia de explicar alguma coisa. Tal \u00e9, no entanto, uma estrat\u00e9gia arriscada. O mero fato de que n\u00f3s n\u00e3o sabemos o que causa alguma coisa n\u00e3o significa que devamos tomar Deus como a causa evidente. O problema pode ser resultante de uma ignor\u00e2ncia tempor\u00e1ria de nossa parte. Com um maior progresso cient\u00edfico, a lacuna em nosso conhecimento pode ser preenchida, e mais uma raz\u00e3o para a f\u00e9 ser removida. O assim-chamado \u201cDeus das lacunas\u201d \u00e9 um Deus que n\u00e3o fornece seguran\u00e7a, e que rapidamente pode ser tornado desnecess\u00e1rio.<\/p>\n<p>O recuo cont\u00ednuo da f\u00e9 foi representado de forma memor\u00e1vel no famoso poema \u201cDover Beach\u201d, de Matthew Arnold, na metade do s\u00e9culo dezenove (que hoje consideramos ter sido uma \u00e9poca religiosa). Observando a descida da mar\u00e9, ele se referiu ao \u201cmar da f\u00e9\u201d e \u201cseu melanc\u00f3lico e longo bramido de ressaca\u201d. A frase \u00e9 muito citada e ainda tem certa resson\u00e2ncia. \u00c9 f\u00e1cil pensar que a ci\u00eancia seria uma das causas principais da queda da cren\u00e7a religiosa, fato t\u00e3o sem remorsos e prediz\u00edvel como o recuo do mar depois da mar\u00e9 alta. De fato a no\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica de seculariza\u00e7\u00e3o traz consigo muito dessas implica\u00e7\u00f5es. A vis\u00e3o \u00e9 de que haveria uma progress\u00e3o normativa para al\u00e9m da f\u00e9 em dire\u00e7\u00e3o a formas de olhar o mundo que dipensam qualquer necessidade da religi\u00e3o. Haveria, aparentemente, uma inevitabilidade quanto a este processo que significaria que toda religi\u00e3o est\u00e1 destinada a recuar at\u00e9 o ponto da extin\u00e7\u00e3o. \u00c9 desnecess\u00e1rio dizer que, embora isso pare\u00e7a ser acurado quanto ao estado atual da Europa Ocidental, n\u00e3o reflete a realidade social em outras partes do mundo, mesmo em lugares, como os Estados Unidos, onde a ci\u00eancia moderna \u00e9 influente.<\/p>\n<p>Poderia a ci\u00eancia admitir a a\u00e7\u00e3o divina, ou a realiza\u00e7\u00e3o de qualquer inten\u00e7\u00e3o divina? Freq\u00fcentemente se pensa que ela pode ser compreendida em seus pr\u00f3prios termos, sem a necessidade de fazermo-la dependente de qualquer coisa al\u00e9m de si mesma.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia \u00e9 assim vista como a mais pura express\u00e3o da raz\u00e3o humana, sendo a sua fun\u00e7\u00e3o p\u00f4r em fuga as for\u00e7as da supersti\u00e7\u00e3o e da f\u00e9 cega. Este \u00e9 o legado do Iluminismo do s\u00e9culo dezoito, que tendia a ver o mundo como um mecanismo material autocontido, e a raz\u00e3o humana como a chave para compreender o seu funcionamento. Qualquer refer\u00eancia a Deus era, na melhor das hip\u00f3teses, redundante, e na pior delas, uma descida \u00e0 irracionalidade. O Iluminismo tendia a tomar por certo o poder da racionalidade humana. Mas nem a possibilidade da raz\u00e3o e da verdade, nem a ordem e a regularidade no mundo investigado pela ci\u00eancia deveriam ser assumidas assim t\u00e3o facilmente. A racionalidade tem sido vista demasiadas vezes como um fato supremo, e \u00e0s vezes foi quase deificada, como quando ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa igrejas foram convertidas em Templos da Raz\u00e3o. De fato o racionalismo e o materialismo parecem andar de m\u00e3os dadas, de modo que o termo \u201cracionalismo\u201d frequentemente se aproxima de um sin\u00f4nimo para \u201cate\u00edsmo\u201d.<\/p>\n<p>Embora j\u00e1 se tenha visto o mundo em termos mecanicistas, os seres humanos aparentemente foram capazes de se postar fora do mecanismo para compreend\u00ea-lo. Afinal, se a raz\u00e3o fosse ela mesma o produto de um mecanismo causal, como uma pe\u00e7a sofisticada de engenho, n\u00e3o haveria garantias de que o que somos levados a crer seja necessariamente verdadeiro. N\u00f3s simplesmente crer\u00edamos no que fomos induzidos a crer, havendo ou n\u00e3o boas raz\u00f5es para tanto. Para tomar o exemplo da evolu\u00e7\u00e3o: n\u00f3s poder\u00edamos, de acordo com a teoria da sele\u00e7\u00e3o natural, ter evolu\u00eddo de modo a sustentar certas cren\u00e7as naturalmente. Algumas cren\u00e7as poderiam ser ben\u00e9ficas, ajudando-nos a sobreviver e a ter mais descendentes. Alguns argumentam que as pr\u00f3prias cren\u00e7as religiosas poderiam pertencer a esta categoria. No entanto, o prop\u00f3sito deste argumento, no mais das vezes, \u00e9 explicar racionalmente porque alguns tipos de cren\u00e7as s\u00e3o comuns, a despeito de serem falsas; e tal explica\u00e7\u00e3o exige a confian\u00e7a no poder independente da raz\u00e3o humana.<\/p>\n<p>A cren\u00e7a em uma racionalidade universal era t\u00edpica do que veio a ser chamado de modernidade, mas em anos recentes, o assim-chamado \u201cp\u00f3s-modernismo\u201d desafiou esta cren\u00e7a. Como podemos ter certeza de que todos compartilham da mesma habilidade de raciocinar, e que podem juntos alcan\u00e7ar uma verdade que valha para todos? O p\u00f3s-modernismo nega tal no\u00e7\u00e3o e enfatiza ao inv\u00e9s disso as diferen\u00e7as entre \u00e9pocas e tradi\u00e7\u00f5es. O que \u00e9 considerado obviamente verdadeiro em certo tempo e lugar pode ser muito diferente das asser\u00e7\u00f5es aceitas em outro tempo. N\u00e3o haveria ent\u00e3o uma racionalidade todo-abrangente, ou um n\u00facleo comum de racioc\u00ednio que todos os humanos possam compartilhar, nem verdade objetiva sustentando-se de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Tais asser\u00e7\u00f5es (que em si mesmas soam como reivindica\u00e7\u00f5es de verdade objetiva) poderiam solapar a fundamenta\u00e7\u00e3o inteira que subjaz \u00e0 ci\u00eancia. Esta n\u00e3o poderia mais ser vista como aplica\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da raz\u00e3o humana, mas meramente como o resultado dos preconceitos de uma tradi\u00e7\u00e3o particular. Assim n\u00f3s poder\u00edamos falar em ci\u00eancia \u201cOcidental\u201d, ou ci\u00eancia \u201cmoderna\u201d, cujas descobertas n\u00e3o seriam descobertas de modo algum, mas o mero desdobramento de certas pressuposi\u00e7\u00f5es historicamente condicionadas.<\/p>\n<p>Alguns v\u00eam dando boas vindas ao modo como o p\u00f3s-modernismo esvazia as pretens\u00f5es da ci\u00eancia, porque assim, pensam eles, cria-se espa\u00e7o para o funcionamento da religi\u00e3o. Se a ci\u00eancia n\u00e3o puder reivindicar a verdade, tamb\u00e9m n\u00e3o poder\u00e1 excluir a religi\u00e3o com base na falsidade desta. Mas o custo de tal opera\u00e7\u00e3o \u00e9 alto. N\u00e3o apenas a ci\u00eancia surge impotente, como tamb\u00e9m nenhuma cren\u00e7a religiosa pode mais reivindicar veracidade. N\u00e3o havendo raz\u00e3o para fazer ci\u00eancia, tamb\u00e9m n\u00e3o haver\u00e1 raz\u00e3o para ser religiosamente comprometido. A \u201craz\u00e3o\u201d \u00e9 assim destru\u00edda. E nada se segue disso sen\u00e3o que ci\u00eancia e religi\u00e3o constituiriam corpos diferentes de cren\u00e7a, postos em compartimentos autocontidos. Nenhuma poderia atacar ou apoiar, ou dizer qualquer coisa de relevante \u00e0 outra. Cada uma teria de deixar a outra sozinha.<\/p>\n<p>Esse impasse entre corpos de cren\u00e7a, que poderiam at\u00e9 estar em conflito m\u00fatuo, pode ser bem-vindo em alguns lugares. Muitos cient\u00edstas desejam aceitar s\u00f3 metade da est\u00f3ria, a saber, que a religi\u00e3o e a ci\u00eancia n\u00e3o t\u00eam nada a ver uma com a outra. Eles s\u00e3o bem mais relutantes em seguir com a id\u00e9ia p\u00f3s-moderna de que a ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 um produto da raz\u00e3o, e n\u00e3o pode reivindicar verdade. \u00c9 uma premissa compartilhada em ci\u00eancia de que suas reivindica\u00e7\u00f5es, se verdadeiras, o s\u00e3o em todos os tempos e lugares. Elas s\u00e3o igualmente v\u00e1lidas em Washington e em Pequim. E concernem a leis f\u00edsicas que se aplicam tanto aqui e agora, como tamb\u00e9m aos limites do universo e ao princ\u00edpio do tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Separando Ci\u00eancia e Religi\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O bi\u00f3logo evolucion\u00e1rio Stephen Jay Gould adotou a id\u00e9ia por ele denominada \u201cmagist\u00e9rios n\u00e3o-superpostos\u201d.<a title=\"\" href=\"#_ftn2\">[2]<\/a> Com isso ele quis dizer que religi\u00e3o e ci\u00eancia teriam cada uma a sua \u00e1rea de interesse, mas seriam diferentes e n\u00e3o teriam nada que dizer uma \u00e0 outra. Em outras palavras, a linguagem religiosa n\u00e3o estaria no \u201cneg\u00f3cio\u201d de descrever fatos do modo como a ci\u00eancia o faz. A ci\u00eancia diz o que acontece, ao passo que \u00e0 religi\u00e3o fica a tarefa de responder \u201cporque\u201d. Ci\u00eancia e religi\u00e3o n\u00e3o estariam na mesma esfera de discurso. Elas n\u00e3o poderiam argumentar entre si porque tem fun\u00e7\u00f5es diferentes.<\/p>\n<p>Este quadro de uma separa\u00e7\u00e3o absoluta entre ci\u00eancia e religi\u00e3o tem seus atrativos para aqueles que gostariam de impedir a religi\u00e3o de dizer qualquer coisa \u00e0 ci\u00eancia, respeitando ao mesmo tempo a sua liberdade para operar em sua pr\u00f3pria esfera. Desse modo, a ci\u00eancia \u00e9 libertada de reivindica\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias, derivadas de alguma hierarquia eclesi\u00e1stica ou de interpreta\u00e7\u00f5es da B\u00edblia. A raz\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 mantida livre de quaisquer considera\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas, poupando-se da necessidade de lidar com as confus\u00f5es advindas do confronto com a cren\u00e7a religiosa. Ci\u00eancia e religi\u00e3o podem seguir seus pr\u00f3prios caminhos. Isto se encaixa com as tentativas atuais, n\u00e3o apenas de manter igreja e estado separados, mas tamb\u00e9m de fazer da religi\u00e3o um assunto pessoal e privado, em distin\u00e7\u00e3o ao papel p\u00fablico da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas manter ci\u00eancia e religi\u00e3o separadas de forma que elas n\u00e3o lutem entre si \u00e9 apenas metade da hist\u00f3ria. Na perspectiva p\u00f3s-modernista <i>nenhuma delas<\/i> pode reivindicar superioridade; no entanto, muitos cientistas n\u00e3o v\u00eaem a coisa assim. Eles pensam que a ci\u00eancia pode ainda reivindicar veracidade em um sentido objetivo, mostrando o que \u00e9 verdadeiro para todos em todos os tempos. Ela ainda seria a express\u00e3o da racionalidade humana. O resultado dessa perspectiva \u00e9 que a religi\u00e3o, mesmo se insulada de acusa\u00e7\u00f5es de falsidade evidente, passa a ser compreendida como operando em uma \u00e1rea na qual o tipo de verdade literal reivindicado pela ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 v\u00e1lido. Neste caso, dir\u00edamos que ela fala de \u201cvalores\u201d, em distin\u00e7\u00e3o aos \u201cfatos\u201d. Sua preocupa\u00e7\u00e3o seria com o sentido e o prop\u00f3sito que damos \u00e0s nossas vidas, e ela n\u00e3o poderia ser vista como se pondo em rivalidade com a ci\u00eancia. Verdade seria o que a ci\u00eancia nos diz. A religi\u00e3o lidaria com quest\u00f5es pessoais. Em outras palavras, a ci\u00eancia seria objetiva, e a religi\u00e3o, subjetiva. A ci\u00eancia seria o produto da raz\u00e3o, e a religi\u00e3o o fruto de alguma faculdade misteriosa chamada \u201cf\u00e9\u201d. A ci\u00eancia nos falaria sobre o mundo. A religi\u00e3o permitiria a cada um de n\u00f3s efetivar por n\u00f3s mesmos o que consideramos importante. A ci\u00eancia poderia manter o seu lugar no mundo p\u00fablico. A religi\u00e3o seria um assunto privado.<\/p>\n<blockquote><p><i>Uma recusa em postular entidades n\u00e3o-naturais pode ser uma forma de fazer progresso em ci\u00eancia, mas isto n\u00e3o significa que tais entidades n\u00e3o possam existir<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>Se a ci\u00eancia \u00e9 o \u00e1rbitro da verdade, e n\u00e3o pode lidar com eventos n\u00e3o f\u00edsicos, cai exclu\u00edda por defini\u00e7\u00e3o qualquer possibilidade de interven\u00e7\u00e3o divina, ou sobrenatural, no mundo f\u00edsico (de um modo que, incidentalmente, exclui reivindica\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas da doutrina Crist\u00e3 sobre a Encarna\u00e7\u00e3o e a Ressurrei\u00e7\u00e3o). Assim, a recusa da ci\u00eancia de cooperar com a religi\u00e3o leva inevitavelmente \u00e0 vis\u00e3o de que a religi\u00e3o n\u00e3o adiciona nada \u00e0 nossa compreens\u00e3o do funcionamento do mundo investigado pela ci\u00eancia. O que \u00e9 aceito como conhecimento tem de ser submetido a padr\u00f5es p\u00fablicos de teste, por meio de observa\u00e7\u00e3o, medi\u00e7\u00e3o e experimento. A ci\u00eancia \u00e9 feita o \u00e1rbitro do conhecimento aceit\u00e1vel, e seus m\u00e9todos definem a verdade. Qualquer coisa fora do alcance da ci\u00eancia \u00e9 considerada indemonstr\u00e1vel.<\/p>\n<p>Isto est\u00e1 apenas a um pulo da vis\u00e3o positivista de que o que n\u00e3o pode ser cientificamente testado e verificado \u00e9 sem sentido. Como A.J. Ayer disse em seu cl\u00e1ssico <i>Linguagem, Verdade e L\u00f3gica<\/i><a title=\"\" href=\"#_ftn3\">[3]<\/a>, \u201ctodas as proposi\u00e7\u00f5es que tem conte\u00fado factual s\u00e3o hip\u00f3teses emp\u00edricas\u201d. Ele expandiu a declara\u00e7\u00e3o dizendo que \u201ccada hip\u00f3tese emp\u00edrica deve ser relevante para alguma experi\u00eancia atual ou poss\u00edvel\u201d. Declara\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas, para al\u00e9m da experi\u00eancia, seriam estritamente sem sentido e sem conte\u00fado. Tal \u201cpositivismo l\u00f3gico\u201d h\u00e1 tempos foi abandonado, parcialmente porque n\u00e3o p\u00f4de nem mesmo lidar com as entidades te\u00f3ricas da f\u00edsica. N\u00e3o obstante, a sua influ\u00eancia permanece, especialmente quando uma distin\u00e7\u00e3o simpl\u00f3ria \u00e9 tra\u00e7ada entre fatos cient\u00edficos e um nebuloso mundo subjetivo de rea\u00e7\u00f5es pessoais aos fatos. A ci\u00eancia lida com o que \u00e9 \u201cfactual\u201d, e a religi\u00e3o cai exclu\u00edda do mundo dos fatos. As duas n\u00e3o podem se afetar mutuamente, diz-se, mas a premissa oculta \u00e9 a de que reivindica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas s\u00e3o baseadas racionalmente, ao passo que a religi\u00e3o \u00e9 a esfera do irracional.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia \u00e9 por defini\u00e7\u00e3o uma disciplina emp\u00edrica, e o seu m\u00e9todo \u00e9 <i>o<\/i> m\u00e9todo emp\u00edrico por excel\u00eancia. Ela jamais teria feito progressos se tivesse assumido muito facilmente que, caso uma explica\u00e7\u00e3o emp\u00edrica n\u00e3o estivesse imediatamente \u00e0 m\u00e3o, dever-se-ia apelar para a magia ou para o sobrenatural. Qualquer um pode atribuir eventos estranhos a fadas ou duendes nos fundos do jardim, mas a ci\u00eancia moderna focaliza rigorosamente o mundo f\u00edsico, e espera encontrar explica\u00e7\u00f5es f\u00edsicas. Por certo, isso pode significar que seria poss\u00edvel ver o mundo como um sistema f\u00edsico fechado e autocontido. Mas desde o advento da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica se admite que isso seria uma simplifica\u00e7\u00e3o, e que h\u00e1 lacunas ontol\u00f3gicas no n\u00edvel microsc\u00f3pico. N\u00e3o se pode assumir assim t\u00e3o facilmente que eventos n\u00e3o causados devem sempre ser aleat\u00f3rios e inexplic\u00e1veis em termos de qualquer ag\u00eancia externa.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo cient\u00edfico tem produzido resultados. Nosso conhecimento do mundo f\u00edsico e de seus processos vem se acumulando. Parece \u00f3bvio que qualquer ap\u00ealo a uma ag\u00eancia sobrenatural seria \u201cn\u00e3o-cient\u00edfico\u201d. Mas o que devemos concluir disso? Para muitos, significaria que o discurso sobre Deus \u00e9 irracional, desde que a raz\u00e3o reside inteiramente na prov\u00edncia da ci\u00eancia. Mas da mesma forma, tal poderia meramente demonstrar as limita\u00e7\u00f5es intr\u00ednsecas da ci\u00eancia para confrontar aspectos da realidade que transcendem o mundo f\u00edsico ordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Uma recusa em postular entidades n\u00e3o-naturais pode ser uma forma de fazer progresso em ci\u00eancia, mas isso n\u00e3o significa que tais entidades n\u00e3o possam existir, ou que, por exemplo, interven\u00e7\u00f5es divinas n\u00e3o possam acontecer. Nenhum cientista deveria render-se a apelos a duendes, mas isso n\u00e3o nos impele \u00e0 conclus\u00e3o de que o mundo f\u00edsico s\u00f3 pode ser explicado em seus pr\u00f3prios termos, sem a possibilidade l\u00f3gica de uma ag\u00eancia externa. Uma vez que pensemos que a ci\u00eancia pode explicar tudo, qualquer coisa al\u00e9m do seu compasso parecer\u00e1 t\u00e3o irreal quanto um duende. A ci\u00eancia n\u00e3o pode lidar com eventos e entidades n\u00e3o-f\u00edsicas. De fato \u00e9 um paradoxo que a ci\u00eancia seja um produto da mente humana, mas possa lidar com a id\u00e9ia de uma mente apenas por meio da redu\u00e7\u00e3o dela \u00e0s suas origens f\u00edsicas. Isso apenas mostra os poss\u00edveis limites da ci\u00eancia como meio de aquisi\u00e7\u00e3o de conhecimento, de modo algum fechando a quest\u00e3o sobre o que pode ser real. \u00c9 crucial p\u00f4r \u00e0 parte as quest\u00f5es epistemol\u00f3gicas, sobre como obtemos conhecimento, daquelas da metaf\u00edsica, sobre o que h\u00e1 para ser conhecido. N\u00f3s n\u00e3o dever\u00edamos jamais assumir, sem argumenta\u00e7\u00e3o posterior, que o que n\u00e3o pode ser explicado pela ci\u00eancia n\u00e3o pode existir, meramente por esta raz\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A Ci\u00eancia precisa de Deus?<\/strong><\/p>\n<p>A ci\u00eancia n\u00e3o pode escapar de premissas filos\u00f3ficas sobre a estrutura na qual a sua pr\u00f3pria atividade tem lugar. Por um lado, ela tem de assumir que h\u00e1 um mundo real com um car\u00e1ter particular, e que ela mesma n\u00e3o \u00e9 um sistema elaborado de fic\u00e7\u00e3o. Entretanto, a id\u00e9ia de que a ci\u00eancia deva ser isolada de outros ramos de conhecimento putativo apenas faz sentido se j\u00e1 se fez o julgamento de que a ci\u00eancia \u00e9 a \u00fanica fonte de conhecimento, porque nenhuma realidade existiria al\u00e9m do seu alcance. Em ingl\u00eas, a palavra latina para conhecimento, <i>scientia<\/i>, tem sido estreitada para significar apenas conhecimento emp\u00edrico, e isto, talvez, reflita uma asser\u00e7\u00e3o amplamente compartilhada.<\/p>\n<p>Muitos tomam por certo que a ci\u00eancia funciona, e n\u00e3o se incomodam em pensar a respeito do que precisa ser assumido para que tal seja poss\u00edvel. Mas o que garante a nossa pressuposi\u00e7\u00e3o de que a observa\u00e7\u00e3o e o experimento, e toda a pan\u00f3plia do conhecimento emp\u00edrico, tem bases s\u00f3lidas? O fato de que observa\u00e7\u00f5es aqui e experimentos ali podem ser generalizados de modo a obtermos uma aplica\u00e7\u00e3o universal deveria nos deixar surpresos. A ci\u00eancia, no entanto, pode apenas proceder sobre a suposi\u00e7\u00e3o de que cada parte da natureza \u00e9 representativa para outras partes, mesmo em outros lugares do universo. A assim-chamada \u201cuniformidade da natureza\u201d n\u00e3o pode ser descoberta pela ci\u00eancia, desde que sempre apenas uma pequena parte do mundo f\u00edsico ser\u00e1 acess\u00edvel. Mas n\u00f3s assumimos que as leis f\u00edsicas t\u00eam amplo alcance, e que podem nos ajudar a prever o que ainda n\u00e3o ocorreu. Por indu\u00e7\u00e3o, n\u00f3s sempre pensamos que podemos nos mover daquilo que j\u00e1 experimentamos para o que ainda n\u00e3o experimentamos, do conhecido para o desconhecido.<\/p>\n<blockquote><p><i>\u2018<\/i><i>Para a ci\u00eancia ser poss\u00edvel, o mundo deve ser ordenado de modo a se comportar de forma regular e intelig\u00edvel\u2019<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>A ci\u00eancia, na era moderna, n\u00e3o surgiu em um v\u00e1cuo. Por que a \u00eanfase moderna na raz\u00e3o experimental substituiu a inclina\u00e7\u00e3o pr\u00e9via pelo racioc\u00ednio mais especulativo? Ao inv\u00e9s de teorizar, talvez atrav\u00e9s da geometria, sobre como o mundo deveria ser, os cientistas compreenderam a necessidade de investigar como ele na verdade \u00e9; deu-se um crescente reconhecimento da conting\u00eancia do mundo f\u00edsico. Deus, segundo se pensou, n\u00e3o tinha que criar o mundo de uma forma particular. Robert Boyle, por exemplo, acreditava que as leis da natureza eram totalmente dependentes da vontade de Deus, o qual n\u00e3o foi constrangido por nada al\u00e9m de si mesmo. Seguia-se a necessidade de usar a raz\u00e3o para compreender como, na realidade, o mundo fora criado. Mas por que deveria a nossa racionalidade ser capaz de tal feito? Poderia ter parecido a eles que a base para acreditar na compet\u00eancia de nossa d\u00e9bil racionalidade era insuficiente. De modo algum era certo que o mundo se comportava segundo um ordenamento cognosc\u00edvel, mesmo em princ\u00edpio.<\/p>\n<p>Para a ci\u00eancia ser poss\u00edvel, o mundo deve ser ordenado de modo a se comportar de forma regular e intelig\u00edvel, e tamb\u00e9m deve ser compreens\u00edvel, em particular, \u00e0 mente humana. Nenhuma dessas condi\u00e7\u00f5es pode ser tomada por certa. No s\u00e9culo dezessete, \u00e9poca de Newton e Boyle, pensava-se que os padr\u00f5es subjacentes e a ordem presente no mundo f\u00edsico haviam sido criados por uma mente racional e divina. De fato, Deus era visto como a fonte e o fundamento de toda raz\u00e3o. Porque o mundo fora criado por uma mente divina, haveria uma ordem subjacente, de modo que, pela vontade de Deus, o mundo se comporta normalmente de forma previs\u00edvel e regular. De fato o uso do termo \u201clogos\u201d, no princ\u00edpio do Evangelho de Jo\u00e3o, identificando logos e Deus, refere-se a algo muito maior do que meramente palavras e discurso. \u201cLogos\u201d, na filosofia Grega, tem a ver com a racionalidade e a inteligibilidade inerente a todas as coisas. Assim, podemos falar de biologia, o logos sobre a vida, e mesmo de teologia, o logos sobre Deus. A raz\u00e3o inerente \u00e0s coisas, refletindo a racionalidade do Criador, tamb\u00e9m torna poss\u00edveis a reflex\u00e3o racional e a descoberta. Podemos raciocinar cientificamente porque h\u00e1 uma estrutura racional inerente ao mundo. Al\u00e9m disso, pensava-se, tal \u00e9 poss\u00edvel aos humanos porque fomos feitos \u00e0 imagem de Deus, compartilhando de algum modo limitado da Sua racionalidade.<\/p>\n<p>Os primeiros brotos da ci\u00eancia moderna surgiram da cren\u00e7a de que h\u00e1 uma racionalidade intr\u00ednseca ao universo f\u00edsico, em virtude de sua cria\u00e7\u00e3o pela pr\u00f3pria fonte de toda raz\u00e3o. Se a Raz\u00e3o permeia todo o universo, e n\u00f3s fomos contemplados com uma participa\u00e7\u00e3o nessa raz\u00e3o, podemos esperar compreender, ao menos de um modo limitado, como o universo funciona. O pano de fundo te\u00edsta deu resposta a duas importantes quest\u00f5es. Por que podemos assumir a regularidade dos processos f\u00edsicos, sejam ou n\u00e3o eles totalmente determinados, e por que as nossas mentes s\u00e3o ajustadas para compreend\u00ea-los? O <i>slogan<\/i> da escola de fil\u00f3sofos e te\u00f3logos conhecida como <i>Platonistas de Cambridge<\/i><a title=\"\" href=\"#_edn1\">[4]<\/a>, que foram influentes no tempo da funda\u00e7\u00e3o da Royal Society depois da Restaura\u00e7\u00e3o da monarquia, era \u201ca raz\u00e3o \u00e9 a l\u00e2mpada do Senhor\u201d. Eles n\u00e3o levantaram nenhuma obje\u00e7\u00e3o \u00e0 inquiri\u00e7\u00e3o racional, sob alega\u00e7\u00f5es de que humanos estariam tentando ir al\u00e9m de si mesmos e considerando-se mestres da Cria\u00e7\u00e3o. Nossa raz\u00e3o seria, como um candeeiro, p\u00e1lida e tremeluzente, se comparada \u00e0 luz da sabedoria de Deus. A despeito disso, seria suficiente para nos capacitar a obter algum conhecimento. Todo o espa\u00e7o era dado por eles para reconhecer a fabilidade e a parcialidade do conhecimento humano; mas sendo n\u00f3s, como se pensava, feitos \u00e0 imagem de Deus, poder\u00edamos obter lampejos de compreens\u00e3o por meio da ci\u00eancia e de outras opera\u00e7\u00f5es da mente humana. Na verdade, de acordo com essa vis\u00e3o da raz\u00e3o como enraizada em Deus, a racionalidade humana n\u00e3o seria uma desamparada. Num sentido geral, ela seria t\u00e3o revelat\u00f3ria dos prop\u00f3sitos de Deus quando a mais espec\u00edfica revela\u00e7\u00e3o ensinada pelo Cristianismo. O Platonismo dos Platonistas de Cambridge<a title=\"\" href=\"#_edn2\">[5]<\/a> era capaz de lidar bem com um contraste entre o conhecimento incerto e vacilante aqui e agora, e o conhecimento perfeito em outra esfera. Essa realidade mais alta estaria, no entanto, refletida em nosso mundo f\u00edsico, de modo que este mundo, com sua estrutura e ordem, dependeria de uma forma superior de exist\u00eancia para fazer sentido.<\/p>\n<div>\n<blockquote><p><i>\u2018Como mat\u00e9ria de fato hist\u00f3rico, a ci\u00eancia moderna se desenvolveu a partir de uma compreens\u00e3o do mundo como Cria\u00e7\u00e3o ordenada por Deus, tendo a sua pr\u00f3pria racionalidade inerente\u2019<\/i><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Diferentemente dos pensadores do s\u00e9culo seguinte, aqueles que pavimentaram a estrada para a ci\u00eancia moderna tanto respeitavam a raz\u00e3o, como criam que a sua import\u00e2ncia se assenta em sua conex\u00e3o com a mente do Criador. A racionalidade pode n\u00e3o ser capaz de responder a cada quest\u00e3o, mas podemos nos apoiar nela at\u00e9 onde ela for, porque \u00e9 uma faculdade conferida por Deus. Isto certamente contradiz qualquer nega\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna do poder da raz\u00e3o. E tamb\u00e9m vai contra a vis\u00e3o do Iluminismo tardio de que a raz\u00e3o deveria ser amarrada \u00e0 experi\u00eancia emp\u00edrica de um modo que o sobrenatural fosse eliminado. Longe de um equacionamento de materialismo e racionalismo, a pr\u00f3pria racionalidade requer um contexto sobrenatural, de acordo com os fundadores da ci\u00eancia moderna.<\/p>\n<p><br clear=\"all\" \/>A sua cren\u00e7a em Deus deu-lhes a confian\u00e7a de que o mundo f\u00edsico, com toda a sua complexidade e vasta extens\u00e3o, poderia ser compreendido. A ci\u00eancia n\u00e3o sumariza a nossa experi\u00eancia passada, meramente, mas pretende mostrar o que n\u00f3s provavelmente vamos experimentar. Ela est\u00e1 no neg\u00f3cio da predi\u00e7\u00e3o, tanto quanto no da descri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como mat\u00e9ria de fato hist\u00f3rico, a ci\u00eancia moderna se desenvolveu a partir de uma compreens\u00e3o do mundo como Cria\u00e7\u00e3o ordenada por Deus, tendo a sua pr\u00f3pria racionalidade inerente. A quest\u00e3o agora \u00e9 se \u00e9 poss\u00edvel prosseguir com confian\u00e7a quando todas as premissas teol\u00f3gicas foram descartadas. Por que o mundo se comporta t\u00e3o regularmente, ao ponto da ci\u00eancia ser capaz de fazer generaliza\u00e7\u00f5es e reivindica\u00e7\u00f5es universais sobre a natureza da realidade f\u00edsica? Por que ele deveria ter tal racionalidade inerente e compreens\u00edvel \u00e0s nossas mentes? Por que at\u00e9 mesmo os s\u00edmbolos altamente abstratos da matem\u00e1tica, uma cria\u00e7\u00e3o da mente humana, deveriam ser capazes, como parece, de expressar o funcionamento do mundo? Sem um apelo a Deus como a fonte e fundamento da raz\u00e3o, o qual fez o mundo de um modo racional, parece haver pouca probabilidade de prover-se qualquer legitima\u00e7\u00e3o externa para a ci\u00eancia. Mas assim que expusermos esse fato para ser aceito em seus pr\u00f3prios termos ou recusado, muitos o rejeitar\u00e3o completamente. E ent\u00e3o a vis\u00e3o cient\u00edfica parecer\u00e1 ser nada mais que o preconceito cultural de uma sociedade particular, num tempo particular.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o apenas restringe a nossa id\u00e9ia de racionalidade ao que for acess\u00edvel \u00e0 metodologia cient\u00edfica; tamb\u00e9m remove toda a confian\u00e7a de que a nossa raz\u00e3o esteja equipada para destravar os mist\u00e9rios do mundo f\u00edsico. Manter a ci\u00eancia e a religi\u00e3o em compartimentos separados \u00e9 negar que elas estejam lidando com o mesmo mundo, e provavelmente implica que a religi\u00e3o n\u00e3o descreve a realidade de modo algum. Ela n\u00e3o teria, assume-se, os poderes para reivindi\u00e7\u00f5es de veracidade que a ci\u00eancia tem.<\/p>\n<p>A n\u00e3o ser que tomemos a ci\u00eancia considerando a sua pr\u00f3pria (e, algumas vezes, demasiado confiante) auto-avalia\u00e7\u00e3o, e nos recusemos a aliviar quaisquer preocupa\u00e7\u00f5es sobre a sua base racional, dever\u00edamos considerar com seriedade o fato de que a cren\u00e7a em Deus, como Criador, proveu no passado uma base firme para a compreens\u00e3o cient\u00edfica. O desejo de compreender as obras do Criador tem sido uma motiva\u00e7\u00e3o excepcional para a ci\u00eancia. Ela dependeu do te\u00edsmo no s\u00e9culo dezessente, no tempo de Newton e Boyle. O s\u00e9culo dezoito viu uma cren\u00e7a crescente de que a ci\u00eancia poderia sobreviver por conta pr\u00f3pria. Mas os ataques contempor\u00e2neos \u00e0 id\u00e9ia de racionalidade \u201cmoderna\u201d sugerem que sem uma base leg\u00edtima a ci\u00eancia n\u00e3o continuar\u00e1 florescendo.<a title=\"\" href=\"#_edn3\">[6]<\/a><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p align=\"center\"><b>Os \u201cFaraday Papers\u201d<\/b><\/p>\n<p align=\"center\"><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p>Os <i>Faraday Papers<\/i> s\u00e3o publicados pelo Instituto Faraday para Ci\u00eancia e Religi\u00e3o, St. Edmund\u2019s College, Cambridge, CB3 OBN, UK, uma organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos para educa\u00e7\u00e3o e pesquisa (<a href=\"http:\/\/www.faraday-institute.org\/\">www.faraday-institute.org<\/a>). As opini\u00f5es expressas s\u00e3o dos autores e n\u00e3o representam necessariamente as vis\u00f5es do instituto. Os Faraday Papers abordam uma ampla gama de t\u00f3picos relacionados \u00e0s intera\u00e7\u00f5es entre ci\u00eancia e religi\u00e3o. Uma lista completa dos Faraday Papers dispon\u00edveis pode ser vista em <a href=\"http:\/\/www.faraday-institute.org\/\">www.faraday-institute.org<\/a> onde c\u00f3pias gratuitas podem ser baixadas em formato pdf. C\u00f3pias impressas como esta podem tamb\u00e9m ser obtidas em ma\u00e7os de dez ou mais ao pre\u00e7o de \u00a31.5 por c\u00f3pia + postagem. Detalhes para encomenda on-line encontram-se em <a href=\"http:\/\/www.faraday-institute.org\/\">www.faraday-institute.org<\/a>.<\/p>\n<p align=\"center\">Data de publica\u00e7\u00e3o: Abril de 2007. \u00a9 The Faraday Institute for Science and Religion<\/p>\n<p align=\"center\">Tradu\u00e7\u00e3o para o Portugu\u00eas: Guilherme V.R. de Carvalho, Setembro de 2007<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Em portugu\u00eas: <i>Racionalidade e Religi\u00e3o<\/i>, Instituto Piaget, 2001.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a> Gould, J.S. <i>Rocks of Ages<\/i>, New York: Ballantine (1999), p. 88. Em portugu\u00eas: <i>Os Pilares do Tempo<\/i>, Rocco (2002).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> Ayer, A.J. <i>Language, Truth and Logic<\/i>, London, Gollancz, (2<sup>nd<\/sup> ed. 1946), p.41. Em portugu\u00eas: <i>Linguagem, Verdade e L\u00f3gica<\/i>, Presen\u00e7a (1991).<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"#_ednref1\">[4]<\/a> Ver Taliaferro, C. &amp; Teply, A.J. (Eds.) <i>Cambridge<\/i><i> Platonist Spirituality<\/i>, (Classics of Western Spirituality), New York: Paulist Press (2004).<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>5 Taliaferro &amp; Teply, op. cit., (3) <i>ibid<\/i><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>6 Para discuss\u00e3o posterior sobre o impacto do materialismo, ver Trigg, R. <i>Philosophy Matters<\/i>, Oxford: Blackwell Publishing (2002), e para uma discuss\u00e3o do lugar da religi\u00e3o na vida p\u00fablica, particularmente em face da influ\u00eancia da ci\u00eancia, ver Trigg, R. <i>Religion in Public Life: Must Faith be Privatized?<\/i> Oxford: Oxford University Press (2007).<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; O Prof. Roger Trigg \u00e9 Professor de Filosofia da Warwick University, Presidente Fundador da Associa\u00e7\u00e3o Filos\u00f3fica Brit\u00e2nica e Presidente Fundador da Sociedade Brit\u00e2nica para a Filosofia da Religi\u00e3o, da qual \u00e9 atualmente Vice-Presidente. 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