{"id":6759,"date":"2018-01-15T07:05:12","date_gmt":"2018-01-15T10:05:12","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/?p=6759"},"modified":"2018-01-15T07:05:12","modified_gmt":"2018-01-15T10:05:12","slug":"os-indigenas-e-os-desafios-na-universidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/2018\/01\/os-indigenas-e-os-desafios-na-universidade\/","title":{"rendered":"Os ind\u00edgenas e os desafios na universidade"},"content":{"rendered":"<h6><span style=\"color: #808000;\"><strong>Por Vanessa Santos e Jessica Grant (ABU)<br \/>\n<\/strong><\/span><\/h6>\n<div id=\"attachment_6763\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6763\" class=\"wp-image-6763 size-full\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2018\/01\/P10_15_01_18_indigenas-universidade.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"266\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2018\/01\/P10_15_01_18_indigenas-universidade.jpg 400w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2018\/01\/P10_15_01_18_indigenas-universidade-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><p id=\"caption-attachment-6763\" class=\"wp-caption-text\">Imagem ilustrativa (Foto: Eunice Caetano\/SEE)<\/p><\/div>\n<p>&#8220;Enfrentei as mesmas dificuldades que todo aquele que \u00e9 de fam\u00edlia simples do interior, de baixa renda ou que estudou em escola p\u00fablica. Mas, al\u00e9m disso tudo, ainda tinha as barreiras culturais e do preconceito que me desafiava a cada dia.&#8221; Essa \u00e9 a experi\u00eancia de Samara Carvalho, ind\u00edgena Patax\u00f3 da ABU Salvador (BA), que pode nos ensinar sobre a viv\u00eancia dos ind\u00edgenas no ensino superior brasileiro.<\/p>\n<p>Em 2017 a Alian\u00e7a B\u00edblica Universit\u00e1ria do Brasil (ABUB) lan\u00e7ou o projeto &#8220;Igreja, universidade e racismo: respondendo aos desafios de uma juventude silenciada e exterminada&#8221;, apelidado de &#8220;ABUB Contra o Racismo&#8221;. Para al\u00e9m da popula\u00e7\u00e3o negra, o racismo atinge outros grupos que comp\u00f5em nossa sociedade, como os ind\u00edgenas. Eles enfrentam desafios geogr\u00e1ficos, econ\u00f4micos, emocionais etc. em larga propor\u00e7\u00e3o para conseguir chegar \u00e0 universidade e mais ainda para se manter l\u00e1.<\/p>\n<p>Como Glycya Ribeiro<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, que \u00e9 do povo Macuxi e participa da ABU Boa Vista (RR), relata: &#8220;As pessoas ca\u00e7oam da nossa forma de ser, de falar, de pensar&#8230; Da inf\u00e2ncia \u00e0 adolesc\u00eancia, ser \u00edndio era motivo de vergonha. (&#8230;) At\u00e9 a minha entrada na universidade, eu nunca havia pensado na educa\u00e7\u00e3o como um instrumento que me daria voz&#8221;. Foi na universidade em que ela abra\u00e7ou sua identidade e desafiou o preconceito que vem do desconhecimento da cultura ind\u00edgena.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Essa juventude ind\u00edgena, que juntamente com seus povos vem sendo silenciada (n\u00e3o lhes d\u00e3o espa\u00e7o para falar ou ignoram e deslegitimam suas reivindica\u00e7\u00f5es) e exterminada (leia sobre as taxas e as raz\u00f5es de suic\u00eddios de jovens ind\u00edgenas aqui e aqui) por interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos e pelo preconceito, deve receber nosso olhar. Devemos nos questionar como responder a essa situa\u00e7\u00e3o. Conhecer um pouco dessa realidade pode ser um bom come\u00e7o, ouvir quem \u00e9 sujeito \u00e9 um exerc\u00edcio de empatia, assim como Jesus perguntava: &#8220;O que voc\u00ea quer que eu lhe fa\u00e7a?&#8221;. Duas estudantes compartilham conosco como \u00e9 ser, em seus contextos, estudante, mulher, crist\u00e3 e ind\u00edgena (n\u00e3o necessariamente nessa ordem) no ambiente universit\u00e1rio.<\/p>\n<blockquote>\n<div id=\"attachment_6760\" style=\"width: 330px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6760\" class=\"wp-image-6760 size-full\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2018\/01\/Samara-Patax\u00f3.jpeg\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2018\/01\/Samara-Patax\u00f3.jpeg 320w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2018\/01\/Samara-Patax\u00f3-240x300.jpeg 240w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><p id=\"caption-attachment-6760\" class=\"wp-caption-text\">Samara \u00e9 bacharela em direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)<\/p><\/div>\n<p>Me chamo Samara<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, sou do povo Patax\u00f3, da Aldeia Ind\u00edgena Patax\u00f3 de Coroa Vermelha, localizada entre os munic\u00edpios de Santa Cruz Cabr\u00e1lia e Porto Seguro, no sul da Bahia. Em 2016 me tornei bacharela em direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Sou advogada, militante, defensora e pesquisadora dos direitos dos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Falar da minha experi\u00eancia como estudante ind\u00edgena na UFBA \u00e9 falar de uma hist\u00f3ria de luta, supera\u00e7\u00e3o e conquista. N\u00e3o s\u00f3 minha, mas tamb\u00e9m do meu povo. O peso dessa representatividade foi o fator determinante para que eu pudesse nortear os meus rumos nos espa\u00e7os por onde andei fora da minha comunidade, em especial na universidade. Enfrentei as mesmas dificuldades que todo aquele que \u00e9 de fam\u00edlia simples do interior, de baixa renda ou que estudou em escola p\u00fablica. Mas, al\u00e9m disso tudo, ainda tinha as barreiras culturais e do preconceito que me desafiava a cada dia.<\/p>\n<p>No entanto, posso dizer que n\u00e3o dei espa\u00e7o para que a vis\u00e3o colonialista e preconceituosa da sociedade se disseminasse sobre mim. Pelo contr\u00e1rio, a todo momento no meu percurso acad\u00eamico busquei de alguma forma descolonizar o pensamento da sociedade e da comunidade acad\u00eamica sobre as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Para, desse modo, poder fazer valer na pr\u00e1tica uma emblem\u00e1tica frase dita em uma certa feita por uma importante lideran\u00e7a ind\u00edgena, Marcos Terena: &#8216;Posso ser quem voc\u00ea \u00e9, sem deixar de ser o que sou&#8217;.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso deixar de lembrar que a ABU tamb\u00e9m foi um marco importante na minha passagem pela universidade. Pois encontrei amigos que respeitaram os meus valores \u00e9tnicos-culturais sem qualquer preconceito, mas que tamb\u00e9m acrescentaram em minha vida valores e princ\u00edpios eternos de amor e compaix\u00e3o mesmo em meio \u00e0s diferen\u00e7as.<\/p><\/blockquote>\n<p>*****<\/p>\n<blockquote>\n<div id=\"attachment_6761\" style=\"width: 277px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6761\" class=\"wp-image-6761 size-full\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2018\/01\/Glycya-Ribeiro-Macuxi.jpg\" alt=\"\" width=\"267\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2018\/01\/Glycya-Ribeiro-Macuxi.jpg 267w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2018\/01\/Glycya-Ribeiro-Macuxi-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 267px) 100vw, 267px\" \/><p id=\"caption-attachment-6761\" class=\"wp-caption-text\">Glycya \u00e9 ind\u00edgena Macuxi e estudante de psicologia na Universidade Federal de Roraima (UFRR)<\/p><\/div>\n<p>Durante toda a minha trajet\u00f3ria de vida, sempre tive medo de assumir a minha identidade \u00e9tnica porque, apesar de ser um estado com uma popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena bastante significativa, h\u00e1 muito preconceito. As pessoas ca\u00e7oam da nossa forma de ser, de falar, de pensar&#8230; Da inf\u00e2ncia \u00e0 adolesc\u00eancia, ser \u00edndio era motivo de vergonha, pelo menos na escola onde estudei, uma das melhores do estado. Meus pais sempre fizeram quest\u00e3o de que eu estudasse na cidade, para que um dia eu tamb\u00e9m pudesse defender os direitos dos nossos povos atrav\u00e9s dela, e isso me custou muitas noites de choro.<\/p>\n<p>At\u00e9 a minha entrada na universidade, eu nunca havia pensado na educa\u00e7\u00e3o como um instrumento que me daria voz. Na primeira aula, enquanto nos apresent\u00e1vamos, tr\u00eas dos meus colegas apresentaram-se assim: &#8216;Sou fulano\/fulana, ind\u00edgena, da etnia tal&#8230;&#8217;. Naquele momento eu soube que n\u00e3o estaria sozinha, que mesmo que sofresse algum tipo de preconceito, ter\u00edamos uns aos outros numa turma de 34 alunos. Finalmente me senti parte de algo. Estou no nono semestre do curso de psicologia, e, ao longo de toda a gradua\u00e7\u00e3o, fui trabalhando as quest\u00f5es referentes aos povos ind\u00edgenas, tanto em mim como na minha turma. Hoje eles respeitam e admiram esse nosso posicionamento de assumir a identidade, como se diss\u00e9ssemos: &#8216;Sou \u00edndia sim, e se me atacar eu vou atacar&#8217; (risos). Acredito que o curso nos proporcionou esse espa\u00e7o, \u00e9 lindo encontrar os colegas de turmas diferentes e falar do forr\u00f3 das nossas comunidades ind\u00edgenas, falar de coisas da nossa cultura abertamente num ambiente carregado de preconceito.<\/p>\n<p>A tristeza \u00e9 n\u00e3o termos disciplinas na grade obrigat\u00f3ria, a \u00fanica que tem \u00e9 &#8220;Psicologia e povos ind\u00edgenas&#8221;, eletiva, que foi dada uma vez desde que entrei. H\u00e1 uma falta tremenda de professores que trabalhem nessa vertente, temos sempre que buscar em outras institui\u00e7\u00f5es ou cursos. A tristeza \u00e9 n\u00e3o sermos respeitados nos ambientes comuns da universidade, como o Restaurante Universit\u00e1rio, sempre v\u00edtimas de piadinhas. Eu vivi praticamente s\u00f3 no meu bloco (de psicologia) e ele \u00e9 composto majoritariamente por mulheres. Somos respeitadas e acolhidas. Mas, quando saio do bloco, somos s\u00f3 um peda\u00e7o de carne mesmo. No campus n\u00e3o importa o quanto sejamos inteligentes, sempre v\u00e3o nos olhar nesse sentido, se tem beleza ou n\u00e3o. Eu sou quase um fetiche: &#8216;Sempre quis namorar\/ficar com uma \u00edndia&#8217;.<\/p>\n<p>Mas olhando para o meu curso, para a minha turma, acredito que me fizeram sentir parte de alguma coisa importante, me deram seguran\u00e7a para ir em busca do meu direito como ind\u00edgena. Sinto que estou abrindo um caminho para outros que vir\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Notas:<br \/>\n<\/strong><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Glycya \u00e9 ind\u00edgena Macuxi e estudante de psicologia na Universidade Federal de Roraima (UFRR).<br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Samara \u00e9 bacharela em direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e integrou a ABU Salvador (BA) durante sua gradua\u00e7\u00e3o.<br \/>\nConte\u00fado publicado originalmente no site da <a href=\"http:\/\/www.abub.org.br\/compartilhe\/informativos\/blog-abub\/2018\/01\/indigenas-e-o-desafio-do-meio-universitario\">ABU<\/a>. Reproduzido com permiss\u00e3o. A Alian\u00e7a B\u00edblica Universit\u00e1ria do Brasil (ABUB) \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria evang\u00e9lica que existe para compartilhar o evangelho de Jesus Cristo nas escolas e universidades brasileiras atrav\u00e9s da iniciativa dos pr\u00f3prios estudantes. O treinamento e a forma\u00e7\u00e3o de estudantes e profissionais, visando o testemunho crist\u00e3o e o servi\u00e7o \u00e0 igreja e \u00e0 sociedade, completam a miss\u00e3o do movimento. O projeto ABUB Contra o Racismo foi realizado em parceria com a Tearfund para levantar o debate sobre este pecado vivenciado por muitos de nossos estudantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Vanessa Santos e Jessica Grant (ABU) &#8220;Enfrentei as mesmas dificuldades que todo aquele que \u00e9 de fam\u00edlia simples do interior, de baixa renda ou que estudou em escola p\u00fablica. Mas, al\u00e9m disso tudo, ainda tinha as barreiras culturais e do preconceito que me desafiava a cada dia.&#8221; Essa \u00e9 a experi\u00eancia de Samara Carvalho, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[32],"tags":[26715,12,22436,5885,6079],"class_list":["post-6759","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reflexoes","tag-abu","tag-indigenas","tag-povos-indigenas","tag-preconceito","tag-universidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6759","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6759"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6759\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6765,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6759\/revisions\/6765"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6759"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6759"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6759"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}