{"id":9462,"date":"2023-08-30T11:45:58","date_gmt":"2023-08-30T14:45:58","guid":{"rendered":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/?p=9462"},"modified":"2023-08-30T11:45:58","modified_gmt":"2023-08-30T14:45:58","slug":"o-esnobismo-cronologico-do-cristao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/2023\/08\/30\/o-esnobismo-cronologico-do-cristao\/","title":{"rendered":"O Esnobismo Cronol\u00f3gico do crist\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h4>Ser\u00e1 que sofremos do mesmo tipo de esnobismo cronol\u00f3gico descrito por C. S. Lewis em seu livro \u201cSurpreendido pela Alegria\u201d?<\/h4>\n<p><em>Por Mariana Santana Souza<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_9463\" style=\"width: 710px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-9463\" class=\"wp-image-9463 size-full\" src=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2023\/08\/infografo.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"388\" srcset=\"https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2023\/08\/infografo.jpg 700w, https:\/\/ultimato.com.br\/sites\/jovem\/files\/2023\/08\/infografo-300x166.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><p id=\"caption-attachment-9463\" class=\"wp-caption-text\">Infogr\u00e1fico: O que \u00e9 um livro de verdade? \/ Livros de verdade: Livros de capa dura, livros de brochura, livros infantis, livros infanto-juvenis, quadrinhos, ebooks e audiobooks. \/ Imbecil: Isto n\u00e3o \u00e9 um livro de verdade!<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No livro \u201cSurpreendido pela Alegria\u201d, C. S. Lewis define o termo esnobismo cronol\u00f3gico da seguinte forma:<\/p>\n<blockquote><p><em>A aceita\u00e7\u00e3o acr\u00edtica do ambiente intelectual comum \u00e0 nossa \u00e9poca e a suposi\u00e7\u00e3o de que tudo o que ficou desatualizado \u00e9 por isso mesmo desprez\u00edvel.<sup>1<\/sup><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Lewis nos conta que ele mesmo sofria deste esnobismo cronol\u00f3gico e \u00e9 interessante ler em seu relato como isto o levou a uma posi\u00e7\u00e3o de ceticismo.<\/p>\n<p>Em seus primeiros anos em Oxford, na \u00e9poca um ateu convicto, ele nos conta que havia decidido levar uma vida intelectual livre de pessimismo, autocomisera\u00e7\u00e3o ou flerte com qualquer ideia rom\u00e2ntica ou sobrenatural se deixando guiar apenas pelo que ele chamava de \u201cbom senso\u201d.<\/p>\n<blockquote><p><em>E bom senso significava para mim, naquele momento, um afastamento, quase uma fuga espavorida, de toda sorte de romantismo, que at\u00e9 ent\u00e3o fora o principal interesse de minha vida.<sup>2<\/sup><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Al\u00e9m disso, ele havia acabado de conhecer um <em>\u201cvelho p\u00e1roco irland\u00eas que havia muito perdera a f\u00e9, retendo, por\u00e9m, o meio de vida\u201d<sup>3<\/sup><\/em>\u00a0e tamb\u00e9m precisou cuidar de uma pessoa querida que estava adoecendo e sofrendo de dist\u00farbios mentais, na \u00e9poca Lewis atribuiu este sofrimento a cren\u00e7a deste homem no sobrenatural.<\/p>\n<blockquote><p><em>E esse homem, como eu bem sabia, n\u00e3o se mantivera na trilha habitual. Flertara com a teosofia, com a ioga, com o espiritismo, com a psican\u00e1lise e coisas afins. Provavelmente essas coisas n\u00e3o tinham na verdade liga\u00e7\u00e3o alguma com sua insanidade, para a qual (acredito) havia causas f\u00edsicas. Mas n\u00e3o era essa minha an\u00e1lise na \u00e9poca. Eu pensara ter recebido um alerta; era a isso, a esse esperneio delirante no r\u00e9s do ch\u00e3o, que no final todos os anseios rom\u00e2nticos e especula\u00e7\u00f5es sobrenaturais conduziam o homem.<sup>4<\/sup><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Tudo isto cooperou para que ele abandonasse qualquer ideia de sobrenatural. Ele as havia \u201cdesmascarado\u201d e n\u00e3o seria iludido novamente, de acordo com suas pr\u00f3prias palavras.<\/p>\n<p>Esta costuma ser a posi\u00e7\u00e3o de muitos atualmente em rela\u00e7\u00e3o ao cristianismo. Muitos provavelmente respondem ao cristianismo como Lewis respondia ao antroposofismo de seu amigo Owen Barfield, dizendo:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cOra \u2014 dane-se! \u2014 isso \u00e9 coisa medieval\u201d \u2014 exclamei; pois eu ainda tinha todo o esnobismo cronol\u00f3gico de meu per\u00edodo e usava os nomes de per\u00edodos anteriores como termos de desd\u00e9m.<sup>5<\/sup><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Pois afinal o que uma religi\u00e3o antiga pode acrescentar em nossa vida presente? E foi este ceticismo, baseado na suposi\u00e7\u00e3o de que ideias antigas precisam ser superadas, que Lewis chamou de \u201cesnobismo cronol\u00f3gico\u201d.<\/p>\n<p>Foi durante acalorados debates com seu grande amigo Owen Barfield que Lewis come\u00e7ou a mudar este pensamento. Enquanto Barfield tentava convencer Lewis a aderir ao antroposofismo, Lewis acabou por se convencer a eliminar seu esnobismo cronol\u00f3gico. Ele entendeu que sua pr\u00f3pria \u00e9poca era \u201cum per\u00edodo\u201d e certamente tinha, como todos os per\u00edodos, as pr\u00f3prias ilus\u00f5es caracter\u00edsticas. E que ideias n\u00e3o podem ser descartadas apenas por serem antigas e sim que precisam ser bem refutadas antes de serem rejeitadas.<\/p>\n<p><strong>Ser\u00e1 que atualmente sofremos do mesmo tipo de esnobismo cronol\u00f3gico que Lewis sofreu?<\/strong><\/p>\n<p>Talvez, como disse anteriormente, esta caracter\u00edstica possa ser encontrada nas pessoas que rejeitam o cristianismo, o comparando a algum tipo de \u201csupersti\u00e7\u00e3o medieval\u201d. Por\u00e9m e os crist\u00e3os? Ser\u00e1 que estamos rejeitando tudo que \u00e9 antigo e tradicional a favor do que \u00e9 novidade?<\/p>\n<p>Eu sinceramente acredito que n\u00e3o. Na verdade, o leitor crist\u00e3o atual me lembra o Gil Pender, personagem principal do filme Meia-noite em Paris, que vive idealizando um passado que \u00e9 melhor na imagina\u00e7\u00e3o do que na realidade.<\/p>\n<p>Ca\u00edmos no extremo oposto. Me parece que aceitamos acriticamente tudo que \u00e9 antigo e rejeitamos qualquer novidade pelo simples fato de ser novo.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei se isso se aplica em todas as \u00e1reas, mas quando o assunto \u00e9 arte e literatura acredito que isto \u00e9 um fato. E falando em literatura, o crist\u00e3o ama um bom cl\u00e1ssico. Principalmente se for estrangeiro. Crist\u00e3os leem de Jane Austen aos russos. E quanto mais velho melhor!<\/p>\n<p>N\u00e3o me entendam mal, obviamente vejo o valor destes livros. E por muito tempo eu li apenas eles. Eu era uma adolescente que amava ler os cl\u00e1ssicos! De fato, eu era uma esnobe intelectual que gostava de ler \u201clivros dif\u00edceis\u201d enquanto meus poucos colegas que gostavam de ler estavam lendo livros t\u00edpicos da adolesc\u00eancia. Ok eu n\u00e3o era t\u00e3o esnobe assim, eu tamb\u00e9m lia Thalita Rebou\u00e7as e John Green e n\u00e3o tinha vergonha de dizer isso para ningu\u00e9m. Na verdade, minha teoria era de que todo g\u00eanero liter\u00e1rio (inclusive o infanto-juvenil, como era o caso) tinha seus livros ruins e suas p\u00e9rolas e eu continuo defendendo esta teoria!<\/p>\n<p>Por\u00e9m meu ponto \u00e9: eu era adolescente. Eu n\u00e3o tinha meu senso cr\u00edtico formado e n\u00e3o sabia diferenciar um livro bom de um livro mediano ou mesmo ruim. E eu morria de medo de ler um livro ruim sem perceber! Era mais f\u00e1cil ler um cl\u00e1ssico pois ali eu j\u00e1 tinha a certeza garantida de qualidade.<\/p>\n<p>E eu acho que \u00e9 essa facilidade que guia as escolhas de leituras dos crist\u00e3os atualmente. \u00c9 mais f\u00e1cil assinar um clube de leitura que entrega belas edi\u00e7\u00f5es de calhama\u00e7os todo m\u00eas do que ter que escolher o que ler. E n\u00e3o tem problema se for este o motivo! Se sua escolha for baseada na praticidade do cl\u00e1ssico tudo bem. Ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a ser um cr\u00edtico liter\u00e1rio e saber avaliar obras, por isso \u00e9 \u201cf\u00e1cil\u201d ler um cl\u00e1ssico afinal centenas de pessoas por centenas de anos j\u00e1 comprovaram que \u00e9 uma boa leitura. Se a facilidade do cl\u00e1ssico for sua motiva\u00e7\u00e3o leia os cl\u00e1ssicos e se divirta!<\/p>\n<p>Por\u00e9m minha impress\u00e3o \u00e9 que nem sempre o crist\u00e3o escolhe ler os grandes cl\u00e1ssicos por querer uma divers\u00e3o f\u00e1cil e despretensiosa, mas sim por medo ou talvez, como a Mariana adolescente, por esnobismo \u2013 um tipo de esnobismo diferente do Lewis, mas igualmente enganoso.<\/p>\n<p>Talvez seja o medo de n\u00e3o saber discernir entre boas hist\u00f3rias e hist\u00f3rias med\u00edocres. Talvez seja o medo de \u201cperder tempo\u201d com livros que n\u00e3o valem tanto a pena. No entanto n\u00f3s podemos sempre abandonar a leitura. Sim, isso \u00e9 permitido. E eu entendo estes medos, mas eles podem estar nos impedindo de descobrir livros que amamos e de descobrir nosso gosto liter\u00e1rio. Talvez estes medos estejam tornando o que devia ser o prazer da leitura em um ato de tortura e penit\u00eancia com a falsa obriga\u00e7\u00e3o de encontrar o livro \u201ccerto\u201d. E se talvez o medo for o de gastar dinheiro com um livro e no fim das contas n\u00e3o gostar\u00a0dele, eu tenho uma solu\u00e7\u00e3o infal\u00edvel para este problema: bibliotecas p\u00fablicas! A melhor inven\u00e7\u00e3o da humanidade (quem concorda respira).<\/p>\n<p>Ou, na pior das hip\u00f3teses, talvez seja puro esnobismo. A falsa ideia de que nenhuma leitura contempor\u00e2nea \u00e9 digna do nosso investimento. Como disse anteriormente, \u00e9 f\u00e1cil escolher ler os grandes cl\u00e1ssicos afinal centenas de pessoas, muito mais inteligentes do que n\u00f3s, j\u00e1 disseram que eles s\u00e3o bons (e a gente parece super inteligente repetindo isso). Por\u00e9m n\u00e3o seria divertido descobrir uma leitura atual que seja de boa qualidade? Eu vivo essa experi\u00eancia com frequ\u00eancia, tanto no trabalho quanto nas minhas leituras pessoais, e posso afirmar que \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o \u00f3tima.<\/p>\n<p>Claro que de vez em quando encontro livros que podem at\u00e9 ser bons, mas que n\u00e3o s\u00e3o para mim (e isso tamb\u00e9m pode acontecer com um livro cl\u00e1ssico), ou, pior, encontro livros que s\u00e3o realmente ruins. Mas lembra? N\u00f3s podemos abandonar a leitura! Sem peso nenhum na consci\u00eancia. Afinal livro \u00e9 igual chocolate, tem quem goste de chocolate branco, tem quem goste de chocolate ao leite e tem quem goste de chocolate amargo e org\u00e2nico de produ\u00e7\u00e3o local. No final das contas n\u00e3o existe bem um certo ou errado, embora alguns possam causar um desconforto estomacal, no fim, \u00e9 tudo chocolate.<\/p>\n<p>Comecei o texto citando C. S. Lewis e terminei falando de chocolate, mas acho que Lewis aprovaria &#8220;<em>pois comer e ler s\u00e3o dois prazeres que se combinam admiravelmente.&#8221;<sup>6<\/sup><\/em><\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li>Surpreendido pela Alegria, cap\u00edtulo 13.<\/li>\n<li>Idem.<\/li>\n<li>Idem.<\/li>\n<li>Idem.<\/li>\n<li>Idem.<\/li>\n<li>Surpreendido pela Alegria, cap\u00edtulo 9.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>\n<ul>Mariana Santana, estudante de Letras e membro da Igreja Presbiteriana do Brasil junto com seu marido. Escreve sobre literatura e teologia no Instagram @marianaeoslivros.<\/ul>\n<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser\u00e1 que sofremos do mesmo tipo de esnobismo cronol\u00f3gico descrito por C. S. Lewis em seu livro \u201cSurpreendido pela Alegria\u201d? Por Mariana Santana Souza &nbsp; No livro \u201cSurpreendido pela Alegria\u201d, C. S. 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