{"id":691,"date":"2013-02-17T16:35:50","date_gmt":"2013-02-17T16:35:50","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/taismachado\/?p=691"},"modified":"2013-02-17T20:37:33","modified_gmt":"2013-02-17T20:37:33","slug":"fim-das-forcas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/taismachado\/2013\/02\/17\/fim-das-forcas\/","title":{"rendered":"Fim das for\u00e7as"},"content":{"rendered":"<p>Tivemos um carnaval diferente nesse 2013. No meio da folia, uma not\u00edcia s\u00e9ria. O tradicional marasmo notici\u00e1rio foi rompido. As manchetes de jornais esperadas, com destaques de escola de samba, foram substitu\u00eddas por algo que alvoro\u00e7ou jornalistas e mais meio mundo \u2013 o papa renunciava.<br \/>\n\t Papa Bento 16, na segunda-feira, 11 de fevereiro, anunciou em seu discurso aos cardeais no Vaticano, sua ren\u00fancia: \u201cAp\u00f3s ter examinado perante Deus reiteradamente minha consci\u00eancia, cheguei \u00e0 certeza de que, pela idade avan\u00e7ada, j\u00e1 n\u00e3o tenho for\u00e7as para exercer adequadamente o minist\u00e9rio petrino\u201d.<br \/>\n\tMuitas especula\u00e7\u00f5es se fazem a respeito dos reais motivos. Coment\u00e1rios se multiplicam, suspeitas s\u00e3o levantadas, apostas s\u00e3o feitas, ousadas afirma\u00e7\u00f5es distribu\u00eddas. Contudo, quanto custa a um papa assumir: \u201cj\u00e1 n\u00e3o tenho for\u00e7as\u201d?<br \/>\n\tO que sabemos a respeito? Quem \u00e9 capaz de reconhecer e confessar? Em que medida nos aproximamos dessa realidade e vivemos tal experi\u00eancia?<br \/>\n\tNo final de janeiro um filme me perturbou profundamente. Ele ainda est\u00e1 em mim, convulsionando-me nas emo\u00e7\u00f5es.  Trata-se do filme \u201cAmor\u201d, do diretor austr\u00edaco Michael Haneke, 70 anos. Ele contou que a inspira\u00e7\u00e3o para o filme veio de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, pois, filho de atores, foi criado por uma tia, que sofria de reumatismo e, no auge da doen\u00e7a, aos 92 anos, pediu ajuda a Haneke para se matar. Ele se recusou. Um ano depois, ingerindo son\u00edferos, ela se matou.<br \/>\n\tO filme retrata a decad\u00eancia f\u00edsica e mental de um ser amado. Um casal de professores, j\u00e1 aposentados, com cultura, dinheiro e certo prest\u00edgio, vivem a s\u00f3s num apartamento elegante, cercados de livros, m\u00fasica e um piano na sala de estar. Uma exist\u00eancia tranquila at\u00e9 que ela sofre um AVC, onde fica com uma paralisia parcial num primeiro momento, mas esse \u00e9 apenas o princ\u00edpio das dores. O relato lento, simples, triste, real e belo, aborda a impot\u00eancia e a fragilidade humana de maneira delicada.  Quando chegar\u00e1 o nosso fim? N\u00e3o sabemos, mas suspeitamos, e um sinal evidente da aproxima\u00e7\u00e3o do fim \u00e9 a consci\u00eancia do desvanecer das for\u00e7as.<br \/>\n\tA atriz francesa, Emmanuelle Riva (indicada ao Oscar de melhor atriz por sua atua\u00e7\u00e3o nesse filme), consciente de que a juventude \u00e9 ef\u00eamera, disse: \u201cAcho que devemos encarar a velhice, e a presen\u00e7a da morte que ela traz muitas vezes, com alegria e n\u00e3o com tristeza. Eu, que vivo meus 86 anos, me pergunto sobre como lidar com a perda da dignidade, a depend\u00eancia de outros, as dores. E como viver o amor nessas condi\u00e7\u00f5es? [&#8230;] O filme \u00e9 uma dualidade, esta humanidade entre os dois, que est\u00e1 em todos n\u00f3s, que seduz nesta hist\u00f3ria. \u00c9 sobre um drama que todos n\u00f3s vivemos ou vamos viver. Todos temos um mal, uma doen\u00e7a, uma fragilidade. Como lidamos com elas \u00e9 que nos faz diferentes\u201d.<br \/>\n\tA sociedade em geral corteja celebridades, amenidades, cultua a juventude ou apar\u00eancia dela, consome o sup\u00e9rfluo com avidez, e, despreza a velhice, bem como a realidade, nem sempre agrad\u00e1vel, que nos cerca.<br \/>\n\tRotas de fuga n\u00e3o nos faltam. Entretenimentos nos cativam, nos levam para longe de responsabilidades, o mundo digital nos atrai mais do que encontros pessoais, la\u00e7os afetivos v\u00e3o se enfraquecendo, interesses \u201cnovidadeiros\u201d nos encantam e falta-nos tempo para o cuidarmos do outro, ouvirmos repetidas hist\u00f3rias de alguns velhinhos, oferecermos aten\u00e7\u00e3o carinhosa e, de repente, recebermos um tesouro de sabedoria vinda da experi\u00eancia daquele que viveu mais do que n\u00f3s.<br \/>\nN\u00e3o gostamos, nenhum um pouco, de abandonar ilus\u00f5es de estima\u00e7\u00e3o existencial, e encarar a realidade da decad\u00eancia f\u00edsica, das limita\u00e7\u00f5es que se expandem. Escamoteamos sensa\u00e7\u00f5es que nos remetem ao fim. Talvez, por isso mesmo, o livro de Eclesiastes seja pouco palat\u00e1vel para tantos.<br \/>\nAlgu\u00e9m j\u00e1 disse que sabedoria \u00e9 contemplar o abismo sem ser destru\u00eddo por ele. Ou, nas palavras de Rainer Maria Rilke: \u201cconter a morte inteira, docemente, sem nos tornar amargos\u201d. E Rubem Alves insiste que \u201cs\u00f3 podem viver bem aqueles que aprendem a sabedoria que a morte ensina\u201d, e que por isso mesmo, \u201c\u00e9 preciso contemplar o crep\u00fasculo no horizonte para sentir a beleza incompar\u00e1vel do momento\u201d.<br \/>\nS\u00e3o muitas as perdas no decorrer da vida. O evangelho, no entanto, no ensina um princ\u00edpio interessante: mesmo perdendo \u00e9 poss\u00edvel ganhar. Mas se nossos medos nos dominam, nossa gula n\u00e3o v\u00ea limites, nossa arrog\u00e2ncia nos enrijece e nos afasta da intimidade, e nossa gan\u00e2ncia nos controla, a\u00ed, n\u00e3o teremos a coragem de perder a fim de ganhar.<br \/>\nQuando em 19 de abril de 2005 o papa Bento 16 assumiu, dificilmente imaginou viver essa realidade em menos de 8 anos. Por coragem ou por press\u00e3o, n\u00e3o sei, mas ouvir a afirma\u00e7\u00e3o: \u201cj\u00e1 n\u00e3o tenho for\u00e7as\u201d me tocou. E a\u00ed, me lembrei das palavras de Henri Nouwen: \u201cEstamos preparados para a morte ou a estamos desprezando por meio do trabalho? Estamos nos ajudando mutuamente a morrer ou simplesmente supomos que estaremos sempre aqui ao lado do pr\u00f3ximo? Nossa morte dar\u00e1 nova vida, nova esperan\u00e7a e nova f\u00e9 aos amigos ou ser\u00e1 apenas mais um motivo de tristeza? A principal pergunta n\u00e3o \u00e9 \u2018Quanto seremos capazes de produzir durante os poucos anos de vida restante?\u2019, mas, sim, \u2018Como podemos nos preparar para nossa morte, de modo que ela seja uma nova forma de enviar o nosso esp\u00edrito e o de Deus \u00e0queles que amamos e que nos amaram?\u2019.\u201d Que as dores, e as perdas, nos ajudem a perceber mais profundamente a realidade de quem somos e para onde vamos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tivemos um carnaval diferente nesse 2013. No meio da folia, uma not\u00edcia s\u00e9ria. O tradicional marasmo notici\u00e1rio foi rompido. As manchetes de jornais esperadas, com destaques de escola de samba, foram substitu\u00eddas por algo que alvoro\u00e7ou jornalistas e mais meio mundo \u2013 o papa renunciava. 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