{"id":838,"date":"2014-04-21T18:36:43","date_gmt":"2014-04-21T18:36:43","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/taismachado\/?p=838"},"modified":"2014-04-21T22:38:33","modified_gmt":"2014-04-21T22:38:33","slug":"teologia-do-quartinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/taismachado\/2014\/04\/21\/teologia-do-quartinho\/","title":{"rendered":"Teologia do Quartinho"},"content":{"rendered":"<p>O que nunca foi simples parece estar ainda mais complicado, consideremos as rela\u00e7\u00f5es entre verdade e mentira, fic\u00e7\u00e3o e realidade, ess\u00eancia e apar\u00eancia.<\/p>\n<p>O que caracteriza nossa vida no s\u00e9culo XXI? Vertiginosos processos de espetaculariza\u00e7\u00e3o do nosso mundo, onde apenas o que causa sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 percebido e valorizado, ou seja, experi\u00eancia e intensidade s\u00e3o palavras chaves em nosso tempo.<\/p>\n<p>Vivemos dias onde tudo o que n\u00e3o causa impacto em nossas sensa\u00e7\u00f5es tende a desaparecer rapidamente no fluxo de informa\u00e7\u00f5es, apesar, claro, de que aquilo que nos causa sensa\u00e7\u00f5es fortes tamb\u00e9m desaparecer\u00e1 em breve per\u00edodo, mas ao menos deixa marcas. O que quero destacar \u00e9 o quanto vamos nos tornando viciados em inje\u00e7\u00f5es de sensa\u00e7\u00f5es que agudizam nosso sistema nervoso, favorecendo assim, um jeito de ser que depende de sequ\u00eancias de instantes que nos joguem na vida como montanha russa permanente.<\/p>\n<p>Dentre as sensa\u00e7\u00f5es mais buscadas est\u00e1 o de ser visto, admirado, seguido (criar tend\u00eancia e espalh\u00e1-las com agilidade porque logo se esvai, tudo \u00e9 muito ef\u00eamero \u2013 sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 vapor).<\/p>\n<p>No regime ditatorial da espetaculariza\u00e7\u00e3o da vida crescem novas constru\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias, onde valho quanto causo (provoco sensa\u00e7\u00f5es nos que me cercam), sou quando sou percebida (necessidade de destaque na vitrine da vida).<\/p>\n<p>H\u00e1 sempre muito mais nos obscuros meandros de nossa alma, e qu\u00e3o pouco ainda sabemos da bagagem enigm\u00e1tica que carregamos. Mas, algumas coisas carregamos h\u00e1 muito, constitui-nos como humanidade ca\u00edda.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o de exibirmo-nos, de sermos validados pelo outro, de desejarmos ser n\u00e3o apenas aprovados, mas admirados \u00e9 grande desde sempre. E isso aparece inclusive no \u00e2mbito da espiritualidade.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que queremos novidades (novas e mais intensas sensa\u00e7\u00f5es), trazemos desejos antigos, que nos confundem e nos empurram a pr\u00e1ticas j\u00e1 conhecidas.<\/p>\n<p>Aprecio sempre como as palavras de Jesus s\u00e3o atuais. Como profundo conhecedor de nossa alma carente, de nossos desvios e labirintos interiores, ele adianta e revela comportamentos mascarados, mas que achamos que nunca ningu\u00e9m descobriria o que estava por detr\u00e1s \u2013 achamo-nos convincentes.<\/p>\n<p>Assim diz Jesus: \u201cQuando voc\u00eas orarem, n\u00e3o sejam como os hip\u00f3critas. Eles gostam de ficar orando em p\u00e9 nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos outros\u201d (Mt 6.5). Jesus, firmemente, denuncia a hipocrisia na espiritualidade. Quem de n\u00f3s escapa?<\/p>\n<p>A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 um convite desafiador para o desvendamento de pr\u00f3pria alma, sempre surpreendente. Contudo, at\u00e9 a ora\u00e7\u00e3o pode ser instrumento fundamental em meu jogo de cena na espetaculariza\u00e7\u00e3o da espiritualidade, uma maneira de esmolarmos aten\u00e7\u00e3o e reconhecimento, provocando sensa\u00e7\u00f5es diversas em mim e no outro.<\/p>\n<p>Jesus instrui seus disc\u00edpulos dizendo: \u201cmas quando voc\u00ea orar, v\u00e1 para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que est\u00e1 sem secreto\u201d (Mt 6.6).<\/p>\n<p>N\u00f3s vivemos num tempo onde a tenta\u00e7\u00e3o \u00e9 abrir a porta do quarto e nos mostrarmo-nos \u2013 exibicionismo de intimidade perdida. \u00c9 muito contracultura o que Jesus nos pede. \u00c9 estranho a nossa alma, afinal, vida privada \u00e9 algo que est\u00e1 em desuso, intimidade \u00e9 algo desconhecido e deturpado (novas constru\u00e7\u00f5es vem por a\u00ed?), e discri\u00e7\u00e3o \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil de se viver.<\/p>\n<p>Fechar a porta \u00e9 um trabalho \u00e1rduo e que n\u00e3o nos chama a aten\u00e7\u00e3o por ir na contram\u00e3o do que tem sido mais valorizado, nada glamoroso, ent\u00e3o, quem vai atender a tal pedido e aprender essa nova forma de ser?<\/p>\n<p>Buscamos compensar nossas inseguran\u00e7as quanto ao nosso valor e identidade com frenesis espetaculares, fantasias grandiosas que denunciam a defici\u00eancia de valor e significado.<\/p>\n<p>N\u00e3o ser hip\u00f3crita, n\u00e3o enganar o outro e nem a si mesmo \u00e9 deslocar-se do palco para a coxia, para os bastidores. Encarar a vida a partir de quem se \u00e9, n\u00e3o de quem se desejaria ser. \u00c9 fechar as cortinas, olhar no espelho, arrancar m\u00e1scaras e maquiagens e ver quem de fato somos. N\u00e3o precisamos ter medo, pois Jesus nos lembra, temos um Pai que nos v\u00ea em secreto, ou seja, para Deus n\u00e3o ser\u00e1 novidade, talvez, sejamos novidade apenas para n\u00f3s mesmos (e, quem sabe, para alguns diante de quem ainda sustentamos m\u00e1scaras e vivemos pap\u00e9is decorados, conforme manda o <i>script<\/i>).<\/p>\n<p>O Pai que nos v\u00ea como somos, conhece nossas reais necessidades (Mt 6.8),e cuidar\u00e1 de n\u00f3s. Crer nisso pode ser o in\u00edcio de uma caminhada nova e profunda, num caminho estreito, \u00e9 fato, onde poucos seguem. Mas abandonar tend\u00eancias, fugir de tais tenta\u00e7\u00f5es, n\u00e3o viver por meras sensa\u00e7\u00f5es, exigem a coragem de fechar a porta do quarto e ser tratado num genu\u00edno espa\u00e7o de ora\u00e7\u00e3o. Quem quer assim ser trabalhado?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que nunca foi simples parece estar ainda mais complicado, consideremos as rela\u00e7\u00f5es entre verdade e mentira, fic\u00e7\u00e3o e realidade, ess\u00eancia e apar\u00eancia. O que caracteriza nossa vida no s\u00e9culo XXI? 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