{"id":9706,"date":"2022-08-12T17:30:52","date_gmt":"2022-08-12T20:30:52","guid":{"rendered":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/?p=9706"},"modified":"2022-08-12T17:30:52","modified_gmt":"2022-08-12T20:30:52","slug":"meu-pai-e-eu-um-convivio-inacabado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/2022\/08\/12\/meu-pai-e-eu-um-convivio-inacabado\/","title":{"rendered":"MEU PAI E EU \u2013 UM CONV\u00cdVIO INACABADO"},"content":{"rendered":"<div class=\"et_pb_module et_pb_text et_pb_text_0  et_pb_text_align_left et_pb_bg_layout_light\">\n<div class=\"et_pb_text_inner\">\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-9708 size-full\" src=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2022\/08\/ilustracao_diadospais.png\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"1200\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2022\/08\/ilustracao_diadospais.png 1200w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2022\/08\/ilustracao_diadospais-300x300.png 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2022\/08\/ilustracao_diadospais-1024x1024.png 1024w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2022\/08\/ilustracao_diadospais-150x150.png 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2022\/08\/ilustracao_diadospais-768x768.png 768w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2022\/08\/ilustracao_diadospais-732x732.png 732w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2022\/08\/ilustracao_diadospais-1140x1140.png 1140w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/p>\n<p>Rua tr\u00eas, n. 321 \u2013 Vila Guilherme, S\u00e3o Paulo capital. Este foi o meu primeiro e longevo endere\u00e7o. Rua de terra, em um bairro simples: de um lado da rua, moravam italianos e seus filhos; do lado oposto, os portugueses e os seus descendentes. N\u00f3s, fam\u00edlia de origem baiana, est\u00e1vamos ali entre os italianos e de frente para os portugueses.&nbsp;<\/p>\n<p>Foi nessa rua, nessa casa constru\u00edda pelo meu pai, que iniciei meu conv\u00edvio com ele, h\u00e1 seis d\u00e9cadas e meia. Eu, o primeiro de quatro filhos homens, e ele, o marinheiro de primeira viagem. Aquele que saiu de pijama, de madrugada, levando minha m\u00e3e \u00e0 maternidade do Belenzinho.&nbsp; Apavorado com aquela situa\u00e7\u00e3o in\u00e9dita, levou apenas o dinheiro suficiente para o t\u00e1xi de ida. Imagine s\u00f3 a volta: ele estava sozinho, deixando sua esposa e filho rec\u00e9m-nascido, caminhando \u00e0s tr\u00eas horas da manh\u00e3 para casa, percorrendo aproximadamente seis quil\u00f4metros, de pijama, sem dinheiro e muito feliz.&nbsp;<\/p>\n<p>Ele, de nome simples e curto \u2013 Walter de Almeida, deu ao seu filho primog\u00eanito o nome de&nbsp;um grande ator americano da \u00e9poca. O tabeli\u00e3o n\u00e3o entendeu muito bem a ideia e fez uma sutil mudan\u00e7a. De&nbsp;Johnny Weissmuller de Almeida, ideia original, passei a ser chamado de Jony Wagner de Almeida.&nbsp;O in\u00edcio do conv\u00edvio foi meio atabalhoado, mas pitoresco e singular em nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ele, um homem simples, nordestino, com o terceiro ano fundamental incompleto, era um biocupacional, como chamamos hoje, na cidade grande e cosmopolita. De dia, era um pedreiro de m\u00e3o cheia e, em algumas noites da semana, servia como Guarda-Civil, tornando-se depois sargento da Pol\u00edcia Militar. As minhas primeiras mem\u00f3rias me trazem o conv\u00edvio de um filho que admirava os m\u00fasculos e forma atl\u00e9tica de um homem que trabalhava duro, apesar de j\u00e1 sofrer com os primeiros sintomas da esquistossomose, doen\u00e7a incur\u00e1vel naquela \u00e9poca, contra\u00edda na inf\u00e2ncia, quando ele nadava em um rio lindo e caudaloso de sua cidade natal, Fran\u00e7a, Bahia.&nbsp;<\/p>\n<p>Desse meu tempo de crian\u00e7a, a melhor lembran\u00e7a \u00e9 a de o conv\u00edvio devocional. Sim, pois meus pais eram&nbsp;<i>crentes em Jesus<\/i>, como se dizia \u00e0 \u00e9poca, membros da Igreja Presbiteriana de Vila Maria. Ele, um tenor de m\u00e3o cheia, e minha m\u00e3e, um bonito contralto, ensinavam para gente, quando os outros filhos j\u00e1 haviam chegado e agregado, simples e belas can\u00e7\u00f5es de louvor a Deus. Desse conv\u00edvio, ficou a heran\u00e7a espiritual de uma f\u00e9 que cultivo com muito carinho at\u00e9 hoje.&nbsp;<\/p>\n<p>Cheguei \u00e0 adolesc\u00eancia e, com ela, a questionamentos. O conv\u00edvio com o meu pai n\u00e3o era conflituoso, mas acanhado e t\u00edmido. Eu n\u00e3o conseguia conversar com ele naturalmente, reproduzindo assim o conv\u00edvio dele com o seu pai, meu velho av\u00f4. Acredito que, com sabedoria, ele arranjou um jeito de se relacionar comigo. Come\u00e7ou a me levar para fazer o que ele mais gostava em suas horas de folga e lazer, jogar futsal, numa quadra de terra, com os amigos da igreja que frequent\u00e1vamos. Naquela din\u00e2mica de esporte coletivo, o gelo em nosso relacionamento era quebrado e a gente voltava conversando muito sobre os melhores e os piores (principalmente sobre estes) momentos das partidas.&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 na maioridade, fui aprovado no vestibular do curso de Agronomia na Universidade Federal de Vi\u00e7osa, uma cidade da Zona da Mata Mineira. Meu pai foi o meu incentivador e mantenedor, coerente, assim, com o que sempre falava para os seus filhos a respeito da escolha de um of\u00edcio para viver: \u201cVoc\u00eas podem escolher o que quiserem para estudar e se formar, menos a carreira militar\u201d. N\u00e3o cheguei a entender bem o&nbsp;<i>porqu<\/i>\u00ea real disso, mas, em nenhum momento, pensei em seguir essa carreira, assim como os meus irm\u00e3os tamb\u00e9m n\u00e3o o fizeram.<\/p>\n<p>Pois bem: ele que sempre me apoiou na escolha de um lugar e um curso para estudar, n\u00e3o conseguia se despedir de mim depois das f\u00e9rias, nos dias da partida para mais um semestre do curso nas terras mineiras. Ele sempre achava uma desculpa esfarrapada para n\u00e3o experimentar aquele momento. Isso por pura falta de condi\u00e7\u00f5es emocionais para ver seu filho ir, com a possibilidade de n\u00e3o mais voltar a morar na casa paterna.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>Essa conviv\u00eancia foi interrompida bruscamente no primeiro semestre do ano de 1980, quando de repente, as consequ\u00eancias da esquistossomose se agravaram muito. Eu estava no s\u00e9timo per\u00edodo da Engenharia Agron\u00f4mica e n\u00e3o soube e nem presenciei as dores, as lutas, e as deforma\u00e7\u00f5es f\u00edsicas causadas pela doen\u00e7a. Ele mesmo foi o respons\u00e1vel por esse sigilo, alegando para a minha m\u00e3e e irm\u00e3os que n\u00e3o queria atrapalhar os meus estudos com aqueles acontecimentos.&nbsp;<\/p>\n<p>Nos primeiros dez dias do m\u00eas de julho daquele ano, tudo se precipitou e o levou ao seu estado terminal. Eu estava fazendo provas finais, para finalmente ir para casa; enquanto ele, hospitalizado em estado grave, mantinha a firme resolu\u00e7\u00e3o de n\u00e3o me avisar, com a convic\u00e7\u00e3o que venceria aquela crise e poder\u00edamos nos encontrar depois. S\u00f3 fui avisado, pela minha m\u00e3e, no dia 10 de julho de 1980 \u2013 uma quinta-feira de manh\u00e3, no momento que ele tinha entrado em coma e ficado inconsciente. Viajei imediatamente para a cidade de S\u00e3o Paulo, uma viagem de mais de 14 horas de dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste per\u00edodo, ele n\u00e3o resistiu e deu seu \u00faltimo suspiro.&nbsp; Fui v\u00ea-lo inerte na madrugada do outro dia. Lembrei-me daquela madrugada do meu nascimento, em que ele me via, mas n\u00e3o tinha resposta daquela crian\u00e7a pueril. E agora, eu vou at\u00e9 ele, mas ele n\u00e3o vem at\u00e9 mim. Nossas hist\u00f3rias e nossas madrugadas.<\/p>\n<p>Meu pai e eu temos uma hist\u00f3ria de relacionamento inacabado. No entanto, espero um dia v\u00ea-lo em um lugar muito especial e agradecer pessoalmente o quanto aprendi com aquela humilde sabedoria de vida que me fascina continuamente e ajuda tanto na minha ess\u00eancia.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"et_pb_module et_pb_testimonial et_pb_testimonial_0 clearfix  et_pb_text_align_left et_pb_bg_layout_light et_pb_testimonial_no_image\">\n<div class=\"et_pb_testimonial_portrait\">&nbsp;<\/div>\n<ul>\n<li class=\"et_pb_testimonial_description\"><span class=\"et_pb_testimonial_author\">Por Jony Wagner de Almeida, <\/span>Pastor auxiliar pastor da Igreja Presbiteriana de Vi\u00e7osa, MG.<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rua tr\u00eas, n. 321 \u2013 Vila Guilherme, S\u00e3o Paulo capital. Este foi o meu primeiro e longevo endere\u00e7o. Rua de terra, em um bairro simples: de um lado da rua, moravam italianos e seus filhos; do lado oposto, os portugueses e os seus descendentes. 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