{"id":4446,"date":"2015-07-17T08:00:23","date_gmt":"2015-07-17T11:00:23","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/?p=4446"},"modified":"2015-07-14T17:01:41","modified_gmt":"2015-07-14T20:01:41","slug":"a-voz-de-um-boiadeiro-na-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/2015\/07\/a-voz-de-um-boiadeiro-na-capital\/","title":{"rendered":"A voz de um boiadeiro na capital"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2015\/07\/P10_17_07_15_boaideiro.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-4446\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-4447\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2015\/07\/P10_17_07_15_boaideiro.jpg\" alt=\"P10_17_07_15_boaideiro\" width=\"294\" height=\"348\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2015\/07\/P10_17_07_15_boaideiro.jpg 294w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2015\/07\/P10_17_07_15_boaideiro-253x300.jpg 253w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2015\/07\/P10_17_07_15_boaideiro-127x150.jpg 127w\" sizes=\"auto, (max-width: 294px) 100vw, 294px\" \/><\/a>O que faz um agricultor e boiadeiro, um \u201cboieiro e colhedor de sic\u00f4moros\u201d, ir do Sul para o Norte? O que o leva a sair de uma pequena aldeia, Tecoa, para a grande capital, Samaria, em um per\u00edodo de apregoada prosperidade, e despejar claras amea\u00e7as sobre os l\u00edderes da cidade? Tecoa, \u00e9 bem verdade, seria pequena, mas, n\u00e3o, sem import\u00e2ncia. E Am\u00f3s, o agricultor boiadeiro, tamb\u00e9m se apresenta como um homem bem-informado, atento inclusive aos acontecimentos mundiais. Alguns chegam a dizer que ele seria um rico propriet\u00e1rio de terras, com empregados sob o seu comando. Outros duvidam disso e prop\u00f5em que ele faria parte da popula\u00e7\u00e3o camponesa pobre e sem-terra, a servi\u00e7o de grandes propriet\u00e1rios. De todo modo, curiosa seria essa migra\u00e7\u00e3o, em que o migrante n\u00e3o vai \u00e0 cidade para buscar espa\u00e7o, mas para anunciar desgra\u00e7a; n\u00e3o vai em busca de novas oportunidades, mas para denunciar explora\u00e7\u00e3o. Quando confrontado, o profeta se explica e se apresenta como emiss\u00e1rio de Deus, do mesmo Deus, Jav\u00e9, que os l\u00edderes denunciados dizem adorar: \u201cEu n\u00e3o sou profeta, nem disc\u00edpulo de profeta, mas boieiro e colhedor de sic\u00f4moros. Mas o Senhor me tirou de ap\u00f3s o gado e o Senhor me disse: Vai e profetiza ao meu povo de Israel\u201d (Am 7.14b, 15).<\/p>\n<p>O profeta boiadeiro, Am\u00f3s, diz que n\u00e3o faz parte dos c\u00edrculos conhecidos dos profetas, de nenhuma das escolas de profetas conhecidas ou oficiais. De certo modo, rejeita as institui\u00e7\u00f5es religiosas estabelecidas. Entretanto, ele mesmo seria a voz aud\u00edvel da divindade. Rejeita a religi\u00e3o e fala em nome do Deus da religi\u00e3o, arvorando-se a discutir, na procura pela verdade, com qualquer esp\u00e9cie de religioso. Vai profetizar na capital. Deslumbra-se com seus pal\u00e1cios, mas decepciona-se com o imenso sistema de explora\u00e7\u00e3o ali constitu\u00eddo. A injusti\u00e7a se institui a partir da domina\u00e7\u00e3o de uma classe privilegiada, cujo monop\u00f3lio religioso transforma o discurso ideol\u00f3gico em sagrado e legitima a cont\u00ednua explora\u00e7\u00e3o. Critica as assembleias, os c\u00e2nticos, as melodias ao som da lira, os sacrif\u00edcios e todos os rituais religiosos, e prop\u00f5e que, em vez disso, corra \u201ca justi\u00e7a como ribeiro perene\u201d (Am 5.24).<!--more--><\/p>\n<p>O profeta \u00e9 um migrante do mundo rural para o urbano, como muitos migrantes de todas as \u00e9pocas. No entanto, o que o leva a migrar n\u00e3o \u00e9 a fascina\u00e7\u00e3o produzida pela metr\u00f3pole. Tampouco \u00e9 a possibilidade de desfrutar das vantagens de uma cidade murada que, aparentemente, oferece prote\u00e7\u00e3o aos seus habitantes diante de diversos tipos de viol\u00eancia, e que apresentaria uma qualidade de vida melhor do que a encontrada no campo. Am\u00f3s migra em plena revolta e den\u00fancia. Em seu falar, a cidade seria a respons\u00e1vel direta pelo que acontece no campo. Seus pal\u00e1cios e suas \u201ccasas de pedras lavradas\u201d s\u00e3o constru\u00eddas com a explora\u00e7\u00e3o do pobre campon\u00eas, com o dinheiro do tributo arbitrado sobre a sua colheita de trigo. Mas, finalmente, algu\u00e9m rompe o sil\u00eancio, denuncia a estrutura injusta e confronta os respons\u00e1veis pela espiral de injusti\u00e7a. Talvez o pr\u00f3prio Am\u00f3s tenha sido atingido por esse lado oculto da urbaniza\u00e7\u00e3o. Talvez tamb\u00e9m tenha perdido terras e gados, pela cont\u00ednua e abusiva opress\u00e3o do mundo urbano sobre o rural. Nem rico nem pobre, pertenceria \u00e0 nova categoria de \u201cempobrecido\u201d. Entretanto, o profeta n\u00e3o fala apenas em seu nome ou em nome dos empobrecidos do campo, mas a partir de um nome bem maior.<\/p>\n<p>O campon\u00eas-profeta, Am\u00f3s, assume a voz do campo contra a cidade \u2014 ou critica e denuncia o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o de sua \u00e9poca \u2014 em nome do mesmo Deus celebrado pela cidade. Para o profeta, esse Deus, Jav\u00e9, est\u00e1 do lado do explorado campon\u00eas, e n\u00e3o do lado do opressor urbano, mesmo que seja este \u00faltimo quem detenha oficialmente o poder de decidir o que \u00e9 religi\u00e3o e de estabelecer e organizar o grupo leg\u00edtimo de \u201cprofetas\u201d. O profeta ilegal, Am\u00f3s, reivindica como leg\u00edtima a sua experi\u00eancia, por ser direta e incontrol\u00e1vel. Representa uma religiosidade popular que desconhece e at\u00e9 desrespeita media\u00e7\u00f5es oficiais. Existem outros canais de comunica\u00e7\u00e3o com Jav\u00e9, fora da religi\u00e3o oficial, e essa experi\u00eancia, de cunho popular, vem com a for\u00e7a de um poder irresist\u00edvel: \u201cRugiu o le\u00e3o, quem n\u00e3o temer\u00e1?\u201d (Am 3.8a.) Dessa religiosidade n\u00e3o-oficial, vem o profeta ilegal, desautorizado pelos c\u00edrculos de poder, mas irresistivelmente autorizado pelo pr\u00f3prio Jav\u00e9: \u201cFalou o Senhor, quem n\u00e3o profetizar\u00e1?\u201d (Am 3.8b.)<\/p>\n<p>*Trecho retirado do livro <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/um-jumentinho-na-avenida\">Um jumentinho na avenida \u2013 a miss\u00e3o da igreja e as cidades<\/a>, de Marcos Monteiro (p. 96).<\/p>\n<p>Imagem: freeimages.com\/photo\/cowboys-in-the-dark-1240194<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que faz um agricultor e boiadeiro, um \u201cboieiro e colhedor de sic\u00f4moros\u201d, ir do Sul para o Norte? 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