{"id":977,"date":"2011-08-01T16:02:18","date_gmt":"2011-08-01T19:02:18","guid":{"rendered":"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=977"},"modified":"2011-08-03T15:53:50","modified_gmt":"2011-08-03T18:53:50","slug":"a-poesia-que-cristo-nunca-escreveu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2011\/08\/01\/a-poesia-que-cristo-nunca-escreveu\/","title":{"rendered":"A poesia que Cristo nunca escreveu"},"content":{"rendered":"<p><strong>Oi pessoal, <\/strong><\/p>\n<p><strong>segue mais um texto sobre Felicidade, tem\u00e1tica de Altos Papos <a href=\"http:\/\/www.ultimato.com.br\/revista\/331\" target=\"_blank\">nesta edi\u00e7\u00e3o<\/a> da revista Ultimato. A autora dessa reflex\u00e3o \u00e9 <\/strong><strong><a href=\"http:\/\/euleioaline.blogspot.com\/\">Aline Moreira<\/a>, 24 anos, mission\u00e1ria da JOCUM \u2013 Rio de Janeiro. Esperamos que gostem!<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2011\/08\/01_08_blogJovem_bolhas.jpg\" class=\"lightview\" data-lightview-group=\"group-977\" data-lightview-options=\"skin: 'dark', controls: 'relative', padding: '10', shadow: { color: '#000000', opacity: 0.08, blur: 3 }\" data-lightview-title=\"ah, a felicidade...\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-978\" title=\"ah, a felicidade...\" src=\"http:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2011\/08\/01_08_blogJovem_bolhas.jpg\" alt=\"\" width=\"381\" height=\"166\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2011\/08\/01_08_blogJovem_bolhas.jpg 381w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2011\/08\/01_08_blogJovem_bolhas-300x130.jpg 300w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2011\/08\/01_08_blogJovem_bolhas-150x65.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 381px) 100vw, 381px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Houve um tempo em que os poetas deram a felicidade por perdida, e a trataram como uma genu\u00edna fantasia que atravessaria d\u00e9cadas. Fernando Ant\u00f4nio Nogueira Pessoa foi um dos que revelou em seus livros, que at\u00e9 mesmo a dor que se sente n\u00e3o passava de um fingimento, e que, em outro tempo, ser feliz exigia valentia.<!--more--><\/p>\n<p>Recentemente fui \u00e0 uma exposi\u00e7\u00e3o que aconteceu num centro cultural de minha cidade. Denominada \u201cFernando Pessoa, plural como o Universo\u201d, a bel\u00edssima mostra retratava a multiplicidade da vida e da obra do escritor portugu\u00eas, que n\u00e3o me convenceu, dentre tantos encantos e sentimentalidades, de que seu afeto pela felicidade havia muito tempo estava corrompido. Sa\u00ed de l\u00e1 na companhia de alguns amigos e pensei: &#8220;Acho que Fernando Pessoa nunca foi feliz&#8221;.<\/p>\n<p><em>Nunca <\/em>\u00e9 muito tempo, mas o poeta versa com qualquer sentimento. Ele ama e sofre na mesma estrofe e intensidade com que desama e \u00e9 desventurado. Tem uma indiscut\u00edvel capacidade de nos fazer acreditar em seus opostos. N\u00e3o se sabe a const\u00e2ncia do que ele sente. Seus versos est\u00e3o sempre <em>ao inverso<\/em>.<\/p>\n<p>Na mostra, andei entre corredores que expressavam as mais \u00edntimas e profundas declara\u00e7\u00f5es do homem considerado um enigma, que traduziu toda a sua crise com a verdade e a exist\u00eancia, mostrando atrav\u00e9s da poesia que o seu contentamento com a vida dependia completamente da sua inclina\u00e7\u00e3o para imaginar: &#8220;Viver n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio. O que \u00e9 necess\u00e1rio \u00e9 criar.&#8221;<\/p>\n<p>Pensando em <strong>felicidade<\/strong>, cresci num bairro pequeno de vizinhos quietos. Todos os dias, quando crian\u00e7a, sa\u00eda \u00e0s ruas para brincar com os filhos desses vizinhos quietos. N\u00f3s r\u00edamos uns dos outros e ao tardar o dia, cada um voltava para suas casas. Eu sabia que nem todos iriam encontrar em seus lares o que gostariam. Mas nas horas em que est\u00e1vamos juntos, isso era o que menos importava. O essencial para nosso grupo de meninos descal\u00e7os, era o tempo onde ir\u00edamos compartilhar e celebrar essa verdade e exist\u00eancia, coisas que na \u00e9poca, n\u00e3o era dif\u00edcil para n\u00f3s. As crian\u00e7as s\u00e3o os mais sinceros e felizes de todos os seres humanos. Ainda que vivam em circunst\u00e2ncias desfavor\u00e1veis, fazem quest\u00e3o de nos ensinar a olhar al\u00e9m do que nossos olhos podem alcan\u00e7ar. Quando Cristo estava perto dos pequeninos, n\u00e3o usava outro exemplo mais puro e sublime do que seus cora\u00e7\u00f5es. Ele tinha prazer no louvor deles e na fiel express\u00e3o da alegria que contagiava a todos, ainda que fosse diante do medo e inseguran\u00e7a. A crian\u00e7a sabe considerar como a vida \u00e9 preciosa. Elas s\u00e3o, sim, a melhor poesia de Cristo.<\/p>\n<p>Diferente de Fernando Pessoa, Jesus n\u00e3o escreveu uma poesia repleta de incertezas e hesita\u00e7\u00f5es. N\u00e3o precisou de heter\u00f4nimos para ajud\u00e1-lo a se manifestar e dizer coisas de amor. De um amor t\u00e3o inst\u00e1vel e t\u00e3o cheio de covardia. Na poesia de Cristo n\u00e3o existiu fraqueza. N\u00e3o existiu mist\u00e9rios e nem fingimentos. Ele justificou atrav\u00e9s da vida de pessoas t\u00e3o pequenas, que ainda que estivesse chutando mesas e cadeiras, ainda que o povo se sentisse atra\u00eddo a padecer em tristeza, \u00f3dio e decep\u00e7\u00f5es, era o perfeito louvor que sa\u00eda da boca das criancinhas que iria cativar cora\u00e7\u00f5es ao seu completo cuidado.<\/p>\n<p>Numa das salas da exposi\u00e7\u00e3o, havia uma mesa com dezenas de seus livros. Eram as mais diversas capas e tradu\u00e7\u00f5es. Enquanto sentada, olhava ao meu redor.  Percebi que alguns ali liam cada linha com deveras cortesia e delicadeza. Escritores, estudantes, admiradores e curiosos foram contemplados pela grandeza de um dos maiores poetas que j\u00e1 existiu. Pelo absurdo de tamanha harmonia entre as palavras e a sua triste hist\u00f3ria que a mim deixou evidente as afli\u00e7\u00f5es de um homem sofredor, iludidas pelas alegrias de algu\u00e9m apaixonado pelo que fazia.  Ot\u00e1vio Paz, um poeta mexicano, vem dizer que na vida de Fernando \u201cNada \u00e9 surpreendente. Nada, exceto os seus poemas&#8221;. Eu digo que na vida de Cristo, tudo \u00e9 surpreendente. Inclusive os seus poemas. Exceto o que ele nunca escreveu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oi pessoal, segue mais um texto sobre Felicidade, tem\u00e1tica de Altos Papos nesta edi\u00e7\u00e3o da revista Ultimato. A autora dessa reflex\u00e3o \u00e9 Aline Moreira, 24 anos, mission\u00e1ria da JOCUM \u2013 Rio de Janeiro. Esperamos que gostem! 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