{"id":843,"date":"2014-05-08T07:05:06","date_gmt":"2014-05-08T07:05:06","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/taismachado\/?p=843"},"modified":"2014-05-08T10:18:23","modified_gmt":"2014-05-08T10:18:23","slug":"gritos-de-hoje-de-ontem-e","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/taismachado\/2014\/05\/08\/gritos-de-hoje-de-ontem-e\/","title":{"rendered":"Gritos de hoje, de ontem e&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Nessa semana, andando pela cidade de S\u00e3o Paulo, paro num sem\u00e1foro. Enquanto olho para o sinal vermelho ou\u00e7o palavras misturadas e gritadas, e do que consigo entender, frases soltas se repetem: \u201cDe tanto medo de morrer fiquei com medo de viver. Eu quero minha alma de volta. Devolvam minha alma\u201d.<\/p>\n<p>Olhei pelo canto do olho e vi que se tratava de um senhor, talvez por volta de seus 50 e poucos anos, maltrapilho, desses homens de rua que cruzamos o tempo todo, e de tanto encontr\u00e1-los vamos ficando indiferentes. Ignoramos, em geral, suas solicita\u00e7\u00f5es, suas condi\u00e7\u00f5es, e irritados e\/ou assustados, nos afastamos.<\/p>\n<p>Contudo, aquela fala ficou ecoando em mim. Em meio \u00e0s suas perturba\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas aquele homem tinha uma lucidez estranha de sua situa\u00e7\u00e3o, uma vez que lucidez encontra-se quase em extin\u00e7\u00e3o. Ele, com um r\u00e1dio antigo na m\u00e3o e um peda\u00e7o curto de pau (simbolizando um microfone), gritava sua ang\u00fastia e repartia sua realidade.<\/p>\n<p>Por um lado pergunto-me: quem ouve esse gemido? Andamos t\u00e3o apressados, t\u00e3o ensimesmados que gritos de fora somam-se aos gritos de dentro e, por n\u00e3o aguentarmos tanto ru\u00eddo, nos perdemos em afazeres sem fim.<\/p>\n<p>Por outro lado, penso que aquela afli\u00e7\u00e3o, gritada em desespero, retrata a nossa realidade. Assim como aquele homem, j\u00e1 com pouca ou nenhuma refer\u00eancia de sua pr\u00f3pria dignidade, ora se perde em pensamentos desconexos, ora compreende e coloca acertadamente em palavras o que se passa do lado de dentro. Alguns poucos conseguem expressar-se t\u00e3o verdadeiramente bem, assumindo seus medos e consequ\u00eancias, repartindo suas fragilidades e expondo debilidades. Muitos escondem-se atr\u00e1s de m\u00e1scaras, funcionam bancando apar\u00eancia de fortaleza e sabedoria, mas, sofrendo horrores que n\u00e3o nomeiam. Optam pelo orgulho de manter-se em p\u00e9, mas interiormente est\u00e3o prostrados pelo medo, onde a alma perdeu-se.<\/p>\n<p>Os evangelhos registram a hist\u00f3ria de um homem de rua, um cego, que vivia \u00e0 beira do caminho. Limitado por suas condi\u00e7\u00f5es, pedia esmolas. Essa era sua vida, assumir suas limita\u00e7\u00f5es e brigar por ela. \u00a0Mas, certo dia, come\u00e7ou tamb\u00e9m a gritar. Seu grito n\u00e3o foi ignorado. Entretanto, para a maioria o inc\u00f4modo era pior do que suas condi\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o, o mandavam se calar. Mas, ele n\u00e3o s\u00f3 insistia como come\u00e7ou a gritar mais alto ainda: \u201cFilho de Davi, tem miseric\u00f3rdia de mim!\u201d (Mc 10.48). Jesus, que por ali passava, parou e pediu para o chamarem. E assim que ele se aproximou Jesus lhe pergunta: \u201cO que voc\u00ea quer que eu lhe fa\u00e7a?\u201d. N\u00e3o era evidente? Por que essa pergunta? \u00c9 impressionante o n\u00famero de coisas supostamente sabidas, mas pouco assumidas. Em n\u00f3s, seres de desejos e de gula, fica confuso o que realmente queremos ao gritarmos, e at\u00e9 mesmo o que queremos de Deus.<\/p>\n<p>N\u00f3s, n\u00e3o pouca vezes, achamo-nos organizados, bons em articula\u00e7\u00f5es, fazendo liga\u00e7\u00f5es aqui e ali, associa\u00e7\u00f5es variadas, pronunciando-nos sobre tantos assuntos at\u00e9 com alguma distin\u00e7\u00e3o e clareza, por\u00e9m, cegos para nossa real necessidade.<\/p>\n<p>O cego que buscou Jesus respondeu: \u201cMestre, eu quero ver!\u201d (Mc 10.51). Ele n\u00e3o pediu para ter um dia de boas esmolas, n\u00e3o pediu para ter um bom c\u00e3o-guia, n\u00e3o pediu para desfrutar de uma refei\u00e7\u00e3o \u00fanica, enfim, n\u00e3o desperdi\u00e7ou a oportunidade. \u00a0Era cego, mas n\u00e3o era est\u00fapido. E a pergunta de Jesus o ajudou a ter consci\u00eancia clara de sua necessidade priorit\u00e1ria. Sim, boas perguntas podem nos provocar e nos organizar interiormente.<\/p>\n<p>Aquele homem foi atendido em seu gemido. O homem que encontrei essa semana n\u00e3o sei se j\u00e1 foi. Mas pedi a Deus por ele, pedi a Deus por mim. Ele me ajudou a lembrar de ang\u00fastias n\u00e3o nomeadas, de medos devastadores, de n\u00e3o perder a alma em meio \u00e0 confus\u00e3o, de minha pr\u00f3pria cegueira. Ent\u00e3o, tamb\u00e9m clamei&#8230;\u201cFilho de Davi, tem miseric\u00f3rdia de mim, tem miseric\u00f3rdia daqueles que d\u00e3o seu jeito de serem ouvidos e n\u00e3o desistem mesmo quando reprimidos e discriminados, tem miseric\u00f3rdia dos corajosos que se apresentam!\u201d<\/p>\n<p>E \u00e9 bom saber que Jesus nos ouve, nos chama, mas, o que j\u00e1 discernimos da vida?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nessa semana, andando pela cidade de S\u00e3o Paulo, paro num sem\u00e1foro. Enquanto olho para o sinal vermelho ou\u00e7o palavras misturadas e gritadas, e do que consigo entender, frases soltas se repetem: \u201cDe tanto medo de morrer fiquei com medo de viver. Eu quero minha alma de volta. Devolvam minha alma\u201d. Olhei pelo canto do olho [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[4783],"tags":[5536,6019],"class_list":["post-843","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-espiritualidade","tag-fe","tag-sofrimento","count-0","even alt","author-taismachado","last"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/taismachado\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/843","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/taismachado\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/taismachado\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/taismachado\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/taismachado\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=843"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/taismachado\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/843\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":845,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/taismachado\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/843\/revisions\/845"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/taismachado\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=843"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/taismachado\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=843"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/taismachado\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=843"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}