{"id":8131,"date":"2019-12-20T17:11:13","date_gmt":"2019-12-20T20:11:13","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/?p=8131"},"modified":"2019-12-20T17:11:13","modified_gmt":"2019-12-20T20:11:13","slug":"coragem-para-fugir-coragem-para-regressar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/2019\/12\/20\/coragem-para-fugir-coragem-para-regressar\/","title":{"rendered":"Coragem para fugir, coragem para regressar"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_8132\" style=\"width: 760px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-8132\" class=\"wp-image-8132 size-large\" title=\"Arquivo pessoal\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2019\/12\/IMG_6447-2-1024x731.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"535\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2019\/12\/IMG_6447-2-1024x731.jpg 1024w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2019\/12\/IMG_6447-2-300x214.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2019\/12\/IMG_6447-2-768x548.jpg 768w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2019\/12\/IMG_6447-2-732x523.jpg 732w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2019\/12\/IMG_6447-2-1140x814.jpg 1140w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2019\/12\/IMG_6447-2.jpg 1361w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><p id=\"caption-attachment-8132\" class=\"wp-caption-text\">Ana Meny e seus filhos Pedro e Maria<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Por Ana Meny de Jesus<\/em><\/p>\n<p>Nasci no Quilombo, pequeno povoado localizado na zona rural de Sesmarias, no munic\u00edpio de Sabin\u00f3polis-MG. Lu\u00edza, minha m\u00e3e, casou-se, teve dois filhos e separou-se em seguida, passando a viver s\u00f3. Ap\u00f3s o casamento, minha m\u00e3e teve mais quatro filhos de pais diferentes. Sou a quinta filha de seis irm\u00e3os. Quando nasci, uma irm\u00e3 mais velha j\u00e1 havida sido passada para uma fam\u00edlia de fazendeiros criar. Com ela, levaram tamb\u00e9m, um irm\u00e3o. Trabalhavam, ganhando em troca, comida e roupas usadas.&nbsp;<\/p>\n<p>Em uma casinha de pau a pique coberta de sap\u00e9 com apenas dois c\u00f4modos, moravam minha m\u00e3e, Lu\u00edza, meus irm\u00e3os e eu. Apesar da pobreza, me sentia feliz, brincava com bonecas feitas do miolo branco do p\u00e9 de banana e carrinho feito de casco de ab\u00f3bora seca.<\/p>\n<p>Todas as manh\u00e3s, sentavam meus dois irm\u00e3os e eu no aterro do fog\u00e3o de lenha e esper\u00e1vamos ansiosos o caf\u00e9 de garapa que nossa m\u00e3e servia na latinha, acompanhado de banana verde cozida.&nbsp;<\/p>\n<p>Um dia, est\u00e1vamos como de costume brincando no terreiro de casa quando apareceu um homem de aspecto distinto que com a permiss\u00e3o de minha m\u00e3e, me levou para morar com sua fam\u00edlia. Ao chegar para trabalhar na casa de dona Jezabel, filha do fazendeiro Caim, eu tinha seis anos e me lembro de ver m\u00f3veis pela primeira vez. No Quilombo, t\u00ednhamos prateleiras e nossas camas eram feitas de pau a pique; no lugar de colch\u00f5es, t\u00ednhamos esteiras de taboa. Eu andava desorientada pela casa. Eu procurava sem encontrar, o fog\u00e3o de lenha para me aquecer no fogo. A casa s\u00f3 tinha fog\u00e3o a g\u00e1s e eu nunca tinha visto tal coisa. Eu sentia muit\u00edssima falta do fog\u00e3o de lenha da casa da minha m\u00e3e.&nbsp;<\/p>\n<p>Eu chorava bastante o que levava dona Jezabel batia em mim com o cinto. Ela era muito m\u00e1. Apesar de minha origem no vilarejo Quilombo sugerir uma pele escura, sou branca e meus cabelos eram loiros e longos. Dona Jezabel raspou todo meu cabelo para n\u00e3o ter trabalho de pente\u00e1-lo. Minha irm\u00e3, Rosa que j\u00e1 trabalhava na casa, vinha escondida, me colocar no colo e era quando eu me sentia um pouco aconchegada. O casal tinha dois filhos: um menino surdo e uma menina pequena. Eu, com sete anos, era respons\u00e1vel pelo menino surdo o dia inteiro. N\u00e3o podia brincar. Apanhava por qualquer motivo.&nbsp;<\/p>\n<p>Em dezembro de 1975, o casal e os filhos foram passear na fazendo dos pais da dona Jezabel. O combinado era que eu fosse visitar minha m\u00e3e primeiro, ficaria l\u00e1 alguns dias e voltaria para cuidar dos filhos de dona Jezabel. Minha irm\u00e3 Rosa ficaria mais tempo com nossa m\u00e3e. A casa grande de dona Jezabel era o pior lugar para qualquer crian\u00e7a da minha idade. Eu estava decidida a n\u00e3o voltar, nem pelos restos de comida gostosa que me serviam ap\u00f3s suas refei\u00e7\u00f5es. Por nada.&nbsp;<\/p>\n<p>Inconformados de perder sua bab\u00e1 de sete anos que n\u00e3o lhes custava nada, foram at\u00e9 o f\u00f3rum da comarca de Sabin\u00f3polis para me levar a for\u00e7a, alegando que minha m\u00e3e, n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas ou financeiras para cuidar de mim. Com medo de dona Jezabel me levar \u00e0 for\u00e7a, minha m\u00e3e me escondeu na casa do juiz de paz do Quilombo.&nbsp;<\/p>\n<p>Depois que o casal obteve autoriza\u00e7\u00e3o legal para me levar, ficou marcado que o juiz de paz me levaria ao encontro deles. Antes de chegar ao local do encontro, soltei de sua m\u00e3o e corri para dentro da mata, onde fiquei sozinha at\u00e9 o anoitecer. Dali voltei para a casa da minha m\u00e3e. O casal ent\u00e3o desistiu. As autoridades ordenaram que minha m\u00e3e arrumasse um lugar seguro para morar e que me matriculasse na escola do Quilombo.<\/p>\n<p>Em fevereiro 1976, fui matriculada na escola e fiquei morando em diferentes casas no Quilombo. Dependia da boa vontade das fam\u00edlias para realizar os quatro anos do ensino fundamental.&nbsp;<\/p>\n<p>Sem recursos para continuar a estudar, parei os estudos e voltei para Belo Horizonte com 13 anos para trabalhar como dom\u00e9stica. Naquele tempo, em Sabin\u00f3polis, s\u00f3 conseguia estudar os filhos de fazendeiros que tinham condi\u00e7\u00f5es de morar no centro e assim, podiam cursar o t\u00e9cnico em magist\u00e9rio e contabilidade. Passei quatro anos sem estudar, trabalhando em Belo Horizonte. Ganhava pouco, e com esse pouco, comprava comida para minha m\u00e3e.&nbsp;<\/p>\n<p>Aos 13 anos, eu tinha dois sonhos: continuar estudando e ser irm\u00e3 de caridade para ajudar as pessoas mais necessitadas. Na primeira inf\u00e2ncia, minha m\u00e3e tinha me ensinado a rezar o ter\u00e7o e ladainha.&nbsp; Na adolesc\u00eancia, optei pela doutrina da Igreja Cat\u00f3lica com muita devo\u00e7\u00e3o. Em 1984, voltei a estudar e fiz minha matr\u00edcula para cursar o gin\u00e1sio \u00e0 noite na escola do bairro onde trabalhava.<\/p>\n<p>Nas f\u00e9rias de janeiro de 1985, fui visitar minha m\u00e3e. Dona Geneci, esposa do obreiro que pastoreava uma congrega\u00e7\u00e3o da Igreja Evang\u00e9lica Mission\u00e1ria Pentecostal, a 40 minutos a p\u00e9 da casa da minha m\u00e3e, foi ali levar a palavra de Deus. Ao me ver, contou da Casa do Estudante que a igreja tinha em Sabin\u00f3polis para ajudar adolescentes carentes a continuar os estudos sem gerar custo algum para a fam\u00edlia. L\u00e1 receberia todo o material escolar e alimenta\u00e7\u00e3o gratuita. Ela estendeu o convite para mim. Mas como eu iria para um lugar desses? Se achava a doutrina dos crentes errada e s\u00f3 tinha como correta a Cat\u00f3lica? O que faria com meu sonho de ser irm\u00e3 de caridade? Resisti ao convite.&nbsp;<\/p>\n<p>Em Belo Horizonte, estudando \u00e0 noite e sem tempo para as tarefas escolares, comecei a sentir tudo muito pesado. Ent\u00e3o, repensei sobre a generosa oferta da Dona Geneci. Insegura, pedi \u00e0 Rosa, minha irm\u00e3, para ver se havia vaga para mim na Casa do Estudante em Sabin\u00f3polis. N\u00e3o havia! No entanto, milagrosamente, decidiram me receber assim mesmo.&nbsp;<\/p>\n<p>Nunca fui t\u00e3o bem recebida como fui por Espedita, coordenadora da Casa. Lembro-me que ela pegou minha trouxinha de roupas e subiu as escadas do escrit\u00f3rio para preencher meus papeis com minha irm\u00e3. Eram 15 meninas, todas oriundas da zona rural de arredores de Sabin\u00f3polis. Eu fui a d\u00e9cima sexta. Logo, Espedita desceu com um presente para mim: uma linda B\u00edblia. Era o in\u00edcio de uma nova vida.&nbsp;<\/p>\n<p>Morei na Casa do Estudante por quase 7 anos, 2 anos e meio para cursar o ensino m\u00e9dio e 4 de ensino t\u00e9cnico em magist\u00e9rio. Tudo que n\u00e3o encontrei no mundo, eu encontrei no meio dos crentes, dos quais n\u00e3o gostava. Espedita tinha muita paci\u00eancia comigo. Tenho at\u00e9 hoje, as cartas que ela amorosamente escrevia com vers\u00edculos da B\u00edblia para me encorajar. A partir das cartas, fui percebendo que muito do que eu pensava a respeito de Deus n\u00e3o estava de acordo com a B\u00edblia. N\u00e3o era necess\u00e1rio fazer tanto sacrif\u00edcio para ser perdoada de meus pecados, n\u00e3o precisava rezar tantas ave-marias como fiz na minha primeira comunh\u00e3o no Quilombo. Comecei a me sentir aliviada, meu cora\u00e7\u00e3o aos poucos, encontrou a paz.&nbsp;<\/p>\n<p>Em junho de 1988, tomei a decis\u00e3o de servir ao \u00fanico Senhor e Salvador, Jesus Cristo, e at\u00e9 hoje, isso me traz tranquilidade: um dia vou morar com Cristo no c\u00e9u. Minha vida se baseia nos princ\u00edpios espirituais e morais que aprendi na Casa do estudante: fam\u00edlia, car\u00e1ter, integridade, respeito, amor, fidelidade.<\/p>\n<p>Em fevereiro de 1989, a Bem Estar do Menor, organiza\u00e7\u00e3o social que gerenciava a Casa do Estudante, me convidou para trabalhar formalmente na institui\u00e7\u00e3o. Em 30 anos de BEM, auxiliei em v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es: como secret\u00e1ria do setor agropecu\u00e1rio, setor de compras e estoque, al\u00e9m do almoxarifado e limpeza. Sou muito grata a Deus que me aben\u00e7oou com uma casa grande de dois andares, fruto desse trabalho.&nbsp;<\/p>\n<p>At\u00e9 2008, n\u00e3o tinha filhos, mas o Senhor Jesus providenciou duas crian\u00e7as abandonadas pela m\u00e3e. Pedro tinha 5 anos e Maria, 4 anos quando vieram morar comigo. Eles s\u00e3o lindos, e com tudo que aprendi, tenho tentado ser uma boa m\u00e3e conduzindo-os no caminho do Evangelho de Jesus Cristo. Eles s\u00e3o ativos na igreja, Pedro (com 16 anos) toca bateria no louvor, Maria (com 15 anos) est\u00e1 aprendendo a tocar viol\u00e3o. Eles amam a Jesus e isso \u00e9 lindo.&nbsp;<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m adotei a vov\u00f3 Gabriela com 98 anos que j\u00e1 est\u00e1 acamada. Eu cuido dela e de minha m\u00e3e, com 86 anos. Tenho uma fam\u00edlia diferente composta por duas idosas e dois adolescentes. Servir a minha m\u00e3e, a v\u00f3 Gabriela, meus filhos e outras pessoas \u00e9 um prazer para mim. Considero-me hospitaleira, talvez porque aprendi o quanto a hospitalidade faz falta na vida das pessoas.<\/p>\n<p>Aos 7 anos, fui muito mal recebida, aos 17 fui recebida como se recebe a um anjo. A Ana Meny que entrou para a Casa do Estudante porque queria continuar seus estudos, encontrou muito mais que o conhecimento. Ela encontrou uma pessoa que a adotou para a fam\u00edlia de Deus: Jesus Cristo. A Ana Meny sem inf\u00e2ncia se tornou uma mulher capaz de defender o direito \u00e0 inf\u00e2ncia daquelas crian\u00e7as mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>_________________________________________________________________________________________<\/p>\n<p>Ana Meny \u00e9 a vencedora do Pr\u00eamio Cida Mattar 2019. Trabalha na&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.bem-br.org\/\">Bem Estar do Menor<\/a>&nbsp;(BEM), em Sabin\u00f3polis-MG, parceira da Rede M\u00e3os Dadas. E m\u00e3e do Pedro e Maria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Por Ana Meny de Jesus Nasci no Quilombo, pequeno povoado localizado na zona rural de Sesmarias, no munic\u00edpio de Sabin\u00f3polis-MG. Lu\u00edza, minha m\u00e3e, casou-se, teve dois filhos e separou-se em seguida, passando a viver s\u00f3. Ap\u00f3s o casamento, minha m\u00e3e teve mais quatro filhos de pais diferentes. Sou a quinta filha de seis irm\u00e3os. 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