{"id":4394,"date":"2015-06-29T11:15:00","date_gmt":"2015-06-29T14:15:00","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/?p=4394"},"modified":"2015-06-29T11:17:43","modified_gmt":"2015-06-29T14:17:43","slug":"voce-e-ovelha-de-jesus-ou-de-pedro-uma-discussao-entre-frei-damiao-e-uma-adolescente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/2015\/06\/voce-e-ovelha-de-jesus-ou-de-pedro-uma-discussao-entre-frei-damiao-e-uma-adolescente\/","title":{"rendered":"\u201cVoc\u00ea \u00e9 ovelha de Jesus ou de Pedro?\u201d \u2013 Uma discuss\u00e3o entre frei Dami\u00e3o e uma adolescente"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Josu\u00e9 Silvestre<\/em><\/p>\n<p>Alagoa Grande \u00e9 um antigo munic\u00edpio do Brejo Paraibano, distando 110 km da capital, Jo\u00e3o Pessoa. Hoje, tem cerca de 30 mil habitantes. Sempre foi o centro de uma microrregi\u00e3o geoecon\u00f4mica do Estado. Em 1932, o n\u00famero de munic\u00edpios na Para\u00edba era bem menor do que o atual e a cidade exercia influ\u00eancia pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social sobre as comunas lim\u00edtrofes. Para l\u00e1 se dirigiu o frei Dami\u00e3o, numa de sua primeiras \u201csantas miss\u00f5es\u201d. Mas ele jamais imaginara o que lhe aguardava em Lagoa Grande: a f\u00e9, a coragem, a voluntariedade e o conhecimento b\u00edblico de uma adolescente salva por Jesus. Aluna do Agnes Erikyne \u2013 col\u00e9gio presbiteriano que funciona no Recife h\u00e1 mais de cem anos, Isnal estava de f\u00e9rias em Lagoa Grande.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><!--more-->Frei Dami\u00e3o, instalado em um palanque erguido em frente ao templo cat\u00f3lico da cidade, fazia todas as noites, as suas prega\u00e7\u00f5es, antecedidas e conclu\u00eddas com as c\u00e9lebres prociss\u00f5es que comandava pelas ruas dos lugares onde predicava.<\/p>\n<p>Isnal foi a um culto na Igreja Presbiteriana com a m\u00e3e e tinha que passar pela pra\u00e7a na matriz. Ficou escutando o que o frade dizia e chegou em casa comentando que n\u00e3o havia respaldo b\u00edblico para aquela doutrina\u00e7\u00e3o. E afirmava:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 necessidade intermedia\u00e7\u00e3o entre o pecador e Jesus Cristo.<\/p>\n<p>&#8211; Salva\u00e7\u00e3o s\u00f3 se obt\u00e9m atrav\u00e9s do sacrif\u00edcio de Cristo na cruz do Calv\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; A Palavra de Deus pro\u00edbe a adora\u00e7\u00e3o de imagens.<\/p>\n<p>&#8211; A B\u00edblia Sagrada deve ser lida e obedecida e n\u00e3o rasgada e queimada como alguns chefes religiosos ensinam.<\/p>\n<p>O seu tio, Jose Aires, cat\u00f3lico, escutou a conversa de Isnal e a desafiou:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea tem cora\u00e7\u00e3o de dizer isso a\u00ed a frei Dami\u00e3o?<\/p>\n<p>E a jovem serva de Deus com determina\u00e7\u00e3o e entusiasmo:<\/p>\n<p>&#8211; Tenho! Se eu me encontrar com ele, com todo o respeito eu falo sobre as verdades da B\u00edblia e digo que ele est\u00e1 ensinando coisas erradas ao povo.<\/p>\n<p>O comerciante Jos\u00e9 Aires n\u00e3o deixou para depois. Foi imediatamente \u00e0 casa paroquial, conversou com o p\u00e1roco de Alagoa Grande, o padre Gentil, que chamou frei Dami\u00e3o e acertaram uma visita \u00e0 menina protestante para o outro dia \u00e0 tarde.<\/p>\n<p>Quando soube que o frade ia mesmo conversar com ela, Isnal passou a orar, pedindo gra\u00e7a e sabedoria ao Senhor e a estudar a B\u00edblia com afinco, anotando alguns trechos fundamentais para a palestra com o chefe religioso.<\/p>\n<p>No outro dia, logo ap\u00f3s o almo\u00e7o, chegaram frei Dami\u00e3o e o padre da cidade. A palestra se prolongou por quase tr\u00eas horas. Jamais o capuchinho de Bozzano, na distante It\u00e1lia, imaginou que encontraria uma adolescente nos rinc\u00f5es da Para\u00edba t\u00e3o destemida e com profundidade b\u00edblia suficiente para enfrent\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Isnal conta que foi uma verdadeira batalha espiritual, mas viu logo que sairia vencedora porque o frade n\u00e3o conhecia a B\u00edblia. Ela citava os textos e ele folheava o seu exemplar para a frente a para tr\u00e1s e n\u00e3o encontrava o livro, quanto mais i cap\u00edtulo ou o vers\u00edculo. Num relato encaminhado ao autor, Isnal, enfatiza: \u201cA impress\u00e3o que dava \u00e9 que ele nunca havia pegado uma B\u00edblia.\u201d Ali\u00e1s, essa \u00e9 uma informa\u00e7\u00e3o constante de narrativas de pastores e crentes que polemizaram com Dami\u00e3o e com outros frades e padres romanos, em d\u00e9cadas passadas. Eles n\u00e3o liam a B\u00edblia e, portanto, n\u00e3o a conhecem. Hoje, talvez j\u00e1 estejam lendo, depois que o Vaticano iniciou suas \u201caberturas\u201d, apavorado com a perda de milh\u00f5es de fi\u00e9is na Am\u00e9rica Latina, sobretudo no Brasil.<\/p>\n<p>Casa cheia de familiares e curiosos, Isnal falou sobre o poder de Jesus para o frade, mostrou que a B\u00edblia condena a idolatria, disse que a Virgem Maria merecia respeito e admira\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o salvava ningu\u00e9m. Alegou que foi o pr\u00f3prio ap\u00f3stolo Pedro quem disse que a verdadeira pedra era Jesus. A cada argumenta\u00e7\u00e3o b\u00edblica, Isnal conta que o frade se firmava na tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica e alegava que ela n\u00e3o sabia interpretar o texto sagrado.<\/p>\n<p>O di\u00e1logo n\u00e3o foi f\u00e1cil porque o frade evidentemente n\u00e3o aceitava o arrozoado b\u00edblico de Isnal e ela n\u00e3o concordava com o que Dami\u00e3o dizia. J\u00e1 impaciente, ele terminou fazendo uma pergunta, cuja resposta ela entendia ser \u00f3bvia, mas ele se aproveitou para finalizar a conversa.<\/p>\n<p>Eis a pergunta de Dami\u00e3o: \u201cVoc\u00ea \u00e9 ovelha de Jesus ou de Pedro?\u201d Ele queria que Isnal respondesse que era ovelha dos dois, porque no curso da discuss\u00e3o, o frade tentou convencer Isnal de que Pedro era t\u00e3o importante quanto Jesus. Um absoluto absurdo.<\/p>\n<p>A jovem crente, no entanto, convicta da f\u00e9 que professava e da doutrina que seguia, respondeu com muita \u00eanfase:<\/p>\n<p>&#8211; Eu s\u00f3 sou ovelha de Jesus.<\/p>\n<p>E frei Dami\u00e3o, num rompante de agressividade:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 \u201cbode\u201d \u00e9 do diabo, vai para o inferno!<\/p>\n<p>Disse isso, levantou-se bruscamente e saiu rezando alto o seu ros\u00e1rio, enquanto intercalava a prece com impreca\u00e7\u00f5es contra os \u201cprutistantes\u201d. Cumpriu-se com Isnal, o que prometeu:<\/p>\n<p>\u201c&#8230; n\u00e3o cuideis de como e ou que haveis de falar, porque naquela mesma hora, vos ser\u00e1 ministrado o que haveis de dizer. Porque n\u00e3o sois quem falar\u00e1, mas o Esp\u00edrito do vosso Pai \u00e9 que fala em v\u00f3s.\u201d (Mateus 10.19-20)<\/p>\n<p>A longa conversa de frei Dami\u00e3o com a jovem Isnal Barbosa foi o estopim para a eclos\u00e3o de uma s\u00e9rie de persegui\u00e7\u00f5es aos evang\u00e9licos de Alagoa Grande. Na mesma noite, ele come\u00e7ou a desenvolver o processo intimidat\u00f3rio que usou em centenas de cidades e vilas do Nordeste:<\/p>\n<p>&#8211; Proibiu que se vendesse p\u00e3o, leite ou qualquer outro g\u00eanero aliment\u00edcio aos \u201cbodes\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Proibiu que se comprasse nos estabelecimentos comerciais dos crentes. O pai de Isnal tinha uma padaria e uma loja de tecidos e armarinho.<\/p>\n<p>&#8211; Mandou juntar B\u00edblias, hin\u00e1rios e outros livros distribu\u00eddos por evang\u00e9licos, para que fossem queimados na pra\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>As dificuldades para comprar alimentos eram grandes. Vendendo muito pouco, a crise nos seus estabelecimentos crescia. Foram quase dois anos de humilha\u00e7\u00f5es, desaforos, intoler\u00e2ncia. A fam\u00edlia resolver fechar as casas comerciais e abandonar a cidade para evitar consequ\u00eancias mais graves. Mudou-se para a cidade de Patos, em 1935. Ficaram no sert\u00e3o paraibano pouco tempo. Frei Dami\u00e3o chegou por l\u00e1 e com ele tamb\u00e9m veio a persegui\u00e7\u00e3o. Migraram para Natal, capital do Rio Grande do Norte.<\/p>\n<p>Isnal conta que o sofrimento daquela fase solidificou a f\u00e9 dos seus familiares. Hoje, toda a sua casa serve ao Senhor. Ela, os filhos, os genros e noras, s\u00e3o envolvidos em atividades do Reino.<\/p>\n<p>Trecho do livro <strong>\u201cFatos e personagens de persegui\u00e7\u00f5es a evang\u00e9licos\u201d<\/strong>, de <strong>Josu\u00e9 Silvestre, <\/strong>(p. 55 \u2013 58).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Os centen\u00e1rios col\u00e9gios evang\u00e9licos do Recife. Al\u00e9m do Agnes, o Americano Batista \u00e9 uma respeit\u00e1vel refer\u00eancia na \u00e1rea educacional do Nordeste.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Josu\u00e9 Silvestre Alagoa Grande \u00e9 um antigo munic\u00edpio do Brejo Paraibano, distando 110 km da capital, Jo\u00e3o Pessoa. Hoje, tem cerca de 30 mil habitantes. Sempre foi o centro de uma microrregi\u00e3o geoecon\u00f4mica do Estado. 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