{"id":6784,"date":"2017-05-11T11:10:11","date_gmt":"2017-05-11T14:10:11","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/?p=6784"},"modified":"2017-05-11T11:43:47","modified_gmt":"2017-05-11T14:43:47","slug":"e-quando-parece-nao-haver-motivos-para-celebrar-o-dia-das-maes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/2017\/05\/11\/e-quando-parece-nao-haver-motivos-para-celebrar-o-dia-das-maes\/","title":{"rendered":"E quando parece n\u00e3o haver motivos para celebrar o Dia das M\u00e3es?"},"content":{"rendered":"<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-6785 \" title=\"Foto: Pixabay.com\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2017\/05\/imag_dest_10_05_17_mae.jpg\" alt=\"\" width=\"335\" height=\"249\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2017\/05\/imag_dest_10_05_17_mae.jpg 500w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2017\/05\/imag_dest_10_05_17_mae-300x222.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2017\/05\/imag_dest_10_05_17_mae-150x111.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 335px) 100vw, 335px\" \/><em>Por Patrick Reason<\/em> <\/strong><\/p>\n<p>Acordei cedo no Dia das M\u00e3es preocupado em mobilizar meus filhos adolescentes em tempo de participarmos da Escola B\u00edblica Dominical. \u201cVoc\u00eas j\u00e1 fizeram a carta para sua m\u00e3e?\u201d, indaguei. \u201cS\u00f3 mais cinco minutos, pai\u201d, foi a resposta, j\u00e1 esperada. Sa\u00ed de casa \u00e0s pressas para comprar aquelas rosas que garantem mais um ano de favor conjugal merecido. Este era meu mundo, o mundo de muitas fam\u00edlias crist\u00e3s. Temos nossas batalhas em fam\u00edlia, nossos altos e baixos, e tentamos aplicar a Palavra na instru\u00e7\u00e3o dos filhos e no comportamento afetivo, e gra\u00e7as a Ele, normalmente d\u00e1 bastante certo. E assim foi. Depois de cart\u00f5es de valoriza\u00e7\u00e3o maternal e um lindo buqu\u00ea na mesa de caf\u00e9, sa\u00edmos felizes para a igreja.<\/p>\n<p>Nossa igreja compartilha seu espa\u00e7o f\u00edsico e membresia com uma entidade de acolhimento institucional de crian\u00e7as e suas m\u00e3es, v\u00edtimas de viol\u00eancia ou vulnerabilidade, e com outro espa\u00e7o de atendimento \u00e0 comunidade local. N\u00e3o \u00e9 uma igreja padr\u00e3o. O culto \u00e0 noite seria especial, com lembrancinhas para as m\u00e3es e uma musiquinha ensaiada no departamento infantil com playback e coreografia. Mas no per\u00edodo da manh\u00e3, era a hora de reunir o grupo todo para uma r\u00e1pida ora\u00e7\u00e3o antes de nos dividirmos por faixa et\u00e1ria e aproveitar um bom estudo b\u00edblico. Foi assim que este pastor entrou desatento neste espa\u00e7o religioso, agradecendo a Deus porque tudo tinha ido t\u00e3o bem em casa.<\/p>\n<p><strong>A realidade provoca a consci\u00eancia para admitir a fragilidade<\/strong><br \/>\nA primeira pessoa que veio a meu encontro quando entrei na igreja foi o Willian. Um menino lindo e com olhos e c\u00edlios que provocar\u00e3o inveja \u00e0 grande maioria de mulheres. Ele mora com a av\u00f3 e frequenta diariamente nosso Servi\u00e7o de Conviv\u00eancia por meio per\u00edodo e \u00e9 sempre um dos primeiros de chegar (sozinho) aos cultos. Eu lembrava que a m\u00e3e dele estava presa, mas, naquele momento, pressionado pela data especial, me vi perguntando como estava a sua m\u00e3e. \u201cPastor, ela saiu da pris\u00e3o!\u201d, Willian respondeu. Meu al\u00edvio foi imediato. \u201cQue b\u00ean\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea pediu ora\u00e7\u00e3o tantas vezes por isto!\u201d, celebrei. \u201cMas ela n\u00e3o vem me ver\u201d, continuou ele. Esta simples declara\u00e7\u00e3o me derrubou: Willian n\u00e3o merecia isto. Aqueles olhos transmitiram resigna\u00e7\u00e3o \u00e0 dor. \u201cVoc\u00ea merece algo muito melhor\u201d, pensei, mas n\u00e3o tive coragem de expressar. <!--more--><\/p>\n<p>Virei para continuar cumprimentando outros irm\u00e3os que chegavam. O pr\u00f3ximo encontro providencial foi com aquele casal \u201cperfeito\u201d, cheio de beleza e vigor, socialmente bem amado por todos. Mas este casal n\u00e3o vir\u00e1 para o culto hoje \u00e0 noite, como de costume. Eles estavam tentando ter filhos h\u00e1 alguns anos, inclusive por meio de tratamentos, e nada de engravidar. Ir ao culto e assistir outras m\u00e3es receberem homenagens seria uma dor imposs\u00edvel de aguentar.<br \/>\nAntes de eu assimilar meus pensamentos de perplexidade, cumprimentei uma mulher que tinha sa\u00eddo da nossa entidade de acolhimento antes do tempo recomendado. Carente da afei\u00e7\u00e3o de seu padrasto, que a tinha engravidado at\u00e9 ent\u00e3o quatro vezes, e frustrada com as regras institucionais impostas e com as demandas para impor ordem em quatro crian\u00e7as \u201cimposs\u00edveis\u201d, se mandou com eles de volta para o lar. A ju\u00edza, enfurecida pelo aparente desacato \u00e0 autoridade da genitora, mandou acolher os quatro filhos \u2013 duas meninas em um abrigo, dois meninos em outro \u2013 sem direito a visita por um tempo; a m\u00e3e foi deixada para aprender e lamber as feridas (e bem possivelmente engravidar de novo).<\/p>\n<p>\u201cO que fazer disto tudo, pastor? Ser\u00e1 que sua Santa Ceia e apresenta\u00e7\u00e3o feita pelas crian\u00e7as no culto da noite saciar\u00e3o suas ovelhas? Tranquilizar\u00e3o a sua pr\u00f3pria consci\u00eancia?\u201d. Certamente n\u00e3o. E o pior, \u00e9 que tinha que pregar!<br \/>\nA tarde daquele dia foi uma batalha. A religiosidade bateu forte e demandou uma fala vitoriosa e de valoriza\u00e7\u00e3o da mulher e da maternidade, mas a consci\u00eancia demandou uma palavra que admite a fragilidade, a dor de n\u00e3o conseguir ser a fam\u00edlia que a sociedade pronuncia como o padr\u00e3o. Ai, ai, ai, isto \u00e9 muita coisa para uma prega\u00e7\u00e3o s\u00f3.<br \/>\n<strong><br \/>\nOnde est\u00e1 o Z\u00e9?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o falo isto de brincadeirinha. Noventa e nove por cento de minhas prega\u00e7\u00f5es s\u00e3o nada mais do que exposi\u00e7\u00f5es fundamentadas naquilo que a Palavra fala por si s\u00f3. Desta vez, foi diferente: minha prega\u00e7\u00e3o foi fruto de uma inspira\u00e7\u00e3o divina. Fui provocado a refletir sobre a cruz, e especificamente sobre Jo\u00e3o 19.25 a 27. Nesta passagem, Jesus fala ao seu amigo, Jo\u00e3o, e \u00e0 sua m\u00e3e, Maria. Podemos notar v\u00e1rios aspectos: primeiro \u00e9 que Jos\u00e9 n\u00e3o estava. Isto n\u00e3o \u00e9 a reflex\u00e3o principal desta prega\u00e7\u00e3o nascente, mas uma excelente indaga\u00e7\u00e3o a ser feita no contexto de nossa sociedade moderna e especialmente latino-americana: \u201cOnde voc\u00ea est\u00e1 Z\u00e9? Onde voc\u00ea est\u00e1? Pelo amor de Deus, cad\u00ea voc\u00ea homem?\u201d. Na hora dif\u00edcil, do sofrimento, do ensino e da forma\u00e7\u00e3o, do nascimento e at\u00e9 a morte precipitada das crian\u00e7as brasileiras, onde est\u00e1 o pai destes garotos e garotas? Hoje predominam fam\u00edlias onde o pai \u00e9 completamente desconhecido ou efetivamente ausente.<\/p>\n<p><strong>A m\u00e3e deixa de ser m\u00e3e quando filho morre?<\/strong><br \/>\nSegundo aspecto: Jesus tinha causado um problema s\u00f3cio familiar morrendo naquele momento. Sem diminuir o valor eterno e determinante da morte redentiva da cruz, Jesus causou para Maria, sua m\u00e3e um problema existencial. Depois de partilhar da mesma casa com a minha sogra por um ano, percebi que ela n\u00e3o sabe existir sem encarnar a maternidade. M\u00e3e de sete, av\u00f3 de vinte alguma coisa e bisav\u00f3 de uma d\u00fazia, pelo menos, no ano de sua morte, n\u00e3o passou um dia que ela \u201cquase morreu\u201d de preocupa\u00e7\u00e3o por um ou outro dos filhos, netos e bisnetos. A vida dela n\u00e3o tinha sentido sem se preocupar com eles. Maria estava perdendo seu filho mais velho naquele momento. Ap\u00f3s a ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o se v\u00ea alguma refer\u00eancia \u00e0 rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e e filho. N\u00e3o sei exatamente o que significava culturalmente o cuidado na velhice pelo primog\u00eanito e, depois desta morte antecipada, qual era o papel dos outros filhos, mas sei que houve um vazio sem precedentes na vida de Maria. E Jo\u00e3o? Se eu tivesse passado metade daquilo que ele iria passar at\u00e9 chegar em Patmos, gostaria de ter uma m\u00e3e intercedendo por mim e quem sabe preparando aquele comidinha especial para me esperar depois uma viagem mission\u00e1ria. N\u00e3o sei se a m\u00e3e biol\u00f3gica de Jo\u00e3o ainda vivia, nem por que Maria n\u00e3o tinha os outros filhos esperando o retorno dela, s\u00f3 sei que Jesus usou o pouco f\u00f4lego que restava de sua vida sacrificial para garantir o amparo deles.<\/p>\n<p><strong>Quem precisa de uma m\u00e3e?<br \/>\n<\/strong>Aqui me foi feito perceber o seguinte: nesta nova conjuntura familiar, Jesus n\u00e3o pronunciou: \u201cJo\u00e3o, cuide de minha m\u00e3e como se fosse sua m\u00e3e\u201d, ou: \u201cMaria, cuide de Jo\u00e3o como se fosse seu filho\u201d. N\u00e3o. Ele disse a Maria: \u201cEste \u00e9 o seu filho\u201d. Em seguida disse a Jo\u00e3o: \u201cEsta \u00e9 a sua m\u00e3e\u201d (Jo 19.26-27, NTLH). Jesus empoderou Maria para ser a m\u00e3e do Jo\u00e3o e Jo\u00e3o para ser o filho de Maria. Assim Jesus estabeleceu a fam\u00edlia substituta na cruz de Calv\u00e1rio. Maria n\u00e3o era m\u00e3e coisa nenhuma de Jo\u00e3o, nem Jo\u00e3o filho de Maria, mas isto n\u00e3o se v\u00ea nas palavras de Jesus aqui. Quantas crian\u00e7as e adolescentes, filhos de vizinhos, filhos de parentes, grupos de irm\u00e3os em abrigos institucionais, jovens em moc\u00f3s, crian\u00e7as em situa\u00e7\u00e3o de rua ou at\u00e9 em nas nossas igrejas (na Escola B\u00edblica Dominical!), precisam de uma m\u00e3e ou de um pai? Jesus pode nos empoderar a ser m\u00e3e e pai. N\u00e3o de brincadeira, mas de fato. M\u00e3e e pai de filhos, nossos.<\/p>\n<p>Olhe bem o resultado triunfal desta nova constru\u00e7\u00e3o familiar: \u201cDaquela hora em diante, o disc\u00edpulo a levou para casa\u201d. Esta \u00e9 a minha ora\u00e7\u00e3o para voc\u00ea e para todas as crian\u00e7as, adolescentes e jovens. Uma casa para cada crian\u00e7a brasileira.<\/p>\n<p><strong>\u2022 Patrick Reason<\/strong> \u00e9 ingl\u00eas naturalizado brasileiro, pai de dois filhos adolescentes e marido da Iara. Pastor e fundador da Associa\u00e7\u00e3o Beneficente Encontro com Deus, coordenador da REPAS e atual presidente do CMAS de Curitiba, Paran\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Patrick Reason Acordei cedo no Dia das M\u00e3es preocupado em mobilizar meus filhos adolescentes em tempo de participarmos da Escola B\u00edblica Dominical. \u201cVoc\u00eas j\u00e1 fizeram a carta para sua m\u00e3e?\u201d, indaguei. \u201cS\u00f3 mais cinco minutos, pai\u201d, foi a resposta, j\u00e1 esperada. 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