{"id":6412,"date":"2017-08-23T11:40:40","date_gmt":"2017-08-23T14:40:40","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/?p=6412"},"modified":"2017-08-23T11:40:40","modified_gmt":"2017-08-23T14:40:40","slug":"a-bebida-nossa-de-cada-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/2017\/08\/a-bebida-nossa-de-cada-dia\/","title":{"rendered":"A bebida \u201cnossa\u201d de cada dia"},"content":{"rendered":"<h6><span style=\"color: #808000;\"><strong>Por Leonizia Gama Firmo<\/strong><\/span><\/h6>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>Que Deus maravilhoso n\u00f3s temos [&#8230;] nos conforta e fortalece nas dificuldades e prova\u00e7\u00f5es [&#8230;] para que, quando os outros estiverem aflitos, necessitados da nossa compaix\u00e3o e do nosso est\u00edmulo, possamos transmitir-lhes essa mesma ajuda e esse mesmo consolo que Deus nos deu. (2 Cor\u00edntios 1.3-4, A B\u00edblia Viva)<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_6413\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2017\/08\/P10_23_08_17_bebida.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-6412\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6413\" class=\"size-full wp-image-6413\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2017\/08\/P10_23_08_17_bebida.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"370\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2017\/08\/P10_23_08_17_bebida.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2017\/08\/P10_23_08_17_bebida-243x300.jpg 243w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-6413\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Waleska Santiago<\/p><\/div>\n<p>Eu nasci na cidade de S\u00e3o Gabriel da Cachoeira, no Estado do Amazonas, onde a maior parte da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 ind\u00edgena. Minha m\u00e3e \u00e9 Tukano e meu pai, Piratapuya. Eu sou a ca\u00e7ula de nove irm\u00e3os. Minha m\u00e3e teve contato com o evangelho atrav\u00e9s de mission\u00e1rios americanos, mas meu pai, infelizmente, nunca se interessou por esse tipo de assunto. Ele causou muitos problemas para minha fam\u00edlia devido ao uso abusivo de bebidas alco\u00f3licas. Come\u00e7ou a beber ainda muito jovem, por ocasi\u00e3o das festas da nossa comunidade, quando eram preparadas bebidas com frutas fermentadas. A situa\u00e7\u00e3o piorou muito quando minha fam\u00edlia mudou-se para a cidade, onde ele tinha acesso a bebidas destiladas vendidas pelos comerciantes locais.<\/p>\n<p>Na cidade, nossa vida se tornou muito dif\u00edcil devido \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de meu pai. Quando ele estava s\u00f3brio, era trabalhador e uma boa pessoa, mas quando bebia, transformava-se em um homem violento e todos em casa sofriam com isso. Muitas vezes, ele n\u00e3o aparecia em casa por v\u00e1rias semanas, pois ca\u00eda na rua e ficava por l\u00e1, junto com diversos amigos ind\u00edgenas. Eu me sentia envergonhada quando, retornando da escola, encontrava-o ca\u00eddo na rua, como se fosse um mendigo, al\u00e9m de passarmos por muitas dificuldades financeiras, pois ele gastava tudo que recebia trabalhando como carpinteiro em bebidas. At\u00e9 os peixes que pescava eram vendidos e o dinheiro todo gasto com bebidas. \u00c0s vezes, eu escutava minha m\u00e3e chorando baixinho, tentando esconder de n\u00f3s o quanto sofria com a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Apesar dos problemas, desde crian\u00e7a eu freq\u00fcentava a igreja junto com minha m\u00e3e. No entanto, a situa\u00e7\u00e3o em casa s\u00f3 piorava. Seguindo o exemplo do meu pai, dois de meus irm\u00e3os tamb\u00e9m come\u00e7aram a beber. Um deles se tornou ainda mais violento que o meu pai. Por vezes, tive que fugir para proteger a minha pr\u00f3pria vida. As brigas nos fins de semana eram frequentes em casa. Presenciei brigas violent\u00edssimas. Muitas vezes, os vizinhos tiveram que chamar a pol\u00edcia, pois meus irm\u00e3os estavam brigando com facas ou garfos nas m\u00e3os. Uma vez, um deles machucou a testa do outro com um garfo. Quando eles bebiam, precis\u00e1vamos esconder todas as facas e garfos da casa.<\/p>\n<p>Comecei a trabalhar para me sustentar com 12 anos de idade, mas nunca deixei de participar ativamente dos trabalhos na igreja. Desde pequena eu convivia com mission\u00e1rios, e tinha curiosidade com rela\u00e7\u00e3o ao fato de eles deixarem seu lugar de origem. Eu pensava: Por que tantos brancos mission\u00e1rios v\u00eam para esta cidade morar entre n\u00f3s, \u00edndios? Com o tempo, pude entender que todos precisam ouvir as Boas Novas de salva\u00e7\u00e3o. Comecei a achar isso interessante e desejei ser mission\u00e1ria. Eu orava para que meu pai e meus irm\u00e3os tamb\u00e9m conhecessem a Jesus, mudassem de vida e parassem de beber. No entanto, n\u00e3o vi isso acontecer. Por infelicidade, meu pai e meus dois irm\u00e3os vieram a falecer em decorr\u00eancia do abuso de bebidas alco\u00f3licas.<\/p>\n<p>Quando eu estava para terminar o curso de magist\u00e9rio, fui convidada por mission\u00e1rios que trabalhavam com o povo D\u00e2w para estagiar na escola da comunidade. Comecei, ent\u00e3o, a dar aulas e foi a\u00ed que percebi a verdadeira raz\u00e3o da presen\u00e7a deles no meio daquele povo que era desprezado na cidade por causa da bebida: eles estavam ali por causa do amor de Deus! Comecei a ficar mais e mais na aldeia. Todas as manh\u00e3s, eu atravessava o rio para ir \u00e0 escola e \u00e0 tarde retornava para casa. Sempre participava das reuni\u00f5es de ora\u00e7\u00e3o dos mission\u00e1rios junto com as crian\u00e7as da escola, pedindo pela convers\u00e3o daquele povo. Mas, no fundo eu achava que n\u00e3o tinha jeito, que assim como meu pai e meus irm\u00e3os, eles nunca iriam abandonar o maldito \u00e1lcool. Mas, aos poucos, Deus foi mudando os D\u00e2w e mostrando que ele tem poder para transformar vidas.<\/p>\n<p>Quando terminei meu curso de magist\u00e9rio recebi o desafio de estudar a B\u00edblia por um ano no Semin\u00e1rio B\u00edblico Palavra da Vida, em Atibaia, no interior de S\u00e3o Paulo, e depois voltar para trabalhar com meu povo, em S\u00e3o Gabriel da Cachoeira. At\u00e9 hoje n\u00e3o sei como aceitei, mas sei que foi Deus que me levou e me guardou. Eu nunca tinha sa\u00eddo do lugar em que morava, a n\u00e3o ser uma vez quando fui a Manaus. Mas agora eu iria para bem longe de casa. Nessa situa\u00e7\u00e3o, de maneira especial, desfrutei da gra\u00e7a e da miseric\u00f3rdia de Deus, para conseguir o sustento e ficar por l\u00e1 n\u00e3o apenas um, mas cinco anos. Certamente, n\u00e3o foi um tempo f\u00e1cil, pois tudo era muito desafiador \u2014 a comida era diferente, o clima era outro e at\u00e9 o jeito das pessoas era diferente. Mas, foi durante esse tempo que senti a confirma\u00e7\u00e3o do chamado para miss\u00f5es e me lembrei que aos nove anos, sem nem entender direito das coisas, eu havia dito que queria ser mission\u00e1ria.<\/p>\n<p>Depois de formada e de ter assistido a um curso de Ling\u00fc\u00edstica em Bras\u00edlia, na miss\u00e3o ALEM, recebi um convite para servir a Deus no Timor Leste. Os dois anos e meio que passei no Timor foram uma escola, onde aprendi muito com meus erros. L\u00e1, Deus me quebrantou e me fez amadurecer. Durante esse tempo no deserto, Deus me preparou e me treinou para voltar a S\u00e3o Gabriel da Cachoeira. Retornei ao Brasil sentindo a m\u00e3o de Deus presente na minha exist\u00eancia, me restaurando e fortalecendo a cada dia. Depois de um ano, desafiada novamente por Deus, resolvi continuar no minist\u00e9rio, mas agora, desenvolvendo um trabalho no Amazonas, meu primeiro desejo e chamado.<\/p>\n<p>Em 2005, retornei para S\u00e3o Gabriel da Cachoeira. Depois de dez anos, pude comprovar as grandes transforma\u00e7\u00f5es que o evangelho \u00e9 capaz de produzir na vida de um povo que resolve seguir a Jesus. Muitos membros do povo D\u00e2w que foram meus alunos no passado e que, na \u00e9poca, eu considerava como \u201ccasos perdidos\u201d, foram transformados pelo poder das Boas Novas de Jesus. Notei que havia uma igreja evang\u00e9lica entre eles, e que as pessoas n\u00e3o andavam mais embriagadas pelas ruas da cidade. Agora, elas seguiam com singeleza o caminho de Jesus, trazendo Cristo na cabe\u00e7a, como eles gostam de contar e cantar (em portugu\u00eas seria no cora\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Hoje meu minist\u00e9rio \u00e9 no Projeto Amanaj\u00e9, no Amazonas, com a Miss\u00e3o de Evangeliza\u00e7\u00e3o Mundial (AMEM), e tenho o desafio de trabalhar com crian\u00e7as e adolescentes de diversas etnias que frequentam a Igreja Evang\u00e9lica Ind\u00edgena Tukano. Durante as reuni\u00f5es de ora\u00e7\u00e3o, os pedidos s\u00e3o sempre os mesmos: \u201cQue o meu pai, tio ou irm\u00e3o pare de beber!\u201d. Tenho me visto naquelas crian\u00e7as e adolescentes, pois a maioria tem problemas na fam\u00edlia, como eu tinha, e enfrenta as mesmas situa\u00e7\u00f5es que eu j\u00e1 enfrentei. Muitas v\u00eam chorando me contar que tiveram que dormir no meio do mato porque o pai havia bebido e posto todos para fora de casa. Choro junto com elas quando vejo muitas situa\u00e7\u00f5es que eu vivi no passado se repetindo, como se eu estivesse assistindo a um filme de mau gosto. Eu me identifico com essas crian\u00e7as e consigo entender o sofrimento que elas t\u00eam passado.<\/p>\n<p>Recentemente, uma menina veio me procurar dizendo que tinha uma coisa para me contar. Chamou-me no canto e disse que seu pai havia aceitado a Jesus e que n\u00e3o bebia mais desde ent\u00e3o. Ela me contou isso com os olhinhos cheios de l\u00e1grimas, lembrando-me que nas nossas reuni\u00f5es ela sempre pedia a Deus para que seu pai parasse de beber, e agora ele havia respondido \u00e0s suas ora\u00e7\u00f5es. Hist\u00f3rias assim nos fazem perceber que Jesus ainda se interessa pelas criancinhas e pelos seus lares.<\/p>\n<p>O desafio \u00e9 grande! O alcoolismo entre ind\u00edgenas \u00e9 enorme. De acordo com informa\u00e7\u00f5es da Funasa, o \u00e1lcool \u00e9 uma das maiores doen\u00e7as presentes nas aldeias atualmente. Mas a Palavra de Deus \u00e9 poderosa e pode, sim, transformar vidas!<\/p>\n<h6><strong>Nota<\/strong>: Texto retirado do livro <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/a-questao-indigena-uma-luta-desigual\">A Quest\u00e3o Ind\u00edgena \u2013 Uma Luta Desigual<\/a>.<\/h6>\n<p><strong>\u2022 Leon\u00edzia Gama Firmo<\/strong> \u00e9 mission\u00e1ria da Miss\u00e3o AMEM entre povos ind\u00edgenas no Amazonas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Leonizia Gama Firmo Que Deus maravilhoso n\u00f3s temos [&#8230;] nos conforta e fortalece nas dificuldades e prova\u00e7\u00f5es [&#8230;] para que, quando os outros estiverem aflitos, necessitados da nossa compaix\u00e3o e do nosso est\u00edmulo, possamos transmitir-lhes essa mesma ajuda e esse mesmo consolo que Deus nos deu. 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