{"id":1519,"date":"2011-06-02T10:55:24","date_gmt":"2011-06-02T13:55:24","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/?p=1519"},"modified":"2011-06-02T10:55:24","modified_gmt":"2011-06-02T13:55:24","slug":"a-rua-a-praca-a-feira-e-a-matriz-o-quadrilatero-interiorano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/2011\/06\/a-rua-a-praca-a-feira-e-a-matriz-o-quadrilatero-interiorano\/","title":{"rendered":"A rua, a pra\u00e7a, a feira e a matriz &#8211; O quadril\u00e1tero interiorano"},"content":{"rendered":"<p><strong><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2011\/06\/igreja_matriz.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-1519\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\" data-lightview-title=\"igreja_matriz\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-1549\" title=\"igreja_matriz\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2011\/06\/igreja_matriz.jpg\" alt=\"\" width=\"384\" height=\"257\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2011\/06\/igreja_matriz.jpg 640w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2011\/06\/igreja_matriz-300x200.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/paralelo10\/files\/2011\/06\/igreja_matriz-150x100.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 384px) 100vw, 384px\" \/><\/a>O quadril\u00e1tero Interiorano \u2013 Um Olhar Mission\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>A tarefa mission\u00e1ria nas cidades do interior do nordeste brasileiro necessita considerar uma realidade que se encontra em absolutamente todas as cidades nordestinas. Desconsider\u00e1-las seria o que chamo de <em>evangeliza\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00e3o urbana<\/em>, ou seja, tratar as cidades do interior como se fossem a metr\u00f3pole do estado. N\u00e3o sendo a quest\u00e3o da mentalidade urbana o nosso foco e sim os fatores de socializa\u00e7\u00e3o, o quadril\u00e1tero social interiorano composto pela rua, pela pra\u00e7a, pela feira e pela igreja Matriz precisam ser considerados, entendidos e na medida do poss\u00edvel, utilizados na tarefa mission\u00e1ria das cidades do interior.<!--more--><\/p>\n<p>Iniciando pela rua, \u00e9 de especial signific\u00e2ncia desfazer a id\u00e9ia de se conceb\u00ea-la apenas como instrumento de deslocamentos. O nosso enfoque abra\u00e7a a id\u00e9ia de Jos\u00e9 Cantor Magnani, professor de antropologia da USP, o qual incorpora \u00e0 rua o conceito de sociabilidade.<sup><a href=\"#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a><\/sup> O trabalho de Magnani apresenta a rua como fator de produ\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o da sociabilidade, pois quando as pessoas saem do seu espa\u00e7o privado \u2013 a casa \u2013 e se encontram no p\u00fablico \u2013 a rua \u2013, um processo de intera\u00e7\u00e3o social se inicia. Em se tratando de cidades do interior, o \u201cestar na rua\u201d assume, com todas as letras, tal proposta. \u00c9 na rua que os moradores se encontram para conversar. Ao final da tarde, os moradores das pequenas cidades ainda colocam suas cadeiras nas cal\u00e7adas, cumprimentam os transeuntes que passam e s\u00e3o cumprimentados, sendo com freq\u00fc\u00eancia, motivos de coment\u00e1rios.<\/p>\n<p>Nas ruas das cidades pequenas do interior, as pessoas constroem a sua sociabilidade. Essa sociabilidade produz um conhecimento \u201cfamiliar\u201d, tornando poss\u00edvel perguntar onde algu\u00e9m mora e, se morar, ser\u00e1 logo identificado. Tal realidade n\u00e3o pode deixar de ser considerada no planejamento estrat\u00e9gico mission\u00e1rio que se prop\u00f5e a evangelizar as pequenas cidades. <em>No interior \u00e9 preciso viver a rua<\/em>. Mesmo discordando da proposta de planifica\u00e7\u00e3o pastoral da autoridade e autonomia da igreja defendida por Wolfgang Simson,<sup><a href=\"#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a><\/sup> a qual destitui a igreja de qualquer supervis\u00e3o, n\u00e3o temos como deixar de reconhecer o importante papel que a casa inserida na pequena cidade do interior exerce no processo de evangeliza\u00e7\u00e3o. Morando na cidade e saindo \u00e0 rua, o mission\u00e1rio encontrar\u00e1 oportunidades de relacionamento e conseq\u00fcente facilita\u00e7\u00e3o para o an\u00fancio da mensagem do evangelho.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da rua, destaca-se a pra\u00e7a como o segundo \u00e2ngulo do quadril\u00e1tero. \u00c9 a pra\u00e7a da cidade do interior que geralmente produz maior a\u00e7\u00e3o sociabilizadora continuada, \u00e9 o ponto de encontro, justamente por ser a parte central da cidade pequena. Na maioria das pequenas cidades do interior nordestino, por raz\u00f5es econ\u00f4micas, ainda n\u00e3o existe cinema, teatro, boates ou casas de show, op\u00e7\u00f5es normalmente dispon\u00edveis nos grandes centros. Tal fato transforma a pra\u00e7a numa esp\u00e9cie de local privilegiado de lazer e divers\u00e3o, um verdadeiro encontro de pessoas e surgimento de novidades.<\/p>\n<p>Em algumas cidades \u00e9 comum encontrar na pra\u00e7a uma tela montada para proje\u00e7\u00e3o de filmes, e em vilarejos pobres, ainda \u00e9 poss\u00edvel encontrar na pra\u00e7a uma pequena edifica\u00e7\u00e3o que, no seu interior, guarda um aparelho de televis\u00e3o que \u00e9 ligado \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Na pra\u00e7a, as pessoas se apresentam bem arrumadas. No vilarejo de Cumaru, a 110 km do Recife um grupo de jovens faziam uma pesquisa na cidade. As pesquisadoras decidiram usar roupas bem simples (Cal\u00e7a jeans, camisetas e sand\u00e1lias havaianas) para irem \u00e0 pra\u00e7a \u00e0 noite, achando que este traje seria mais o adequado para uma cidade do interior. Para surpresa delas, elas passaram por \u201cmal vestidas\u201d, face \u00e0 maneira como as pessoas do local se apresentavam ali.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio das grandes cidades, podemos afirmar com seguran\u00e7a que nas pequenas cidades do interior, a pra\u00e7a \u00e9 um importante fator socializador, constituindo-se, assim, um aspecto que n\u00e3o pode ser desconsiderado em hip\u00f3tese alguma em uma proposta mission\u00e1ria.<\/p>\n<p>J\u00e1 no que diz respeito \u00e0 feira da cidade pequena, o terceiro \u00e2nulo do quadril\u00e1tero, esse acontecimento semanal incorpora mais do que fatores sociais. Ele traz consigo um importante peso econ\u00f4mico para boa parte da popula\u00e7\u00e3o, que tem neste evento a oportunidade de conseguir o dinheiro para o seu sustento. Al\u00e9m do aspecto de abastecimento e sustento, a feira desempenha um papel quase que de festa.<\/p>\n<p>Vivenciando essa realidade, est\u00e1vamos em um dia de s\u00e1bado observando a feira da cidade de Barreiros, 120 km ao sul do Recife. Mesmo considerando que se trata de uma cidade com cerca de 42.000 habitantes, a feira refletia o t\u00edpico cen\u00e1rio do interior. Era um emaranhado de a\u00e7\u00f5es e constante fluxo de pessoas indo e vindo. Chamou-nos a aten\u00e7\u00e3o o formigueiro humano em torno das barracas e a grande variedade de mercadorias, geralmente gr\u00e3os, frutas, verduras, carnes, aves, roupa, etc., \u00e0s vezes com as mercadorias colocadas apenas sobre uma lona no ch\u00e3o. N\u00e3o raro, nos depar\u00e1vamos com senhoras bem vestidas, maquiadas \u00e0 moda do interior, cabelos penteados, algumas com sapatos de salto alto, \u201cpilotando\u201d um carro de m\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o para transportar as suas compras. Na feira das cidades do interior se vende quase de tudo, e n\u00e3o raro se pratica o escambo \u2013 sistema de troca de mercadorias sem o uso de dinheiro.<\/p>\n<p>No que se refere ao aspecto missiol\u00f3gico da feira, parece que as igrejas desconsideram o seu uso como estrat\u00e9gia, fato que n\u00e3o ocorria no passado com os mission\u00e1rios pioneiros no interior, indo \u00e0s feiras para distribuir e vender literatura b\u00edblica e pregar o evangelho. Merece registro o que presenciamos na cidade de S\u00e3o Pedro-PE:<\/p>\n<blockquote><p>Em um domingo pela manh\u00e3 do ver\u00e3o nordestino. Eu e Jamile, minha esposa, volt\u00e1vamos de Garanhuns onde hav\u00edamos passado uma semana ministrando para os alunos do Instituto B\u00edblico do Norte-IBN. Ao passarmos pela cidade de S\u00e3o Pedro, diminuindo a velocidade por causa dos quebra-molas, me deparei com algo que chamo de <em>tradi\u00e7\u00e3o descontualizada<\/em>. Do lado direito ouvi o canto de um hino que me era bem conhecido, vindo de um pequeno templo \u00e0 beira da rodovia. Coincid\u00eancia ou n\u00e3o, era de uma Igreja Presbiteriana. Diminu\u00ed tanto a velocidade que quase parei o carro no acostamento. Vi na igreja umas 15, no m\u00e1ximo 20, pessoas ali, inclusive algumas de palet\u00f3 e gravata. O calor estava de matar! Ao olhar para o outro lado da rodovia fui tomado pelo espanto. Elas estavam ali, bem ali, na frente da igreja. Pensei t\u00e3o alto que gritei: \u201cEst\u00e3o ali!\u201d O casal de estudantes do IBN, que estava no banco de tr\u00e1s viajando conosco, assustado, perguntou: \u201cQuem pastor? Quem?\u201d. Ri um pouco e mostrei como a feira parecia um verdadeiro formigueiro em alvoro\u00e7o. Pessoas fervilhavam de um lado para outro, mas o rel\u00f3gio marcava 9:45h, era hora da escola dominical, quem imaginaria a Igreja poder estar na feira naquele hor\u00e1rio? Para a maioria dos evang\u00e9licos, 9 horas do domingo \u00e9 hora sagrada e inegoci\u00e1vel. Pergunto: Quanto poderia ser feito naquela feira em prol do Evangelho? Quantas pessoas n\u00e3o poderiam ser duplamente atendidas?<sup><a href=\"#sdfootnote3sym\"><sup>3<\/sup><\/a><\/sup><\/p><\/blockquote>\n<p>O quarto e \u00faltimo \u00e2ngulo do <em>quadril\u00e1tero interiorano<\/em> \u00e9 a igreja matriz, templo cat\u00f3lico que invariavelmente ocupa o lugar de destaque na pra\u00e7a da cidade. A matriz \u00e9 o templo da primeira igreja cat\u00f3lica, e geralmente foi constru\u00eddo na cidade por seus fundadores ou pelo estado. Em torno da matriz, todas as cidades do interior nordestino fizeram o seu desenvolvimento. N\u00e3o \u00e9 estranho, nem incomum, haver uma desproporcionalidade entre o porte da edifica\u00e7\u00e3o da matriz e das demais constru\u00e7\u00f5es da cidade. Em Casinhas, cidade a 210 km a oeste do Recife, com 13.345 habitantes, 1.425 moradores na \u00e1rea urbana e com apenas 2,2% de evang\u00e9licos, a matriz se apresenta imponente com suas torres na pra\u00e7a, enquanto a maioria das casas segue o modelo simples de constru\u00e7\u00e3o conjugada (a parede lateral da casa \u00e9 a pr\u00f3pria divis\u00f3ria entre a casa vizinha). Desconsiderando a o uso do dinheiro estatal financiador da igreja no passado, Eduardo Hoornear faz a sua leitura social ao alegar que \u201cAs igrejas [cat\u00f3licas] luxuosas contrastavam com as resid\u00eancias paup\u00e9rrimas em redor delas: \u00e9 que elas exprimiam os anseios de dignidade, valoriza\u00e7\u00e3o e respeito do povo que preferiu `doar` tudo para a igreja, s\u00edmbolo do grupo social, a viver numa separa\u00e7\u00e3o individualista.\u201d<sup><a href=\"#sdfootnote4sym\"><sup>4<\/sup><\/a><\/sup> Em termos antropol\u00f3gicos, consideramos a igreja matriz como a representa\u00e7\u00e3o f\u00edsica da fort\u00edssima influ\u00eancia do catolicismo Romano na forma\u00e7\u00e3o da rede s\u00f3cio-religiosa do homem do interior do Nordeste.<\/p>\n<p>Seria infantilidade missiol\u00f3gica desconsiderar a heran\u00e7a cat\u00f3lica que existe nos habitantes do interior. J\u00e1 ouvi muitos evangelistas dizerem que ela \u00e9 \u201cum atrapalho\u201d, por\u00e9m eu prefiro a atitude dos colportores pioneiros (evangelistas que vendiam B\u00edblias para se manterem). Aqueles homens foram treinados para utilizar a religiosidade cat\u00f3lica nordestina como plataforma para anunciar o evangelho. Apenas para deixar claro, reconto a a\u00e7\u00e3o de um colportor em Caruaru que ao chegar na casa de uma senhora, dela ouviu: \u201cSe \u00e9 crente, eu digo logo que eu j\u00e1 tenho o sagrado cora\u00e7\u00e3o de Maria.\u201d, mostrando um quadro. O colportor calmamente respondeu: \u201cE a senhora sabe o que fez o cora\u00e7\u00e3o de Maria chorar?\u201d. A mulher ficou interessada e o colportor encontrou uma oportunidade para contar a hist\u00f3ria da crucifica\u00e7\u00e3o de Jesus.<\/p>\n<p>A rua, a pra\u00e7a, a feira e a matriz, quatro \u00e2ngulos da mesma cidade que marcam e caracterizam a realidade povo do interior do nordeste brasileiro e que n\u00e3o podem ficar esquecidos nem mesmo desconsiderados em qualquer planejamento ou a\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>S\u00e9rgio Paulo Lyra <\/strong>\u00e9 coordenador do Cons\u00f3rcio Presbiteriano para A\u00e7\u00f5es Mission\u00e1rias no Interior, missi\u00f3logo e professor do Semin\u00e1rio Presbiteriano em Recife<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p><a href=\"#sdfootnote1anc\">1<\/a> Jos\u00e9 \tGuilherme Cantor Magnani. <em>Rua \te a Evolu\u00e7\u00e3o da Sociabilidade<\/em>. \tRevista Digital de Antropologia Urbana. Dispon\u00edvel em \t&lt;<a href=\"http:\/\/www.aguaforte.com\/antropologia\/rua.html\">www.aguaforte.com\/antropologia\/rua.html<\/a>&gt;.<\/p>\n<p><a href=\"#sdfootnote2anc\">2<\/a> Wolfgang defende que a igreja \tdeveria ter uma um estrutura plana e n\u00e3o verticalizada. Ela deveria \tse espraiar como a \u00e1gua corre no solo. Ver Wolfgang Simson, <em>Casas \tque Transformam o Mundo<\/em> \u2013 <em>Igrejas nos Lares. <\/em>Curitiba: Editora \tEvang\u00e9lica Esperan\u00e7a, 2001.<\/p>\n<p><a href=\"#sdfootnote3anc\">3<\/a> S\u00e9rgio Paulo Ribeiro Lyra, \t\u201cMiss\u00f5es nas Cidades do Interior\u201d em <em>Anunciai \tentre as Na\u00e7\u00f5es a Sua Gl\u00f3ria. <\/em>B\u00e1rbara \tHelen Burns, ed. Curitiba: Editora Evang\u00e9lica Esperan\u00e7a, 2004, p \t218-219.<\/p>\n<p><a href=\"#sdfootnote4anc\">4<\/a> Hoorneart, Eduardo e Azzi, \tRiolando e outros. Hist\u00f3ria da Igreja no Brasil \u2013 Ensaio de \tinterpreta\u00e7\u00e3o a Partir do Povo. Petr\u00f3polis: Editora Vozes, 1979, \tp. 387.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O quadril\u00e1tero Interiorano \u2013 Um Olhar Mission\u00e1rio A tarefa mission\u00e1ria nas cidades do interior do nordeste brasileiro necessita considerar uma realidade que se encontra em absolutamente todas as cidades nordestinas. Desconsider\u00e1-las seria o que chamo de evangeliza\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00e3o urbana, ou seja, tratar as cidades do interior como se fossem a metr\u00f3pole do estado. 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