{"id":6789,"date":"2017-05-12T13:53:26","date_gmt":"2017-05-12T16:53:26","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/?p=6789"},"modified":"2017-05-12T13:55:19","modified_gmt":"2017-05-12T16:55:19","slug":"morango-e-iorgute-ou-tapioquinha-com-cafe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/2017\/05\/12\/morango-e-iorgute-ou-tapioquinha-com-cafe\/","title":{"rendered":"Morango e \u201ciorgute\u201d ou tapioquinha com caf\u00e9?"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-6791\" title=\"Foto: Arquivo pessoal de Phelipe Reis\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2017\/05\/Tapioca-e-Caf\u00e9-Phelipe-Reis.jpg\" alt=\"\" width=\"379\" height=\"262\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2017\/05\/Tapioca-e-Caf\u00e9-Phelipe-Reis.jpg 1000w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2017\/05\/Tapioca-e-Caf\u00e9-Phelipe-Reis-300x207.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2017\/05\/Tapioca-e-Caf\u00e9-Phelipe-Reis-768x529.jpg 768w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2017\/05\/Tapioca-e-Caf\u00e9-Phelipe-Reis-150x103.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 379px) 100vw, 379px\" \/><em><strong>Por\u00a0Phelipe M. Reis<\/strong><\/em><\/p>\n<p>De manh\u00e3, ela abre a geladeira e pede: \u201cD\u00e1, d\u00e1&#8230;\u201d. Eu pego a caixinha e retiro a embalagem; lavo e corto em peda\u00e7os aqueles morangos vermelhinhos. Ela come um e pede o segundo. Dois, tr\u00eas, quatro&#8230; devora quantos tiver. \u201cMorango \u00e9 fruta de rico\u201d, lembro que era assim que eu pensava, quando eu era curumim. Via muitos e os desejava. Mas os via na tela da TV, na mesa das fam\u00edlias das novelas globais. \u00c0s vezes, apareciam tamb\u00e9m nas prateleiras dos supermercados da cidade, mas quase nunca na geladeira de casa. L\u00e1, no interior do Amazonas, custava cerca de dez reais pouco mais de uma d\u00fazia de morangos. Hoje, no interior de Minas, consigo comprar a mesma quantidade por um pre\u00e7o mais barato que uma palma de banana.<\/p>\n<p>\u00c0 tarde, na hora da merenda, pego minha x\u00edcara com o caf\u00e9 quentinho. Acabei de passar no coador, vi subir o vapor da \u00e1gua quente e senti o aroma do caf\u00e9 mineiro. Acrescento a\u00e7\u00facar e leite em p\u00f3. E mais leite em p\u00f3, para ficar com aquelas bolinhas. Fa\u00e7o assim tamb\u00e9m na hora de preparar o Nescau da cunhant\u00e3-vi\u00e7osa. \u201cT\u00e1 bom! J\u00e1 colocou o suficiente\u201d, assim dizia minha m\u00e3e quando est\u00e1vamos \u00e0 mesa de manh\u00e3 cedo, antes de ir para a escola. O pacotinho do \u201cDuleite\u201d era caro. Se n\u00e3o economiz\u00e1ssemos nas colheradas, o resto da semana teria s\u00f3 o caf\u00e9 preto.<\/p>\n<p>Com o caf\u00e9 j\u00e1 pronto, passo a tapioca na peneira, esquento a frigideira para fazer o beiju. Depois passo manteiga e coloco algumas fatias de queijo. A cunhant\u00e3 chega perto, choramingando, e pede tamb\u00e9m. N\u00e3o a tapioca, quer s\u00f3 o queijo. Come de perder a conta, se a gente deixar. \u201cT\u00e1 bom j\u00e1. Passa s\u00f3 numa banda do p\u00e3o. E n\u00e3o tem \u2018quero mais\u2019\u201d, dizia a voz firme do papai, na hora da merenda. Parecia at\u00e9 que estava brabo. Mas n\u00e3o, estava apenas preocupado para que n\u00e3o acab\u00e1ssemos a manteiga em um s\u00f3 dia.<!--more--><\/p>\n<p>Essas por\u00e7\u00f5es de lembran\u00e7as, do meu tempo de curumim, me v\u00eam \u00e0 mem\u00f3ria frequentemente, enquanto cuido da minha cunhant\u00e3-vi\u00e7osa. Um di\u00e1logo constante entre o presente e o passado, que me levam a refletir e depositar mais f\u00e9 naquele minidiscurso famoso que todo mundo j\u00e1 ouviu do pai ou da m\u00e3e, algum dia, de que eles sempre se esfor\u00e7am para nos dar o melhor que podem. N\u00e3o que eu n\u00e3o acreditasse nisso, mas \u00e9 que agora, que sou pai, esta verdade est\u00e1 mais evidente e ecoa na minha rela\u00e7\u00e3o com minha filha.<\/p>\n<p>Uma das formas que eu e minha esposa praticamos isso \u00e9 tentando proporcionar \u00e0 nossa filha uma alimenta\u00e7\u00e3o mais ou menos saud\u00e1vel, com bastante frutas e legumes. Claro que tudo dentro das possibilidades e das condi\u00e7\u00f5es do bolso, at\u00e9 porque esse neg\u00f3cio de ter uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel \u00e9 trabalhoso e caro. Se por aqui j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o barato, imagine no interior do Amazonas. Da\u00ed o porqu\u00ea de tantos curumins e cunhant\u00e3s da Amaz\u00f4nia, como eu, n\u00e3o serem criados comendo legumes e verduras.<\/p>\n<p>Mas al\u00e9m do morango, que Elis adora, ela tamb\u00e9m n\u00e3o dispensa p\u00eara, melancia, laranja, tangerina e amora. Gosta tamb\u00e9m do tal do \u201ciourgute\u201d, que para mim era outro produto de rico, na inf\u00e2ncia. Mas eu queria mesmo \u00e9 que ela experimentasse um pouco do que meu pai e minha m\u00e3e proporcionaram a mim e a meus irm\u00e3os. Embora eu e a Sarah (minha irm\u00e3, mais velha que eu um ano) tenhamos nascido no \u201ctempo da vaca magra\u201d, nunca tivemos motivos s\u00e9rios para reclamar.<\/p>\n<p>Quando em nossa mesa n\u00e3o tinha o p\u00e3o com manteiga e o caf\u00e9 com leite, a mam\u00e3e improvisava com o que tinha. Ela sempre foi \u00f3tima nisso. Nessas horas, surgia o fritinho de crueira ou de trigo, que mais tarde eu fui descobrir seu nome \u2018sofisticado\u2019: bolinho de chuva. Mas na falta do trigo, mam\u00e3e inventava um fritinho de farinha. Na merenda da tarde, sempre aquele \u2018quissuqui\u2019 de uva acompanhado do cascalho, feito com os peda\u00e7os de massa de pastel, que sobravam das encomendas de salgados que mam\u00e3e fazia.<\/p>\n<p>Claro que tinham dias diferentes, quando o papai e a mam\u00e3e estavam com o bolso melhor ou quando a vov\u00f3 Tereza mandava algumas iguarias regionais l\u00e1 do Z\u00e9 A\u00e7\u00fa. Nesses dias a mesa ficava farta. Da feira do produtor, onde \u00edamos aos s\u00e1bados, traz\u00edamos o beiju cica, o quebradinho ou a goma para fazer o beiju de tapioca (tudo derivado da mandioca); tamb\u00e9m n\u00e3o podia faltar o queijo regional, uma Pupunha daquela bem oleosa e o tradicional Tucum\u00e3. L\u00e1 do interior da vov\u00f3, vinha a Macaxeira para cozinhar ou fritar e o Car\u00e1, do branco e do roxo, que dava at\u00e9 para fazer mingau. Para ficar perfeito, o papai passava na padaria do Vadico, na avenida Amazonas, e comprava aquele p\u00e3o manual quentinho. Pronto. N\u00e3o existia coisa melhor!<\/p>\n<p>Lembro de tudo isso com sabor de gratid\u00e3o, aos meus pais e a Deus. Naquela \u00e9poca eu n\u00e3o tinha essa percep\u00e7\u00e3o, mas agora entendo o esfor\u00e7o deles e sei que recebi o melhor que podiam dar. Hoje, sinto falta, tenho saudades. Queria mesmo que minha filha experimentasse um bocadinho disso.<\/p>\n<p>Todos esses retalhos de recorda\u00e7\u00f5es fazem aumentar dentro de mim uma convic\u00e7\u00e3o: a vida se torna melhor quando se aprende a apreciar e ter contentamento nas coisas simples: na comida caseira, no p\u00e3o quentinho, no caf\u00e9 ralo, no p\u00e3o com manteiga, no fritinho de farinha ou no beiju de tapioca. Acho que j\u00e1 aprendi a n\u00e3o me envaidecer mais com aquilo que n\u00e3o pude ou n\u00e3o posso ter. At\u00e9 porque, o morango e o \u201ciorgute\u201d, que eu achava as \u201cmelhores coisas do mundo\u201d, nem s\u00e3o t\u00e3o gostosos assim como eu pensava. Troco eles facilmente pela minha tapioquinha e meu caf\u00e9 com leite. E voc\u00ea, aceita?<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-6790\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2017\/05\/10885077_10205073985146612_3902084096255804457_n.jpg\" alt=\"\" width=\"137\" height=\"137\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2017\/05\/10885077_10205073985146612_3902084096255804457_n.jpg 480w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2017\/05\/10885077_10205073985146612_3902084096255804457_n-150x150.jpg 150w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2017\/05\/10885077_10205073985146612_3902084096255804457_n-300x300.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2017\/05\/10885077_10205073985146612_3902084096255804457_n-64x64.jpg 64w\" sizes=\"auto, (max-width: 137px) 100vw, 137px\" \/>Phelipe M. Reis\u00a0<\/strong>\u00e9 amazonense, mission\u00e1rio e jornalista. Casado com Lu\u00edze e pai da Elis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0Phelipe M. Reis De manh\u00e3, ela abre a geladeira e pede: \u201cD\u00e1, d\u00e1&#8230;\u201d. Eu pego a caixinha e retiro a embalagem; lavo e corto em peda\u00e7os aqueles morangos vermelhinhos. Ela come um e pede o segundo. 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