{"id":8820,"date":"2020-12-23T08:00:34","date_gmt":"2020-12-23T11:00:34","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/?p=8820"},"modified":"2021-03-05T09:51:35","modified_gmt":"2021-03-05T12:51:35","slug":"o-futuro-dos-sem-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/2020\/12\/23\/o-futuro-dos-sem-presente\/","title":{"rendered":"O futuro dos sem presente"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-8824 size-full\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2020\/12\/Captura-de-Tela-2020-12-16-a\u0300s-16.15.20.png\" alt=\"\" width=\"667\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2020\/12\/Captura-de-Tela-2020-12-16-a\u0300s-16.15.20.png 667w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2020\/12\/Captura-de-Tela-2020-12-16-a\u0300s-16.15.20-300x94.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 667px) 100vw, 667px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ela tinha uns 8 anos. Na \u00e9poca (1997), a idade da minha filha ca\u00e7ula. Entreguei-lhe uma marmita com comida e sentei-me ao seu lado, na cal\u00e7ada. Queria saber seu nome, se tinha ou n\u00e3o fam\u00edlia, o que a fazia vir para as ruas, bem como os perigos aos quais estava submetida. De repente, fui surpreendido por uma pergunta: \u201cTio, o senhor n\u00e3o quer transar comigo? Eu cobro bem baratinho\u201d. Pensei nas minhas filhas que estavam em casa, protegidas. Por alguns segundos imaginei sobre qual seria minha rea\u00e7\u00e3o se algu\u00e9m ousasse tocar nelas. Imediatamente voltei-me \u00e0 realidade nua e crua que achava-se diante de todos n\u00f3s que ali est\u00e1vamos: Meninas, meninos e adolescentes pobres, vulner\u00e1veis e expostos aos mais diversos tipos de viol\u00eancia. \u00c9 verdade, alguns eram usu\u00e1rios de drogas. Outros, em busca de comida e de algum dinheiro para ajudar em casa.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>O presente dos sem futuro&nbsp;<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Estamos em 2020. Ainda em plena pandemia, mas com esperan\u00e7a de, em breve, termos uma vacina. Moro em S\u00e3o Paulo, cidade com a 5\u00aa maior popula\u00e7\u00e3o do mundo e entre aquelas que possuem o maior n\u00famero de bilion\u00e1rios e multimilion\u00e1rios do planeta. No entanto, a m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda impede que a grande maioria dos seus habilitantes usufrua dessa riqueza. Que o diga aqueles que vivem nas periferias sem acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o de qualidade, \u00e0 boas bibliotecas p\u00fablicas, com pouqu\u00edssimas \u00e1reas de lazer e onde a vida, muitas vezes, vale pouco. Leia as estat\u00edsticas, analise os relat\u00f3rios oficiais e tamb\u00e9m aqueles elaborados e publicados por organiza\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais s\u00e9rias. V\u00e1 \u00e0 Pra\u00e7a da S\u00e9 durante o dia, mas igualmente \u00e0s noites. Observe o n\u00famero de Pessoas em Situa\u00e7\u00e3o de Rua, mas n\u00e3o deixe de ver a quantidade de crian\u00e7as e adolescentes naquela mesma situa\u00e7\u00e3o. O que voc\u00ea consegue enxergar? Percebe seus corpos esquel\u00e9ticos devido \u00e0 fome e \u00e0 aus\u00eancia dos nutrientes necess\u00e1rios? O que voc\u00ea consegue perceber? Meninas, meninos e adolescentes maltrapilhos e malcheirosos? O que voc\u00ea consegue avistar? Meninas, meninos e adolescentes sem rumo e sem dire\u00e7\u00e3o, \u201ccomo ovelhas sem pastor\u201d (Jesus)? O que voc\u00ea consegue identificar? Meninas, meninos e adolescentes rebeldes, alguns de tantos serem violentados, at\u00e9 violentos se tornaram? O que voc\u00ea consegue notar? Meninas, meninos e adolescentes antissociais, com dificuldade para obedecer a regras e autoridades? O que voc\u00ea consegue entrever? Meninas, meninos e adolescentes usando drogas para esquecer da fome e da falta de perspectiva de futuro? Diante de tal presente, o que voc\u00ea acha que o futuro lhes reserva? O que voc\u00ea vai fazer?&nbsp;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>O futuro dos sem presente<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Vinte e tr\u00eas anos se passaram desde aquela experi\u00eancia com meninas, meninos e adolescentes em situa\u00e7\u00e3o de rua na cidade do Recife, mas ainda carrego na mem\u00f3ria a imagem daquela e de tantas outras crian\u00e7as e pubescentes, filhos de fam\u00edlias com nada ou com muito pouco para se defenderem. \u00c0s vezes, me pego perguntando a mim mesmo: Onde estar\u00e3o aquelas crian\u00e7as? Como lidaram com a fome, com a falta de possibilidades e de oportunidades? Como enfrentaram o preconceito, a rejei\u00e7\u00e3o e o desprezo? O que o futuro lhes reservou?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No meu contexto atual, nos \u00faltimos meses, voltei a me deparar com essa situa\u00e7\u00e3o que insiste em me incomodar e, penso eu, a nos desafiar como Igreja e sociedade. Tenho, diariamente, encontrado garotas e garotos na idade de minhas netas e netos vivendo nas ruas, em situa\u00e7\u00e3o vexat\u00f3ria. Falta-lhes o b\u00e1sico, inclusive a garantia de acesso a refei\u00e7\u00f5es decentes no cotidiano, a um lugar para tomar banho e fazer suas necessidades fisiol\u00f3gicas. Nas madrugadas, frio \u00e9 intenso, assim como constante \u00e9 o sentimento de medo e de pavor. Se tudo isso n\u00e3o bastasse, fazem parte do grupo dos onze milh\u00f5es de \u201cnem-nem\u201d: Nem trabalham nem estudam. Mas, ter a rua como casa n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nas ruas, a pobreza \u00e9 extrema, a amea\u00e7a \u00e0 exist\u00eancia \u00e9 continua e a inf\u00e2ncia \u00e9 roubada. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para fantasias, para se acreditar em \u201ccoelhinho da P\u00e1scoa\u201d e nem para se esperar por \u201cpapai Noel\u201d. A realidade \u00e9 simplesmente dura e impiedosa: Impede que castelos e sonhos sejam constru\u00eddos, que planos sejam feitos e que projetos sejam realizados. Se, normalmente, a adolesc\u00eancia j\u00e1 \u00e9 um per\u00edodo de grandes mudan\u00e7as biopsicossociais onde o humor, a teimosia e a raiva afloram, o que acontece com um adolescente exposto a uma situa\u00e7\u00e3o de rua? O que pode acontecer com quem \u00e9 maltratada, invisibilizada e desrespeitada durante toda a sua vida? Que rea\u00e7\u00f5es ter\u00e1?&nbsp; Pense nisso, ainda que por alguns instantes.&nbsp;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As pesquisas indicam que, fora os 52 milh\u00f5es que vivem na pobreza, h\u00e1, no Brasil, ao redor 70 mil mo\u00e7oilas e mo\u00e7oilos vivendo nas ruas. 86% delas, s\u00e3o negras. Voc\u00ea sabia disso? Est\u00e3o nos sem\u00e1foros, nas pra\u00e7as, debaixo das pontes. Infelizmente, permanecem invis\u00edveis, como se existentes fossem. S\u00f3 aparecem na grande m\u00eddia quando intimidam e cometem delitos. N\u00e3o poucas vezes, s\u00e3o quase que espontaneamente associados a gente perigosa, sem futuro, sem nada a perder e, portanto, capazes de qualquer coisa. No entanto, tome um tempo para conversar com elas e ver\u00e1 que \u2013 apesar de tudo &#8211; essa gente quer um futuro diferente: Um lugar para morar, uma escola para estudar e um empreendimento onde possa trabalhar. Em outras palavras, os sem presentes desejam um futuro melhor. Mas, provavelmente, sozinhas n\u00e3o conseguir\u00e3o.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>O que fazer para que os sem presentes tenham um futuro melhor?&nbsp;<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa \u00e9 uma pergunta vital que a sociedade n\u00e3o pode deixar de se fazer. Consequentemente, ela deve nos incomodar e nos desacomodar de maneira que n\u00e3o seja tido como normal 70 mil crian\u00e7as e adolescentes viveram nas ruas. <\/span><\/p>\n<ul>\n<li><span style=\"font-weight: 400;\">Assim, primeiramente, \u00e9 preciso envolver todos os cidad\u00e3os e cidad\u00e3s de bem, do mesmo jeito que os diversos setores da sociedade: Acad\u00eamico, econ\u00f4mico, jur\u00eddico, militar, pol\u00edtico, religioso&#8230; desta forma, o assunto ser\u00e1 debatido nas escolas, igrejas, templos religiosos, c\u00e2mara de com\u00e9rcio, c\u00e2mara de vereadores, universidades&#8230;&nbsp;<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo, como bem disse a psicanalista Aline Reck Padilha Abrantes, necessitamos reconhecer que como sociedade \u201cfalhamos todos os dias com nossas crian\u00e7as quando fazemos pouco em prol dos seus direitos\u201d. Neste sentido, ser\u00e1 que n\u00e3o dever\u00edamos retomar a promo\u00e7\u00e3o de confer\u00eancias, cursos e semin\u00e1rios sobre o ECA \u2013 Estatuto da Crian\u00e7a e do adolescente e igualmente as grandes discuss\u00f5es sobre como fazer para que os direitos ali inclu\u00eddos sejam garantidos e, de fato, implementados?&nbsp;<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-weight: 400;\">Terceiro, doe do seu tempo para estar com crian\u00e7as e adolescentes. \u00c0s vezes para ouvi-los, outras vezes para brincar, para contar uma hist\u00f3ria, organizar uma partida de futebol ou simplesmente estar presente. Presen\u00e7a essa que faz diferen\u00e7a, pois demonstra interesse, torna-os vis\u00edveis e faz deles sujeitos importantes.<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-weight: 400;\">Quarto, se envolva em projetos que trabalham para defender, garantir e promover os direitos das crian\u00e7as e adolescentes. Ajude no que for poss\u00edvel. Seja volunt\u00e1rio. Convide seus amigos para fazer o mesmo. Seja sens\u00edvel. Em per\u00edodos como P\u00e1scoa, Dia das Crian\u00e7as e Natal, fa\u00e7a um esfor\u00e7o extra: Promova algo para as crian\u00e7as em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade do seu bairro.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-weight: 400;\">Quinto, seja a mudan\u00e7a que voc\u00ea quer ver na sociedade. Participe dos Conselhos Municipais, estaduais e federal que discutem e implementam as pol\u00edticas p\u00fablicas sobre o assunto. Aja para que aumente o n\u00famero de vagas nas creches da periferia da sua cidade. Agir \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de acolher, de mostrar que se importa, mas tamb\u00e9m de criticar e de denunciar. Como disse um mission\u00e1rio ingl\u00eas do s\u00e9culo 19, n\u00e3o basta falar, \u201co nosso caminhar sempre conta mais do que o nosso falar\u201d (George M\u00fcller).&nbsp;<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Conclus\u00e3o <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Cuidar, proteger e promover crian\u00e7as e adolescentes n\u00e3o \u00e9 somente tarefa dos pais. \u00c9 igualmente responsabilidade da sociedade. Tal atitude revela o grau de sa\u00fade ou de enfermidade coletiva. Como diz um prov\u00e9rbio africano, \u201c\u00e9 preciso muitas m\u00e3os para ninar uma crian\u00e7a\u201d. Assim sendo, n\u00e3o poupemos esfor\u00e7os nem investimos para cuidar delas. Afinal, elas representam o futuro da na\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>&nbsp;<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Maruilson Souza, Ph.D. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Secret\u00e1rio Nacional de Educa\u00e7\u00e3o e Programas do Ex\u00e9rcito de Salva\u00e7\u00e3o. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Coordenador do 3\u00ba. Simp\u00f3sio Brasileiro de Justi\u00e7a Social.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Ela tinha uns 8 anos. Na \u00e9poca (1997), a idade da minha filha ca\u00e7ula. Entreguei-lhe uma marmita com comida e sentei-me ao seu lado, na cal\u00e7ada. Queria saber seu nome, se tinha ou n\u00e3o fam\u00edlia, o que a fazia vir para as ruas, bem como os perigos aos quais estava submetida. 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