{"id":5231,"date":"2016-05-23T12:12:53","date_gmt":"2016-05-23T15:12:53","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/?p=5231"},"modified":"2016-05-24T17:44:48","modified_gmt":"2016-05-24T20:44:48","slug":"como-o-esporte-esta-mudando-vidas-no-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/2016\/05\/como-o-esporte-esta-mudando-vidas-no-nordeste\/","title":{"rendered":"Como o esporte est\u00e1 mudando vidas no Nordeste?"},"content":{"rendered":"<p><strong>O esporte como instrumento de conscientiza\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7a de vida<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2016\/05\/esporte-vis\u00e3o-mundia\u00e7l.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-5232\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2016\/05\/esporte-vis\u00e3o-mundia\u00e7l.jpg\" alt=\"esporte-vis\u00e3o-mundia\u00e7l\" width=\"359\" height=\"239\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2016\/05\/esporte-vis\u00e3o-mundia\u00e7l.jpg 359w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2016\/05\/esporte-vis\u00e3o-mundia\u00e7l-300x200.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2016\/05\/esporte-vis\u00e3o-mundia\u00e7l-150x100.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 359px) 100vw, 359px\" \/><\/a>\u201cUm dos caras chegou em nossa roda chamando para matar outro. Nesse meio, s\u00f3 tinham dois que j\u00e1 tinham matado gente e tr\u00eas que n\u00e3o. Eu era um destes. Vamos? Eu disse: \u2018bora\u2019. A gente andou e quando chegou na esquina eu vi o rapaz. Parei, esperei e deixei os outros irem na frente. Meu pensamento era de fazer e ao mesmo tempo n\u00e3o. Escutei os caras dando tiro. Escutei a hora em que passou o rev\u00f3lver para o menino que nunca tinha matado, para que ajudasse tamb\u00e9m. Uma coisa que eu at\u00e9 hoje me lembro&#8230; At\u00e9 hoje&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Aos 19, Jos\u00e9 Roberto [foto] conta o epis\u00f3dio que vivenciou h\u00e1 cinco anos, bem como mem\u00f3rias dessa \u00e9poca em que passava tempo com outros rapazes alheios a perspectivas, orienta\u00e7\u00e3o ou cuidado algum sequer por parte de seus pr\u00f3prios familiares, menos ainda da escola, da comunidade, dos governos e outros que seriam respons\u00e1veis por garantirem um desenvolvimento saud\u00e1vel para suas inf\u00e2ncias. Entre o grupo, alguns amigos de pequeno e outros, mais velhos, que chegaram depois. Todos transitando pelo universo da ilegalidade, at\u00e9 onde chegaram pelas circunst\u00e2ncias de suas vidas. Para muitos, irrelevantes. Aos 14 anos, Betinho simplesmente seguia o grupo ao seu redor, assim como costuma fazer qualquer adolescente.<!--more--><\/p>\n<p>O Estado de Alagoas est\u00e1 entre os que apresentam as mais altas taxas de homic\u00eddios contra adolescentes entre 16 e 17 anos, segundo o Mapa da Viol\u00eancia 2015. S\u00e3o 147,0 por 100 mil. A situa\u00e7\u00e3o se repete ano ap\u00f3s ano dentro da cidade, na qual o bairro do Vergel \u00e9 dos mais violentos pela forte presen\u00e7a do tr\u00e1fico de drogas. E foi neste bairro que Betinho nasceu, cresceu e encontrou suas primeiras refer\u00eancias de vida.<\/p>\n<p>Quase todas as ruas, ainda de barro, escancaram os despejos que n\u00e3o t\u00eam local adequado para escorrer. As pequenas casas amontoadas umas nas outras abrigam muito mais pessoas do que para o que foram constru\u00eddas. A principal fonte de renda das fam\u00edlias \u00e9 o depenicar dos sururus (depois de um processo de lavar, tirar a lama, ferver, esperar a casca abrir e recolher a quantidade suficiente para encher um gal\u00e3o de tinta, estes s\u00e3o vendidos pelo valor irris\u00f3rio de 3 reais). Diferente disso \u00e9 fazer bicos e faxinas, como os pais de Betinho, sendo sua m\u00e3e o arrimo de fam\u00edlia, al\u00e9m de seu ref\u00fagio emocional e fonte de inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2016\/05\/esporte-vis\u00e3o-mundial.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-5233\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2016\/05\/esporte-vis\u00e3o-mundial.jpg\" alt=\"esporte-vis\u00e3o-mundial\" width=\"351\" height=\"233\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2016\/05\/esporte-vis\u00e3o-mundial.jpg 351w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2016\/05\/esporte-vis\u00e3o-mundial-300x199.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2016\/05\/esporte-vis\u00e3o-mundial-150x100.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 351px) 100vw, 351px\" \/><\/a>\u201cEu era um pouco agressivo, s\u00f3 com o tempo fui mudando a forma de observar as coisas\u201d, descrevendo sua personalidade no momento em que come\u00e7ou a fazer capoeira no Projeto Munda\u00fa. Vis\u00e3o confirmada pela coordenadora pedag\u00f3gica do projeto, Liliane Rocha, que conheceu Betinho logo nos seus primeiros dias de trabalho e o acompanhou ao longo dos anos. \u201cQuando cheguei para trabalhar no Munda\u00fa, em 2010, ele estava no processo de mudan\u00e7a. Ouvia o pessoal falar que n\u00e3o era um menino de respeitar muito os outros\u201d.<\/p>\n<p>O Projeto Munda\u00fa, da ONG Vis\u00e3o Mundial, chegou \u00e0 vida de Jos\u00e9 Roberto como aquele ponto de mudan\u00e7a de rota que aparece no caminho e, necessariamente, faz voc\u00ea alterar a dire\u00e7\u00e3o. \u201cComecei na capoeira aos 12. Antes s\u00f3 ficava na rua, sem hora para voltar para casa. E pelos 14 anos, comecei aquele jeit\u00e3o de querer sair para festas, de querer estar no mundo \u00e0 toa, comecei a faltar muito \u00e0s aulas de capoeira porque estava envolvido com gente que faz coisa errada\u201d, conta.<\/p>\n<p>Notando as aus\u00eancias do adolescente, a ent\u00e3o professora de capoeira, Fabiana, aumentou sua aten\u00e7\u00e3o, usando a atividade como uma oportunidade para al\u00e9m do simples repasse de conhecimentos. \u201cEla conversava comigo sobre o potencial que via em mim, dizendo que percebia o quanto eu me dedicava \u00e0s coisas que fa\u00e7o e dizendo que aquele grupo precisava de mim. Tenho muito a agradecer porque ela e meus parceiros de treino n\u00e3o deixaram de acreditar em mim, quando um monte de outras pessoas pr\u00f3ximas fizeram\u201d, diz.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo em que esteve mais afastado, um de seus amigos foi morto por outro. \u201cA gente sentava junto, comia junto, convivia e mesmo assim isso aconteceu. Pensei: se fizeram isso com ele, uma hora v\u00e3o fazer comigo tamb\u00e9m. Cheguei a sonhar com minha morte\u201d, lembra. Com isso, tomou uma decis\u00e3o definitiva. \u201cMeu pensamento foi s\u00f3 buscar coisas melhores para mim. Por isso, voltei ao projeto. L\u00e1 aprendi e aprendo muito\u201d.<\/p>\n<p>Foi quando entrou no grupo Monitoramento Jovem de Pol\u00edticas P\u00fablicas (MJPOP), que forma adolescentes e jovens em temas como direitos, cidadania e participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Al\u00e9m disso, os capacita em sua metodologia de mobiliza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria e cobran\u00e7a de melhorias nos servi\u00e7os e pol\u00edticas p\u00fablicas. \u201cAl\u00e9m de aprender sobre meus direitos e participar das a\u00e7\u00f5es e mobiliza\u00e7\u00f5es do MJPOP, tamb\u00e9m comecei a repassar os conhecimentos, como quando fizemos uma a\u00e7\u00e3o nas escolas apresentando aos alunos o Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente. A conviv\u00eancia com o grupo me ensinou tamb\u00e9m que lideran\u00e7a vai al\u00e9m de representar pessoas, mas ajuda-las a realizarem coisas juntos, escutando e incentivando. Para mim, isso \u00e9 ser um l\u00edder\u201d.<\/p>\n<p>E sua lideran\u00e7a tem sido reconhecida por pessoas que o acompanharam como a Liliane. \u201cEle \u00e9 hoje uma pessoa bem diferente. Tranquilo, participativo, comprometido, incentivador, Influencia bem os que est\u00e3o ao redor. Realmente mudou e cresceu bastante nestes anos aqui no Munda\u00fa. E esse \u00e9 nosso trabalho: contribuir com cada uma das meninas e meninos que chegam at\u00e9 n\u00f3s para que cada um ajude a construir uma realidade melhor para todos\u201d.<\/p>\n<p><strong>PDA MUNDA\u00da<\/strong><\/p>\n<p>O Programa de Desenvolvimento de \u00c1rea Munda\u00fa abriga diversas a\u00e7\u00f5es e projetos realizados pela ONG Vis\u00e3o Mundial e seus parceiros na cidade de Macei\u00f3 (AL), atendendo 2.732 crian\u00e7as e adolescentes nas comunidades mais vulner\u00e1veis. As atividades realizadas s\u00e3o de leitura, conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias, oficinas de m\u00fasica e forma\u00e7\u00e3o sociopol\u00edtica de adolescentes e jovens, fortalecendo as capacidades de crian\u00e7as e adolescentes para que possam trilhar novos rumos. A Vis\u00e3o Mundial est\u00e1 h\u00e1 40 anos no Brasil e atrav\u00e9s destas atividades program\u00e1ticas e de a\u00e7\u00f5es de advocacy tem contribu\u00eddo para a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades que se apresentam na vida da inf\u00e2ncia brasileira e pela garantia dos direitos humanos de crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p><strong>Nota:<\/strong><br \/>\nTexto publicado originalmente no <a href=\"https:\/\/visaomundial.org.br\/node\/37860\">site<\/a> da Vis\u00e3o Mundial.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O esporte como instrumento de conscientiza\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7a de vida \u201cUm dos caras chegou em nossa roda chamando para matar outro. Nesse meio, s\u00f3 tinham dois que j\u00e1 tinham matado gente e tr\u00eas que n\u00e3o. Eu era um destes. Vamos? Eu disse: \u2018bora\u2019. A gente andou e quando chegou na esquina eu vi o rapaz. 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