{"id":4946,"date":"2015-04-09T10:28:29","date_gmt":"2015-04-09T13:28:29","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/?p=4946"},"modified":"2015-04-10T09:43:14","modified_gmt":"2015-04-10T12:43:14","slug":"18-razoes-para-nao-reduzir-a-maioridade-penal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/2015\/04\/09\/18-razoes-para-nao-reduzir-a-maioridade-penal\/","title":{"rendered":"18 raz\u00f5es para N\u00c3O reduzir a maioridade penal"},"content":{"rendered":"<p><strong>Contra ou a favor da redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal para 16 anos? Veja o artigo publicado no blog Carta Capital, escrito por Douglas Belchior.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/negrobelchior?fref=ts\" target=\"_blank\">Por Douglas Belchior<\/a><\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #0000ff;\">1\u00ba. Porque j\u00e1 responsabilizamos adolescentes em ato infracional &#8211;\u00a0<\/span><\/strong>A partir dos 12 anos, qualquer adolescente \u00e9 responsabilizado pelo ato cometido contra a lei. Essa responsabiliza\u00e7\u00e3o, executada por meio de medidas socioeducativas previstas no\u00a0<a title=\"Lei n\u00ba 8.069, de 13 de julho de 1990.\" href=\"http:\/\/www.jusbrasil.com.br\/legislacao\/1031134\/estatuto-da-crian%C3%A7a-e-do-adolescente-lei-8069-90\" target=\"_blank\" rel=\"10619725\">ECA<\/a>, tem o objetivo de ajud\u00e1-lo a recome\u00e7ar e a prepar\u00e1-lo para uma vida adulta de acordo com o socialmente estabelecido. \u00c9 parte do seu processo de aprendizagem que ele n\u00e3o volte a repetir o ato infracional.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00e3o devemos confundir impunidade com imputabilidade. A imputabilidade, segundo o\u00a0<a title=\"Decreto-lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940.\" href=\"http:\/\/www.jusbrasil.com.br\/legislacao\/1033702\/c%C3%B3digo-penal-decreto-lei-2848-40\" target=\"_blank\" rel=\"10649268\">C\u00f3digo Penal<\/a>, \u00e9 a capacidade da pessoa entender que o fato \u00e9 il\u00edcito e agir de acordo com esse entendimento, fundamentando em sua maturidade ps\u00edquica.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #0000ff;\">2\u00ba. Porque a lei j\u00e1 existe, resta ser cumprida &#8211;\u00a0<\/span><\/strong>O\u00a0<a title=\"Lei n\u00ba 8.069, de 13 de julho de 1990.\" href=\"http:\/\/www.jusbrasil.com.br\/legislacao\/1031134\/estatuto-da-crian%C3%A7a-e-do-adolescente-lei-8069-90\" target=\"_blank\" rel=\"10619725\">ECA<\/a>\u00a0prev\u00ea seis medidas educativas: advert\u00eancia, obriga\u00e7\u00e3o de reparar o dano, presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os \u00e0 comunidade, liberdade assistida, semiliberdade e interna\u00e7\u00e3o. Recomenda que a medida seja aplicada de acordo com a capacidade de cumpri-la, as circunst\u00e2ncias do fato e a gravidade da infra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitos adolescentes, que s\u00e3o privados de sua liberdade, n\u00e3o ficam em institui\u00e7\u00f5es preparadas para sua reeduca\u00e7\u00e3o, reproduzindo o ambiente de uma pris\u00e3o comum. E mais: o adolescente pode ficar at\u00e9 9 anos em medidas socioeducativas, sendo tr\u00eas anos interno, tr\u00eas em semiliberdade e tr\u00eas em liberdade assistida, com o Estado acompanhando e ajudando a se reinserir na sociedade.<\/p>\n<p>N\u00e3o adianta s\u00f3 endurecer as leis se o pr\u00f3prio Estado n\u00e3o as cumpre.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2015\/04\/Estado.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-4946\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-4947\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2015\/04\/Estado.jpg\" alt=\"Estado\" width=\"725\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2015\/04\/Estado.jpg 1024w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2015\/04\/Estado-300x186.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2015\/04\/Estado-150x93.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 725px) 100vw, 725px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #0000ff;\">3\u00ba. Porque o \u00edndice de reincid\u00eancia nas pris\u00f5es \u00e9 de 70% &#8211;\u00a0<\/span><\/strong>N\u00e3o h\u00e1 dados que comprovem que o rebaixamento da idade penal reduz os \u00edndices de criminalidade juvenil. Ao contr\u00e1rio, o ingresso antecipado no falido sistema penal brasileiro exp\u00f5e as (os) adolescentes a mecanismos\/comportamentos reprodutores da viol\u00eancia, como o aumento das chances de reincid\u00eancia, uma vez que as taxas nas penitenci\u00e1rias s\u00e3o de 70% enquanto no sistema socioeducativo est\u00e3o abaixo de 20%.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia n\u00e3o ser\u00e1 solucionada com a culpabiliza\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o, mas pela a\u00e7\u00e3o da sociedade e governos nas inst\u00e2ncias ps\u00edquicas, sociais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas que as reproduzem. Agir punindo e sem se preocupar em discutir quais os reais motivos que reproduzem e mant\u00e9m a viol\u00eancia, s\u00f3 gera mais viol\u00eancia.<!--more--><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #0000ff;\">4\u00ba. Porque o sistema prisional brasileiro n\u00e3o suporta mais pessoas &#8211;\u00a0<\/span><\/strong>O Brasil tem a 4\u00ba maior popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do mundo e um sistema prisional superlotado com 500 mil presos. S\u00f3 fica atr\u00e1s em n\u00famero de presos para os Estados Unidos (2,2 milh\u00f5es), China (1,6 milh\u00f5es) e R\u00fassia (740 mil).<\/p>\n<p>O sistema penitenci\u00e1rio brasileiro N\u00c3O tem cumprido sua fun\u00e7\u00e3o social de controle, reinser\u00e7\u00e3o e reeduca\u00e7\u00e3o dos agentes da viol\u00eancia. Ao contr\u00e1rio, tem demonstrado ser uma \u201cescola do crime\u201d.<\/p>\n<p>Portanto, nenhum tipo de experi\u00eancia na cadeia pode contribuir com o processo de reeduca\u00e7\u00e3o e reintegra\u00e7\u00e3o dos jovens na sociedade.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #0000ff;\">5\u00ba. Porque reduzir a maioridade penal n\u00e3o reduz a viol\u00eancia &#8211;\u00a0<\/span><\/strong>Muitos estudos no campo da criminologia e das ci\u00eancias sociais t\u00eam demonstrado que N\u00c3O H\u00c1 RELA\u00c7\u00c3O direta de causalidade entre a ado\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es punitivas e repressivas e a diminui\u00e7\u00e3o dos \u00edndices de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>No sentido contr\u00e1rio, no entanto, se observa que s\u00e3o as pol\u00edticas e a\u00e7\u00f5es de natureza social que desempenham um papel importante na redu\u00e7\u00e3o das taxas de criminalidade.<\/p>\n<p>Dados do Unicef revelam a experi\u00eancia mal sucedida dos EUA. O pa\u00eds, que assinou a Conven\u00e7\u00e3o Internacional sobre os Direitos da Crian\u00e7a, aplicou em seus adolescentes, penas previstas para os adultos. Os jovens que cumpriram pena em penitenci\u00e1rias voltaram a delinquir e de forma mais violenta. O resultado concreto para a sociedade foi o agravamento da viol\u00eancia.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #0000ff;\">6\u00ba. Porque fixar a maioridade penal em 18 anos \u00e9 tend\u00eancia mundial &#8211;\u00a0<\/span><\/strong>Diferentemente do que alguns jornais, revistas ou ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o em geral t\u00eam divulgado, a idade de responsabilidade penal no Brasil n\u00e3o se encontra em desequil\u00edbrio se comparada \u00e0 maioria dos pa\u00edses do mundo.<\/p>\n<p>De uma lista de 54 pa\u00edses analisados, a maioria deles adota a idade de responsabilidade penal absoluta aos 18 anos de idade, como \u00e9 o caso brasileiro.<\/p>\n<p>Essa fixa\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria decorre das recomenda\u00e7\u00f5es internacionais que sugerem a exist\u00eancia de um sistema de justi\u00e7a especializado para julgar, processar e responsabilizar autores de delitos abaixo dos 18 anos.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #0000ff;\">7\u00ba. Porque a fase de transi\u00e7\u00e3o justifica o tratamento diferenciado &#8211;\u00a0<\/span><\/strong>A Doutrina da Prote\u00e7\u00e3o Integral \u00e9 o que caracteriza o tratamento jur\u00eddico dispensado pelo Direito Brasileiro \u00e0s crian\u00e7as e adolescentes, cujos fundamentos encontram-se no pr\u00f3prio\u00a0<a title=\"CONSTITUI\u00c7\u00c3O DA REP\u00daBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988\" href=\"http:\/\/www.jusbrasil.com.br\/legislacao\/155571402\/constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-constitui%C3%A7%C3%A3o-da-republica-federativa-do-brasil-1988\" target=\"_blank\" rel=\"302754\">texto constitucional<\/a>, em documentos e tratados internacionais e no\u00a0<a title=\"Lei n\u00ba 8.069, de 13 de julho de 1990.\" href=\"http:\/\/www.jusbrasil.com.br\/legislacao\/1031134\/estatuto-da-crian%C3%A7a-e-do-adolescente-lei-8069-90\" target=\"_blank\" rel=\"10619725\">Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente<\/a>.<\/p>\n<p>Tal doutrina exige que os direitos humanos de crian\u00e7as e adolescentes sejam respeitados e garantidos de forma integral e integrada, mediando e operacionaliza\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de natureza universal, protetiva e socioeducativa.<\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o do adolescente como a pessoa entre 12 e 18 anos incompletos implica a incid\u00eancia de um sistema de justi\u00e7a especializado para responder a infra\u00e7\u00f5es penais quando o autor trata-se de um adolescente.<\/p>\n<p>A imposi\u00e7\u00e3o de medidas socioeducativas e n\u00e3o das penas criminais relaciona-se justamente com a finalidade pedag\u00f3gica que o sistema deve alcan\u00e7ar, e decorre do reconhecimento da condi\u00e7\u00e3o peculiar de desenvolvimento na qual se encontra o adolescente.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #0000ff;\">8\u00ba. Porque as leis n\u00e3o podem se pautar na exce\u00e7\u00e3o &#8211;\u00a0<\/span><\/strong>At\u00e9 junho de 2011, o Cadastro Nacional de Adolescentes em Conflito com a Lei (CNACL), do Conselho Nacional de Justi\u00e7a, registrou ocorr\u00eancias de mais de 90 mil adolescentes. Desses, cerca de 30 mil cumprem medidas socioeducativas. O n\u00famero, embora seja consider\u00e1vel, corresponde a 0,5% da popula\u00e7\u00e3o jovem do Brasil, que conta com 21 milh\u00f5es de meninos e meninas entre 12 e 18 anos.<\/p>\n<p>Sabemos que os jovens infratores s\u00e3o a minoria, no entanto, \u00e9 pensando neles que surgem as propostas de redu\u00e7\u00e3o da idade penal. Cabe lembrar que a exce\u00e7\u00e3o nunca pode pautar a defini\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica criminal e muito menos a ado\u00e7\u00e3o de leis, que devem ser universais e valer para todos.<\/p>\n<p>As causas da viol\u00eancia e da desigualdade social n\u00e3o se resolver\u00e3o com a ado\u00e7\u00e3o de leis penais severas. O processo exige que sejam tomadas medidas capazes de romper com a banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e seu ciclo. A\u00e7\u00f5es no campo da educa\u00e7\u00e3o, por exemplo, demonstram-se positivas na diminui\u00e7\u00e3o da vulnerabilidade de centenas de adolescentes ao crime e \u00e0 viol\u00eancia.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #0000ff;\">9\u00ba. Porque reduzir a maioridade penal \u00e9 tratar o efeito, n\u00e3o a causa &#8211;\u00a0<\/span><\/strong>A\u00a0<a title=\"CONSTITUI\u00c7\u00c3O DA REP\u00daBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988\" href=\"http:\/\/www.jusbrasil.com.br\/legislacao\/155571402\/constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-constitui%C3%A7%C3%A3o-da-republica-federativa-do-brasil-1988\" target=\"_blank\" rel=\"302754\">constitui\u00e7\u00e3o brasileira<\/a>\u00a0assegura nos artigos\u00a0<a title=\"Artigo 5 da Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988\" href=\"http:\/\/www.jusbrasil.com.br\/topicos\/10641516\/artigo-5-da-constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-de-1988\" target=\"_blank\" rel=\"10641516\">5\u00ba<\/a>\u00a0e\u00a0<a title=\"Artigo 6 da Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988\" href=\"http:\/\/www.jusbrasil.com.br\/topicos\/10641309\/artigo-6-da-constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-de-1988\" target=\"_blank\" rel=\"10641309\">6\u00ba<\/a>\u00a0direitos fundamentais como educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, moradia, etc. Com muitos desses direitos negados, a probabilidade do envolvimento com o crime aumenta, sobretudo entre os jovens.<\/p>\n<p>O adolescente marginalizado n\u00e3o surge ao acaso. Ele \u00e9 fruto de um estado de injusti\u00e7a social que gera e agrava a pobreza em que sobrevive grande parte da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A marginalidade torna-se uma pr\u00e1tica moldada pelas condi\u00e7\u00f5es sociais e hist\u00f3ricas em que os homens vivem. O adolescente em conflito com a lei \u00e9 considerado um \u2018sintoma\u2019 social, utilizado como uma forma de eximir a responsabilidade que a sociedade tem nessa constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Reduzir a maioridade \u00e9 transferir o problema. Para o Estado \u00e9 mais f\u00e1cil prender do que educar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #0000ff;\">10\u00ba. Porque educar \u00e9 melhor e mais eficiente do que punir &#8211;\u00a0<\/span><\/strong>A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para qualquer indiv\u00edduo se tornar um cidad\u00e3o, mas \u00e9 realidade que no Brasil muitos jovens pobres s\u00e3o exclu\u00eddos deste processo. Puni-los com o encarceramento \u00e9 tirar a chance de se tornarem cidad\u00e3os conscientes de direitos e deveres, \u00e9 assumir a pr\u00f3pria incompet\u00eancia do Estado em lhes assegurar esse direito b\u00e1sico que \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As causas da viol\u00eancia e da desigualdade social n\u00e3o se resolver\u00e3o com ado\u00e7\u00e3o de leis penais mais severas. O processo exige que sejam tomadas medidas capazes de romper com a banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e seu ciclo. A\u00e7\u00f5es no campo da educa\u00e7\u00e3o, por exemplo, demonstram-se positivas na diminui\u00e7\u00e3o da vulnerabilidade de centenas de adolescentes ao crime e \u00e0 viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Precisamos valorizar o jovem, consider\u00e1-los como parceiros na caminhada para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade melhor. E n\u00e3o como os vil\u00f5es que est\u00e3o colocando toda uma na\u00e7\u00e3o em risco.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #0000ff;\">11\u00ba. Porque reduzir a maioridade penal isenta o Estado do compromisso com a juventude &#8211;<\/span><\/strong>O Brasil n\u00e3o aplicou as pol\u00edticas necess\u00e1rias para garantir \u00e0s crian\u00e7as, aos adolescentes e jovens o pleno exerc\u00edcio de seus direitos e isso ajudou em muito a aumentar os \u00edndices de criminalidade da juventude.<\/p>\n<p>O que estamos vendo \u00e9 uma mudan\u00e7a de um tipo de Estado que deveria garantir direitos para um tipo de Estado Penal que administra a panela de press\u00e3o de uma sociedade t\u00e3o desigual. Deve-se mencionar ainda a inefici\u00eancia do Estado para emplacar programas de preven\u00e7\u00e3o da criminalidade e de assist\u00eancia social eficazes, junto \u00e0s comunidades mais pobres, al\u00e9m da defici\u00eancia generalizada em nosso sistema educacional.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #0000ff;\">12\u00ba. Porque os adolescentes s\u00e3o as maiores v\u00edtimas, e n\u00e3o os principais autores da viol\u00eancia &#8211;\u00a0<\/span><\/strong>At\u00e9 junho de 2011, cerca de 90 mil adolescentes cometeram atos infracionais. Destes, cerca de 30 mil cumprem medidas socioeducativas. O n\u00famero, embora consider\u00e1vel, corresponde a 0,5% da popula\u00e7\u00e3o jovem do Brasil que conta com 21 milh\u00f5es de meninos e meninas entre 12 e 18 anos.<\/p>\n<p>Os homic\u00eddios de crian\u00e7as e adolescentes brasileiros cresceram vertiginosamente nas \u00faltimas d\u00e9cadas: 346% entre 1980 e 2010. De 1981 a 2010, mais de 176 mil foram mortos e s\u00f3 em 2010, o n\u00famero foi de 8.686 crian\u00e7as e adolescentes assassinadas, ou seja, 24 POR DIA!<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade diz que o Brasil ocupa a 4\u00ba posi\u00e7\u00e3o entre 92 pa\u00edses do mundo analisados em pesquisa. Aqui s\u00e3o 13 homic\u00eddios para cada 100 mil crian\u00e7as e adolescentes; de 50 a 150 vezes maior que pa\u00edses como Inglaterra, Portugal, Espanha, Irlanda, It\u00e1lia, Egito cujas taxas mal chegam a 0,2 homic\u00eddios para a mesma quantidade de crian\u00e7as e adolescentes.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #0000ff;\">13\u00ba. Porque, na pr\u00e1tica, a PEC 33\/2012 \u00e9 invi\u00e1vel &#8211;<\/span><\/strong>A Proposta de Emenda Constitucional quer alterar os artigos\u00a0<a title=\"Artigo 129 da Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988\" href=\"http:\/\/www.jusbrasil.com.br\/topicos\/10677474\/artigo-129-da-constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-de-1988\" target=\"_blank\" rel=\"10677474\">129<\/a>\u00a0e\u00a0<a title=\"Artigo 228 da Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988\" href=\"http:\/\/www.jusbrasil.com.br\/topicos\/10643881\/artigo-228-da-constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-de-1988\" target=\"_blank\" rel=\"10643881\">228<\/a>\u00a0da\u00a0<a title=\"CONSTITUI\u00c7\u00c3O DA REP\u00daBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988\" href=\"http:\/\/www.jusbrasil.com.br\/legislacao\/155571402\/constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-constitui%C3%A7%C3%A3o-da-republica-federativa-do-brasil-1988\" target=\"_blank\" rel=\"302754\">Constitui\u00e7<wbr \/>\u00e3o Federal<\/a>, acrescentando um par\u00e1grafo que prev\u00ea a possibilidade de desconsiderar da inimputabilidade penal de maiores de 16 anos e menores de 18 anos.<\/p>\n<p>E o que isso quer dizer? Que continuar\u00e3o sendo julgados nas varas Especializadas Criminais da Inf\u00e2ncia e Juventude, mas se o Minist\u00e9rio P\u00fablico quiser poder\u00e1 pedir para \u2018desconsiderar inimputabilidade\u2019, o juiz decidir\u00e1 se o adolescente tem capacidade para responder por seus delitos. Seriam necess\u00e1rios laudos psicol\u00f3gicos e per\u00edcia psiqui\u00e1trica diante das infra\u00e7\u00f5es: crimes hediondos, tr\u00e1fico de drogas, tortura e terrorismo ou reincid\u00eancia na pratica de les\u00e3o corporal grave e roubo qualificado. Os laudos atrasariam os processos e congestionariam a rede p\u00fablica de sa\u00fade.<\/p>\n<p>A PEC apenas delega ao juiz a responsabilidade de dizer se o adolescente deve ou n\u00e3o ser punido como um adulto.<\/p>\n<p>No Brasil, o gargalo da impunidade est\u00e1 na inefici\u00eancia da pol\u00edcia investigativa e na lentid\u00e3o dos julgamentos. Ao contr\u00e1rio do senso comum, muito divulgado pela m\u00eddia, aumentar as penas e para um n\u00famero cada vez mais abrangente de pessoas n\u00e3o ajuda em nada a diminuir a criminalidade, pois, muitas vezes, elas n\u00e3o chegam a ser aplicadas.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #0000ff;\">14\u00ba. Porque reduzir a maioridade penal n\u00e3o afasta crian\u00e7as e adolescentes do crime &#8211;\u00a0<\/span><\/strong>Se reduzida a idade penal, estes ser\u00e3o recrutados cada vez mais cedo.<\/p>\n<p>O problema da marginalidade \u00e9 causado por uma s\u00e9rie de fatores. Vivemos em um pa\u00eds onde h\u00e1 m\u00e1 gest\u00e3o de programas sociais\/educacionais, escassez das a\u00e7\u00f5es de planejamento familiar, pouca oferta de lazer nas periferias, lentid\u00e3o de urbaniza\u00e7\u00e3o de favelas, pouco policiamento comunit\u00e1rio, e assim por diante.<\/p>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal n\u00e3o visa a resolver o problema da viol\u00eancia. Apenas fingir que h\u00e1 \u201cjusti\u00e7a\u201d. Um auto-engano coletivo quando, na verdade, \u00e9 apenas uma forma de massacrar quem j\u00e1 \u00e9 massacrado.<\/p>\n<p>Medidas como essa t\u00eam car\u00e1ter de vingan\u00e7a, n\u00e3o de solu\u00e7\u00e3o dos graves problemas do Brasil que s\u00e3o de fundo econ\u00f4mico, social, pol\u00edtico. O debate sobre o aumento das puni\u00e7\u00f5es a criminosos juvenis envolve um grave problema: a lei do menor esfor\u00e7o. Esta seduz pol\u00edticos prontos para oferecer solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis e r\u00e1pidas diante do clamor popular.<\/p>\n<p>Nesse momento, diante de um crime odioso, \u00e9 mais f\u00e1cil mandar quebrar o term\u00f4metro do que falar em enfrentar com seriedade a infec\u00e7\u00e3o que gera a febre.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #0000ff;\">15\u00ba. Porque afronta leis brasileiras e acordos internacionais &#8211;\u00a0<\/span><\/strong>Vai contra a\u00a0<a title=\"CONSTITUI\u00c7\u00c3O DA REP\u00daBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988\" href=\"http:\/\/www.jusbrasil.com.br\/legislacao\/155571402\/constitui%C3%A7%C3%A3o-federal-constitui%C3%A7%C3%A3o-da-republica-federativa-do-brasil-1988\" target=\"_blank\" rel=\"302754\">Constitui\u00e7\u00e3o Federal<\/a>\u00a0Brasileira que reconhece prioridade e prote\u00e7\u00e3o especial a crian\u00e7as e adolescentes. A redu\u00e7\u00e3o \u00e9 inconstitucional.<\/p>\n<p>Vai contra o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE) de princ\u00edpios administrativos, pol\u00edticos e pedag\u00f3gicos que orientam os programas de medidas socioeducativas.<\/p>\n<p>Vai contra a Doutrina da Prote\u00e7\u00e3o Integral do Direito Brasileiro que exige que os direitos humanos de crian\u00e7as e adolescentes sejam respeitados e garantidos de forma integral e integrada \u00e0s pol\u00edticas de natureza universal, protetiva e socioeducativa.<\/p>\n<p>Vai contra par\u00e2metros internacionais de leis especiais para os casos que envolvem pessoas abaixo dos dezoito anos autoras de infra\u00e7\u00f5es penais.<\/p>\n<p>Vai contra a Conven\u00e7\u00e3o sobre os Direitos da Crian\u00e7a e do Adolescente da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) e a Declara\u00e7\u00e3o Internacional dos Direitos da Crian\u00e7a compromissos assinados pelo Brasil.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #0000ff;\">16\u00ba. Porque poder votar n\u00e3o tem a ver com ser preso com adultos &#8211;\u00a0<\/span><\/strong>O voto aos 16 anos \u00e9 opcional e n\u00e3o obrigat\u00f3rio, direito adquirido pela juventude. O voto n\u00e3o \u00e9 para a vida toda, e caso o adolescente se arrependa ou se decepcione com sua escolha, ele pode corrigir seu voto nas elei\u00e7\u00f5es seguintes. Ele pode votar aos 16, mas n\u00e3o pode ser votado.<\/p>\n<p>Nesta idade ele tem maturidade sim para votar, compreender e responsabilizar-se por um ato infracional.<\/p>\n<p>Em nosso pa\u00eds qualquer adolescente, a partir dos 12 anos, pode ser responsabilizado pelo cometimento de um ato contra a lei.<\/p>\n<p>O tratamento \u00e9 diferenciado n\u00e3o porque o adolescente n\u00e3o sabe o que est\u00e1 fazendo. Mas pela sua condi\u00e7\u00e3o especial de pessoa em desenvolvimento e, neste sentido, o objetivo da medida socioeducativa n\u00e3o \u00e9 faz\u00ea-lo sofrer pelos erros que cometeu, e sim prepar\u00e1-lo para uma vida adulta e ajuda-lo a recome\u00e7ar.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #0000ff;\">17\u00ba. Porque o Brasil est\u00e1 dentro dos padr\u00f5es internacionais &#8211;\u00a0<\/span><\/strong>S\u00e3o minoria os pa\u00edses que definem o adulto como pessoa menor de 18 anos. Das 57 legisla\u00e7\u00f5es analisadas pela ONU, 17% adotam idade menor do que 18 anos como crit\u00e9rio para a defini\u00e7\u00e3o legal de adulto.<\/p>\n<p>Alemanha e Espanha elevaram recentemente para 18 a idade penal e a primeira criou ainda um sistema especial para julgar os jovens na faixa de 18 a 21 anos.<\/p>\n<p>Tomando 55 pa\u00edses de pesquisa da ONU, na m\u00e9dia os jovens representam 11,6% do total de infratores, enquanto no Brasil est\u00e1 em torno de 10%. Portanto, o pa\u00eds est\u00e1 dentro dos padr\u00f5es internacionais e abaixo mesmo do que se deveria esperar. No Jap\u00e3o, eles representam 42,6% e ainda assim a idade penal no pa\u00eds \u00e9 de 20 anos.<\/p>\n<p>Se o Brasil chama a aten\u00e7\u00e3o por algum motivo \u00e9 pela enorme propor\u00e7\u00e3o de jovens v\u00edtimas de crimes e n\u00e3o pela de infratores.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #0000ff;\">18\u00ba. Porque importantes \u00f3rg\u00e3os t\u00eam apontado que n\u00e3o \u00e9 uma boa solu\u00e7\u00e3o &#8211;\u00a0<\/span><\/strong>O UNICEF expressa sua posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da idade penal, assim como \u00e0 qualquer altera\u00e7\u00e3o desta natureza. Acredita que ela representa um enorme retrocesso no atual est\u00e1gio de defesa, promo\u00e7\u00e3o e garantia dos direitos da crian\u00e7a e do adolescente no Brasil. A Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA) comprovou que h\u00e1 mais jovens v\u00edtimas da criminalidade do que agentes dela.<\/p>\n<p>O Conselho Nacional dos Direitos da Crian\u00e7a e do Adolescente (CONANDA) defende o debate ampliado para que o Brasil n\u00e3o conduza mudan\u00e7as em sua legisla\u00e7\u00e3o sob o impacto dos acontecimentos e das emo\u00e7\u00f5es. O CRP (Conselho Regional de Psicologia) lan\u00e7a a campanha Dez Raz\u00f5es da Psicologia contra a Redu\u00e7\u00e3o da idade penal CNBB, OAB, Funda\u00e7\u00e3o Abrinq lamentam publicamente a redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal no pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>*Publicado originalmente no blog <a href=\"http:\/\/negrobelchior.cartacapital.com.br\/2015\/03\/30\/18-razoes-para-nao-reduzir-a-maioridade-penal\/?utm_content=bufferb1763&amp;utm_medium=social&amp;utm_source=twitter.com&amp;utm_campaign=buffer\" target=\"_blank\">Carta Capital<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Contra ou a favor da redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal para 16 anos? Veja o artigo publicado no blog Carta Capital, escrito por Douglas Belchior. &nbsp; Por Douglas Belchior 1\u00ba. Porque j\u00e1 responsabilizamos adolescentes em ato infracional &#8211;\u00a0A partir dos 12 anos, qualquer adolescente \u00e9 responsabilizado pelo ato cometido contra a lei. 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