{"id":9930,"date":"2023-05-13T11:49:34","date_gmt":"2023-05-13T14:49:34","guid":{"rendered":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/?p=9930"},"modified":"2023-05-13T11:50:29","modified_gmt":"2023-05-13T14:50:29","slug":"9930","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/2023\/05\/13\/9930\/","title":{"rendered":"Muitas tias tamb\u00e9m s\u00e3o m\u00e3es!"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-9931 size-large\" src=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2023\/05\/WhatsApp-Image-2023-05-10-at-11.51.11-1-1024x768.jpeg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"563\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2023\/05\/WhatsApp-Image-2023-05-10-at-11.51.11-1-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2023\/05\/WhatsApp-Image-2023-05-10-at-11.51.11-1-300x225.jpeg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2023\/05\/WhatsApp-Image-2023-05-10-at-11.51.11-1-768x576.jpeg 768w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2023\/05\/WhatsApp-Image-2023-05-10-at-11.51.11-1-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2023\/05\/WhatsApp-Image-2023-05-10-at-11.51.11-1-732x549.jpeg 732w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2023\/05\/WhatsApp-Image-2023-05-10-at-11.51.11-1-1140x855.jpeg 1140w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2023\/05\/WhatsApp-Image-2023-05-10-at-11.51.11-1.jpeg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p>Em 23 de novembro de 2021, Sueleide, 46 anos, m\u00e3e de Nayara e Sayonara e tia de Jenyffer, faleceu devido a sequelas deixadas pelo COVID e uma tuberculose antiga que voltou a dominar o seu sistema. Uma equipe enviada pela Happy Child em outubro, ou seja, apenas um m\u00eas antes, tinha entrevistado Sueleide sobre seus planos para as filhas e sobrinha. De acordo com Sueleide, sua melhor decis\u00e3o como m\u00e3e solteira, tinha sido a de lev\u00e1-las, primeiro para o projeto social do Instituto Solidare e mais tarde para a pr\u00f3pria igreja, Igreja Batista do Coqueiral, Recife, PE. Ela n\u00e3o separava as duas coisas, projeto e igreja. Em sua vis\u00e3o, aquele espa\u00e7o era uma comunidade viva, onde havia esperan\u00e7a, amor, e muita energia, capazes de impulsionar suas filhas e sobrinha a um futuro promissor.<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois desse depoimento, ela se foi.<span class=\"Apple-converted-space\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>Conversarmos com a sobrinha, Jennyfer, com 19 anos na \u00e9poca, 21 agora, e pedimos que nos contasse um pouco mais sobre sua tia Sueleide. Ela nos enviou oito longos \u00e1udios que transcritos deram quase 3.000 palavras! Aqui est\u00e1 alguns trechos do depoimento da Jennyfer.<\/p>\n<p><b>Ela tinha prazer em cuidar de mim<\/b><i>:<br \/>\n\u201cFalar da minha tia Sueleide \u00e9 um prazer. Hoje em dia, ela \u00e9 minha maior inspira\u00e7\u00e3o. Foi ela quem me ensinou a ser a menina, a mulher, a Jenyffer, que sou hoje em dia. Vit\u00f3ria. Era assim que ela me chamava. Ela tinha prazer em cuidar de mim como se fosse a minha m\u00e3e e n\u00e3o deixava ningu\u00e9m mexer comigo.\u201d<\/i><\/p>\n<p><b>Ela me defendia:<\/b><i><br \/>\nEu nasci com uma m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o cong\u00eanita e eu aprendi a me aceitar por conta dela. Porque ela me influenciava muito e mostrava que minha defici\u00eancia era s\u00f3 uma defici\u00eancia e que eu era capaz de superar qualquer coisa. Eu n\u00e3o tenho a primeira, segunda e a terceira falange. E por conta disso, sempre houve pessoas interessadas em saber o \u201cporqu\u00ea\u201d. Uma vez, perguntaram se minha m\u00e3e tinha tentado me matar. Isso foi o c\u00famulo para mim e para ela tamb\u00e9m. Ela sempre rebatia e mostrava para a pessoa como estava sendo inconveniente.<span class=\"Apple-converted-space\">&nbsp;<\/span><\/i><\/p>\n<p><i>Durante minha inf\u00e2ncia foram acontecendo v\u00e1rias outras coisas e por isso eu tinha vergonha na minha m\u00e3o, e a escondia nas fotos. Mas ela sempre me encorajou a me aceitar como eu sou. N\u00e3o era por conta de uma falange que eu ia deixar de ser quem eu sou ou de ter resili\u00eancia e coragem.<\/i><\/p>\n<p><b>Ela me ensinou a superar a minha defici\u00eancia<\/b><i>:<br \/>\n<\/i><i>Eu precisei aprender a fazer as coisas do meu jeitinho, para eu poder me adaptar e conseguir fazer as coisas. Eu n\u00e3o conseguia lavar o copo antes. Eu fui aprendendo na pr\u00e1tica. Eu tenho um polegar e o polegar me auxilia na pegada. Ent\u00e3o ela me animava: \u201cAh, faz isso.\u201d ou \u201cPega assim\u201d, e eu precisava pegar mesmo para poder ter a pr\u00e1tica. Assim ela foi me ensinando.<span class=\"Apple-converted-space\">&nbsp;<\/span><\/i><\/p>\n<p><i>Minha m\u00e3e tamb\u00e9m estava l\u00e1 pra me ajudar. Ela tinha muito medo que eu me queimasse por conta da minha m\u00e3o, pois eu tenho pouca sensibilidade para sentir o calor. Demora dois segundos para identificar que tem \u00e1gua quente na minha m\u00e3o. Ent\u00e3o, ela n\u00e3o deixava, mas eu por ser teimosa, eu fazia. Lavava prato ainda pequenininha, fritava ovos, varria a casa, arrumava as coisas, lavava roupa.<\/i><\/p>\n<p><i>A \u00fanica coisa que eu n\u00e3o sei fazer hoje em dia \u00e9 escrever com a minha m\u00e3o direita. Tamb\u00e9m n\u00e3o consigo auxiliar a outra m\u00e3o. Se eu estou usando a esquerda a direita tem que estar livre porque se eu for\u00e7ar ela d\u00f3i. Ent\u00e3o minha tia sempre teve o cuidado de n\u00e3o deixar eu pegar coisas pesadas ou ir mexer no fogo sozinha.<\/i><\/p>\n<p><i>Sei mexer no computador, sei digitar. Tudo isso fui aprendendo aos pouquinhos. Com as palavras dela \u201cVai Vit\u00f3ria, faz isso, voc\u00ea consegue\u201d. Porque ela sabia, que eu podia aprender e podia repassar para as outras pessoas que estivessem ao meu redor. Ent\u00e3o, com isso tudo eu fui aprendendo a me adaptar. Tanto, que nem precisei usar o meu status de portadora de necessidade especial para conseguir o meu primeiro trabalho.<\/i><\/p>\n<p><b>Ela me ensinou a lutar pelo meu direito<\/b><i>:<br \/>\n<\/i><i>Uma vez, est\u00e1vamos no shopping e fui pagar uma conta. Fui para a fila preferencial e uma mulher come\u00e7ou a questionar porque eu estava ali. N\u00e3o respondemos \u00e0 mulher porque minha tia sempre me disse que eu tinha que fazer valer o meu direito. E que eu n\u00e3o precisava falar o \u201cporqu\u00ea\u201d que eu estava ali. Depois de muita insist\u00eancia da mulher, minha tia falou que n\u00e3o tinha que mostrar nada para ela, apenas para a pessoa que estava no caixa. Ela me ensinou que eu n\u00e3o precisava expor minha defici\u00eancia para pessoas aleat\u00f3rias. Quando chegamos no caixa, eu mostrei minha carteirinha de deficiente. Era um direito meu, e pronto.<span class=\"Apple-converted-space\">&nbsp;&nbsp;<\/span>E para mim, isso foi a minha maior quebra de tabu.<\/i><\/p>\n<p><b>Ela lutava muito para prover para n\u00f3s<\/b><i>:<span class=\"Apple-converted-space\"><br \/>\n<\/span><\/i><i>Houve um tempo que ela trabalhou em dois empregos. Um pela manh\u00e3 e o outro \u00e0 noite para poder sustentar a casa. Ela terminou os estudos e foi \u00e0 luta.&nbsp;<\/i>Sempre ia atr\u00e1s de tudo para n\u00f3s. Sempre. E nunca deixou faltar nada.<\/p>\n<p><b>Ela buscava muitas oportunidades para n\u00f3s<\/b><i>:<span class=\"Apple-converted-space\"><br \/>\n<\/span><\/i><em>Ela me levou para o meu primeiro dia de aula no ensino fundamental. Tive o meu primeiro emprego atrav\u00e9s dela. Uma mulher de cora\u00e7\u00e3o lindo, que se preocupava, que ia atr\u00e1s, que corria, que n\u00e3o media esfor\u00e7os para poder ajudar as pessoas. Sempre mostrava que estava ali com a gente em todos os momentos. Quando eu, Nayara e Sayonara \u00e9ramos pequenas, faz\u00edamos parte de um projeto social e ela participava de todas as reuni\u00f5es e trabalhava como volunt\u00e1ria. Ela sempre dava o m\u00e1ximo pra ficar na igreja, perto de n\u00f3s.<\/em><\/p>\n<p><em>E acabou que n\u00f3s quatro nos tornamos volunt\u00e1rias e membros da igreja. Saionara ainda permanece volunt\u00e1ria hoje em dia. Como eu estou trabalhando de manh\u00e3 e fazendo curso \u00e0 noite eu n\u00e3o consigo ir l\u00e1 pra poder ajudar. E era algo que ela fazia com prazer. Ent\u00e3o eu quero voltar a fazer isso novamente. Minha tia foi e continua sendo uma grande influ\u00eancia na minha vida.<\/em><\/p>\n<p><b>Ela me ensinou a ser alegre:<br \/>\n<\/b><i>Falar dela \u00e9 lembrar que foi uma pessoa corajosa, que n\u00e3o tinha tempo ruim, sabe? Ela amava a festa, ent\u00e3o em todas as datas comemorativas que temos, nos reunimos e fazemos em mem\u00f3ria dela, pois se ela estivesse viva ela ia querer que acontecesse.<\/i>&nbsp;<i>Ela sempre nos incentivou pra tudo, para correr atr\u00e1s dos sonhos. Quando a gente errava, ela estava l\u00e1, mostrava quando est\u00e1vamos indo bem em algo e dava parab\u00e9ns. Dizia: \u201cOlha, nisso voc\u00ea pode melhorar, mas nisso aqui voc\u00ea fez muito bem\u201d Sempre dava um feedback encorajador para n\u00f3s. A gente sempre ficava muito alegre perto dela.<br \/>\n<\/i><\/p>\n<p><i>E a vis\u00e3o dela, e que hoje d\u00e1 frutos, era o nosso futuro. Pois hoje em dia vivemos com muita paci\u00eancia, assim como ela tinha conosco. Ela nos ensinou a sempre estudar, buscar o melhor para n\u00f3s.<span class=\"Apple-converted-space\">&nbsp;&nbsp;<\/span>Hoje em dia a gente faz exatamente isso! N\u00f3s terminamos os estudos como ela sempre quis que fiz\u00e9ssemos. N\u00f3s trabalhamos. Eu, as filhas dela, Saionara e Naiara, e os meus irm\u00e3os Lucas e Mateus, ganhamos cada um o nosso dinheirinho, e era isso que ela queria pra n\u00f3s; que d\u00e9ssemos o nosso melhor no que est\u00e1vamos fazendo e que procur\u00e1ssemos melhorar, sempre.<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Escrito por&nbsp;<strong>Jenyffer<\/strong>, editado por&nbsp;<strong>Elsie Gilbert<\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 23 de novembro de 2021, Sueleide, 46 anos, m\u00e3e de Nayara e Sayonara e tia de Jenyffer, faleceu devido a sequelas deixadas pelo COVID e uma tuberculose antiga que voltou a dominar o seu sistema. 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