{"id":10217,"date":"2025-07-11T16:45:12","date_gmt":"2025-07-11T19:45:12","guid":{"rendered":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/?p=10217"},"modified":"2025-07-14T12:19:08","modified_gmt":"2025-07-14T15:19:08","slug":"entre-o-eca-e-as-escrituras-a-crianca-no-centro-do-reino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/2025\/07\/11\/entre-o-eca-e-as-escrituras-a-crianca-no-centro-do-reino\/","title":{"rendered":"Entre o ECA e as Escrituras: a crian\u00e7a no centro do Reino"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Danielle Dalavechia Chedid Silvestre<\/strong><b><\/b><\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Jesus chamou uma crian\u00e7a, colocou-a no meio deles&#8230;&#8221;<br \/>\n\u2014 Mateus 18.2<\/p><\/blockquote>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-10224 size-full\" src=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2025\/07\/ECA.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"197\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2025\/07\/ECA.jpg 350w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/maosdadas\/files\/2025\/07\/ECA-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/>Muito antes de qualquer legisla\u00e7\u00e3o, Jesus nos ensinou que as crian\u00e7as devem ocupar o centro da vida comunit\u00e1ria. Enquanto a cultura de sua \u00e9poca enxergava as crian\u00e7as como inexpressivas, sem direitos, sem valor pol\u00edtico ou espiritual, o Cristo do Evangelho as coloca no meio \u2014 s\u00edmbolo de escuta, visibilidade e prioridade. Essa postura n\u00e3o era comum. Era subversiva.<\/p>\n<p>E se olharmos com aten\u00e7\u00e3o, perceberemos que essa centralidade proposta por Jesus em Mateus 18 ecoa de maneira profunda no que, s\u00e9culos depois, viria a ser consagrado na Constitui\u00e7\u00e3o Federal do Brasil, no artigo 277, e no Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente (ECA), de 1990.<\/p>\n<p><strong>A B\u00edblia e o Direito: um di\u00e1logo poss\u00edvel<br \/>\n<\/strong>Muitas vezes colocamos a B\u00edblia e os direitos humanos em campos opostos. H\u00e1 quem veja o ECA com desconfian\u00e7a, como se fosse uma cria\u00e7\u00e3o secular que enfraquece a autoridade dos pais ou da igreja. Mas esse \u00e9 um olhar estreito e equivocado. Quando lemos os Evangelhos com sensibilidade, percebemos que Jesus foi o maior defensor da dignidade da crian\u00e7a. Sua pr\u00e1tica antecipou, de forma radical, o esp\u00edrito das legisla\u00e7\u00f5es mais modernas.<\/p>\n<p>O Artigo 277 da Constitui\u00e7\u00e3o declara:<br \/>\n\u201c\u00c9 dever da fam\u00edlia, da sociedade e do Estado assegurar \u00e0 crian\u00e7a, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito \u00e0 vida, \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ao lazer, \u00e0 profissionaliza\u00e7\u00e3o, \u00e0 cultura, \u00e0 dignidade, ao respeito, \u00e0 liberdade e \u00e0 conviv\u00eancia familiar e comunit\u00e1ria.\u201d<\/p>\n<p>Essa ideia de absoluta prioridade n\u00e3o nasceu nos corredores do Congresso. Ela encontra raiz na \u00e9tica do Reino de Deus. Quando Jesus coloca uma crian\u00e7a no centro (Mt 18.2), ele est\u00e1 dizendo \u00e0 sua comunidade \u2014 e, por consequ\u00eancia, \u00e0 sociedade \u2014 que os pequenos t\u00eam um lugar especial na nova ordem do Reino.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o apenas protegidas, mas protagonistas<br \/>\n<\/strong>H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre proteger uma crian\u00e7a e valoriz\u00e1-la como sujeito. O cuidado \u00e9 necess\u00e1rio, mas ele n\u00e3o \u00e9 suficiente. Proteger sem escutar \u00e9 trat\u00e1-la como objeto passivo. Jesus n\u00e3o fez isso. Ele deu \u00e0 crian\u00e7a visibilidade e centralidade. Em Marcos 9.37, ele refor\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8220;Quem recebe uma crian\u00e7a, em meu nome, a mim recebe.&#8221;<\/p>\n<p>Receber aqui n\u00e3o \u00e9 apenas \u201cacolher em casa\u201d \u2014 \u00e9 reconhecer, considerar, dignificar. Jesus n\u00e3o instrumentalizou a inf\u00e2ncia para ensinar os adultos. Ele n\u00e3o usou a crian\u00e7a como \u201cli\u00e7\u00e3o\u201d. Ele a tomou como exemplo vivo do Reino. Ele estava dizendo: &#8220;Elas t\u00eam algo a nos ensinar sobre Deus, sobre a f\u00e9, sobre o amor.&#8221;<\/p>\n<p><strong>A inf\u00e2ncia como lugar teol\u00f3gico<\/strong><br \/>\nNa espiritualidade crist\u00e3, muitas vezes priorizamos o que \u00e9 adulto, maduro, racional, controlado. No entanto, o Reino de Deus, segundo Jesus, pertence aos que s\u00e3o como crian\u00e7as (Mc 10.14-15). Isso n\u00e3o \u00e9 romantiza\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia, mas valoriza\u00e7\u00e3o de sua pot\u00eancia: a confian\u00e7a, a abertura ao novo, a depend\u00eancia n\u00e3o como fraqueza, mas como modo de rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando o ECA afirma que crian\u00e7as t\u00eam direito \u00e0 liberdade, \u00e0 cultura, \u00e0 opini\u00e3o, ele n\u00e3o est\u00e1 antecipando uma \u201crebeldia institucionalizada\u201d \u2014 est\u00e1 reconhecendo que inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia s\u00e3o fases plenas de vida, com direitos pr\u00f3prios, vozes leg\u00edtimas e lugar na sociedade.<\/p>\n<p>Como organiza\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, igrejas, comunidades e fam\u00edlias, precisamos ir al\u00e9m do cuidado: precisamos criar espa\u00e7os reais de escuta e participa\u00e7\u00e3o. O Reino se manifesta onde os pequenos n\u00e3o s\u00e3o apenas protegidos, mas escutados.<\/p>\n<p><strong>De Jesus ao Estatuto: uma mesma dire\u00e7\u00e3o<br \/>\n<\/strong>O ECA surgiu em 1990, inspirado pela Conven\u00e7\u00e3o Internacional dos Direitos da Crian\u00e7a da ONU (1989). Ele marcou uma mudan\u00e7a profunda no modo como o Brasil lida com a inf\u00e2ncia: da doutrina da \u201csitua\u00e7\u00e3o irregular\u201d \u2014 que via a crian\u00e7a vulner\u00e1vel como amea\u00e7a ou car\u00eancia \u2014 para a doutrina da \u201cprote\u00e7\u00e3o integral\u201d, que reconhece a crian\u00e7a como sujeito de direitos.<\/p>\n<p>Curiosamente (ou providencialmente), essa mudan\u00e7a jur\u00eddica tem um paralelo no Evangelho: a passagem da tutela passiva para o reconhecimento ativo. Jesus n\u00e3o esperou que os pequenos estivessem em perigo para se preocupar com eles. Ele os colocou no meio, antes de qualquer crise. O seu gesto \u00e9 preventivo, simb\u00f3lico e escatol\u00f3gico: aponta para uma nova maneira de organizar a vida em comum.<\/p>\n<p>Seguir Jesus, portanto, \u00e9 tamb\u00e9m levar a s\u00e9rio o que o ECA afirma. A prioridade absoluta da inf\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 apenas uma cl\u00e1usula legal \u2014 \u00e9 um imperativo espiritual.<\/p>\n<p><strong>E na pr\u00e1tica?<br \/>\n<\/strong>A pergunta que sempre ressurge \u00e9: como colocar crian\u00e7as e adolescentes no meio em nossas comunidades? Eis algumas pistas, inspiradas tanto na Palavra quanto na pol\u00edtica p\u00fablica:<\/p>\n<ol>\n<li>Escutar de verdade<br \/>\nPromover espa\u00e7os onde crian\u00e7as possam expressar suas opini\u00f5es, sentimentos e desejos. A escuta ativa \u00e9 um dos pilares da participa\u00e7\u00e3o e da dignidade. Igrejas podem criar assembleias infantis, cultos com fala das crian\u00e7as, rodas de escuta com adolescentes. N\u00e3o para que repitam o que os adultos esperam, mas para que expressem sua vis\u00e3o de mundo.<\/li>\n<li>Valorizar sua espiritualidade<br \/>\nCrian\u00e7as tamb\u00e9m t\u00eam sede de Deus. Mais do que conte\u00fado b\u00edblico, elas precisam de viv\u00eancias espirituais aut\u00eanticas: ora\u00e7\u00e3o, sil\u00eancio, perguntas profundas, cuidado com o outro. Elas n\u00e3o apenas aprendem a f\u00e9 \u2014 elas revelam a f\u00e9 com uma profundidade que frequentemente nos desconcerta.<\/li>\n<li>Compartilhar decis\u00f5es<br \/>\nMesmo em pequenas escolhas \u2014 como o tema de uma atividade, o nome de um projeto ou as regras de conviv\u00eancia \u2014 podemos incluir crian\u00e7as e adolescentes nas decis\u00f5es. O protagonismo come\u00e7a nas pequenas coisas. \u00c9 a\u00ed que elas sentem que pertencem.<\/li>\n<li>Proteger com dignidade<br \/>\nProteger n\u00e3o \u00e9 controlar. \u00c9 garantir um ambiente onde se possa crescer com liberdade, seguran\u00e7a e amor. Toda forma de viol\u00eancia \u2014 inclusive a chamada \u201cviol\u00eancia educativa\u201d \u2014 fere o esp\u00edrito do Evangelho e do ECA. N\u00e3o se educa pela for\u00e7a. Se forma com v\u00ednculo, exemplo e palavra.<\/li>\n<li>Reconhecer sua pot\u00eancia transformadora<br \/>\nCrian\u00e7as e adolescentes s\u00e3o evangelizadoras. S\u00e3o agentes de mudan\u00e7a em suas fam\u00edlias, escolas, bairros. Elas podem liderar campanhas de solidariedade, a\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a, projetos de ora\u00e7\u00e3o e cuidado com a cria\u00e7\u00e3o. Quando as envolvemos com intencionalidade, o Reino floresce.<\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>A comunidade como espa\u00e7o de cumprimento da Lei e do Evangelho<br \/>\n<\/strong>O ECA n\u00e3o \u00e9 tarefa apenas do Estado. Ele convoca toda a sociedade. E aqui entra o papel crucial das igrejas, ONGs crist\u00e3s, fam\u00edlias de f\u00e9. Somos chamados a viver o Evangelho com coer\u00eancia \u2014 e isso inclui defender os direitos das crian\u00e7as com voz prof\u00e9tica.<\/p>\n<p>Muitos t\u00eam criticado o ECA sem conhec\u00ea-lo. Outros, em nome de uma f\u00e9 moralista, rejeitam a linguagem dos direitos por consider\u00e1-la \u201cmundana\u201d. Mas a pergunta que n\u00e3o quer calar \u00e9: o que Jesus faria? Ele deixaria o ECA de lado? Ou reconheceria nele uma semente do Reino?<\/p>\n<p>Ele quebrou paradigmas. Tocou os impuros. Sentou-se com as crian\u00e7as. Lavou os p\u00e9s. E disse: \u201cQuem n\u00e3o receber o Reino como uma crian\u00e7a, de maneira nenhuma entrar\u00e1 nele.\u201d (Lc 18.17)<\/p>\n<p>Jesus n\u00e3o esperou um sistema legal para dignificar os pequenos. Ele foi \u00e0 frente. Ele os colocou no meio. Ele deu o primeiro passo.<\/p>\n<p><strong>Seguir Jesus \u00e9 escutar os pequenos!<\/strong><\/p>\n<p>O que a Constitui\u00e7\u00e3o chama de prioridade absoluta, Jesus chamou de Reino de Deus. Quando acolhemos essa crian\u00e7a no centro, algo muda tamb\u00e9m em n\u00f3s. Passamos a ouvir melhor, a decidir com mais amor, a viver com mais leveza e coragem.<\/p>\n<p>Como diz uma bela frase de envio:<br \/>\n\u201cOnde h\u00e1 uma crian\u00e7a escutada, o Reino de Deus se manifesta. V\u00e1 e coloque os pequenos no centro.\u201d<br \/>\n\u2014 Jesus, pioneiro do Artigo 277.<\/p>\n<p>Que cada comunidade crist\u00e3, cada lideran\u00e7a, cada educador e cada fam\u00edlia escute esse chamado com rever\u00eancia e compromisso. Porque seguir Jesus \u00e9 escutar. \u00c9 acolher. \u00c9 colocar no meio. E \u00e9 aprender com os pequenos como se entra no Reino.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Danielle Dalavechia Chedid Silvestre &#8220;Jesus chamou uma crian\u00e7a, colocou-a no meio deles&#8230;&#8221; \u2014 Mateus 18.2 Muito antes de qualquer legisla\u00e7\u00e3o, Jesus nos ensinou que as crian\u00e7as devem ocupar o centro da vida comunit\u00e1ria. 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