{"id":4835,"date":"2015-11-25T09:35:07","date_gmt":"2015-11-25T12:35:07","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/?p=4835"},"modified":"2015-11-26T10:46:33","modified_gmt":"2015-11-26T13:46:33","slug":"inverso-a-voz-do-povo-sem-fala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/2015\/11\/inverso-a-voz-do-povo-sem-fala\/","title":{"rendered":"Inverso \u2013 A voz do povo \u201csem fala\u201d"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2015\/11\/P10_25_11_15_Inverso.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-4835\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-4836\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2015\/11\/P10_25_11_15_Inverso.jpg\" alt=\"P10_25_11_15_Inverso\" width=\"353\" height=\"283\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2015\/11\/P10_25_11_15_Inverso.jpg 353w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2015\/11\/P10_25_11_15_Inverso-300x241.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2015\/11\/P10_25_11_15_Inverso-150x120.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 353px) 100vw, 353px\" \/><\/a>Publicado em 2014, com apoio do Instituo Antropos, <strong>Inverso<\/strong> \u00e9 um livro que ajuda no processo de entendimento do ambiente amazonense, em especial, o ambiente do povo H\u00fapd\u2019\u00e4h, que vive na regi\u00e3o do Alto Rio Negro, no Amazonas.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um acervo indispens\u00e1vel para quem quer entender a cultura dos ind\u00edgenas e pegar um gostinho do estilo da fala e do pensamento deles. Inverso deve ser promovido como \u2018leitura obrigat\u00f3ria\u2019 para quaisquer pessoas interessadas nos assuntos de l\u00edngua e cultura ind\u00edgena Alto Rio Negrina, inclusive antrop\u00f3logos e linguistas\u201d, descreve Alexandra Aikhenvald, diretora do Centro de Pesquisa de L\u00edngua e Cultura do Instituto Cairns Universidade James Cook, Austr\u00e1lia.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio autor, Marcelo Carvalho, enfatiza que sua obra \u201cn\u00e3o \u00e9 sobre os ind\u00edgenas, \u00e9 a voz dos ind\u00edgenas. S\u00e3o eles que est\u00e3o falando, denunciando, reclamando, confessando, revelando suas necessidades, gostos, anseios, cren\u00e7as, prazeres e dores. Mais que isso, Inverso \u00e9 a voz de um povo que \u00e9 chamado \u2018Os Sem Fala\u2019 pelas outras etnias do Alto Rio Negro. \u00c9 a voz dos H\u00fapd\u2019\u00e4h.\u201d<!--more--><\/p>\n<p>Marcelo Carvalho \u00e9 pastor presbiteriano, mission\u00e1rio da Miss\u00e3o AMEM e consultor do Instituto Antropos. Junto com sua esposa, Cl\u00e1udia, atua dentre ind\u00edgenas no Alto Rio Negro desde 2002 e atualmente coordena o Programa de Letramento Hupd\u2019\u00e4h (Pr\u00f3- Hupd\u2019\u00e4h) pela Pr\u00f3-Amaz\u00f4nia, dando curso de aquisi\u00e7\u00e3o (escrita\/leitura) da l\u00edngua H\u00fap. Com outros professores, Marcelo tamb\u00e9m produz material did\u00e1tico na l\u00edngua para suas escolas.<\/p>\n<p>Leia a seguir um dos 36 cap\u00edtulos de Inverso.<\/p>\n<p>*****<\/p>\n<p><strong>At\u00e9 o paj\u00e9 benzeu, mas ela morreu&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><em>(Texto baseado em observa\u00e7\u00e3o e conversas com homens e mulheres H\u00fapd\u2019\u00e4h adultos)<\/em><\/p>\n<p>Ela morreu, n\u00e3o tem mais jeito! A gente fez de tudo pra trazer ela de volta. Os titios dela apertaram a barriguinha e o peito dela, pegaram na perninha dela fazendo o mesmo movimento de quando ela caminhava, seguraram nas m\u00e3ozinhas dela at\u00e9 o pulso pra ver se esquentava o corpinho dela e at\u00e9 assopraram no narizinho, mas ela n\u00e3o voltou.<\/p>\n<p>Depois disso, os parentes come\u00e7aram a soprar fuma\u00e7a de tabaco nela. Sopraram nos p\u00e9s, na cabe\u00e7a, nos ouvidos, nas m\u00e3os, no peito e na barriga. A\u00ed, o paj\u00e9 entrou na casa, olhou pra ela, pegou na cabe\u00e7a e no peito e foi pra um canto fumar tabaco falando aquelas palavras de benzimento* nele. A\u00ed, ele mesmo pegou o tabaco e come\u00e7ou a soprar a fuma\u00e7a no corpo todo dela; nos p\u00e9s, nas m\u00e3os, na barriga, no peito, na cabe\u00e7a, mas ela n\u00e3o voltou. Ela morreu mesmo.<\/p>\n<p>A morte dessa crian\u00e7a foi muito triste. Era o primeiro filho homem da fam\u00edlia do Casimiro. Ela tinha tido s\u00f3 filha mulher. Dizem que ele estava na beira brincando e foi atravessar o igarap\u00e9* junto com sua irm\u00e3. Na verdade, ele estava nas costas dela, quando um galho grande \u00e1rvore caiu em cima deles. Ela conseguiu nadar, mas ele caiu na \u00e1gua e desapareceu. S\u00f3 encontraram ele depois de uma hora, tr\u00eas voltas rio abaixo, preso num galho debaixo da \u00e1gua na beira do igarap\u00e9. Mas ele j\u00e1 estava morto.<\/p>\n<p>Agora, a mam\u00e3e dele est\u00e1 enrolando o seu corpinho com as roupinhas e pano que ele usava. E os titios da crian\u00e7a est\u00e3o fazendo o caix\u00e3o com a canoa, enquanto a vov\u00f3 dele e as titias est\u00e3o chorando, dizendo assim pra m\u00e3e da crian\u00e7a: \u201cTu tem culpa, porque voc\u00ea n\u00e3o cuidada dela, voc\u00ea tamb\u00e9m batia nela, agora bem feito pra ti!\u201d. N\u00e3o sei se voc\u00ea consegue ouvir daqui. Mas elas ainda est\u00e3o chorando falando isso! Acho que elas v\u00e3o chorar ainda at\u00e9 amanh\u00e3 ou quem sabe at\u00e9 outra semana&#8230; Porque \u00e9 assim pra n\u00f3s. A gente chora, \u00e0s vezes, um m\u00eas inteiro.<\/p>\n<p>Escutei que amanh\u00e3 o catequista vai fazer missa. Acho que pra encomendar a alma dessa crian\u00e7a. Foi assim que me disseram, n\u00e3o sei se \u00e9 verdade. Porque n\u00e3o \u00e9 nosso costume fazer missa quando morre uma pessoa.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 \u00e9 tarde v\u00e3o enterrar s\u00f3 amanh\u00e3. N\u00e3o sei se v\u00e3o enterrar no cemit\u00e9rio, ou se v\u00e3o enterrar dentro de casa mesmo. Porque quando \u00e9 crian\u00e7a assim, a gente \u00e0s vezes enterra dentro de casa ou no cemit\u00e9rio mesmo. Cada um \u00e9 que sabe como quer fazer. Dizem que depois que uma pessoa morre, ela fica por aqui. A alma dela fica quarenta dias no meio aqui da comunidade. E a gente escuta o barulho dela fazendo as mesmas coisas que ela costuma fazer. Quando o velho meu pai morreu, a gente costumava escutar ele saindo de casa com a bota pra ir pra ro\u00e7a e escutava o barulho dele quando ele comia.<\/p>\n<p>Na casa da minha comadre, diziam que quando a filha dela morreu, ela continuou vindo pra casa e dava pra ouvir tudo que ela fazia. Dizem que deram at\u00e9 comida pra ela. Deram beiju, mingau e ela comeu tudo. Disseram que ela at\u00e9 estava comendo as bananas que ela plantou na ro\u00e7a.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 verdade mesmo. Sempre a gente escuta o barulho do esp\u00edrito dos finados nossos parentes aqui, a gente fica com muito medo. Muito medo mesmo. Depois de quarenta dias \u00e9 que elas v\u00e3o embora e n\u00e3o voltam mais. Alguns dizem que eles v\u00e3o morar com o Filho do Osso*. Outros, que s\u00e3o ruins ou que se matam se enforcando, n\u00e3o v\u00e3o morar com eles e ficam aqui mesmo no mato.<\/p>\n<p>Uma vez o paj\u00e9 disse que sonhou com um rapaz que se enforcou e no sonho ele pedia pra ir embora morar com o Filho do Osso, mas ele disse que n\u00e3o podia fazer isso. Que n\u00e3o podia levar ele pra l\u00e1. Ele tinha que ficar morando aqui mesmo na terra. Por causa do tipo de morte dele.<\/p>\n<p>A gente tem muito medo do esp\u00edrito morto, porque ele d\u00e1 doen\u00e7a pra n\u00f3s. Por isso que a gente sempre mora todo mundo junto. Voc\u00ea pode ver que nossas casas sempre t\u00eam mais de uma fam\u00edlia ou est\u00e1 todo mundo sempre dormindo junto. Isso \u00e9 porque a gente tem muito medo. E sempre tem de ter fogo na nossa casa, porque a gente tem medo de ficar no escuro. \u00c9 muito perigoso ficar no escuro.<\/p>\n<p>Quando eu fui pra cidade, fiquei num quarto que n\u00e3o dava pra fazer fogo, a\u00ed eu deixei a luz acesa toda \u00e0 noite, porque \u00e9 muito perigoso ficar sem luz no quarto. D\u00e1 muito medo e o esp\u00edrito do mal ou os esp\u00edritos dos mortos podem aparecer pra n\u00f3s.<\/p>\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o tem medo do esp\u00edrito morto?<\/p>\n<p>&#8230; Eu tenho!<\/p>\n<p><strong>Gloss\u00e1rio<br \/>\n<em>Benzimento: <\/em><\/strong>processo m\u00e1gico de prote\u00e7\u00e3o, cura, preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as, conflitos, etc. praticado especialmente pelos benzedores, homens-de-banco e paj\u00e9s, por meio da manipula\u00e7\u00e3o de palavras, objetos da natureza e fabricados. O benzimento, tamb\u00e9m conhecido como encantamento, sempre tem objetivos ben\u00e9ficos.<br \/>\n<strong><em>Filho do Osso<\/em><\/strong>: demiurgo comumente comparado ao Deus crist\u00e3o pelos ind\u00edgenas do alto Rio Negro.<br \/>\n<strong><em>Igarap\u00e9<\/em><\/strong>: do tupi iara\u2019p\u00e9, \u201ccaminho da \u00e1gua\u201d. Canal fluvial natural; rio pequeno.<\/p>\n<p><em>O livro pode ser adquirido em contato com autor pelo email: <a href=\"mailto:marcclau@hotmail.com\" target=\"_blank\">marcclau@hotmail.com<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado em 2014, com apoio do Instituo Antropos, Inverso \u00e9 um livro que ajuda no processo de entendimento do ambiente amazonense, em especial, o ambiente do povo H\u00fapd\u2019\u00e4h, que vive na regi\u00e3o do Alto Rio Negro, no Amazonas. \u201c\u00c9 um acervo indispens\u00e1vel para quem quer entender a cultura dos ind\u00edgenas e pegar um gostinho do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[23253,23252,23254,23251,23250],"class_list":["post-4835","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-recursos","tag-alto-rio-negro","tag-hupdah","tag-instituto-antropos","tag-inverso","tag-marcelo-carvalho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4835","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4835"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4835\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4841,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4835\/revisions\/4841"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4835"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4835"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4835"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}