{"id":5212,"date":"2015-07-01T13:37:37","date_gmt":"2015-07-01T16:37:37","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/?p=5212"},"modified":"2015-07-01T13:45:00","modified_gmt":"2015-07-01T16:45:00","slug":"educadora-do-projeto-calcada-da-lifewords-conta-sua-experiencia-com-adolescentes-em-fortaleza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/2015\/07\/01\/educadora-do-projeto-calcada-da-lifewords-conta-sua-experiencia-com-adolescentes-em-fortaleza\/","title":{"rendered":"Educadora do Projeto Cal\u00e7ada da Lifewords conta sua experi\u00eancia com adolescentes em Fortaleza"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #800080;\"><em><strong>Por\u00a0Raila Freitas<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p>Respeito e compreendo a dor daqueles que perderam entes queridos ou viram seus direitos usurpados pela a\u00e7\u00e3o de adolescentes. Em situa\u00e7\u00e3o semelhante, sentir-me-ia igualmente indignada, perplexa e impotente. Acredito, por\u00e9m, que as quest\u00f5es que envolvem o futuro de uma gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o devam ser resolvidas \u00e0 luz de premissas emocionais, mas com base em princ\u00edpios universais, no caso, justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>Sou educadora de adolescentes desde agosto de 1981. Nove anos antes da publica\u00e7\u00e3o do ECA (Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente) que se deu em 16.07.90. Posso falar da crise vivenciada por mim com o advento desta lei: acreditava que transformaria em caos nosso trabalho, e n\u00e3o ser\u00edamos mais respeitados pelos adolescentes. Mas as mudan\u00e7as provocadas pelo ECA aconteceram de forma t\u00e3o sutil que se tornaram quase impercept\u00edveis para mim. Vi que poderia &#8220;ficar tranquila&#8221;, pois quase nada havia mudado exceto que as crian\u00e7as foram separadas dos adolescentes, e os adolescentes infratores separados dos adolescentes em situa\u00e7\u00e3o de abandono ou v\u00edtimas de viol\u00eancia ou neglig\u00eancia. Isso era o suficiente para mim, at\u00e9 porque sempre trabalhei em unidades cuja dire\u00e7\u00e3o e equipe de apoio n\u00e3o aceitavam qualquer forma de viol\u00eancia ou desrespeito a dignidade humana.<\/p>\n<p>O tempo passou, conheci melhor a nova lei e descobri, aos poucos, seu valor. Despertei para o fato de os abrigos parecerem &#8220;arranjos&#8221; e n\u00e3o lugares de preserva\u00e7\u00e3o dos direitos das crian\u00e7as e adolescentes. Exceto a mudan\u00e7a que citei, nada mais havia mudado e n\u00e3o via perspectiva disso ocorrer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #800080;\"><strong>Programa SOS Crian\u00e7a de Fortaleza <\/strong><\/span><\/p>\n<p>Surge, ent\u00e3o, a oportunidade de compor o quadro de profissionais do rec\u00e9m-criado Programa SOS Crian\u00e7a de Fortaleza. Aqui trabalhei por oito anos consecutivos, tempo suficiente para ver um sem n\u00famero de crian\u00e7as e adolescentes ser retirado das m\u00e3os de opressores cru\u00e9is e de pais desassistidos. Vi crian\u00e7as mutiladas pelas agress\u00f5es sofridas,\u00a0v\u00edtimas de ass\u00e9dio e viol\u00eancia sexual praticados por pessoas de todas as idades e de diferentes classes sociais. Vi tamb\u00e9m fam\u00edlias vivendo em situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria tal, que n\u00e3o dispunham do m\u00ednimo necess\u00e1rio para sobreviver por um dia sequer. Por\u00e9m, ainda mais marcante foi presenciar o nascimento das favelas que hoje rodeiam nossa cidade sem entender o porqu\u00ea de ningu\u00e9m considerar a gravidade desse fato.<\/p>\n<div id=\"attachment_5217\" style=\"width: 376px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2015\/07\/DSC02664.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-5212\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\" data-lightview-title=\"Foto: Alison Worral\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5217\" class=\"wp-image-5217\" title=\"Foto: Alison Worral\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2015\/07\/DSC02664.jpg\" alt=\"\u201cNesta unidade, os adolescentes conhecem cada um dos seus direitos e, diferente do que eu pensava anteriormente, n\u00e3o abusam de nenhum deles...\u201d\" width=\"366\" height=\"275\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2015\/07\/DSC02664.jpg 500w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2015\/07\/DSC02664-300x225.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2015\/07\/DSC02664-150x113.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 366px) 100vw, 366px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5217\" class=\"wp-caption-text\">\u201cNesta unidade, os adolescentes conhecem cada um dos seus direitos e, diferente do que eu pensava anteriormente, n\u00e3o abusam de nenhum deles&#8230;\u201d<\/p><\/div>\n<p>Lembro-me de tentar conversar com diversas pessoas sobre a situa\u00e7\u00e3o, mas sempre restava aquela sensa\u00e7\u00e3o interior de n\u00e3o estar sendo entendida. Sentia-me um E.T., falando uma linguagem indecifr\u00e1vel. Realizava visitas noturnas em ruelas sem saneamento b\u00e1sico, e andava por entre casebres escuros e f\u00e9tidos, esbarrando em pessoas embriagadas, drogadas, doentes e famintas. Chegava ali para atender alguma den\u00fancia envolvendo crian\u00e7as ou adolescentes em situa\u00e7\u00e3o de risco. Deparava-me com crian\u00e7as morrendo com crises de asma ou desidratada pela febre, enquanto a m\u00e3e drogava-se com o companheiro. Outras vezes precisava retirar de casa um rec\u00e9mnascido ferido por ter sido jogado pelos pais contra a parede, e o encaminhava para o hospital mais pr\u00f3ximo. Estes n\u00e3o eram casos isolados, fazia parte de nossa rotina. Diuturnamente, eu e os demais membros da equipe vivenci\u00e1vamos casos semelhantes. Hoje, muitos desses lugares que eu visitava, acompanhada apenas pelo motorista de plant\u00e3o, s\u00e3o regi\u00f5es que a pol\u00edcia teme adentrar, segundo os notici\u00e1rios local.<!--more--><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #800080;\"><strong>Medida socioeducativa de semiliberdade <\/strong><\/span><\/p>\n<p>Atualmente, trabalho numa unidade de atendimento a adolescentes do sexo masculino cumprindo medida socioeducativa de semiliberdade. Coincid\u00eancia? \u00c9 da periferia de Fortaleza ou das periferias das cidades da zona metropolitana que eles procedem, em quase sua totalidade. Tamb\u00e9m adv\u00eam de lares marcados pela viol\u00eancia, pelo uso de \u00e1lcool ou drogas il\u00edcitas. Vivenciam desde cedo a viol\u00eancia e a car\u00eancia de valores \u00e9ticos. Est\u00e3o fora da escola e engodados pelo tr\u00e1fico como meio mais f\u00e1cil de adquirir dinheiro. Pergunto-me se estes adolescentes foram gerados nos ambientes que eu visitava h\u00e1 cerca de dez anos ou apareceram pelo processo de gera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea. Com tempo de servi\u00e7o para aposentar-me, vivo o dilema de sair ou permanecer no ambiente que sempre sonhei para trabalhar com os adolescentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #800080;\"><strong>Abrigo que segue as diretrizes do SINASE <\/strong><\/span><\/p>\n<p>Fui agraciada por Deus ao proporcionar-me trabalhar num abrigo que segue todas as diretrizes do SINASE, desde a estrutura f\u00edsica da casa, at\u00e9 a proposta pedag\u00f3gica (\u00e9, tem proposta pedag\u00f3gica!). Tamb\u00e9m, deparei-me com um grupo de pessoas que, liderados por\u00a0uma gestora que acredita na lei e em seu sistema de gerenciamento, tentam lev\u00e1-la a s\u00e9rio apesar das grandes dificuldades relacionadas \u00e0s quest\u00f5es salariais de seus poucos servidores e dos v\u00e1rios &#8220;prestadores de servi\u00e7os&#8221;.<\/p>\n<p>Nesta unidade, os adolescentes conhecem cada um dos seus direitos e, diferente do que eu pensava anteriormente, n\u00e3o abusam de nenhum deles. Nas reuni\u00f5es chamadas &#8220;assembleias&#8221;, eles discutem seus direitos e deveres e participam da programa\u00e7\u00e3o da unidade, como tamb\u00e9m podem avaliar o trabalho dos educadores diante desses, ouvindo da mesma forma sobre seus comportamentos. Muitos adolescentes, quando desligados, frequentam a unidade nos dias das reuni\u00f5es das fam\u00edlias, onde ocorrem palestras educativas, apresenta\u00e7\u00f5es teatrais, etc. e um almo\u00e7o especial. Ainda n\u00e3o vivenciamos nenhuma rebeli\u00e3o. Digo ainda porque n\u00e3o estamos imunes a elas, mas com certeza ser\u00e1 um caso isolado e n\u00e3o rotineiro, se vier a acontecer. Acredito que a verdadeira mudan\u00e7a acontece a partir de posicionamentos pessoais. Mas nunca saberemos qual adolescente adotar\u00e1 uma nova postura diante da vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #800080;\"><strong>O que cabe a n\u00f3s, educadores? <\/strong><\/span><\/p>\n<p>A n\u00f3s educadores, cabe a tarefa de proporcionar um ambiente favor\u00e1vel a esse desabrochar da consci\u00eancia para o bem. Se n\u00e3o aprenderem assim, aprender\u00e3o nos pres\u00eddios superlotados, com leis mais duras? Ser\u00e1 que n\u00e3o seria mais justo se, em vez dos discursos de redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal, fossem discutidas formas r\u00e1pidas de cumprir as orienta\u00e7\u00f5es do SINASE em todas as unidades de atendimento dos direitos das crian\u00e7as e adolescentes? Ou ainda, se discutissem melhorias na educa\u00e7\u00e3o de forma que crian\u00e7as e adolescentes, das diversas classes sociais, pudessem desfrutar de uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade que inclui o respeito pela forma de aprendizagem de cada um e de suas capacidades cognitivas? Porque muitos dos adolescentes que cumprem medidas socioeducativas abandonaram a escola, ou para trabalhar na economia informal ou devido a dificuldades de aprendizagens nunca diagnosticadas.<\/p>\n<p>Muitos, com a autoestima marcada, acreditam serem incapazes de aprender ou que n\u00e3o gostam de estudar. Se o ser humano \u00e9 um ser pensante e estudar \u00e9 pensar, vale refletir o que leva uma crian\u00e7a ou adolescente a abrir m\u00e3o de um processo t\u00e3o inerente ao humano. Estas, e muitas outras quest\u00f5es deveriam anteceder qualquer discuss\u00e3o sobre mudan\u00e7as no ECA que, a meu ver, \u00e9 uma das poucas coisas justas em nosso pa\u00eds.\u201d <strong><em>Raila Freitas<\/em><\/strong><\/p>\n<p>_ _ _ _ _\u00a0_ _ _ _ _\u00a0_ _ _ _ _\u00a0_ _ _ _ _\u00a0_ _ _ _ _\u00a0_ _ _ _ _\u00a0_ _ _ _ _\u00a0_ _ _ _ _\u00a0_ _ _ _ _\u00a0_ _ _ _ _\u00a0_ _ _ _ _\u00a0_ _ _ _ _<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/brasil.sgmlifewords.com\/pt\/\" target=\"_blank\">Associa\u00e7\u00e3o Lifewords<\/a><\/p>\n<p>Rua Uruguai, 514, sala\u00a0201, Tijuca, Rio de\u00a0Janeiro, Brasil &#8211;\u00a0CEP 20510-060<\/p>\n<p>Contato: Tel. (21)32382480 \u00a0Facebook:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/SGMLWProjetoCalcada\" target=\"_blank\">www.facebook.com\/SGMLWProjetoCalcada<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0Raila Freitas Respeito e compreendo a dor daqueles que perderam entes queridos ou viram seus direitos usurpados pela a\u00e7\u00e3o de adolescentes. Em situa\u00e7\u00e3o semelhante, sentir-me-ia igualmente indignada, perplexa e impotente. 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