{"id":4375,"date":"2015-06-22T08:38:13","date_gmt":"2015-06-22T11:38:13","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/?p=4375"},"modified":"2015-06-22T08:39:46","modified_gmt":"2015-06-22T11:39:46","slug":"cantando-sem-medo-para-o-deus-verdadeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/2015\/06\/cantando-sem-medo-para-o-deus-verdadeiro\/","title":{"rendered":"Cantando sem medo para o Deus verdadeiro"},"content":{"rendered":"<p><em>Por H\u00e9ber Negr\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2015\/06\/P10_22_06_15_musica_kaa.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-4375\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-4377 size-medium\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2015\/06\/P10_22_06_15_musica_kaa-197x300.jpg\" alt=\"Foto: http:\/\/memoria.ebc.com.br\/agenciabrasil\/galeria\/2003-04-19\/19-de-abril-de-2003\" width=\"197\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2015\/06\/P10_22_06_15_musica_kaa-197x300.jpg 197w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2015\/06\/P10_22_06_15_musica_kaa-98x150.jpg 98w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2015\/06\/P10_22_06_15_musica_kaa.jpg 248w\" sizes=\"auto, (max-width: 197px) 100vw, 197px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Durante dez dias estive na aldeia do povo Ka\u2019a a convite de um casal de mission\u00e1rios<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> para fazer pesquisas na \u00e1rea de etnomusicologia. Eles vivem \u00e0 margem de um rio no estado do Par\u00e1 e t\u00eam contato consideravelmente recente com a sociedade n\u00e3o ind\u00edgena, remontando aos idos dos anos 80.<\/p>\n<p>Os mission\u00e1rios j\u00e1 desenvolvem um trabalho entre eles h\u00e1 mais de trinta anos e em janeiro de 2012 um grupo de pastores de outra etnia visitou este povo e batizou mais de 140 ind\u00edgenas Ka\u2019a. Desde ent\u00e3o, a igreja cresceu e chegou at\u00e9 a enviar algumas fam\u00edlias crist\u00e3s para fazer um curso b\u00edblico para poderem assumir a lideran\u00e7a de sua igreja local.<\/p>\n<p>Com o desenvolvimento da igreja, viu-se a necessidade de uma liturgia adequada \u00e0 cultura do povo. Os mission\u00e1rios queriam que a igreja come\u00e7asse a cantar m\u00fasicas para louvar ao Senhor em seu pr\u00f3prio sistema musical. Foi com esse objetivo que o mission\u00e1rio etnomusic\u00f3logo Jo\u00e3o e eu fomos convidados a visitar aquela aldeia.<!--more--><\/p>\n<p>O povo Ka\u2019a tem m\u00fasicas instrumentais e cantadas e elas s\u00e3o executadas apenas durante suas festas. Elas est\u00e3o relacionadas aos animais da floresta, que possuem donos. Esses donos s\u00e3o as almas de pessoas que morreram e tiveram suas almas migradas para os animais, principalmente os predadores. O nosso desafio era compor can\u00e7\u00f5es que soassem como as m\u00fasicas dos Ka\u2019a, mas sem gerar associa\u00e7\u00e3o com as can\u00e7\u00f5es das festas e com estas almas. Dessa forma, n\u00f3s gravamos algumas de suas can\u00e7\u00f5es tradicionais e analisamos a sua composi\u00e7\u00e3o: ritmo, melodia, fraseado, intervalos recorrentes etc.<\/p>\n<p>Um tempo atr\u00e1s os mission\u00e1rios haviam traduzido algumas can\u00e7\u00f5es brasileiras para a l\u00edngua do povo e passaram a cant\u00e1-las em todos os cultos. Nossa estrat\u00e9gia foi usar as letras traduzidas destas can\u00e7\u00f5es e substituir a melodia ocidental por uma melodia que lhes fosse familiar, de acordo com seu pr\u00f3prio estilo musical baseado no resultado da nossa an\u00e1lise. E deu muito certo.<\/p>\n<p>Quando cantamos para eles a primeira m\u00fasica que fizemos eles come\u00e7aram a sorrir de satisfa\u00e7\u00e3o e dizer: \u201cmuito bom, muito bom\u201d. Perguntamos se aquelas novas can\u00e7\u00f5es soavam como as can\u00e7\u00f5es do seu povo. Apesar de reconhecerem a letra com outra melodia, eles disseram: \u201c<em>\u00e9 assim mesmo, isso parece com a nossa m\u00fasica<\/em>\u201d. Assim, aquela antiga can\u00e7\u00e3o: \u201c<em>Eu tenho gozo, gozo no meu cora\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d, passou a ser cantada no estilo musical deles: \u201c<em>Estou alegre, estou alegre. Jesus \u00e9 bom<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m aproveitamos a oportunidade para compor duas can\u00e7\u00f5es para as crian\u00e7as cantarem na escola da aldeia. Uma delas falava sobre obedecer aos pais e aos professores e a outra ensinava que devemos cuidar do nosso corpo. Os professores ficaram animados com mais uma ferramenta para usarem na educa\u00e7\u00e3o escolar.<\/p>\n<p>Todas as noites n\u00f3s receb\u00edamos a visita de v\u00e1rios ind\u00edgenas, na casa dos mission\u00e1rios. Ensin\u00e1vamos as m\u00fasicas que compusemos ao longo do dia e depois cant\u00e1vamos com eles. Aquele momento tamb\u00e9m era um tempo de aconselhamento dos crist\u00e3os com os mission\u00e1rios. Uma das senhoras estava com seu filho muito doente e toda noite a mission\u00e1ria fazia uma ora\u00e7\u00e3o pedindo pelo restabelecimento da crian\u00e7a. No outro dia, ouvimos um belo testemunho desta m\u00e3e. Algu\u00e9m havia lhe dito para levar seu filho ao paj\u00e9, ao que ela respondeu: \u201c<em>N\u00e3o. S\u00f3 existe um \u00fanico Deus verdadeiro<\/em>.\u201d Aproveitamos este fato para criar uma nova can\u00e7\u00e3o. Sem d\u00favida ser\u00e1 uma importante ferramenta de ensino para aquela igreja.<\/p>\n<p>N\u00f3s percebemos que nosso objetivo havia sido alcan\u00e7ado quando vimos um grupo de crian\u00e7as cantar uma m\u00fasica tradicional Ka\u2019a e as m\u00fasicas compostas por n\u00f3s. Eles cantavam a can\u00e7\u00e3o tradicional bem baixinho, quase sussurrando, demonstrando medo das almas predadoras. E quando elas a cantavam as m\u00fasicas da igreja, elas o faziam com todo vigor, cantando bem alto.<\/p>\n<p>Percebemos ent\u00e3o que as novas can\u00e7\u00f5es n\u00e3o estavam mais associadas \u00e0s almas predadoras e ainda assim soavam como Ka\u2019a. Agora elas podiam cantar livremente, sem medo, para o \u00fanico Deus verdadeiro.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> O nome dos mission\u00e1rios foi omitido e nome da etnia \u00e9 pseud\u00f4nimo para prote\u00e7\u00e3o dos mission\u00e1rios que trabalham na \u00e1rea.<\/p>\n<p>Foto: http:\/\/memoria.ebc.com.br\/agenciabrasil\/galeria\/2003-04-19\/19-de-abril-de-2003<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/twitter.com\/HeberNegrao\"><strong>H\u00e9ber Negr\u00e3o<\/strong><\/a><strong>\u00a0<\/strong>\u00e9 paraense, tem 32 anos, mestre em Etnomusicologia e casado com Sophia. Ambos s\u00e3o mission\u00e1rios da\u00a0<a href=\"http:\/\/meib.com.br\/\">Miss\u00e3o Evang\u00e9lica aos \u00cdndios do Brasil (MEIB)<\/a>\u00a0e da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.missaoalem.org.br\/\">Associa\u00e7\u00e3o Lingu\u00edstica Evang\u00e9lica Mission\u00e1ria (ALEM)<\/a>. Residem em Paragominas (PA) e trabalham com o povo Temb\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por H\u00e9ber Negr\u00e3o Durante dez dias estive na aldeia do povo Ka\u2019a a convite de um casal de mission\u00e1rios[1] para fazer pesquisas na \u00e1rea de etnomusicologia. Eles vivem \u00e0 margem de um rio no estado do Par\u00e1 e t\u00eam contato consideravelmente recente com a sociedade n\u00e3o ind\u00edgena, remontando aos idos dos anos 80. 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