{"id":2080,"date":"2012-02-17T11:47:35","date_gmt":"2012-02-17T14:47:35","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/?p=2080"},"modified":"2012-02-17T11:47:56","modified_gmt":"2012-02-17T14:47:56","slug":"quilombolas-um-desafio-para-a-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/2012\/02\/quilombolas-um-desafio-para-a-igreja\/","title":{"rendered":"Quilombolas: um desafio para a Igreja"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Alison Worrall<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_2081\" style=\"width: 311px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2012\/02\/Quilombo_casa.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-2080\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\" data-lightview-title=\"Quilombo_casa\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2081\" class=\"size-full wp-image-2081\" title=\"Quilombo_casa\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2012\/02\/Quilombo_casa.jpg\" alt=\"\" width=\"301\" height=\"226\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2012\/02\/Quilombo_casa.jpg 301w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2012\/02\/Quilombo_casa-300x225.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2012\/02\/Quilombo_casa-150x112.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 301px) 100vw, 301px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2081\" class=\"wp-caption-text\">Frente de casa no Quilombo Alto de Negras, em Alagoas<\/p><\/div>\n<p>Tr\u00eas anos de mapeamento pela Rede M\u00e3os Dadas revelou-me a grande diversidade de povos e express\u00f5es \u00e9tnico-culturais presentes no Nordeste. Nas viagens encontrei igrejas iniciando trabalhos em comunidades quilombolas. Andar pelas comunidades, na presen\u00e7a das crian\u00e7as, despertou em mim um desejo de buscar mais conhecimento hist\u00f3rico, territorial e antropol\u00f3gico sobre o tema.<\/p>\n<p>Denominados pelo governo como \u201ccomunidades e povos tradicionais\u201d, os quilombolas s\u00e3o parte significativa da hist\u00f3ria do Brasil, embora, para a grande maioria dos brasileiros, sua realidade continue a ser praticamente invis\u00edvel.<!--more--><\/p>\n<p>Atualmente, est\u00e3o certificadas pela Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares 1.711 comunidades espalhadas pelo territ\u00f3rio nacional. Estima-se, por\u00e9m, que existam cerca de 3.500. H\u00e1 comunidades remanescentes de quilombos em quase todos os estados, exceto no Acre, Roraima e no Distrito Federal. Os que possuem o maior n\u00famero de comunidades s\u00e3o: Maranh\u00e3o (381), Bahia (380), Minas Gerais (145), Pernambuco (104) e Par\u00e1 (98).<\/p>\n<p>Entre os nove estados do Nordeste o n\u00famero de comunidades certificadas \u00e9: Maranh\u00e3o (381) Pernambuco (104) Sergipe (20) Cear\u00e1 (29) Piau\u00ed (42) Rio Grande de Norte (21) Para\u00edba (34) Alagoas (64) Bahia (380). Fonte: Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares, Setembro 2011.<\/p>\n<p>Quilombolas s\u00e3o descendentes de africanos escravizados que mant\u00eam tradi\u00e7\u00f5es culturais, de subsist\u00eancia e religiosas, ao longo dos s\u00e9culos. Para um melhor entendimento do que s\u00e3o os remanescentes de quilombos, o Decreto 4887\/03 estabelece que: \u201cConsideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos os grupos \u00e9tnico-raciais, segundo crit\u00e9rios de auto-atribui\u00e7\u00e3o, com trajet\u00f3ria hist\u00f3rica pr\u00f3pria, dotados de rela\u00e7\u00f5es territoriais espec\u00edficas, com presun\u00e7\u00e3o de ancestralidade negra relacionada com a opress\u00e3o hist\u00f3rica sofrida\u201d.<\/p>\n<p><strong>A luta pela terra<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o da terra tem sido o principal obst\u00e1culo \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas destinadas \u00e0s comunidades remanescentes de quilombos e motivo de perpetua\u00e7\u00e3o dos hist\u00f3ricos conflitos pela posse e uso da terra.<\/p>\n<p>No alto sert\u00e3o de Alagoas eu senti este peso hist\u00f3rico na fala da Dona Em\u00edlia, a senhora mais velha da comunidade Alto de Negras. Com seus 72 anos, ao ser questionada por um amigo sobre ter a posse da terra, ela responde com ironia: \u201cTerra, meu senhor! A nossa terra, a nossa terra \u00e9 a tarefa!\u201d. Sua fala nos mostra que um contexto escravista prevalece na injusta falta de acesso \u00e0s terras dos seus ancestrais.<\/p>\n<p><strong>Dificuldades educacionais<\/strong><\/p>\n<p>No Brasil, a fr\u00e1gil condi\u00e7\u00e3o de vida na maioria das comunidades quilombolas \u00e9 fato social e econ\u00f4mico. As crian\u00e7as sofrem o impacto da dificuldade de viver nessas localidades. Fonte: Isabel Xavier da Silveira, editora.<\/p>\n<p>De acordo com o Censo Escolar de 2007, o Brasil tem aproximadamente 151 mil alunos matriculados em 1.253 escolas, localizadas em \u00e1reas remanescentes de quilombos. Quase 75% (113 mil) destas matr\u00edculas est\u00e3o concentradas na regi\u00e3o Nordeste. Fonte: Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Conforme o Relat\u00f3rio da Situa\u00e7\u00e3o da Inf\u00e2ncia e Adolesc\u00eancia Brasileira do Unicef (2003), 31,5% das crian\u00e7as quilombolas de sete anos nunca frequentaram bancos escolares; as unidades educacionais est\u00e3o longe das resid\u00eancias e as condi\u00e7\u00f5es de estrutura s\u00e3o prec\u00e1rias. Geralmente as constru\u00e7\u00f5es s\u00e3o de palha ou de pau a pique; poucas possuem \u00e1gua pot\u00e1vel e as instala\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias s\u00e3o inadequadas. O acesso \u00e0 escola \u00e9 dif\u00edcil, os meios de transporte s\u00e3o insuficientes e inadequados e o curr\u00edculo escolar est\u00e1 longe da realidade destes meninos e meninas. Raramente os alunos quilombolas veem sua hist\u00f3ria, sua cultura e as particularidades de sua vida nos programas de aula e nos materiais pedag\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Os professores n\u00e3o s\u00e3o capacitados adequadamente, o seu n\u00famero \u00e9 insuficiente para atender a demanda e, em muitos casos, em um \u00fanico espa\u00e7o h\u00e1 apenas uma professora ministrando aulas para diferentes turmas. Estimativas atuais apontam para uma popula\u00e7\u00e3o de 900 mil crian\u00e7as e adolescentes de at\u00e9 17 anos. Fonte: Secretaria Especial de Pol\u00edticas de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade SEPPIR.<\/p>\n<p>Quando o assunto \u00e9 viol\u00eancia e explora\u00e7\u00e3o contra adolescentes, os dados s\u00e3o \u201cassustadores\u201d. Segundo Marie Pierre Poirier (UNICEF), um estudo feito em S\u00e3o Luiz (MA) mostra que mais da metade das trabalhadoras dom\u00e9sticas s\u00e3o meninas negras quilombolas que sa\u00edram de suas comunidades antes de terminar os estudos para trabalhar na cidade. \u201cEssas crian\u00e7as n\u00e3o podem mais continuar invis\u00edveis aos olhos da sociedade\u201d, afirma Marie.<\/p>\n<p>Um dos grandes desafios dos povos quilombolas \u00e9 manter seus jovens nas comunidades. \u00c9 grande o n\u00famero de jovens que saem em busca de trabalho em outras regi\u00f5es. Em uma cultura que transmite seus valores oralmente, s\u00e3o eles os respons\u00e1veis pela continuidade das tradi\u00e7\u00f5es e dos valores quilombolas.<\/p>\n<p><strong>Uma Igreja \u201cpara\u201d os povos de matriz africana<\/strong><\/p>\n<p>Uma considera\u00e7\u00e3o importante \u00e9 que \u00e9 indispens\u00e1vel, antes de pensar na pr\u00e1tica de desenvolvimento comunit\u00e1rio nos quilombolas, investir tempo numa pesquisa s\u00f3cio-antropol\u00f3gica para buscar um entendimento aprofundado das origens e hist\u00f3ria: da comunidade, dos seus costumes e valores, da estrutura matriarcal, das pr\u00e1ticas agr\u00edcolas, comunit\u00e1rias, da religiosidade, da culin\u00e1ria, das dan\u00e7as, batuques e cren\u00e7as, da oralidade do povo e seu jeito de viver, de pertencer, de se integrar, de construir e improvisar.<\/p>\n<p>Com base nisso, com um trabalho respeitoso e contextualizado haver\u00e1 maior possibilidade de implantar comunidades de f\u00e9 que sejam realmente \u201cboa not\u00edcia\u201d para essa gente, podendo, dessa forma, participar da revitaliza\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio cultural, da manuten\u00e7\u00e3o das suas riquezas e da transforma\u00e7\u00e3o integral dos seus membros.<\/p>\n<p>Que Igreja de Jesus sonhamos em ser plantada e vivida entre os quilombolas? Uma igreja que avan\u00e7a na promo\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a e participa\u00e7\u00e3o social, e que trabalha contra a mis\u00e9ria e o racismo? As experi\u00eancias iniciais demonstram que a expans\u00e3o futura da igreja em comunidades n\u00e3o alcan\u00e7adas pelo Evangelho certamente vai exigir um entender e pensar em a\u00e7\u00f5es a partir das viola\u00e7\u00f5es dos direitos dos quilombolas e de suas demandas, das quais se destaca a luta pela terra e pela educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se sua igreja tem iniciado a\u00e7\u00f5es em comunidades quilombolas deixe um coment\u00e1rio. Queremos conhecer a sua experi\u00eancia!<\/p>\n<p>___________<\/p>\n<p><strong>Alison M. Worrall\u00a0<\/strong>\u00e9 representante da Rede M\u00e3os Dadas no Nordeste.<\/p>\n<p><em>Colabora\u00e7\u00e3o: Qu\u00e9zia Queiroz<\/em><\/p>\n<p><em>Foto: Alison M. Worrall<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Alison Worrall Tr\u00eas anos de mapeamento pela Rede M\u00e3os Dadas revelou-me a grande diversidade de povos e express\u00f5es \u00e9tnico-culturais presentes no Nordeste. Nas viagens encontrei igrejas iniciando trabalhos em comunidades quilombolas. Andar pelas comunidades, na presen\u00e7a das crian\u00e7as, despertou em mim um desejo de buscar mais conhecimento hist\u00f3rico, territorial e antropol\u00f3gico sobre o tema. 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