{"id":6239,"date":"2017-07-11T15:13:44","date_gmt":"2017-07-11T18:13:44","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/?p=6239"},"modified":"2017-07-11T15:13:44","modified_gmt":"2017-07-11T18:13:44","slug":"a-grande-questao-da-vida-no-livro-dois-irmaos-de-milton-hatoum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/2017\/07\/a-grande-questao-da-vida-no-livro-dois-irmaos-de-milton-hatoum\/","title":{"rendered":"A grande quest\u00e3o da vida no livro \u201cDois Irm\u00e3os\u201d, de Milton Hatoum"},"content":{"rendered":"<h6><span style=\"color: #808000;\"><strong>Por Gladir Cabral<\/strong><\/span><\/h6>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2017\/07\/P10_11_07_17_dois-irmaos.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-6239\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-6241 size-full\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2017\/07\/P10_11_07_17_dois-irmaos.jpg\" alt=\"\" width=\"301\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2017\/07\/P10_11_07_17_dois-irmaos.jpg 301w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2017\/07\/P10_11_07_17_dois-irmaos-201x300.jpg 201w\" sizes=\"auto, (max-width: 301px) 100vw, 301px\" \/><\/a>Autran Dourado, em sua obra \u201cO Risco do Bordado\u201d, prop\u00f5e a escrita do romance como met\u00e1fora da bordadura. Refletindo sobre o mist\u00e9rio da mem\u00f3ria e os caminhos e descaminhos da vida, j\u00e1 quase ao final da hist\u00f3ria, o narrador pondera: \u201cMas de um homem sempre alguma coisa fica, quando nada nas lembran\u00e7as, esperando a ressurrei\u00e7\u00e3o. Feito dizem: Deus \u00e9 que sabe por inteiro o risco do bordado\u201d (1981, p. 155). Utilizando essa mesma met\u00e1fora para entender a obra \u201cDois Irm\u00e3os\u201d, pode-se dizer que Milton Hatoum, por meio de seu narrador, tece uma grande obra de urdidura.<\/p>\n<p>Em sua delicada e complexa tape\u00e7aria, Hatoum utiliza muitos fios de narrativas cl\u00e1ssicas, b\u00edblicas, como a hist\u00f3ria dos irm\u00e3os Esa\u00fa e Jac\u00f3 (Yaqub), que me parece ser o arcabou\u00e7o estruturante da obra. Nela est\u00e3o presentes o conflito entre irm\u00e3os, as prefer\u00eancias dos pais, os efeitos da superprote\u00e7\u00e3o, as manipula\u00e7\u00f5es da m\u00e3e, a cumplicidade dos filhos, a contenda da m\u00e3e com as poss\u00edveis noras e o reverso da fortuna.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da fam\u00edlia de Halim se alinha com a hist\u00f3ria da cidade de Manaus e com a hist\u00f3ria do Brasil. No romance, uma comunidade de imigrantes libaneses convive, em plena Manaus do s\u00e9culo 20, com as culturas locais, dos curumins, da floresta, das chuvas intermitentes, das frutas e peixes do Amazonas. Entretanto, mais do que literatura regional, \u201cDois Irm\u00e3os\u201d lida com temas universais, como o amor e o perd\u00e3o.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Ao centro da hist\u00f3ria est\u00e1 a fam\u00edlia de Halim e Zana, e seus tr\u00eas filhos: Yaqub, Omar e R\u00e2nia. E h\u00e1 mais desencontros do que encontros propriamente. Por meio da narrativa, Nael vai entrela\u00e7ando os fios da mem\u00f3ria e delineando o caminho das personagens que chegam e partem do eixo familiar. Tenta descobrir, assim, o mist\u00e9rio de sua pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n<p>Entretanto, enquanto o narrador vai tecendo o fio da vida, ela mesma (a vida) vai se desfiando em in\u00fameros desenredos, desencantos, partidas, desamores, paix\u00f5es, finitudes. Enfim, a a\u00e7\u00e3o erosiva do tempo vai marcando o corpo das pessoas, as casas, a cidade.<\/p>\n<p>O livro mostra que a grande quest\u00e3o da vida \u00e9 o perd\u00e3o. O romance fala do poder destrutivo do rancor e do veneno da amargura, que atuando junto com o orgulho impedem as pessoas de superarem diferen\u00e7as e aceitarem a possibilidade da reconcilia\u00e7\u00e3o. Sem reconcilia\u00e7\u00e3o, a vida trava. \u00c9 o que temos em \u201cDois Irm\u00e3os\u201d. A falta de perd\u00e3o destr\u00f3i o futuro, pois faz apodrecer o passado e torna inf\u00e9rtil o presente. Assim lamenta o narrador: \u201cUma palavra bastava, uma s\u00f3. O perd\u00e3o\u201d (p. 191). Nem Yaqub nem Omar deixaram descend\u00eancia. O poss\u00edvel filho, que seria Nael, tem sua identidade envolta em d\u00favidas e ambiguidades. Ele n\u00e3o sabe de quem \u00e9 filho.<\/p>\n<p>No caso da hist\u00f3ria de Esa\u00fa e Jac\u00f3, a reconcilia\u00e7\u00e3o viria depois da grande luta de Jac\u00f3 ao atravessar o Vale de Jaboque. No caso dos dois irm\u00e3os, h\u00e1 apenas duas grandes lutas, mas em momento algum h\u00e1 reconcilia\u00e7\u00e3o. Por isso, n\u00e3o h\u00e1 travessia.<\/p>\n<p><strong>Nota:<\/strong> Artigo publicado originalmente com t\u00edtulo <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/revista\/artigos\/366\/literatura-e-cultura\">\u201cEnredo e desenredo em \u2018Dois Irm\u00e3os\u2019, de Milton Hatoum\u201d<\/a>, na se\u00e7\u00e3o Arte e Cultura da <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/revista\/\">edi\u00e7\u00e3o 366<\/a> da revista <strong><a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/revista\/\">Ultimato<\/a><\/strong>.<\/p>\n<p><strong>\u2022 Gladir Cabral<\/strong> \u00e9 pastor, m\u00fasico e professor de letras na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc). Acompanhe o <a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/gladircabral\/\">seu blog pessoal<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gladir Cabral Autran Dourado, em sua obra \u201cO Risco do Bordado\u201d, prop\u00f5e a escrita do romance como met\u00e1fora da bordadura. 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