{"id":2924,"date":"2013-04-12T10:49:27","date_gmt":"2013-04-12T13:49:27","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/?p=2924"},"modified":"2013-04-12T11:46:25","modified_gmt":"2013-04-12T14:46:25","slug":"um-olhar-atualizado-sobre-os-povos-indigenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/2013\/04\/um-olhar-atualizado-sobre-os-povos-indigenas\/","title":{"rendered":"Um olhar atualizado sobre os povos ind\u00edgenas"},"content":{"rendered":"<p>Por H\u00e9ber Negr\u00e3o<\/p>\n<div id=\"attachment_2926\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2013\/04\/P10_12_04_13_Indigenas_meninas1.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-2924\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2926\" class=\"size-full wp-image-2926\" alt=\"Meninas ind\u00edgenas do Norte do Brasil. Foto: MEIB.\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2013\/04\/P10_12_04_13_Indigenas_meninas1.jpg\" width=\"340\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2013\/04\/P10_12_04_13_Indigenas_meninas1.jpg 340w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2013\/04\/P10_12_04_13_Indigenas_meninas1-300x220.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2013\/04\/P10_12_04_13_Indigenas_meninas1-150x110.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2926\" class=\"wp-caption-text\">Meninas ind\u00edgenas do Norte do Brasil. Foto: MEIB.<\/p><\/div>\n<p><span style=\"text-align: center;\">Qual \u00e9 a primeira imagem que vem a sua cabe\u00e7a quando voc\u00ea pensa em povos ind\u00edgenas? Tenha em mente essa imagem ao longo da leitura deste artigo. Desde cedo, em nossas escolas, temos recebido informa\u00e7\u00f5es sobre aquelas pessoas que j\u00e1 habitavam este territ\u00f3rio antes dos europeus chegarem. Mais de 500 anos se passaram e nossa mentalidade ainda n\u00e3o mudou em rela\u00e7\u00e3o a eles.<\/span><\/p>\n<p>\u00c9 imprescind\u00edvel que a gente tenha uma vis\u00e3o correta (e mais atual) sobre os povos ind\u00edgenas. Como mission\u00e1rio que trabalha entre ind\u00edgenas, j\u00e1 ouvi muitas perguntas carregadas de uma mentalidade cinco s\u00e9culos desatualizada. Meu objetivo com esse texto \u00e9 que voc\u00ea evite cair em alguns erros (de vocabul\u00e1rio e de mentalidade) que a maioria dos brasileiros tem cometido.<!--more--><\/p>\n<p><strong>Vis\u00e3o etnoc\u00eantrica<\/strong><br \/>\nO etnocentrismo ocorre quando n\u00f3s avaliamos os povos de outra cultura de acordo com o nosso padr\u00e3o e valores. O antrop\u00f3logo Everardo Rocha diz que o etnocentrismo \u201c\u00e9 uma vis\u00e3o do mundo onde o nosso pr\u00f3prio grupo \u00e9 tomado como centro de tudo, e todos os outros s\u00e3o pensados e sentidos atrav\u00e9s dos nossos valores e modelos<sup>1<\/sup>.\u201d N\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil identificar o etnocentrismo em nossas falas. Alguma vez voc\u00ea j\u00e1 fez uma pergunta desse tipo: \u201ccomo eles conseguem viver assim?\u201d. Bem, isso \u00e9 etnocentrismo.<br \/>\nE deste etnocentrismo nem os pr\u00f3prios ind\u00edgenas escapam. Muitas tribos t\u00eam seus nomes carregados de conceitos etnoc\u00eantricos. \u201cTenetehara\u201d<sup>2<\/sup>, por exemplo, significa \u201cn\u00f3s somos os seres humanos verdadeiros\u201d. Os \u201cparakan\u00e3\u201d chamam a si mesmos de \u201cAwaet\u00e9\u201d: \u201cgente de verdade\u201d. Ao mesmo tempo, eles se referem aqueles que n\u00e3o fazem parte de sua sociedade utilizando termos pejorativos como \u201cmacacos\u201d, \u201covos de piolho\u201d e \u201cb\u00e1rbaros\u201d, possivelmente a alcunha mais conhecida para n\u00f3s. O etnocentrismo \u00e9 um mal inerente a todas as sociedades humanas.<\/p>\n<p>O povo ind\u00edgena sempre foi retratado nos livros did\u00e1ticos a partir de uma vis\u00e3o etnoc\u00eantrica. Talvez voc\u00ea se identifique com alguma dessas vis\u00f5es. Everardo Rocha diz que a imagem do ind\u00edgena foi alugada para aparecer na Hist\u00f3ria do Brasil em tr\u00eas pap\u00e9is diferentes: o primeiro papel \u00e9 o de \u201cselvagem\u201d e \u201cprimitivo\u201d. Ele foi dado na \u00e9poca da chegada dos portugueses para tornar estes superiores e civilizados em rela\u00e7\u00e3o aos silv\u00edcolas que habitavam a ent\u00e3o Ilha de Vera Cruz. O outro papel \u00e9 o de \u201calma inocente\u201d e \u201cinfantil\u201d que precisava da prote\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o portuguesa, sendo pretexto para a catequiza\u00e7\u00e3o<sup>3<\/sup> pelos jesu\u00edtas. O terceiro papel \u00e9 interessante porque j\u00e1 na nossa era o ind\u00edgena passou a ser valorizado como uma das ra\u00e7as que comp\u00f5e a identidade do brasileiro. Ora, ningu\u00e9m quer se identificar com o \u201cselvagem\u201d ou com a \u201ccrian\u00e7a\u201d; logo, ao ind\u00edgena foi cunhado o papel de \u201ccorajoso\u201d e \u201camante da liberdade\u201d. Outra vis\u00e3o do ind\u00edgena, que n\u00e3o foi mencionada por Rocha, tamb\u00e9m se espalhou pelos livros did\u00e1ticos. Com certeza voc\u00ea j\u00e1 deve ter ouvido falar do \u201cbom selvagem\u201d. Este foi um termo emprestado de Jean Jacques Rousseau para ilustrar como o ind\u00edgena \u00e9 aquele ser perfeito e puro que vive em harmonia com a natureza.<\/p>\n<p>O jornalista Leandro Narloch, em seu \u201cGuia Politicamente Incorreto da Hist\u00f3ria do Brasil\u201d, tenta romper com a imagem do ind\u00edgena que foi gerada pelos livros did\u00e1ticos. Baseando-se em s\u00e9rias pesquisas ele diz que \u201ca coloniza\u00e7\u00e3o foi marcada tamb\u00e9m por escolhas e prefer\u00eancias dos \u00edndios [&#8230;]. Muitos \u00edndios foram amigos dos brancos, aliados em guerras, vizinhos que se misturaram at\u00e9 virar a popula\u00e7\u00e3o brasileira de hoje. \u2018Os \u00edndios transformaram-se mais do que foram transformados\u2019\u201d<sup>4<\/sup>.<\/p>\n<p>Isaac Souza diz que o drama do ind\u00edgena \u00e9 de ser reconhecido como figura humana. \u201cO \u00edndio n\u00e3o passa de um ser humano que participa de uma cultura diferente da nossa. Nem \u00e9 perfeito e puro \u2018selvagem\u2019, nem \u00e9 indiv\u00edduo mau e vingativo, nem b\u00e1rbaro que deve ser salvo, nem obst\u00e1culo ao progresso e ao desenvolvimento\u201d<sup>5<\/sup>. Acima de tudo, os ind\u00edgenas devem ser vistos por n\u00f3s como homens feitos \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus e, por isso, t\u00e3o portadores de dignidade quanto qualquer outra pessoa.<\/p>\n<p><strong>Termos mais apropriados<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong>J\u00e1 perdi a conta do n\u00famero de pessoas que t\u00eam me perguntado se o povo com quem trabalhamos \u00e9 \u201ccivilizado\u201d. Gostaria de esclarecer, de uma vez por todas, que n\u00e3o existe nenhuma sociedade no mundo que n\u00e3o seja civilizada. Entenda que \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de viver em uma cidade grande. O dicion\u00e1rio Michaelis conceitua civiliza\u00e7\u00e3o como \u201cestado de adiantamento cultural\u201d. Nada mais longe da verdade.<\/p>\n<p>Pierre Clastres diz que um povo \u00e9 civilizado quando consegue viver bem em sua civiliza\u00e7\u00e3o, em seu contexto social. Tenho certeza que, ao viver em uma comunidade ind\u00edgena, voc\u00ea ser\u00e1 bem menos civilizado do que seus anfitri\u00f5es, afinal voc\u00ea n\u00e3o sabe ca\u00e7ar nem pescar. Voc\u00ea n\u00e3o sabe viver bem no contexto social que eles vivem. Por isso evite usar o termo \u201ccivilizado\u201d como sin\u00f4nimo de \u201curbaniza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Aqui v\u00e3o algumas dicas de termos aceitos pela academia e que voc\u00ea pode utilizar, sem problemas. Os ind\u00edgenas s\u00e3o povos de \u201ctradi\u00e7\u00e3o oral\u201d e \u201ccultura simples\u201d. Aqui a express\u00e3o \u201csimples\u201d n\u00e3o tem conota\u00e7\u00e3o de inferioridade, mas de simplicidade nas organiza\u00e7\u00f5es sociais. Diferente dos povos de culturas complexas como a nossa. Caso voc\u00ea esteja interessado, pergunte se eles \u201cmant\u00eam forte sua identidade\u201d cultural ou se j\u00e1 t\u00eam contato com a \u201csociedade envolvente\u201d. Outra pergunta apropriada seria: \u201cde qual etnia voc\u00ea faz parte?\u201d Isso \u00e9 bem menos agressivo do que perguntar se s\u00e3o civilizados. Acredite!<\/p>\n<p>Toda cultura \u00e9 din\u00e2mica. Isso quer dizer que ela est\u00e1 em constante mudan\u00e7a. A cultura brasileira n\u00e3o \u00e9 a mesma de 50 anos atr\u00e1s, basta olhar para os seus pais (ou seus filhos) para perceber essa diferen\u00e7a. \u201cA din\u00e2mica cultural \u00e9 um dado fundamental para toda sociedade e um sinal de que a cultura est\u00e1 viva e gozando de plena sa\u00fade\u201d<sup>6.<\/sup>. O mesmo acontece com a linguagem. Ela est\u00e1 em constante transforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 por este motivo que, no portugu\u00eas, a palavra \u201c\u00edndio\u201d ao longo dos anos deixou de ser uma identifica\u00e7\u00e3o \u00e9tnica para tornar-se um termo pejorativo. Hoje em dia o termo mais aceito para se referir a eles \u00e9 \u201cind\u00edgena\u201d. E ainda assim \u00e9 muito generalizado, pois n\u00e3o podemos ignorar que cada um dos 340 povos ind\u00edgenas do Brasil tem sua cultura e costumes espec\u00edficos. Nesse caso j\u00e1 n\u00e3o existem ind\u00edgenas, mas sim \u201cTemb\u00e9\u201d, \u201cGuajajara\u201d, \u201cKayap\u00f3\u201d, \u201cKanela\u201d.<\/p>\n<p>Fa\u00e7a um esfor\u00e7o para lembrar-se de usar esses termos quando voc\u00ea estiver em contato com mission\u00e1rios ou irm\u00e3os ind\u00edgenas ou participando de algum evento mission\u00e1rio.<br \/>\n<strong>Notas:<\/strong><br \/>\n1. ROCHA, Everardo. O que \u00e9 Etnocentrismo. Editora Brasiliense, p.7.<br \/>\n2. Consideram-se \u201cTentehara\u201d os povos Guajajara e Temb\u00e9.<br \/>\n3. Para um estudo mais aprofundado entre a diferen\u00e7a de \u2018catequese\u2019 e \u2018evangeliza\u00e7\u00e3o\u2019 leia a Introdu\u00e7\u00e3o do livro <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/a-questao-indigena-uma-luta-desigual\" target=\"_blank\">A Quest\u00e3o Ind\u00edgena, Uma Luta Desigual<\/a>, Editora Ultimato.<br \/>\n4. NARLOCH, Leandro. \u201cGuia Politicamente Incorreto da Hist\u00f3ria do Brasil\u201d. Editora Leya, p.33.<br \/>\n5. SOUZA, Isaac. <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/de-todas-as-tribos\" target=\"_blank\">De Todas as Tribos<\/a>. Editora Ultimato, p. 27<br \/>\n6. SOUZA, Isaac; LID\u00d3RIO, Ronaldo (org). <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/loja\/produtos\/a-questao-indigena-uma-luta-desigual\" target=\"_blank\">A Quest\u00e3o Ind\u00edgena<\/a>. Editora Ultimato, p.12.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>______________<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/HeberNegrao\" target=\"_blank\"><strong>H\u00e9ber Negr\u00e3o<\/strong><\/a> \u00e9 paraense, tem 30 anos, mestre em Etnomusicologia e casado com Sophia. Ambos s\u00e3o mission\u00e1rios da Miss\u00e3o Evang\u00e9lica aos \u00cdndios do Brasil (MEIB), com sede em Bel\u00e9m, PA.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por H\u00e9ber Negr\u00e3o Qual \u00e9 a primeira imagem que vem a sua cabe\u00e7a quando voc\u00ea pensa em povos ind\u00edgenas? Tenha em mente essa imagem ao longo da leitura deste artigo. Desde cedo, em nossas escolas, temos recebido informa\u00e7\u00f5es sobre aquelas pessoas que j\u00e1 habitavam este territ\u00f3rio antes dos europeus chegarem. 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